Humanidade
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Pais e filho
- Quem tem os olhos
separados vê mais longe, papai?
- Sabe que eu nunca
pensei nisso? Pode ser, mas isso é só para fazer uma comparação. Com esses
telescópios é como se você tivesse um olho aí na sua cara e o outro lá na
esquina, e não só olho, também ouvidos e até nariz! Se o cachorro da sua avó,
lá na outra cidade, tiver pulgas, você veria daqui!
- Mas a vovó não tem
cachorro!
- Eu sei, mas se
tivesse você veria!
- E todos esses países
se juntaram para fazer uma nave espacial porque o cachorro de mentira da vovó
tem pulgas?
- Éh... mais ou menos.
Lucy, acho que me enrolei na explicação. Socorro!
- O que o seu pai quer
dizer, bebê, é que as pulgas são como os planetas que estão lá longe no céu. Os
países se juntaram porque viram esses planetas e decidiram construir a nave
para levar gente lá e plantar coisas gostosas como essas que vocês estão
deixando esfriar no prato, então calem a boca e comam!
- Porque a mamãe ta
brava?
- Não estou brava,
querido. Desculpem. Foi só um dia ruim.
- O que aconteceu?
- Depois, Edgar,
depois.
- Vou ficar doente de
novo, mamãe?
Lucy olhou para Edgar.
Lutava para neutralizar a emoção e não ser traída pela voz. Respirou fundo.
- Vai sim, bebê, mas
vai ser corajoso como da outra vez, não é?
- Droga, mamãe! A Rose
é legal, mas fica me espetando! E lá no hospital não tem nada pra fazer!
O pai não deixou que o
silêncio se tornasse muito denso.
- E os palhaços? E o
sorvete?
- Eu gosto de abacaxi!
- Não era chocolate?
- Era, mas agora eu
quero abacaxi. Vai ter sorvete de abacaxi, mamãe?
- Vai sim, querido,
todo abacaxi que você quiser. Agora coma!
Mais tarde.
- O que ele tem dessa
vez?
- Mutação, rejeição de
tecidos novos, todo o organismo dele é um caos! Eu estou cansada, Edgar! Nós
erramos, eu errei. E vamos acabar sem o nosso bebê e presos assim que
descobrirem.
- Quanto a sermos
presos, temos cúmplices importantes, o ministro e o alto comando militar. Claro
que eles não iam escrever isso, mas existem outras provas que posso usar caso
tudo dê errado. Já falamos sobre isso, estaríamos prontos, lembra? Quanto tempo
ele tem?
- Meses, Edgar, e vai
sofrer! Pensei até em...
- Vamos ser frios,
Lucy. Temos drogas, temos cirurgiões, vamos analisar todas as possibilidades e
fazer o que é certo.
- Fazer o certo? A
coisa toda começa eticamente errada!
- Lucy, eu sei que é
uma vida, sei o quanto você se afeiçoou, o quanto nós nos afeiçoamos, mas não
deixa de ser alguém que pode contribuir para um avanço brutal de várias áreas.
Uma vida que pode salvar muitas. Ele, pelo simples fato de existir, pode mudar
toda a medicina. Cabe a você deixar de lado as emoções e fazer o seu trabalho.
- É como se fosse meu
filho de verdade!
- Mas, amor, ele
é nosso filho de verdade! Quando cuidamos dele, quando jantamos, quando
passeamos, aí ele é nosso filho. Fora isso, principalmente quando ele fica
doente, volta a ser o ponto central da pesquisa. Você é uma cientista com um
projeto. Aprenda! O dinheiro vem por vias diferentes, mas vem. Somos
financiados secretamente porque o que não é ético hoje, amanhã será comum.
Edgar
Edgar é um entusiasmado
engenheiro que faz parte do projeto Esperança desde o inicio por isso é
responsável pelo contato com o público. Casado com Lucy, uma geneticista,
adotou um bebe que faleceu meses antes dela ficar grávida. Esse será o único
casal a embarcar levando uma criança.
entrevista
- Boa palestra, Sr.
Edgar!
- Não falei nada que
não esteja no site. Mesmo assim, obrigado.
- Estamos no ar ao vivo
e este, aqui embaixo, é o endereço do site. Basta clicar. Vamos falar um pouco
sobre as dificuldades com os passageiros? Soubemos que houve tumulto.
- São representantes de
cada etnia, estranho seria se não reproduzissem lá os conflitos que vivem aqui.
- Isso não torna a
missão mais complicada?
- Cada detalhe foi previsto.
Contamos até com os imprevistos. A nave funcionará como uma cidade, inclusive
com policiamento. As pessoas vão ter de fazer comércio, enfim, levar a vida
como em qualquer cidadezinha. Com o tempo, as diferenças étnicas ou religiosas
vão, naturalmente, sendo minimizadas.
- A viagem vai durar
perto de trezentos anos. Como controlar o aumento da população e alimentar as
pessoas?
- A nave tem dois
níveis, no inferior estão as plantações hidropônicas e fazendas do que chamam
de vacas de plástico que são as partes do animal que crescem em máquinas. Há,
no limite do sistema planetário, o cinturão de Oort, de onde vem os cometas.
Quando chegarem lá, uma das pedras pode ser escavada e anexada ao corpo da nave
criando assim mais espaço. Na verdade a nave toda pode receber modificações, do
motor à estrutura. Esperamos que isso aconteça. Toda a tecnologia estará
disponível assim como os meios de produção. Tudo pode ser ensinado e
desenvolvido lá mesmo.
- Por isso não se prevê
a data da chegada?
- Exato. Muita coisa
deve mudar.
- O pessoal da internet
insiste em saber exatamente o que aconteceu entre os novos passageiros e vou
acrescentar o seguinte: quais são os riscos e como contornar.
- O que aconteceu foi
que dois ou três valentões encontraram antigos desafetos na estação, discutiram
no transporte e resolveram instruir e fortalecer a segurança trocando tapas
quando chegaram na nave. O risco é dar mais trabalho para os médicos e, como
contornar: tendo policiais e médicos.
- Os internautas
questionam a qualidade das pessoas que embarcaram. São fanáticos, desajustados
e gente com problemas na justiça?
- Isso não é verdade.
São e devem ser gente comum como eu e você, gente que torce para um time de
futebol, por exemplo, e se exalta. Quando tivermos colonos nos dois planetas
habitáveis observados, queremos que sejam humanos como nós, não uma super raça
qualquer. O provável é que eles desenvolvam uma tecnologia diferente já que vão
estar expostos a necessidades diferentes, o que não pode ser é que sejam, eles
mesmos, diferentes!
La nave vá
A nave Esperança deixa
a Terra em meio a festas onde era exaltada justamente a esperança por dias
melhores.
O mundo estava envolto
pela névoa do desabastecimento. Áreas de preservação eram invadidas para que
produzissem comida, um objetivo inicialmente nobre mas que, mesmo assim, gera
conflitos. Uma vez em litígio, todas as outras diferenças ganham importância.
Basicamente a religião,
a etnia e a língua. Essas são as diferenças que subiram a bordo junto com os
passageiros.
Seria preciso algum
tempo até que os rancores fossem esquecidos. Tempo, orientação, ameaça e
repressão violenta, esse sempre foi o meio dos militares lidarem com massas em
conflito. E os conflitos vieram.
É surpreendente como
bombas e armas podem ser fabricadas a partir de coisas simples de uso diário.
Um furo na parede mais externa e todo o ar escaparia matando boa parte dos
passageiros, por isso, além das câmeras, foram construídos robôs capazes de
imobilizar um ou vários suspeitos e envolvê-los num gel que se solidifica em
contato com o ar para conter explosões.
Se as pessoas pareciam
razoavelmente equilibradas ao embarcar, o fato de estarem se deslocando pelo
vazio, de saberem que não chegariam ao destino e que nunca mais veriam o sol
nascer ou se pôr, as enlouquecia.
Os militares criaram
concursos de arte, campeonatos de qualquer esporte, instituíram frentes de
trabalho compulsório nas fazendas ou de limpeza, toque de recolher, proibiram
reuniões. Viram crescer no hospital o numero de drogados, agredidos e mulheres
estupradas.
Nas ruas, quem não era
bandido era um assustado e semi-fanatizado religioso, explorado por espertos
conhecedores de escrituras e divindades.
Ali crescia Arthur, o
filho de Edgar e Lucy, notoriamente, um garoto que não era religioso.
Mais velho que os
outros garotos, para ele foi fácil tornar-se líder de gangue e levantar algum
dinheiro comercializando substâncias proibidas. Aos dezesseis anos já corrompia
policiais de forma que muitos lhe deviam favores. De uma forma ou de outra,
tornou-se conhecido de policiais, militares, religiosos e comerciantes
papinho
- Boa tarde, meu pai.
- O que você quer?
- Conversar um pouco,
se o senhor estiver disposto
- Se meteu em confusão
de novo?
- De um tipo que não
depende de dinheiro e nem de influência. Quero só fazer umas perguntas.
- Entre, antes que
passe um robô da polícia e sente-se.
- Pai, não é fácil para
mim vir aqui assim como não é fácil para o senhor me receber, mas acho que o
senhor não me odeia a ponto de me negar certas respostas.
- Não odeio você, mas
você sabe que não é o filho dos sonhos de qualquer pai. Qual é a dúvida?
- Eu tenho uma
namorada, pai, e ela não engravida. Eu andei estudando e acho que sou estéril
- Você andou estudando?
- Agora não, pai, me
deixa fazer a pergunta
- Vá ao ponto.
- Vou. Que diabos eu
sou? Fiz alguns exames, conversai com pessoas, juntei coisas, fatos. É verdade
que eu nunca fiquei doente?
- É verdade, nunca.
- Por quê?
- Arthur, você é
indisciplinado, rebelde, violento
- Pai, me diga o que eu
quero saber, por favor.
- Eu fiz uma coisa, eu
e sua mãe...
- Eu sei, pai. O que
foi que vocês fizeram?
- Vamos deixar de lado
as diferenças agora, ta? Acho que é mesmo hora de você saber.
- Vamos lá, pai, a
verdade!
- Não sei que exame
você fez, descobriu que é estéril e alguma coisa a mais.
- É, que há algo errado
com meus genes. O que é?
- Você foi feito para
ser um líder, alguém que pode por ordem na loucura que virou essa nave, não um
traficantezinho explorador de putas!
- Como assim fui feito?
Feito!? A mãe é geneticista. É o que eu to pensando?
- Você foi criado com
carinho. Sei lá o que deu errado!
- Pai, eu sou um porra
de um clone?
- Você recebeu trechos
escolhidos do DNA dos maiores líderes que pudemos ter acesso, sua saúde é
perfeita, sem defeitos congênitos ou tendências a vícios. Com o que você tem,
pode viver 150 anos ou mais!
- Mas sou estéril, pai!
Isso me parece uma medida de segurança.
- Seus filhos deveriam
ser a paz e a harmonia entre esses malucos que tivemos que trazer a bordo, não
fazer o que você faz!
- Pai, eu queria ter
uma família normal!
- Você não é normal,
Arthur, é uma máquina de mandar, um clone que tem os centros de prazer ligados
a essa função. Você observa, percebe e contorna os problemas dos outros só para
se ver cercado de súditos agradecidos. É isso o que você é! Isso é o que te dá
prazer!
- Uma máquina de
mandar?
- Uma maquina de
mandar.
- Posso convencer as
pessoas a explodir tudo isso?
- E pode trazer uma
felicidade quase absoluta para todos. Dominar pela paz. Levar a nave até o
destino em segurança. Para isso você foi feito. Teoricamente.
- Pai, Esperança é um
balaio de gatos! Eu sou um babaca
estéril que se vira como pode, como todo mundo!
- Não, Arthur, você é
um porcaria de um traficante de merda, um vagabundo que desperdiça os genes de
gente importante e muito dinheiro da Terra. Cresceu dando dor de cabeça para
mim e para a sua mãe e não faz idéia do seu potencial! Você é a esperança, ou
era quando veio a bordo no colo da sua mãe. Me diz você agora, o que é que fizemos
de errado?
- Não sou seu filho,
pai?
- O que é ser filho,
Arthur? Por um lado você é o sêmem que eu tinha numa seringa quando estava
trepando com a sua mãe, por outro é toda uma idéia de futuro, o resultado de um
projeto, uma montagem. Acompanhei toda a gravidez, levei mijada sua, troquei
suas fraldas, te dei mamadeira. Acho que se não sou seu pai, sou duas vezes sua
mãe!
- Você me ama, pai?
- Claro que te amo,
filho da puta!
Arthur
Mesmo com o dobro da
população inicial, qualquer um que se destacasse, fosse bandido ou crente,
ficava conhecido rapidamente. Mas havia um grupo que agia nas sombras, gente
inconformada que tentava tomar o controle da nave e voltar.
Os Retornistas eram pessoas
inteligentes que usavam os crentes para espalhar a idéia e assim acabavam por
uni-los. Se um judeu discutia com um muçulmano, quando o assunto era voltar
para a Terra, os dois concordavam.
Fizeram várias
tentativas de invadir o computador que controla o leme e os motores e
encontraram uma maneira de enganá-lo. Poderiam desviar a nave fornecendo um
mapa falso auto-atualizável e fazer uma longa meia-volta instalando um motor
menor do lado de fora.
Todo equipamento
necessário já estava reunido quando o momento oportuno se aproximou. Os
astronautas engenheiros que escolheriam a pedra do cinturão de Oort a ser
anexada partiriam em breve e a segurança seria relaxada. Nesse momento, uma
nave de manutenção externa poderia ser usada para instalar o motor pirata.
Arthur realmente usava
prostitutas que, junto com o serviço tradicionalmente prestado, usavam e
ofereciam drogas criadas por ele mesmo no laboratório da mãe.
Ser descoberto gerou o
conflito com seu pai. Por ter dinheiro, depois de dias de amargas discussões,
preferiu sair de casa e provar seu valor acumulando riquezas a suportar a
decepção estampada no rosto do velho idealista.
Teve alguns problemas
com a polícia e a justiça, contornados com certa facilidade por ser ele o filho
de um dos construtores da nave. Mesmo assim, tinha uma idéia de sucesso que o
levava a acumular posses. Para isso julgava-se mais realista e, portanto, mais
apto do que o pai.
Enriquecer rapidamente
seria a forma de reconquistar o respeito. Não voltaria para casa, mas
convidaria seu velho para ver e admitir que ele havia conseguido não só
dinheiro e posição, mas também uma família feliz.
O que não esperava era
descobrir-se como uma máquina pré-programada, um clone estéril.
O mesmo conjunto de
plantas, com ligeiras modificações genéticas e cultiváveis em pequenas áreas,
poderia servir para excitar, relaxar ou multiplicar o prazer, tudo sem grandes
efeitos colaterais. Mas para Edgar, eram simplesmente drogas, com toda
conotação moralmente negativa. Secretamente, o que o aborrecia era ver suas
esperanças desperdiçadas. Arthur era seu filho, sentia esse poderoso
envolvimento emocional, mas era também o resultado de anos de pesquisa. Ele não
tinha o direito de ser menos que perfeito.
Os mais importantes
segredos são contados a prostitutas falsamente interessadas, basta ouvi-las
para saber de tudo. Elas também podem levar recados e serem fonte de vínculos
profundos entre pessoas em posições estrategicamente importantes. Foi assim que
Arthur soube o que planejavam os retornistas.
Concebeu e executou uma
estratégia que visava dar-lhe poder político. Aos retornistas prometeu códigos
de acesso ao computador central em troca de apoio junto aos religiosos e, aos
militares, a possibilidade de deter a instalação do motor pirata em troca de
poder representar, diante deles mesmos, a população civil .
Quando os astronautas
partiram, o motor pirata foi apreendido sem prisões. Os códigos foram
entregues, mas eram de um computador fora do sistema, que obedecia ao comando
de regressar com uma realista simulação. Para os retornistas, a longa curva que
os devolveria à Terra havia sido iniciada, por isso, os religiosos passaram a
apontá-lo como um iluminado harmonizador de crenças quando, na verdade, ele não
as tinha.
Aos vinte e quatro
anos, Arthur, empossado pelos militares, foi o primeiro e único governador da
nave Esperança. Mas, desde que concebeu seu plano, decidiu que de nada lhe
valeria o orgulho do pai, o amor da mãe ou de qualquer mulher.
Um de seus primeiros
atos ao assumir o cargo foi multiplicar as câmeras e chamar a própria população
para vigiar.
Ser um retornista
passou a significar ser uma pessoa vitoriosa, aberta e vigilante, sendo que não
tinha nada a esconder. Como alguns fanáticos tentaram explodir a parede,
qualquer local onde pudesse haver uma reunião deveria ser observado. Logo,
também as casas e nelas, quartos e banheiros. Todos on line o tempo todo, vendo e sendo vistos.
Surgiram protestos, mas
também concursos onde eram eleitos o homem com maior ou menor membro, a esposa
mais bonita, o casal que demorava mais ou menos nas intimidades, a careta mais
feia ou engraçada ao defecar.
A falsa conquista dos
retornistas ajudou a criar um inabalável clima de euforia na nave.
Quando a pedra, na
verdade um cometa, foi anexado conforme planejado, surgiu a suspeita de que não
estavam voltando. Mas a população estava estabilizada, a economia ia bem e a
previsão era que haveria muita comida.
O contra-argumento aos
retornistas originais era que haviam nadado até o meio do rio e não faria
sentido voltar do ponto em que estavam.
De qualquer forma, os
passageiros seguiam felizes e prósperos. Os que haviam nascido ali, e esses já
eram a maioria, não sabiam a diferença entre seguir ou voltar, logo, os
retornistas deixaram de existir como grupo organizado e força política.
Assim a nave Esperança
ou Cidade Errante, como foi apelidada, penetrou o espaço profundo, próspera,
feliz e consciente de que não poderia estar em melhores mãos.
Arthur contava com a
participação de todos e estava sempre disponível, não era um ditador e, por não
poder fazer tudo sozinho, das comissões de representantes de categorias de
trabalhadores ou qualquer outro grupo, surgiram os sindicatos e toda uma ordem
política com líderes que poderiam vir a substituí-lo,ou seja, uma oposição.
Com o tempo, em busca
de alguma coisa que pudesse diminuir a popularidade de Arthur, esses opositores
foram investigar seu passado. Ao acusá-lo de envolvimento com drogas e
prostitutas, conseguiram apenas enfraquecer as próprias fileiras por também
estarem envolvidos com o agravante de serem hipócritas, já o resultado de
certos exames criou polêmica.
Na Terra e na nave, por
mais liberais que tenham se tornado as religiões, a simples existência de um
clone humano seria classificada como uma afronta à divindade principal e
criadora do próprio homem. Dizer que esse clone havia recebido “melhoramentos”
então, seria chamá-la de incompetente. Se deixar conduzir por tal intervenção
nas leis naturais que criaram a raça humana, na melhor das hipóteses, seria
atrair um desastre.
Mas ele era um bom
governador. Assim pensava a maioria.
Arthur não reagiu de
imediato e, quando o povo pensou que ele havia sido atingido, surge com um
discurso.
Sou clone
“- Ultimamente tenho
ouvindo alguns boatos e gostaria de esclarecer alguns pontos.
Em primeiro lugar,
sobre se sou ou não um clone, a resposta é sim, sou o clone de vários homens
ilustres da Terra, gente que, por seu poder de comando e acerto nas medidas
adotadas, foram escolhidos para compor meu corpo. Quanto a se recebi
melhoramentos, a resposta também é sim, nunca fiquei doente e posso morrer
muito mais velho do que qualquer pessoa. Quanto às questões religiosas, o que
posso dizer é que Deus deu inteligência aos homens e eles construíram maquinas.
Isso poderia ser considerado uma intromissão na obra original, mas não foi.
Quando se fabrica uma máquina, é para um fim específico e ela durará até que o
trabalho esteja concluído. Não quero me meter nos assuntos das instituições
religiosas e nem me comparar a uma máquina. Quanto a ser ou não humano, quero
que vocês saibam que só descobri isso durante uma discussão com meu pai na
adolescência, até aquele momento, eu não sabia e nem qualquer dos meus amigos
fez comentários sobre qualquer coisa estranha. Em função de ser o que sou, sou
também estéril e, por não poder ter filhos, desisti de uma relação amorosa, o
que foi bastante doloroso.
Pedir desculpas pelo
que sou? Não vou fazer isso. Sou uma heresia ambulante? Não me sinto assim.
Gostaria de poder
continuar meu trabalho, mas me coloco a disposição de vocês. Não votem agora.
Pensem antes porque isso pode mudar muita coisa. Falo das suas convicções e do
poder das religiões que, para o bem ou para o mal, como se pode ver nos livros de
história, vem dominando as mentes de todos há séculos.
Em três dias haverá um
aviso e vocês poderão votar se querem que eu continue ou abandone o cargo.”
Religiosos gritaram pelas ruas, houve
passeatas, várias brigas. A casa onde Arthur morava foi pichada com frases
insultuosas e ameaças. Muita gente votou no hospital, vários na prisão.
Os passageiros,
cidadãos da nave Esperança, entre a volta do comando militar e a escolha de um
dos líderes, apesar do barulho feito pelos religiosos, optaram com uma maioria
estreita, manter Arthur no governo.
Houve comemoração e foi
interessante perceber que muitos que votaram pela saída de Arthur acabaram
participando das festas.
Máquina de mandar, foi
do que seu pai o chamou. Deus não construiu máquinas, o homem sim. Esse foi seu
melhor argumento e agora era confirmado no poder graças a uma verdade dita sem
preocupação com a delicadeza.
Arrependidos, ou
temendo uma represália, os religiosos recuaram. Isso trouxe mais tempos de
euforia.
Clones funcionam! Essa
foi a idéia que brotou do próprio povo. Se um tão bom líder não pode ter filhos
e nenhum outro administrador esta a sua altura, por que não copiá-lo?
Inicialmente, Lucy não
quis colaborar, até por respeito a seu filho, mas acabou convencida de que
seria como um presente.
Fazer um clone do clone
seria um desafio, mas acabou contornado com mais facilidade do que esperava.
Dessa forma é concebido
Marus, estéril como Arthur, mas as uma criança perfeita e esperta.
Ainda durante a
gestação, já se cogitava sobre as possibilidades de outros clones
especializados.
E se tivéssemos clones
amantes, por exemplo, da matemática? Quanto tempo até que uma criança dessas
produza um motor revolucionário, capaz de levar-nos ao destino em muito menos
tempo?
A maioria se
entusiasmava, mas alguns começaram a temer pela perda da essência humana. Nada
faziam porque também eles queriam chegar ao destino e ver os novos mundos e,
afinal de contas, não seriam tantas as crianças.
Cada bebê que nascia
era comemorado. Marus seria um líder como Arthur, Oscar e Maurício os
matemáticos engenheiros e Rosa, apaixonada pelo pensamento em si, seria uma
filósofa pronta para trilhar e conduzir o povo por novos e inusitados caminhos.
Essas crianças mereciam
uma escola melhor, alguma coisa que se adaptasse a elas, não o contrário. Como
já nasciam com inclinação para alguma área, bastaria colocar a informação ao
alcance de cada uma e provocar sua curiosidade com jogos, sem imposição de
currículo mínimo ou a preocupação de nivelá-las com os da mesma idade.
Morando praticamente
sozinhas num prédio feito para elas por um consórcio de empresas, seria natural
que esse “provocador” assumisse também a função de pai. Isso seria positivo
desde que essa pessoa soubesse o momento de deixar de ser.
Clones – Rosa, a velha
Por dez anos a Cidade
Errante seguiu seu curso através do vazio acelerando sempre a razão de uma
gravidade da Terra, o que mantinha as pessoas no chão. Esse foi o tempo que
Maurício e Oscar precisaram para surgir com o novo motor e seu subproduto, placas
de gravidade artificial.
Uma empresa de
engenharia consorciada ganhou o direito de explorar a invenção e, junto com os
militares, instalou motor e placas.
Em menos de um ano, ao
mesmo tempo em que as pessoas passaram a andar pelas paredes e teto, presas por
uma corrente elétrica imperceptível, a nave multiplicou sua velocidade.
Estava provada a
utilidade dos clones especializados e, com isso, as empresas que ficaram fora
do consórcio passaram a pressionar por mais deles.
Quanto aos outros, o
inicialmente mimado e irritadiço Marus, agora se retraia, colecionava
informações sobre o funcionamento das instituições e participava das reuniões
dos sindicatos. Tornava-se influente aos poucos, na medida em que era chamado a
opinar e demonstrava bom-senso, mas isso só acontecia por ele ser quem era.
Já Rosa não parecia ter
interesses específicos. Passou de tímida a depressiva, rejeitando quem se
aproximasse. Mais tarde se tornaria a putinha da vizinhança, envolvendo-se com
ladrões e drogados.
Dos quatro, dois eram
excelentes, um precisaria de mais tempo e a última simplesmente não deu certo.
Era uma boa estatística. A idéia de que clones funcionam, mais do que nunca,
continuava valendo.
Rosa explodiu quando
menstruou.
Sua inclinação e prazer
era o pensamento em si, mas interessava-se por tudo ao mesmo tempo. Não tinha
um foco e isso tornava seu conhecimento superficial. Era isso o que seus
provocadores relatavam.
Na verdade, Rosa apenas
demorava a assimilar o grande volume de informação que reunia.
A aparência dispersa e
desinteressada escondia um feroz processo interno. Menstruar foi um divisor de
águas, em primeiro lugar porque não deveria acontecer.
As crianças naquele
prédio eram clones estéreis. Mesmo que não entendessem esse conceito, elas
simplesmente aceitavam.
Telepática desde
pequena entre outras habilidades, ouvia o que seus provocadores pensavam e
sentia a auto-reprovação quando esses pensamentos se relacionavam com desejo.
Como alguém pode lutar
contra a própria natureza, sentir raiva e se excitar com isso ao mesmo tempo?
Como causava vergonha,
nas poucas vezes que tentou saber, a resposta era sempre mentirosa, evasiva ou
indelicada.
Ficou evidente que sua
pesquisa seria feita por outras vias que não a direta, então se calou até
encontrar pessoas menos preocupadas com aparências, meninos e meninas que
viviam nas ruas fazendo música, malabarismos, enfeites e mendigando. Gente que,
por seu visual sujo, causavam medo e desconfiança.
Eram crianças entre
dose e dezesseis anos que se mantinham unidos para se proteger de estranhos
agressivos. Dentro do grupo, as meninas tinham de se proteger até dos amigos em
seus momentos de libido exaltada. Rosa aprendeu rápido a se desviar disso sem
deixar de poder contar com um braço mais forte quando isso fosse necessário.
Quando menstruou, as
outras meninas vieram em seu socorro e, entre risos, explicaram o que estava
acontecendo. Para elas não importava quem ou o que Rosa era desde que se
mostrasse parte do grupo, basicamente sendo carinhosa e colaborando com o que
pudesse conseguir.
Dentre as novas amigas,
uma acreditava na existência de um mundo além do visível e, como não tinham
acesso ao banco de dados, coube a Rosa trazer informações sobre tribos antigas
e seus rituais. O interesse nasceu por si.
Escola
O prédio foi aumentado
para receber novos moradores, quinze bebês que já não mamavam.
Eram líderes,
engenheiros e videntes, uma nova modalidade de especialização. Todos eles já
nasceram empregados e com salário calculado a partir da estimativa de quanto
podem produzir dividido pelo tempo de vida.
Ao saber disso, as
famílias, preocupadas com o futuro dos filhos, começaram a buscar formas de
saber se também os seus tinham algum tipo de inclinação natural. Acabaram
criando outra escola, nos mesmos moldes da primeira, ou seja, constatada a
inclinação, a criança é entregue à instituição e seus pais não só se
comprometem a não interferir na educação como passam a fazer visitas semanais e
mesmo assim monitoradas.
O valor estimado para
uma criança “pura” era inferior à de um clone e isso interessou às empresas.
Com os primeiros resultados práticos, ainda que inferiores aos conseguidos
pelos clones, mais e mais empresas se interessaram pelo projeto.
A conseqüência disso
foi o gradual enfraquecimento da família, pelo menos enquanto conceitual base
da sociedade.
Os casais, sentindo que
já haviam feito o que podiam por seus filhos, no máximo dois, apesar do sentimento
de perda ou talvez por causa dele, se viam desobrigados do convívio como
parceiros fixos. Deixaram de ser pais para se tornarem casais que se separavam
ou tinham casamentos abertos.
De qualquer forma,
ficou evidente que pais despreparados acabam prejudicando a vida emocional e
profissional de filhos que poderiam ser muito mais produtivos e equilibrados.
Arthur e Marus
conversavam regularmente sobre tudo o que acontecia na nave, mas esse era um
assunto recorrente.
Através de seus pais,
Arthur sabia da importância que tinha para a Terra que os colonos nos novos
mundos fossem inquestionavelmente humanos. Mesmo estéreis, os clones, por mais
úteis que fossem, fugiam a essa exigência.
Coube a Marus, como
primeiro ato político importante, conduzir os acordos que resultaram na nova
instituição, chamada simplesmente de Escola.
Com o passar dos anos,
pôde-se perceber que os clones feitos para serem videntes, as vezes se tornavam
matemáticos e vice-versa. Passaram a chamá-los Sensitivos ao mesmo tempo em que
os não alterados assumiram o termo “Puros”.
Puros, Sensitivos,
Líderes. Nasce aqui a idéia de castas.
Bruxinha
Rosa era o clone que
não deu certo. Agora era apenas um erro entre vinte acertos ou promessas, por
isso perfeitamente ignorável.
Uma moça que crescia
nas ruas e rejeitava ajuda a não ser alguns trocados e acesso às informações
para uma grande perda de tempo segundo os provocadores e seus irmãos. O
aparelho em si, um tipo de Caderno externo, ela não queria, bastava o acesso.
Na verdade ela não queria se preocupar com carregar qualquer coisa pelo peso em
si, que pudesse atrair inveja, cobiça ou torná-la diferente dos colegas de rua.
A fixação em
determinados assuntos ou áreas do conhecimento dava aos clones um ar estranho,
um olhar entre paranóico e autista, fora isso, eram pessoas normais,
satisfeitos com suas vidas produtivas e talentos reconhecidos. Já Rosa era
agitada e arisca, do tipo que marca sua presença com uma gargalhada alta e,
quando é procurada, já não está onde deveria.
Escondeu que menstruava
por não ter certeza, a princípio, se isso era sinal de fertilidade. Sabia que
os outros eram estéreis, mas como o sexo não era uma prioridade para ela,
acostumou-se com o fato de ser fértil a ponto de ignorá-lo tendo o cuidado de
manter a boca fechada como as outras.
Os novos clones e
alguns puros que se destacaram, fizeram mais ajustes no motor de forma a ganhar
ainda mais velocidade. Criaram também o que chamaram Portal, um
tele-transporte, antigo sonho dos ficcionistas da Terra. Os antigos laptops
agora eram implantes subcutâneos que funcionavam com uma interface que entendia
a fisiologia e a voz de seu portador. Isso reunia em si todas as informações
desde crédito a dados médicos, podendo liberar pequenas doses de medicamentos
ou excitar a produção de hormônios específicos. Era também telefone e câmera,
tudo ligado o tempo todo, passando e recebendo informações.
Rosa X Marus (I) – na CE
Próximo de iniciar a
desaceleração antes de entrar no novo sistema planetário, Marus era o herdeiro
legítimo e imaginava uma forma de substituir o Velho Arthur.
Abaixo deles, os outros
líderes disputavam espaço a cotoveladas. Alguns rivais menos escrupulosos
contratavam uma sensitiva especial e, quando isso acontecia, seus oponentes
cometiam erros estratégicos ou sofriam acidentes que os tirava do pleito. A
mulher havia ganhado fama por isso e por levar uma vida sem os confortos
defendidos como direito de todos.
Rosa não tinha o
implante, não podia ser contatada ou localizada facilmente, mas surgiu na casa
de Marus quando ele já desejava vê-la há alguns dias.
A gargalhada diante de
funcionários preocupados por sua aparência foi a forma dela se anunciar. Marus
abandonou um projeto e foi ao seu encontro sem pensar.
- Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, Rosa. Venha
por aqui, irmã. Vou pedir que tragam comida. Você quer tomar um banho? Vou
pedir roupas também. Ou você quer escolher?
- Não se preocupe
comigo, Marus. Vamos direto ao assunto. Você deseja o controle da nave e estou
aqui para...
- Ainda não, minha
irmã. Um líder sempre quer o poder, mas tudo a seu tempo. Vamos cuidar de você
primeiro.
- Tenho todo o cuidado
de que preciso e trago uma mensagem que pode ser dita em qualquer lugar. Você
será o líder chamado “Supremo”. Terá que lutar contra um exército. Estarão em
suas mãos as vidas de muitos que são como seus próprios filhos e pensará, o
tempo todo, em formas de tirar essas vidas. Quando conseguir, virá dos céus o
fim. Tudo isso acontecerá depois de um longo tempo num deserto negro e não da
forma que imagina e nem no momento que deseja.
- Rosa, nada disso faz
qualquer sentido para mim. Gostaria que você explicasse, mas não nos vemos há
anos. Aceite minha hospitalidade. Vamos conversar um pouco!
- Nos amamos, meu
irmão, quando isso acontece o tempo não passa da mesma forma. Aguardamos a
próxima frase com a mesma ansiedade que o próximo encontro, seja ele amanhã ou
daqui dez anos.
- Por isso mesmo não me
importo com esse enigma que envolve vidas de filhos que não posso ter, desertos
que não conheço e fim vindo dos céus. Haverá tempo para isso. Quero só saber da
minha irmã antes que ela desapareça novamente e, se possível, evitar que isso
aconteça.
- Foi um prazer te ver.
- Como posso te
encontrar?
- Vivo nas ruas e durmo
nas plantações. No momento certo estarei ao seu lado.
- Me diga ao menos, de
forma que eu compreenda, como vencer Arthur.
- Ele não precisa ser
vencido para entregar o poder.
- Acredito nisso. E
quanto a ser aceito pelo povo?
- O que vejo é um
exército e você buscando uma forma de eliminá-lo sem passar por bárbaro já que
é isso o que eles são. Eles afugentaram alguns e esses serão encontrados pela
inocência, a mesma inocência que derrota o exército.
- Estou a par do que
dizem sobre você. Não acredito que você seja louca, ladra ou bruxa. Eu te
conheço, irmã, sei que essa é a forma que você encontrou para se defender nas
ruas. Você é muito capaz de falar claramente. De alguma forma soube que eu
queria ver você e veio até aqui. Fico feliz e quero demonstrar isso comendo com
você.
- Marus, a afeição é
mútua, mas o que você quer é detalhes de fatos que ainda não aconteceram. Não
há como fazer isso. O que posso fazer é avisar: o que dá início ao fim da nossa
civilização começa agora, com você. É por isso que estou aqui.
- É muito grave o que
você está dizendo. De que civilização você fala? Da humana em geral ou da nossa
aqui na Cidade Errante?
- O que eu disse está
gravado. Você reverá dezenas de vezes. Não há o que acrescentar.
- Você não me dirá mais
nada?
- Não sobre esse
assunto.
- Mesmo assim quero
comer com você, minha irmã, vê-la banhada, suas feridas tratadas, com roupas
decentes. Por favor, me deixe fazer isso por você!
- Por amor você colhe
uma rosa, para tê-la com você e poder vê-la quando quiser, o que não percebe é
que colher é matar. Aceito seu amor desde que você não use uma tesoura que me
impeça de desabrochar.
Depois desse encontro,
os líderes, sempre ligados nos movimentos de seus colegas e possíveis rivais,
adotaram sensitivos videntes como parceiros.
Marus X Arthur
Arthur já não se
interessava por reunir-se com quem quer que fosse. Aos 170 anos, era um senhor
digno de respeito, mas que não suportava com tanta paciência os eternos
resmungos de líderes menores, trabalhadores, empresários. Dava claros sinais de
cansaço ou enfado e protelava decisões. Isso irritava a todos.
Marus se baseou nisso
quando decidiu substituí-lo, mas precisaria do apoio popular expresso em votos,
uma exigência dos militares em nome da segurança.
Rigorosamente tudo era
gravado e automaticamente publicado. Cada encontro, cada conversa, cada acordo.
Se não pelos portadores de implante, então por outro implantado próximo ou
qualquer das muitas câmeras espalhadas. Por isso os debates nas ruas começaram
bem antes do pleito ser organizado.
Apenas os interessados
tinham paciência de ver toda uma palestra, por exemplo, por isso jornalistas a
editavam mostrando o que julgavam ser os momentos de interesse,
irremediavelmente, “suas” convicções e “seus” interesses.
Dessa forma, ao mesmo
tempo, Arthur podia ser visto como um velho decrépito que mal caminhava ou como
o único realmente adulto entre crianças.
Novos Mundos
Nem colocando pessoas nas ruas com o único
propósito de encontrar Rosa isso foi possível. A alternativa de Marus foi
contratar outro sensitivo vidente.
O escolhido foi Uwe,
uma mistura de vidente e matemático que, ao analisar as possibilidades,
concordou com o que Rosa havia dito com a diferença de que o tal deserto negro,
como parecia evidente, não era físico. Bastava que fosse uma ameaça, uma
chantagem infantil a ser usada para comover o eleitor antes da vitória, a
liderança que viria a ser conhecida como suprema.
Ao passar ao largo do
equivalente ao cinturão de Oort do sistema planetário da Terra, um cometa foi
visto fazendo a curva para iniciar o caminho de volta. Marus ordenou que ele
fosse escavado ao mesmo tempo em que Arthur iniciava a construção das naves de
desembarque.
Os novos mundos eram
Ox, pouco mais oxigenado e quente que a nave ou a própria Terra, Lasli com
desertos de areias azuis, satélite de um planeta gigante gasoso, e Teha, o
mundo mais parecido com a Terra.
Parte da propaganda de
Marus dizia que a nave era pequena de mais para dois líderes. Já Arthur não
parecia preocupado com isso ou com a rejeição popular à idéia de desembarcar.
Quase duzentos anos
após a partida, apenas ele havia visto o planeta natal. Todos eram nativos da
nave e este era o único mundo que conheciam e onde desejavam seguir vivendo.
Os novos mundos
ofereciam a chance de voltarem a se reproduzir, seria uma vida de descobertas,
prazer e aventura, pela primeira vez ao ar livre.
O que se perguntava nas
ruas era: isso deveria ser sedutor?
No dia da eleição,
apesar da confiança na vitória, Marus se viu obrigado a cumprir a promessa de
abandonar a nave.
Foi uma disputa
apertada, mas na última hora, as pessoas preferiram aquele que lhes parecia
como um rei, uma figura paternal que, se cometia alguns erros, merecia o
carinho e o reconhecimento por ter sido justo e imparcial por tanto tempo.
Até o último instante
Marus esperou que seus eleitores pedissem que ele ficasse. O que houve foi um
grande volume de piadas com relação ao toque teatral apontado como ridículo e a
dúvida sobre um político que se diz sério, mas que não cumpre com a palavra.
O deserto negro não era
uma abstração afinal, tratava-se do espaço. Sua partida foi cercada de
brincadeiras, ele era a criança birrenta da própria infância, fingindo que ia
embora. Esperou-se que voltasse, mas não voltou.
A vida no interior da
Cidade Errante prosseguiu normalmente por mais vinte anos, antes que
estacionasse na órbita do planeta gasoso ao redor do qual circulava Lasli, um
satélite não observado da Terra, mas que viria a ser a capital dos mundos
habitáveis.
Havia gente treinada
para enfrentar os desafios da colonização, mas o que viam ao redor era medo do
desconhecido. Não havia alguma coisa, planta ou animal, especialmente perigoso
em qualquer dos mundos, o que havia era uma sensação incômoda e inexplicável.
Alguns desceram,
ganharam casas, terras, armas, fundaram vilas, iniciaram plantações, mas não se
reproduziam, acostumados com a idéia de ter apenas um filho por casal.
A solução foi criar uma
nova casta de clones, desta vez sem modificações e férteis, os Trabalhadores, e
iniciar uma reforma na nave. Isso não seria necessário, a idéia era tornar o
ambiente menos equilibrado, menos aprazível. Mesmo assim, principalmente os
Puros batiam pé, queriam ficar na nave.
Arthur criou áreas
próximas das vilas onde era lícito usar drogas excitantes que passou (ou
voltou) a fabricar. As áreas de convivência, apelidadas de Woodstocks eram uma
forma de possibilitar o crescimento demográfico enquanto os Trabalhadores
amadureciam, mas foi visto como uma “falha ética de um velho libidinoso”.
Sobre cada mundo foi
colocada uma estação espacial. O portal era a maneira de transmitir cargas e
pessoas para as estações e dali para as naves de desembarque transformadas em
transporte interplanetário.
Se o ar livre era uma
prisão, ao menos se poderia transitar entre os mundos e escolher assim onde
viver.
Administrar
descontentes não é tarefa fácil. Arthur era um velho incrivelmente saudável,
mas sua pouco aparente decadência física era acompanhada de uma irremovível
sensação de cansaço.
Líderes locais e
planetários foram eleitos e mal começaram a trabalhar quando um cometa foi
observado despejando três naves, cada uma com destino a um dos mundos.
Os Puros, expulsos da
Cidade Errante, estavam organizados como força política subversiva e planejavam
sua retomada.
Marus desceu com
exércitos de um novo tipo de clone, os Soldados, feitos a partir do que de mais
brutal houvesse no gênero humano.
Tudo era desordem.
Drogados e prostitutas se misturavam com fazendeiros ricos e políticos
corruptos. Marus era a esperança, o líder acolhido como legitimo quando
esperava uma batalha pelo poder.
Novos Retornistas
Líder Puro de Teha
conversando com os líderes de Ox e Lasli:
- Esta reunião está
sendo transmitida pela estação, mas acho que estamos seguros pela criptografia
e já que a ação deve ser rápida, mesmo que nos encontrem, não será problema. É
isso o que peço, que seja rápida. Arthur está às voltas com a chegada de Marus
e aquele ridículo exército. De qualquer forma, acredito que podemos falar a
vontade.
- Ridículo? São
animais! Batem nas pessoas sem qualquer motivo e são enormes! Aqui em Lasli,
cercaram o palácio de Arthur justo quando os líderes locais estavam reunidos.
Fizeram um corredor humano na saída e bateram neles na medida em que passavam.
Uma estupidez!
- Aqui em Ox, ficaram
embriagados com o ar, não foram tão violentos com o povo, mas estupraram
algumas mulheres nos Woodstocks daqui.
- Eles vão se acostumar
com o ar e logo vão mostrar a merda que são!
- São uns bostas e não
são tão grandes! Podemos dar conta deles.
- Eles têm espírito de
corpo, não se meta a enfrente-los. Pegue um e os outros vêm atrás de você.
- Concordo que a ação
deve ser rápida. O cruzador está aguardando passageiros na nossa estação, os
nossos estão prontos, é só ter a ordem e dominamos aquela merda!
- Chegaram aqui as
meninas, as Trabalhadoras. Putas! Que inclinação elas tem? Trepar?
- Trabalhadores são só
réplicas. Puros cederam esperma. Vamos com calma!
- Essas merdas não são
meus filhos!
- Um amigo Sensitivo me
disse que a hora é agora. Ele é de confiança. O cruzador chega em seis horas e
meu pessoal está pronto. Temos piloto e a porra toda! Vamos agir!
- É o seu pessoal que
tem os programas da CE, não adianta nada subir lá sem alguém que possa
programar o retorno.
- Tranquilo! To dizendo
que estamos prontos!
- Vocês estão prontos,
Lasli?
- Nosso cruzador está
vigiado, ninguém entra e ninguém sai! Meu pessoal está avisado. Devem ficar
para trás uns vinte por cento se a ação for agora, quinze em oito horas.
- Não quero Sensitivos
na ação e nem qualquer vagabundo de genética alterada. Somos humanos, porra!
- Ele não faz parte, só
previu. E é de confiança. Também quero uma CE de Puros para Puros. Só nós somos
humanos, mas essa merda funciona quando temos um objetivo a ser atingido em
duzentos anos. O cara que liderar tem que ser paranóico e viver pra caramba!
Vamos partir sem isso. Sabe-se lá o que seremos quando chegarmos. Já não
fazemos a menor idéia do que é a Terra agora, quanto mais daqui a duzentos
anos!
- Minha Terra é a
Cidade Errante!
- Você é um babaca que
sonha com um lar quando isso já não existe! Estamos embarcando numa aventura
que não podemos imaginar o final. Morreremos a caminho. Vamos impor nossas
esperanças a nossos filhos e netos, mas a Terra, neste momento, já não é o que
imaginamos. Como eu, você se revolta com a clonagem, com as castas, Sensitivos,
Líderes, Trabalhadores, Soldados. Não é isso o que viemos fazer aqui. Não somos
mais humanos na maioria e, nós os que restaram da humanidade pura, por teimosia
dos nossos pais, estão prontos para abandonar essa loucura, essa salada
genética e voltar para a origem. Quem pode garantir que a origem não está
contaminada? Que porra de sonho não é essa volta?! Eu arrisco! Não quero a
Terra, esse mundo que mais parece uma fantasia infantil. Quero envelhecer e
morrer no espaço onde nasci!
- Soldados, cara! O que
Marus, depois de vinte anos, achou que encontraria aqui?
- Veja os registros! Ou não veja, tanto faz! Ele foi humilhado e clones
como ele são exagerados nas inclinações. Não havia tecnologia para controlar a
alteração. Ele é clone do clone! Isso não tem como dar certo! O cara é um
tirano inumano! Voto pela ação imediata! Vamos sair daqui! Foda-se pra onde!
- A CE está pronta e
operante. Temos os códigos e o pessoal. Vamos dar uma margem de duas horas para
a partida a contar da hora prevista para o último embarque. Isso dá dez horas.
Nesse tempo atacamos os militares que são poucos, e tomamos a ponte. Quem
estiver lá parte conosco, quem não estiver e souber da operação vai passar por
maus bocados nos mundos. Enquanto Arthur e Marus se enfrentam, a gente ganha
velocidade. Li o registro original, a nave Esperança foi feita para levar
colonos humanos. Não acho que Líderes, Sensitivos, Trabalhadores e Soldados se
encaixam nessa categoria. Para mim não são nem colonos e nem humanos. Não sei
como o povo da Terra vai entender isso, a verdade é que os novos mundos estão
sendo colonizados por coisas de aparência humana feitas em laboratório.
- Não só não são
humanos como também não são pacíficos! Quero esta gravação na memória da nave
para ser recuperada quando chegar, mesmo que eu não chegue!
- Teremos registro
desta conversa, imagens dos desfiles e da violência dos Soldados. Temos tudo
desde a partida da Terra. Se o interesse for o que aconteceu nos mundos,
levamos más notícias.
- Que o povo da Terra
saiba que não somos os libertinos dos Woodstocks.
- Saberão. Tudo esta
registrado.
Marus perplexo
Lideres locais,
Sensitivos e comerciantes de qualquer casta eram a elite de mundos
absolutamente estranhos para alguém que viveu por mais de vinte anos no
interior de uma pedra gelada.
Marus, uma vez
ridicularizado, achou que nunca mais teria a chance de mostrar seu poder de
comando. E havia a profecia, o deserto negro, o exército a derrubar.
Para derrubar um
exército, pela lógica, deve-se poder contar com outro. Oponha dois exércitos e
terá uma guerra. Para vencer a guerra, seu exército tem de ser mais forte que o
oponente. Se não for possível conhecer o oponente, que seja o mais forte
possível e com uma arma secreta. No caso, mulheres extremamente férteis gerando
crianças agressivas.
Em meio ao deserto
negro, durante o lento avançar de seu cometa, só o que restou a Marus foi a
previsão feita pela melhor vidente da nave. Se o deserto negro era real, o
resto também deveria ser. Com base nisso, quando desembarcou, tinha uma casta
de clones altos, fortes, agressivos e obedientes, prontos para combater até a
morte. O que não havia era o exército oponente, apenas as boas-vindas de um
povo sedento de ordem e uma velha amiga que, depois de uma sonora gargalhada,
lhe perguntava o que ele pretendia fazer com um bando de belos e grosseiros garotos
em uniformes.
Havia tanto a fazer,
tantos descontentes, corruptos, drogados. O que eram os Trabalhadores? Que
templos de devassidão eram os woodstocks?
À força invadiu o
palácio de Lasli à procura de Arthur e o encontrou morto sobre sua mesa. O
velho havia enlouquecido e disseminado sandices em seu processo degenerativo.
Tomar as rédeas
daqueles mundos era só o que poderia fazer e usaria seu exército para impor a
ordem, mesmo que moderadamente, já que o tinha.
Os líderes locais
reclamavam em nome de seus eleitores e estes se organizavam dispostos a reagir.
Houve resistência, um início de revolução, tão rápida e violentamente suprimida
que surpreendeu até o próprio Marus.
Ele era,
reconhecidamente, o herdeiro legítimo do poder, o que os líderes questionavam
era o tratamento dispensado ao povo e a eles mesmos.
Ficou claro que tudo
seria contornável sem qualquer tipo de violência, mas os Soldados estavam
ansiosos por ação.
Rosa X Marus (II) – fazer Arn
- Rosa! Como você
entrou aqui? Você está bem? Os guardas não tentaram te barrar?
- Marus, sou eu,
querido! Você acha que alguém é capaz de me ver se eu não quiser ser vista?
Como vai você, meu irmão?
- Com saudade, irmã!
Mas metido nessa confusão e acho que parte da culpa é sua! Vou avisar meu
pessoal que você está comigo ou são capazes de entrar aqui armados.
- Bobagem! Mas sei do
que você fala, das previsões. O que eu disse?
- Do deserto negro e de
um exército a derrotar. O deserto era o espaço, a lenta descida até aqui. Já o
tal exército não existe. Você errou!
- Errei? Não falei de
vidas nas suas mãos? Esses meninos de uniforme não são um exército?
- É o meu exército!
Onde está o outro? Com certeza não são esses idiotas que tentaram enfrentar os
meus meninos!
- O que eu disse foi
que você enfrentaria sozinho um único exército. Não disse quem o criaria.
- Fazendo isso você me
induziu a criá-lo!
- Só disse o que vi no
futuro atendendo a um pedido seu.
- O que eu queria saber
era sobre a eleição na nave, não o que aconteceria vinte anos mais tarde. Como
você ganhou tanta fama cometendo esses deslizes?
- Nunca busquei fama. E
se fui além do seu interesse imediato, foi em resposta à sua ambição. Concordo
que deveria ter sido mais clara, mas o destino tem seus caminhos. O exército
deveria estar aqui para trazer o povo mais para o chão e a animalidade
necessária a mundos a serem conquistados.
- O povo vai me odiar
por causa dos Soldados! Foi um erro brutal! Eles foram criados para guerra,
amam os combates, armas, estratégias, emboscadas, tudo isso. O instinto de
auto-preservação foi reduzido para que valorizem mais a vida do companheiro do
que a própria. E suas fêmeas não só são férteis como taradas!
- O que você pretende
fazer?
- Não tenho a menor
idéia! E não posso dividi-los para que se matem. Sou um tipo de divindade para
eles.
- Tenho uma sugestão.
- Claro. É isso o que
você veio fazer aqui, não é? Adiante! Fale!
- Você sabe onde está a
Cidade Errante?
- Os Puros fugiram
nela. Usaram os cruzadores do Arthur e os abandonaram em algum lugar. Só não
isolaram os mundos porque as agências espaciais estão usando as minhas naves de
desembarque. Preciso de comunicação e quero que as pessoas transitem. A CE pode
esperar, não vejo em que pode ser útil.
- Que tipo de notícia
ela leva? O que os Puros viram aqui?
- Onde você quer
chegar?
- Mundos habitados por
clones especializados, divididos em castas e submetidos a um tirano com um
exército.
- São duzentos anos até
a Terra.
- Depois da reforma?
- Você tem razão. Vou
mandar buscá-la.
- Já está muito longe.
- Os engenheiros das
agências darão um jeito. Mas diga qual é a sugestão.
- Uma nova casta, a
última. Dela vai nascer um menino que pode alcançar a CE e resolver o problema
dos Soldados.
- Concordo com os
Puros, chega de clones! Mas não gostei da maneira como você disse “a última”. O
que quer dizer?
- Que será a última
casta a ser produzida por nós, clones aqui dos novos mundos. Não são boas
notícias.
- Para quem são as más
notícias?
- Para todos nós, a não
ser para um desses novos meninos e para minha filha.
- Sua filha? Rosa, você
é estéril como eu! Só Puros, Trabalhadores e Soldados são férteis. Você tem uma
filha? Pode ter?
- Posso.
Corrida - Roda
A velocidade da luz.
Esse foi o problema.
A coisa começa com um
cálculo simples, se um veículo viaja perto da velocidade da luz, outro que
parta com atraso só pode alcansar o primeiro se for além dessa velocidade. Ai
está a complicação.
Na prática, essa
velocidade destrói as moléculas e transforma tudo em sub-partículas que se
espalham por todo o universo.
Não importa quão
poderoso é o motor, na velocidade da luz, tudo é luz e qualquer objeto que
alcance essa velocidade, não voltará a ser o que era.
Marus criou a Corrida,
uma disputa entre as agências espaciais de cada planeta em busca, não de um
acelerador, coisa que já se tinha, mas de um freio quântico, alguma coisa que
devolveria a forma original a um objeto acelerado.
As agência reunidas propuseram
a Roda Gigante, um conjunto de projetores de onda que funcionaria como um
condensador para objetos acelerados, tornados luz.
O que se viu foi um
espetáculo de gosto duvidoso. Uma sonda acelerada ate desaparecer pouco antes
de atingir essa monstruosidade, um círculo gigantesco que teoricamente
transformaria um raio de luz numa coisa sólida, Funcionaria como uma lente,
convergindo raios luminosos, mas so que se viu foi uma massa de metal
fumegante. Não a sonda original, mas um bloco incandescente quando isso deveria
transportar cargas e passageiros.
Na dúvida, Marus já
havia encomendado quinze novos clones feitos a partir dos Sensitivos que mais
se destacaram. Os autistas telecinéticos e bruxos videntes como Rosa.
Ox foi o mundo
escolhido para o nascimento e criação de cinco dentre os quinze com a mesma
alteração genética, um garoto chamado Arn 6.
O numero depois do nome
indicava que era um clone em primeiro lugar e que havia sido feito a partir da
mistura de parte da dupla hélice de várias pessoas, os adivinhos que desafiavam
a estatística como Rosa e os que haviam produzido fenômenos como telepatia,
ignição espontânea, telecinesia.
Quinze meninos e
meninas nasceram e foram repartidos pelos mundos, ele foi o sexto.
Não havia como
classificá-los. Eram Sensitivos, sem dúvida, mas o que esperar deles?
Arn gostava, ao
crescer, de mecânica. Mas era um interesse superficial.
A Escola havia
aprendido a lidar com o que chamavam “rebeldes de maturação lenta”. Sabiam que
seu interesse era, não a mecânica em si, mas os jogos das relações humanas e
seus efeitos emocionais vistos sob o prisma da mecânica newtoniana. Causa e
efeito. Sendo que algumas emoções, causas, geravam os fenômenos que ele sabia
ser capaz de realizar, efeitos.
Os outros quatorze não
passavam de Sensitivos comuns, crianças que discutiam sobre cálculos
complicados ou fantasmas e, em seguida, corriam atrás de uma bola.
Aos cinco anos, Arn
parecia saber do que era capaz, e para encanto de seu provocador, conduzia uma
pesquisa coerente, mesmo que essa coerência fosse interna. Ele tentava provar
os conceitos que via em Jon e, caso fossem falsos, antes de um jogo qualquer,
expunha suas idéias de forma indefensável e nem por isso desafiadora, a não ser
que ele, Jon, visse desse modo.
Jon era um Trabalhador,
clone de um ou vários Puros que haviam partido com a CE. Não era um filho, mas
bem que gostaria de ser. Tinha uma idéia de família, ou antes, de amor
familiar, que vinha de antes da dissolução dessa instituição.
Esse amor entre
provocador e “potencial” era incentivado pela Escola, desde que o provocador
tivesse equilíbrio para abandonar seu protegido quando este fosse capaz de voar
sozinho.
Ele era um homem que
amava uma criança como a um filho e Arn era o potencial que precisa da imagem
de um pai para construir a própria personalidade.
Um clone especializado
não é uma máquina. É uma criança, um adolescente e um homem com um interesse e
respostas utilizáveis sobre uma determinado área do conhecimento que é fruto de
sua especialização genética artificialmente determinada. Fora isso, é uma
pessoa, um menininho que brinca e tem medos infantis, que chora e pede colo.
É preciso ter um
coração de pedra para não dar, e é preciso muito respeito para saber quando é
hora dessa criança trilhar o próprio caminho.
Roda
Arn já existia quando o
Freio Quântico Magnético Circular, FQMC ou Roda ficou pronta. Não tinha idade
para participar da ansiedade dos engenheiros, mas viu as gravações muitas vezes
depois.
Ainda que a Roda não
tivesse dado resultado, a Corrida continuou nos laboratórios e Arn crescia
sendo parte deste grande projeto. A agência espacial vencedora ganharia o
direito de explorar o transporte entre os mundos e Arn era parte da agência de
Ox.
Muita coisa poderia
mudar se viagens além da velocidade da luz fossem possíveis e os jornalistas
faziam intermináveis listas delas. Assim, os engenheiros discutiam, os
empresários defendiam seus investimentos, todo mundo lucrou até o momento em
que a sonda começou a acelerar em direção à Roda.
Uma explosão luminosa
marcou seu caminho, a transformação de partícula em onda. Imediatamente essa luz
foi absorvida e condensada mais adiante. O que surgiu do outro lado foi uma
bola de metal incandecente que ia deixando um rastro de luz e fagulhas.
Imediatamente começaram
as piadas que comparavam a Roda a um anel dado a uma prostituta por um ingênuo
apaixonado que pede fidelidade. Depois disso o Freio quântico Magnético, a
Roda, ficou conhecida como “Anel de tolo” ou simplesmente Anel.
Começaram as piadas que
comparavam a roda com um anel dado a uma prostituta por um ingênuo apaixonado
que pede fidelidade. Logo, o Freio Quântico Magnético Circular, FQMC ou Roda,
passou a ser conhecido como Anel de tolo ou, simplesmente Anel.
As agências continuaram
pesquisando em separado, mas perderam o apoio dos anunciantes. A Corrida não
seria vencida tão facilmente por nenhuma delas, a não ser alguns anos mais
tarde.
Primeiro Salto
Arn passou por fases ao crescer. Teve seu
momento telepata, sob estresse chegou a incendiar algumas almofadas e, em
estado de meditação, conseguia mover objetos pequenos com a mente.
Determinado o desmonte
do Anel, a agência de Ox trouxe para a Escola dez projetores de onda, para que
os meninos o estudassem. Um deles ficaria a disposição de Arn, podendo receber
qualquer modificação.
Aos doze anos, ele
colecionava maquetes de naves espaciais, reais ou de fantasia e não julgava o
Anel um fiasco. Não que tivesse algum argumento em defesa, só tinha simpatia
pelo esforço.
Feliz ao receber seu
projetor, pediu que a onda, ao invés de projetada numa direção, fosse esférica
como uma bolha.
O aparelho era uma
caixa retangular metálica de um metro de altura com uma esfera na parte de
cima. Arn não tinha planos quando pediu a modificação, gostava de criar a bolha
apenas para ficar dentro dela. Isso lhe dava sensação de proteção ainda que não
tivesse do que se proteger.
Numa tarde, estava
dentro de sua bolha perto de uma janela quando viu, lá fora, Jon trazendo nas
mãos uma réplica do Voyager. O desejo de ver o que ele trazia associado ao fato
de estar dentro da bolha criou o fenômeno, um salto, de dentro da sala para o
gramado diante de seu provocador.
Jon ficou paralisado ao
ver Arn surgir na sua frente, este também estacou sem entender o que havia
acontecido. Jon precisou de um momento para sacar seu Caderno, a interface do
implante, e rever a cena por todos os ângulos e em várias velocidades. Ao
deixar a sala, Arn criou um efeito chicotada e já surgia em sua frente mesmo
antes de desaparecer completamente, ou seja, o tempo entre um ponto e outro era
zero.
Pediu que Arn ficasse
onde estava e levou a maquete para dentro da sala. Voltou ao gramado e pediu
que ele repetisse o que havia feito, que fosse ver seu presente, tendo o
cuidado de acionar um cronômetro mais preciso.
O menino vacilou,
deixou que seu cérebro percorresse o caminho normal, físico. Então se lembrou
que havia dado o salto antes disso, só com o desejo de estar lá. De repente
estava dentro da sala, ao lado da maquete.
Desligou o projetor e,
olhando os detalhes da maquete, esperou que Jon entrasse com frases soltas,
entusiasmadas:
- Arn, olha só! Tempo
igual a zero em dois deslocamentos! Você atravessou a parede! Consegue repetir?
Reparou como faz? Podemos tentar outras distâncias assim que você quiser! Você
se sente bem?
Soldados
Marus havia criado
vilas militares nos subúrbios das cidades onde eram realizados violentos jogos
de guerra. Foi a maneira que encontrou de ocupar seus Soldados ao mesmo tempo
em que os afastava da população.
Os Soldados não tinham
os implantes, não estavam conectados à sociedade civilizada. Seus jogos podiam
ser vistos, mas não havia informação sobre dados médicos ou os níveis de dor e
estresse.
De competições,
batalhas internas, cada cidade passou a sediar um time principal que
atravessava as matas, selvas ou desertos para combater o time, exército, de
outra cidade.
Suas armas eram arcos,
bestas, facas, espadas, lanças e cópias de armas de fogo antigas. Sem acesso às
fábricas das cidades, faziam essas coisas artesanalmente nas próprias vilas,
sempre tentando surpreender os adversários com alguma novidade. Felizmente, Soldados
não são criativos, ou melhor, não se permitem o ócio que leva a criatividade.
Estão sempre ativos e, confrontados com qualquer questão, suas respostas são as
mais simples e rápidas, de preferência violentas. Um palmo mais altos do que a
maioria nas cidades, intimidavam e criavam confusões apenas por diversão.
Teste de Campo
A agência de Ox,
cuidadosa, propôs alguns testes para que seus engenheiros pudessem entender o
fenômeno criado por um de seus funcionários antes de reclamar o prêmio.
Aparentemente, não
havia relação entre o campo formado pelo “anel invertido”, como Arn o batizou,
e o transporte instantâneo, a não ser que fosse considerado o estado de ânimo
do adolescente telecinético que produzia esse efeito.
Os testes viraram uma
rotina, ele era obrigado a levar cada vez mais peso, materiais diferentes e por
distâncias maiores. Arn conseguiu quase todas as vezes,
sempre em tempo zero e com o efeito chicotada no ponto de origem. A
limitação estava no conhecimento do ponto de destino. Quando foi chamado a ir a
uma cidade próxima onde nunca havia estado, simplesmente não conseguiu. Depois
que foi até lá pelas vias normais e viu o ponto exato onde surgiria, então pôde
fazer seu transporte levando dentro de sua bolha do anel invertido, metais,
sementes e seu provocador Jon.
O aparelho, o anel
invertido, tinha limite de alcance, vinte metros antes da esfera até o
horizonte de evento, onde as linhas magnéticas voltavam ao emissor. Tudo dentro
disso era transportado, mesmo poeira e insetos.
O maior problema era a
instabilidade emocional de um adolescente que agora tinha a habilidade, mas que
poderia perdê-la a qualquer momento. Por isso a agência de Ox testava os outros
garotos da Escola, enquanto as outras agências faziam o mesmo com seus Pilotos,
nome dado aos da mesma geração.
Arn já havia provado
sua constância e estava no limite de sua paciência quando o chamaram para um
teste no espaço. Ele teria de levar um veículo de manutenção externa até uma
das pequenas luas que flutuam ao redor de Ox e voltar enquanto os engenheiros
usavam cronômetros muito precisos.
Seria mais um evento
televisivo como ocorreu com a Roda ou Anel-de-Tolo, mas desta vez, haviam as
imagens dos saltos feitos na Escola.
Arn nunca havia estado
na estação espacial, olhava as luas por telescópio e sonhava poder vê-las de
perto. Agora, de dentro do veículo apertado com seu anel invertido entre as
pernas, podia ver duas delas.
Tudo era novo e muito
excitante para um garoto e seu provocador, dois caipiras segundo a maledicência
de seus rivais da capital Lasli.
Os engenheiros temiam
que a potência do projetor ou anel invertido colocado dentro do veículo não
fosse suficiente para atravessar seu casco. Ao mesmo tempo, seus cálculos
mostravam que aquilo não tinha qualquer função, era apenas um apoio
psicológico. Consideravam o risco dele se transportar sem o rebocador e morrer
no vácuo. Para evitar um desastre, contavam
com o sentido de autopreservação do garoto e com as previsões dos Sensitivos.
Isso foi dito a Jon
pelo chefe dos engenheiros, como forma de convencê-lo a ficar na estação, mas
teve efeito contrário.
- Bom, Arn, estamos
aqui e ali está a lua. Já fizemos isso antes e não vejo dificuldade em fazer de
novo. Você acha que consegue?
- Acho.
- Acha ou sabe?
- Sem problemas! Ta
vendo aquela cratera ao lado da grande bem no meio? É ali. Sempre quis ver de
perto.
Jon olhava para Arn,
imaginou que ele estivesse nervoso com as novidades e a responsabilidade que
estavam depositando em suas costas. Não o viu acionar o anel invertido, apenas
sentiu a iluminação mudar dentro do veículo. Ao olhar para fora, a cratera da
qual ele falava estava bem adiante. Como se tivesse experiência, o garoto ligou
o veículo para dar um passeio um pouco acima da imensa pedra flutuante parecida
com uma batata.
- A gente devia esperar
um sinal da estação!
- Oops! Agora já foi!
Vamos ver a outra?
- Isso não está
programado, Arn. Você está sendo indisciplinado!
A luz mudou de novo.
Agora estavam sobre outra lua, esta um pouco maior e cinzenta.
- Tio Jon, esses caras
não confiam em mim, acham que sou um babaca qualquer e querem me substituir o
tempo todo. Um ou vários dos outros meninos com certeza pode fazer a mesma
coisa, antes que façam, quero ver essas luas. Na verdade, quero ver o deserto
azul de Lasli.
A luz mudou mais uma
vez. Jon viu a superfície quase plana do gigante gasoso e, em seguida, já sobre
Lasli, o deserto azul, trinta quilômetros abaixo.
- Arn, isso é como
roubar!
- Isso encerra nosso
passeio, tio Jon. Vou devolver o veículo e posso pagar multa ou o combustível.
A cronometragem foi feita. Vão dividir as distâncias pelos tempos em cada lugar
e ver que, no transporte, o tempo gasto é sempre zero.
- Não sabia que você
estava tão irritado com eles.
- Não estava e não
estou, tio, mas você me ensinou que a gente deve fazer o que a gente deve
fazer, não é assim? Quem são eles para impedir?
- Afinal de contas,
você está entregando para eles todo o transporte entre os mundos! Queria ver a
cara do chefe.
Nesse momento, surge um
rosto no painel.
- Pode olhar, Jon. E
pode dizer para esse indisciplinado ao seu lado que ele tem a nossa confiança
daqui para frente. Nenhum dos outros Pilotos tem essa habilidade. Todos foram
testados com cópias do seu anel invertido, uma menina de Teha conseguiu levitar
coisas e arremessá-las, mas só o Arn dá os saltos e com toda essa precisão que
demonstrou quando indicou de qual cratera se aproximaria. Entenda, Arn, que
precisamos nos cercar de segurança e não há como garantir que você não vai
perder a habilidade ou simplesmente enjoar de fazer a mesma coisa. Tenho mais
dados. Entre a lua e o planeta gasoso, a velocidade da luz precisaria de três
segundos. Uma nave convencional gastaria muito mais tempo só para acelerar e
consumiria uma energia absurda! Ox acaba de vencer a Corrida, senhores! Estamos
preparando uma festa aqui na estação. Agora sei que você pode voltar
instantaneamente, mas aprecie um pouco mais a vista enquanto nos preparamos...
ou vá dar uma volta!
Rosas
Todo o planeta Ox
estava em festa. O próprio Marus veio a público parabenizar a agência, o mundo
e o autor da façanha. De uma hora para outra, Arn era uma celebridade
comemorada até pelos Soldados.
Por uma semana, as
drogas que eram oferecidas nos woodstocks, fechados quando Marus assumiu a
liderança suprema, foram liberadas em Ox. Isso trouxe turistas de todos os
mundos. A festa que duraria uma semana, acabou tomando todo um mês.
Arn usou dessas drogas,
teve de desfilar em carro aberto por várias cidades e precisou de excitantes.
Apesar do momento de
glória, não se via como superior. Não ficou vaidoso, mas seu mundo ficou
extremamente colorido e excitante como se ele fosse o grande Sensitivo, o
Piloto real entre quinze tentativas.
Nesse mês, apaixonou-se
por quatro mulheres, duas lascivas Soldados que lhe tomaram a virgindade juntas
e praticamente a força, uma Trabalhadora, turista de Teha muito determinada e
uma Sensitiva. Esta última, apenas virtualmente.
Reviu várias vezes o
discurso de Marus alternando entre a câmera que ele usou para discursar, as da
sala e as das pessoas conectadas que estavam ali no momento. No grupo havia seu
Sensitivo oficial, o governador geral de Lasli, o governador do continente onde
fica o palácio da Suprema Liderança, o prefeito, dois Trabalhadores
funcionários do palácio, um Soldado, uma folclórica senhora, Sensitiva da
geração do próprio Marus e que se envolveu em fatos controversos envolvendo
lideranças locais desde a CE e uma moça de nome Rosa.
Os que tinham o
implante e podiam ser pesquisados ofereciam informações sobre os que não
tinham. Esses eram Marus, o Soldado e as duas mulheres.
Rosa, a velha, era a
irmã genética de Marus. Desde a CE optou por uma vida de miséria mendigando nas
ruas e, se não diretamente envolvida em derrotas políticas inexplicáveis,
acidentes e mortes de rivais, esteve sempre próxima aos interessados, suspeitos
de crimes que nunca foram provados. Era a grande bruxa, uma mulher que nunca
era encontrada, mas que surgia do nada quando tinha algum interesse.
A CE não produziu
nenhum clone fértil oficialmente porque havia o medo das alterações genéticas
fugirem ao controle em descendentes. Apesar de seu ambiente moralmente
questionável das ruas, Rosa, a velha, soube manter sua fertilidade em segredo
até o momento em que julgasse oportuno.
Rosa, a moça, era
filha, não um clone do clone como a velha e Marus eram de Arthur, mas uma filha
legítima, concebida numa relação sexual e criada junto á mãe como era na antiga
Terra. O pai era um Puro que também vivia nas ruas e fugiu quando do seqüestro
da CE.
Não seria justo julgar
na ausência, mas a atitude do pai é a de um hipócrita preconceituoso,
irresponsável e covarde.
Rosa, a moça, tinha
quatorze anos e, aos olhos de Arn, não tinha qualquer defeito. Se a mãe era a
grande bruxa, no mínimo ela era uma Sensitiva com os hormônios fazendo explodir
todas as suas potencialidades, seu poder sobre a matéria e sua sexualidade.
Esse era seu amor
espiritual. Como Sensitivo, ele tinha certeza disso, e o universo conspiraria
para colocá-los lado a lado, por isso, não havia pressa.
Mulheres Soldado
As mulheres Soldado não
eram visíveis, os homens, com sua violência, ocupavam um espaço muito maior,
tanto da mídia quanto da memória de quem se expusesse a eles.
Da mesma forma que
Soldados homens invadiam as cidades dispostos a criar tumultos e se embriagar
em suas folgas, também as mulheres vinham desfilar corpos perfeitos, sedutores,
ansiosas pelo tipo de sexo mais delicado e preciso que só encontravam ali.
Que Marus tenha criado
a pior das castas, que tenha colocado neles tudo o que temos de mais primitivo
e selvagem, mas quando se depara com uma mulher Soldado, o inferno se torna
luminoso. Junte duas dessas famintas lascivas e um orgasmo não será, nunca
mais, apenas uma ejaculação.
Aposta errada de Marus - Woodstocks
O Líder Supremo buscava
inimigos à altura de seus Soldados. Em seu cometa, durante o caminho através do
deserto negro, imaginou um exército sofisticado como inimigo ao chegar. De que
maneira pessoas inteligentes, embrutecidas pela vida rude de mundos indomados
reagiriam diante de um invasor?
Apostou nesse
embrutecimento natural de colonos e, se não a volta das famílias, a formação de
pequenos clãs rurais que seriam defendidos energicamente.
O que as pessoas
fizeram ao desembarcar da CE foi enviar máquinas que fizessem todo o trabalho
duro enquanto se acumulavam nas cidades repetindo ali a vida que levavam na
nave.
Arthur queria que
procriassem para povoar os mundos, que esquecessem os dois séculos de contenção
e fossem promíscuos, para isso precisava enlouquecer a todos com drogas que não
viciassem, arte e música em festas que não terminavam. Assim nasceu os
Woodstocks ou “áreas de convivência”.
descabaço
Arn desfilava sobre um
enorme carro aberto, normalmente usado em shows de música, e se imaginava a
ponta do iceberg, gelo como todo o resto, mas momentaneamente acima da
superfície.
As duas mulheres
Soldado escalaram o carro por lados diferentes e se encontraram na parte de
cima contornando a segurança. Houve o momento de tenção, afinal eram invasoras,
mas sendo o objetivo comum rapidamente adivinhado, o acordo brotou
naturalmente, quase sem palavras.
Por mais assexuado que
Arn fosse, naquele momento era um chamado que ele não poderia deixar de
atender. Depois de horas dançando e acenando, no local usado como camarim,
dentro desse tipo de carro, deitou-se entre as duas, exausto, mas viu sua
vitalidade ressurgir com o carinho de mãos precisas, bocas, seios, coxas,
nádegas.
Sexo no melhor estilo
esportivo com maravilhosas mulheres Soldado que tinham de voltar para casa
antes da alvorada.
Ritos de passagem são
parte da fisiologia humana, dessa forma, um menino passa a se reconhecer como
homem e muda a própria atitude.
A bolha
Passados os festejos, a
agência de Ox chamou Arn ao trabalho. Caberia a ele levar periodicamente
passageiros de um mundo ao outro usando uma estrutura feita para se encaixar no
campo do anel invertido, uma bola oca de metal com dez metros de diametro. A
freqüência dos transportes seria definida de acordo com sua reação.
Rosa, a moça
Rosa, a velha, não
gostava de ser o que era, nunca gostou. A vida nas ruas da CE e agora nas
florestas e desertos de Lasli era o que ela chamava de real. Foi uma das
primeiras a desembarcar e perder-se nas matas apesar do perigo de desconhecer
plantas e animais. Com fome e cuidado, mordiscava os frutos exóticos que via os
animais comerem. Acabou enriquecendo a culinária da região onde viveu seus
primeiros anos.
Conheceu o Puro, pai de
Rosa, a moça, num woodstock e juntos construíram a moradia primitiva no meio da
mata onde foram viver. Eram um casal heterogêneo num momento em que ser
rigorosamente humano era importante. Por isso ele foi e ela ficou com a menina.
Por dois anos Rosa, a
moça, freqüentou a Escola. Foi classificada como Sensitiva vidente e, sendo
filha de quem era, chamou a atenção dos políticos. Tinha raciocínio rápido e
bom humor o que lhe garantia um futuro produtivo, mas a velha se arrependeu e
levou-a consigo de volta para o casebre na mata.
Marus interveio
convidando-a a morar com a menina no palácio onde poderia, ela mesma, agir como
provocadora.
Sua higiene pessoal
melhorou muito morando ali, o mesmo para a saúde de maneira geral, mas já não
era a mesma jovem de outrora, sua pele e cabelos denunciavam isso.
Ao crescer entre
exemplos tão extremos de simplicidade e sofisticação, a moça desenvolveu a
própria visão de mundo, um lugar onde um monte de folhas pode ser tão
confortável quanto o melhor sofá, dependendo da companhia ou do motivo de estar
ali.
Os primeiros
transportes foram muito concorridos. Todas as pessoas importantes queriam
experimentar a novidade. Esta se mostrou decepcionante como aventura na medida
em que era realmente instantânea.
Filas de pessoas
esperavam as portas se abrirem nas estações. Dentro da bolha não havia assentos
ou qualquer conforto, o único sentado era o garoto com seu aparelho brilhante e
seus monitores. As portas se fechavam e tornavam a se abrir dando passagem à
outra estação. Só isso.
Era decepcionante
porque uma pessoa comum que morasse numa cidade onde não houvesse Portal, teria
muito trabalho até chegar na estação e, de repente, já estaria no destino. Sem
graça. Faria tudo isso para pegar uma nave convencional, um cruzador, mas
ficaria dias ou meses em seu interior, desfrutando de todos os confortos e conhecendo
os outros passageiros.
Arn tinha uma cabine
transparente que o isolava dos passageiros e de onde controlava as portas além,
é claro, do anel invertido.
Antes de começar a
transportar passageiros, houve uma fase de testes. Inicialmente, ele não surgia
com a bolha já engatada na estação, mas ha algumas dezenas de metros.
Rebocadores fizeram alguns engates antes que ele percebesse que isso não era
necessário. As órbitas das estações variam assim como suas velocidades, seria
improvável, senão impossível conseguir um engate perfeito. Mas não para Arn.
Os engenheiros, clones
Sensitivos especializados e bem pagos, simplesmente não entendiam como ele
fazia. Não havia cálculo que explicasse. Para eles, Arn era uma variação de
telecinético com as naturais dependências emocionais, no caso, um aparelho
inútil, um imã comum.
De um jeito ou de
outro, funcionava sempre e com incrível precisão. Tempo igual a zero todas as
vezes, não importando a distância. O agravante era político, ele já era um
herói para o povo, e não só de Ox.
O próprio Marus fez
algumas viagens. Colocou-se ao lado da cabine e tentou saber que tipo de pessoa
Arn era e se podia conquistá-lo.
A intenção inicial,
desde a Corrida e o Anel-de-Tolo, era alcançar a CE que seguia para a Terra com
Puros.
Conversa com Marus – todos no palácio
Rosa, a velha, sabia
que ele era a chave para a resolução de vários problemas.
Em tempos de
privacidade zero para os conectados, Marus viu alguns de seus momentos mais
significativos da vida de Arn. Sabia da coleção de maquetes, de sua relação com
seu provocador, Jon, e quem era esse Trabalhador. Soube, da decisão de ver as
luas passando por cima da orientação dos engenheiros e sua primeira vez com as
mulheres Soldado. Sabia também que ele não se interessava pelos Líderes ou o
que eles decidiam. Bastaria perguntar ao Caderno quem pronunciou seu nome e
teria uma lista de gravações. Arn não fez isso. Não estava embriagado com o
sucesso apesar da ovação, dos passeios em carro aberto e das mulheres, apenas
sentia-se feliz por poder fazer o que fazia. Era um garoto, um clone fazendo
aquilo que foi criado para fazer. Para corrompê-lo seria preciso afastá-lo
dessa função. Isso geraria sofrimento, um tipo de fome. O garoto concentrado em
seu trabalho na cabine havia conquistado o povo dos três mundos e os Soldados
de Ox. Precisava conhecer o destino para realizar seus saltos em T = 0 e não se
sabia onde a CE poderia estar.
- Arn, você sabe quem
eu sou?
- Claro, o senhor é
Marus, o cara dos Soldados, Líder Supremo, clone do Arthur da CE e quem mandou
que eu fosse feito.
- Isso não tem
importância para você?
- Todos fazemos o que
viemos fazer, seu Marus, com sorte, um pouquinho mais.
- E com azar?
- Com azar você cria um
exército que não serve para nada, que bate nos seus amigos.
- O que você acha que
eu deveria fazer? Matar todos?
- Acho que fez o que
podia, criou as vilas e separou os Soldados de nós. Seria desumano dar armas
melhores para um dos grupos e deixar que eles matassem os outros. No final,
você teria de matá-los ou teria de criar uma casta de Super Soldados estéreis e
de vida curta para fazer isso. De qualquer forma, é muito sangue nas próprias
mãos. Quem seguiria um líder assim?
- Você sabe por que foi
criado, Arn?
- Sei, para achar a CE.
Não posso fazer isso agora, seu Marus. Sinto muito. Só posso ir aonde vejo ou
lugares que conheço por já ter ido.
- Você disse que não
pode fazer isso “agora”? Ou cometi dois erros, meu exército e você?
- Não tenho como
responder isso. Sou conectado, tenho o implante e reparei numa coisa: em tempo
zero, quando faço os transportes, escolho e ajeito o local do pouso. Faço
correções. Não sei como, mas sei que não há registro. Não é uma idéia agradável
ser comparado a um Soldado grosseiro. Se sou mais um erro, não é responsabilidade
minha e sim de quem me criou.
- O que quero saber é
se você será capaz de encontrar a CE um dia, Arn. Não quis te ofender te
comparando com um Soldado grosseiro.
- De novo, seu Marus,
não sei como responder. Não sei onde está a CE e não sei onde é a Terra. Sei
onde estão Lasli, Ox e Teha. Cada uma de suas estações espaciais e onde devo
engatar esta bolha. É isso o que reconheço como trabalho, assim como o senhor
reconhece como seu trabalho comandar. Como Sensitivo, sei que caberá a mim muito
mais, mas não sou vidente, não sei precisar exatamente o quê ou quando.
- Se existe alguém
capaz de encontrá-la, Arn, esse alguém é você! Tenho absoluta confiança nisso.
Quero que você conheça duas pessoas, na verdade, quero que você conviva com
elas, as duas Rosas, mãe e filha. Aqui vai o convite oficial para constar nos
registros: Você gostaria de morar no Palácio da Suprema Liderança em Lasli, Arn
6? Aceitaria este convite do atual Líder Supremo?
Arn X Rosa, a moça
Para que as pessoas se
conheçam mais rapidamente, nas festas oficiais ou de negócios, o antigo minueto
foi recriado. Ao participar de uma dança coletiva com passos simples e
respeitosos, os presentes são levados a ver, tocar e cheirar uns aos outros, um
“quebra-gelo” leve e divertido antes de futuras relações.
Assim, Arn, o
homenageado da noite e novo morador do palácio, fez seu primeiro contato com
Rosa, a moça. Feito isso, foram conversar, primeiro num balcão externo onde não
seriam vistos do salão, local para encontros furtivos, não oficiais, depois,
por alguns minutos, num interno.
- Como é ser capaz de
amar tão profundamente a ponto de entregar quem se ama à outra pessoa?
- Não sei. Nunca pensei
nisso. Porque saberia?
- É o que você fará,
segundo a minha mãe.
- Sua matriz não é
conectada, não dá para saber o que ela pensa assim como só dá para avaliar os
resultados do que Marus faz. Nos dois casos, é tudo discutível e, sem querer
ofender, suspeito. Porque você não se conectou?
- Tecnologia demais,
Arn! Podemos nos cercar de máquinas, mas não deixar que elas nos invadam. Já
não sabemos se somos humanos. Olhe para você! Uma ferramenta com um objetivo!
- Ao menos sei para que
sirvo ao contrário dos Puros, inúteis, sempre procurando o que chamam de
“missão”. Não seria isso uma utilidade clara?
- Humanos são filhos do
acaso, nascem como plantas dentro da ordem natural, coisa que a nossa
civilização sempre tentou esmagar. O que rege essa ordem aparentemente caótica
é uma energia chamada Amor.
- Rosa! Ordem caótica?
Um organismo vivo quer seguir existido por isso se alimenta de outros
organismos vivos. Sabendo que também servirá de alimento, faz cópias de si
mesmo e se espalha. Isso serve para plantas, animais e até mesmo esse seu ser
humano tão especial. O que há de caótico nisso? E aonde entra essa energia
Amor?
- Na sutileza da
escolha do parceiro, Arn, nas pequenas coincidências que podemos perceber como
o fato de você ter nascidos num mundo distante e estar aqui falando comigo e na
visão de fatos que ainda não aconteceram. Droga! Me diga que não vou me
apaixonar por um cego!
- Quer escolher seu
parceiro? Posso me levantar agora e...
- Não se atreva a fazer
isso! Vi você com as mulheres Soldado. Você está saciado e eu estou aqui com
meus hormônios explodindo! Devia ter sido nós dois, Arn! Você sabe que é meu
parceiro, que vai se apaixonar por mim, se é que já não está e vai me entregar
para outro provavelmente porque é estéril. Agora não é hora de pensar nisso,
então, cala a boca e me beija!
Passaram para o balcão
interno para serem visto. Essa era a maneira de assumir publicamente uma
relação e onde foram saudados. Em seguida, aos aposentos dele onde a moça
iniciaria a parte sexualmente ativa de sua vida.
Outras viagens - tempo dentro do tempo
Os transportes passaram
a ser a rotina de Arn.
Apesar do investimento
reduzido, o preço de viajar com ele passou a ser muito alto até para proteger
as outras agências da banca rota. Estas continuaram expondo os outros Pilotos a
testes seguidos ao mesmo tempo em que transformaram os velhos cruzadores em
complexos de laser.
Ao engatar a bolha numa
estação, Arn fazia pequenas correções e nem por isso o tempo decorrido deixava
de ser zero. As câmeras fora das estações mostravam sempre o engate perfeito e
as de dentro da bolha o constante abrir e fechar das portas.
Mas havia mais. Essas
correções não eram deslocamentos como o que havia feito com o veículo de
manutenção. Não havia motores a ligar, o que ele fazia era mover-se como fazia
entre as estações. Tempo zero dentro de tempo zero sendo que ele era o único
consciente disso.
Reparou que, nesse
“momento que não deveria existir”, nada era sólido. Olhou para os passageiros a
sua volta e os viu como fantasmas congelados. Levantou-se, andou entre eles e
foi acenar para a câmera se perguntando se isso seria registrado. Então olhou
para a cabine e viu a si mesmo sentado, olhos fixos no monitor que lhe dava os
mapas e as câmeras tendo uma das mãos sobre o botão que liga o anel invertido.
A surpresa o fez voltar
à posição original com um solavanco. Esperou os passageiros saírem e foi até a
lanchonete da estação para um café e um pouco de especulação silenciosa. Quando
voltou para a bolha, já tinha um teste em mente.
Nada era realmente
novidade, ele sabia instintivamente que esse tempo que não deveria existir era
infinito, logo, poderia usá-lo como quisesse. Quando foi fazer o próximo ajuste
para o engate, aproveitou para olhar um quarto planeta do sistema, uma pedra de
atmosfera gelada e mares ácidos. Orbitou esse planeta e arriscou um rasante
sobre o mar. No final, deixou-se cair no tempo normal para ver, de sua cabine, as
portas abrirem.
Na estação, comparou o
que viu em loco com as informações de telescópios e sondas na sua interface do
implante, o Caderno. A suspeita era que, como tudo parecia translúcido, não
fosse real. Era real, ele realmente esteve num outro planeta com seus
passageiros. Tinha controle sobre o salto de um ponto ao outro e também o
planeio. Ao voar como um fantasma, não era atingido por fatores externos como a
acides dos gazes do planeta. Tudo dependia de sua vontade e, quando se
distraísse ou assustasse, voltaria para o tempo normal com o mesmo solavanco.
Nada disso era
registrado o que lhe causava uma estranha sensação, alguma coisa que unia
liberdade e solidão, euforia e medo.
Foi pedir aos
engenheiros um veículo individual e soube que já existia o projeto. Havia uma
demanda crescente de passageiros e, com esse veículo, ele poderia saltar de uma
para outra bolha ou usar propulsão.
A idéia de Arn era
abandonar os passageiros congelados nas estações e fazer suas viagens sem se
preocupar com inocentes arrastados em aventuras que desconheciam.
Sobre os mundos
Cada mundo tinha seu
próprio movimento e, conseqüentemente, sua forma de dividir o ano. Diferentes
horas para a luz do dia resultariam em confusão caso não fosse a adoção do
padrão Terra que rege nossa fisiologia. Na CE as luzes eram apagadas a cada
doze horas, nos mundos, onde o dia é curto, luzes artificiais, onde é longo,
proteção para os olhos e cortinas pesadas. É claro que pessoas e plantas, com o
passar do tempo, acabam se adaptando, mas quando tudo funciona o tempo todo e
há facilidade de comunicação, o estresse se acumula e surgem problemas de
saúde.
Saudade de Jon
Não há como desligar o
implante, tudo é gravado o tempo todo. Arn gostaria de contar a Jon sobre suas
descobertas, mas teria de fazer isso no tempo normal. Sabia que a idéia de
viajar por mundos ácidos quando só o que os passageiros queriam era apenas ir
de um ponto a outro, não soaria seguro ou agradável. Além disso, seria
transgredir novamente as regras da agência.
Passou algum tempo sem
ver seu ex-provocador. Muita coisa aconteceu e o desejo de fazê-lo sorrir ao
contar crescia.
Trabalhadores
envelhecem tão rápido quanto Puros, por isso é preciso aproveitar enquanto existem.
Arrependeu-se de ter
pensado isso, fez a pressa para vê-lo tornar-se ansiedade e tristeza.
Finalmente de volta a
Ox, percebeu que tudo havia mudado. Jon tinha outros provocados na Escola, a
maioria filhos naturais de Trabalhadores. Não havia entre eles um que
representasse um desafio como Arn foi. Sua aparência era a de um homem maduro e
cansado. Feliz por vê-lo e por ter cumprido sua missão de educador e
incentivador, mas ter atingido o objetivo trazia a sensação de inutilidade.
Onde estava Rosa com
seu discurso sobre ordem caótica?
Contar sobre seus
experimentos e deixar que ele opinasse lhe traria um novo fôlego e é isso o que
Arn decidiu fazer, mas depois que sua cabine móvel ficasse pronta.
Entrevista com Amaury jr.
No palácio, havia um
casal oficial, Arn e Rosa, a moça. Aos olhos do público, eram como príncipe e
princesa num conto de fadas.
Na vida real, eram um
ausente, fanático pelo trabalho e uma cadela no cio.
Sensitivos são
hedonistas. É uma característica dessa casta. Usam tanto a mente que precisam
de uma compensação: os prazeres da carne, os instintos primitivos que não
exigem, ou antes, excluem o raciocínio. Ou um amor unilateral, idealizado,
sagrado e muito palpável desde que não seja questionado. E o sagrado não deve
ser questionado, ou nunca foi sagrado.
Arn estava certo de seu
amor por Rosa, tanto que não precisava vê-la. Já ela, era uma adolescente que
acabava de descobrir uma poderosa fonte de prazer.
- Estamos aqui hoje com
o casal do momento: Arn 6, o garoto que revolucionou o transporte espacial e
Rosa d’Arthur 2. O que vimos foi um compacto com os melhores momentos deles sob
o patrocínio da Agência Espacial de Teha. Vamos conversar um pouco com eles,
mas antes, Arn tem um comentário sobre as agências. Arn?
- É só um lembrete: Sou
funcionário da agência de Ox, como todos sabem, e faço o transporte
instantâneo. Quem não tem pressa, aqueles que prezam a saúde e qualidade de
vida, podem usar o transporte normal. A competição que existe entre as agências
é para trazer um serviço cada vez melhor para todos, inclusive seus
funcionários, gente capaz de transformar uma viagem num momento de prazer. Por
isso, mesmo a trabalho, tire férias, viaje com a Agência de Teha ou de Lasli.
- Até porque os seus
vôos estão muito concorridos, não é verdade?
- É sim. Entendo que o
que faço é novidade e isso atrai a curiosidade, mas esperar muito mais tempo do
que se fosse confortavelmente num cruzador não faz sentido. Tenho visto gente
apostar que pode sentir quando o transporte é feito. É impossível. T igual a
zero não é um segundo, não é um momento que se pode sentir. Não há sensação de
aceleração. Vejo gente procurar onde se apoiar, pálidos de medo, e depois
reclamar porque não sentiu nada, a maioria sequer acredita que estão em outra
estação quando as portas se abrem!
- Temos uma seleção de
expressões, as mais engraçadas! E aqui está essa moça tão bonita e que disse
“cala a boca e beija” quando o Arn quis levantar da mesa. O que você estava
pensando ali?
- Que ele ia mesmo
levantar. Senti ansiedade. Sei que temos um futuro juntos e que ele estava
fazendo um jogo, mas me pegou!
- Você é Sensitiva,
filha natural da figura mais polêmica desde os tempos da CE e uma não
conectada. Você pretende ser como sua matriz, sua mãe, como prefere?
- Vou começar pelo
conceito. Mãe é um conjunto de coisas, não apenas a mulher que gera uma
criança. A base dessas coisas é o sentimento que a natureza impõe, mas é também
uma ligação mais sutil, bem conhecida dos Sensitivos videntes. Minha mãe é
polêmica porque decidiu dar as costas para o mundo de aparências, de meios
artificiais para atingir objetivos questionáveis. O que ela fez foi ser
coerente. Se você nasce, tem um destino, uma função neste nível da existência.
Se não se pode prever cada momento, pelo menos os fatos importantes que pontuam
a vida podem ser antecipados. A vida vai te levar até esses momentos, logo, por
que se preocupar com roupas ou comida?
- Sim, mas ela é
polêmica também por outros motivos. É conhecida como a grande bruxa má!
- Ela julgou mais importante saber como são as
pessoas, o que há por baixo da beleza e asseio que servem para tornar mais
fácil atingir os objetivos primários: valorizar o próprio ego e garantir a
sobrevivência, basicamente sexo e comida. Entre os loucos e miseráveis das
ruas, ela descobriu a essência do humano não contaminado pelos jogos de
aparências e as energias dos seus símbolos. Se fez coisas questionáveis, foi
para testar suas convicções entre os imersos nessas aparências, os que
esqueceram a própria essência.
- Você quer ser como
ela? Uma bruxa má do bosque?
- Eu sou como ela.
Quanto a ser má, tenho um exemplo. Se você ajuda alguém a carregar um peso,
você é uma pessoa boa. Ajude sempre e o outro enfraquece a ponto de não
conseguir levantá-lo sozinho. Você será bom quando ajudar e mau quando não
puder. Se não parar antes desse momento, você se torna o escravo de um viciado.
- Vamos deixar sua mãe
para um outro programa. Minha equipe tem corrido atrás dela, mas é uma figura
difícil. Certamente ela está nos vendo agora. Fica o convite no ar. Arn, há um
novo aparelho que acaba de ser construído. O que é aquilo?
- Uma cabine móvel, um
veículo independente da bolha onde ficam os passageiros. Com ela, vou poder
fazer mais transportes.
- E existe também uma
pesquisa relacionada. Sobre o que é?
- Uma coisa curiosa que
me chamou a atenção logo nos primeiros transportes: para engatar a bolha na
estação, eu fazia correções. Isso não é possível em tempo zero, logo, há um
tempo dentro do tempo. Se é que isso faz sentido.
- Devo dizer aqui que,
vindo de vocês dois, qualquer coisa faz sentido! Mas por que um veículo
separado?
- Pelos passageiros.
Eles podem não se sentir confortáveis com a idéia de viajar bem mais do que
deveriam, mesmo que o tempo seja exatamente o mesmo.
- E o que os
engenheiros dizem disso?
- Cada um tem uma
teoria. Uns dizem que eu nunca viajei no espaço, apenas na luz que vem dos
lugares onde entrego os passageiros, outros especulam que uso um “buraco de
minhoca” dobrando o universo, outros falam de universos paralelos. Não há
consenso, tudo é teoria até que eu traga provas.
- Existe algum perigo?
Você não pode se perder nesse tempo dentro do tempo?
- Não e isso é outro
fenômeno. Se estou investigando e me distraio, volto para o tempo normal automaticamente
como se caísse.
- Caísse? De que
altura?
- Acho que me expressei
mal. É como acordar de repente.
- Menos mal! Mas como é
que pessoas tão diferentes como vocês resolvem se unir?
O resto da entrevista
foi sobre as futilidades picantes que as pessoas gostam de ouvir entre um
anúncio comercial e outro.
Viagens paralelas e mapas
Liberdade e solidão,
euforia e medo.
A bordo de sua cabine
móvel, Arn misturava esses sentimentos ao ir para onde seu nariz apontasse e,
mais do que ver, meter-se entre nuvens luminosas, atmosferas com gazes
inusitados, gigantescos blocos de gelo que flutuam no nada.
Sempre voltando para
onde havia deixado a bolha, normalmente já na estação de destino, pronta para o
desembarque.
Eram horas nesses
passeios, ainda que o relógio não funcionasse. Nada funcionava. Tudo na cabine
era transparente, inclusive ele mesmo.
A cada transporte, os
engenheiros sabiam que ele havia ido para algum lugar além da estação espacial
seguinte. Relatos detalhados eram a única forma deles calcularem por onde Arn
esteve. Sentiam-se cegos e passaram a exigir que ele completasse um mapa
tridimensional periodicamente com o máximo de detalhes.
Quando não estava
fazendo os transportes, estava com os engenheiros, lidando com mapas, em
transito entre a estação e o palácio ou com Rosa que também exigia presença,
carinho e sexo.
Era um momento novo e
brilhante, de realização profissional, reconhecimento público, cercado de luxo
e carinho. Mas faltava alguma coisa.
São raros os planetas
onde a vida humana é possível, mas existem. Nesses planetas ou luas, a vida
explodia nas formas mais exuberantes, coisas que Arn reconstruía ao descrever
para a máquina.
Sábios demônios de Inferno
Num desses planetas
encontrou um animal que lhe chamou a atenção. Eram alguma coisa entre inseto e
lagarto, pele vermelha, seis membros, uns três metros de altura quando ficavam
nas patas de trás e, na cabeça, um tipo de bico que lhes permitia devorar a
caça a partir do interior.
Estavam no alto da
cadeia alimentar, ou seja, eram caçadores cheios de estratégias que também
comiam frutos e não tinham casas fixas.
Arn não entendeu como isso poderia ser
possível, mas esses animais paravam para olhar em sua direção quando ele não
era mais que um fantasma. Isso o assustou. Na verdade não foi só isso, houve
também uma comunicação telepática, um comando irresistível. Sua reação foi
voltar para Ox, mas não no tempo normal e sim num tempo em que se sentia
seguro.
De repente, estava nos
gramados ao redor do prédio da Escola quando Jon se aproximava com a maquete da
Voyager, um cubo central com desdobramentos que eram os painéis solares, a
fonte de energia da época.
Arn queria o abraço de
Jon como uma criança que pede colo. Esse foi o momento em que tudo começou e
trazia sua carga emocional. Orgulho, esperança, segurança, mas nessa segunda
visita à esse instante, havia a presença de monstros vermelhos que o
observavam.
- Tio Jon!
Ele olhou para o vazio
antes que um menino surgisse com o anel invertido, ansioso para ver um
brinquedo grande e desajeitado que trazia o disco sulcado com a música
Satisfaction dos Stones.
Eram imagens do
passado. Luzes que se propagam pelo nada carregando eventos.
“Vá ver seu pai antes que ele morra!”
Que ordem é essa? De
onde vem e quem se julga com essa autoridade?
Ao seu redor, Arn ainda
via a cabine, mas era incentivado a esticar as pernas e tocar a grama. Foi o
que ele fez e, de repente, viu a si mesmo de pé ali, completamente
materializado.
Só o que lhe ocorreu
nesse momento foi um nome para o novo planeta: Inferno, lar dos Demônios
vermelhos de seis membros que vêem fantasmas alienígenas e interagem com eles.
O menino que ele mesmo
havia sido nem tanto tempo atrás, o viu antes de desaparecer e o efeito
chicotada o devolveu para a estação no tempo normal.
A notícia se espalha
- Que loucura é essa,
Arn?! Você estava rodeado de alienígenas que te incentivavam num tempo passado?
Isso faz sentido? Entendi direito?
- Entendeu, tio Jon.
Foi no dia em que você trouxe a réplica da Voyager.
- Não lembro de ter
olhado para o vazio. Você lembra de ter visto a si mesmo antes de saltar de
volta para dentro do prédio?
- Eu não vi nada. Só o
que eu tinha na cabeça era ir para onde você estava levando a maquete.
- Alienígenas!
Homenzinhos verdes! Que fantástico!
- Vermelhos, tio.
- Caçadores
coletores... evolução humana. Foi você quem viu os caras. Especule!
- O que eu vi foi um
bando de animais que podem vir a ser inteligentes. Andam nus, caçam de maneira
organizada, mas com uma estratégia que pode não ser racional. Não os vi
planejando. Não usam ferramentas e nenhum tipo de enfeite. Só que me viram. Não
imagino que implicações isso pode ter, mas certamente tem.
- Uma raça de animais
videntes?
- Mais do que isso. Me
aconselharam a vir te ver antes que você...
- Antes que eu o
que? Antes que eu morra?
- É isso, tio. Essa foi
a mensagem.
- E quando isso vai
acontecer? São adivinhos também?
- Só disseram para vir
e me acompanharam. A sensação de emergência pode ter sido coisa minha. Na
verdade não sei se vim ou se fui trazido. Não pensei que era possível tomar
parte de um evento passado. Foram várias novidades juntas. Acho que tive medo.
- Por que veio para cá?
- Não gosto de imaginar
qualquer coisa ruim acontecendo com você, tio Jon. Acho que esse sentimento
chamou a atenção deles.
- Imaginar? Você tem um
lado vidente. Sente que eu corro algum risco?
- Sinto sim, tio Jon. É
uma impressão difusa, mas existe. Outro Sensitivo, um melhor treinado, pode
esclarecer.
- Isso seria bom! Não
tenho pressa, mas sei que todo mundo morre um dia. Você é um clone especial,
vai viver trezentos anos. Eu sou Trabalhador, vivo muito menos, isso se não
acontecer um acidente qualquer. Vou perguntar a um dos meus provocados. Tenho
uma menina excelente.
- Faça isso e procure
se cuidar melhor.
- Você tentou repetir
essa viagem ou o contato com esses bichos?
- Ainda não, tio, mas
agora que sei que posso me materializar, estou pensando em fazer isso perto
deles e ver como reagem.
- Mas se são caçadores,
não há perigo deles te atacarem?
- É uma das reações
possíveis, nesse caso, volto para o tempo normal.
- Eles te acompanharam
até aqui. Não seria boa idéia ter um bicho de três metros numa estação espacial
cheia de gente. Acha que existe esse risco?
Nesse momento soa o
sinal de comunicação. Um dos engenheiros surge no monitor que Arn tira do
bolso.
- Desculpe interromper
e por estar bisbilhotando, Arn, mas não acho que essa seja uma decisão que você
pode tomar sozinho.
- Sei que sempre tem
alguém da agência comigo, não se preocupe. Eu ia mesmo falar com vocês. Espere
que tem mais gente chamando. Oi, senhor Marus!
- Arn, você se superou
de novo! Parabéns! Agora vamos cortar caminho. Você aí da agência, pode me
passar para o chefe de projetos Nelson, por favor? A idéia é a seguinte, Arn:
certamente você pode levar uma estação, em partes, é claro, para esse planeta,
Inferno, como você batizou. Quando não se sabe se alguma coisa é perigosa, o
melhor é não arriscar...
- Chefe de projetos,
Nelson, aguardando, senhor Marus.
- Oi, Nelson, preciso
de uma estação que possa ser transportada no veículo do Arn, em partes, e possa
receber grupos que serão transmitidos para o planeta. Não sei se você estava
ouvindo a conversa. Reveja a gravação. Serão cientistas e pelotões de Soldados
que vão estabelecer colônias em Inferno. Quero um projeto disso o quanto antes.
Diga qual é o tempo necessário.
- Temos alguns projetos
prontos, senhor, um deles é uma base com módulos infláveis que pode servir.
Talvez cinco dias, senhor.
- Não ocupe meu tempo
com detalhes e faça na metade disso. É possível?
- Acredito que sim,
senhor.
- Então vá trabalhar,
Nelson! E dê um abraço meu em todos aí! Arn, sei que você vai fazer as suas
experiências de qualquer forma e que o mapa está atrasado. Coloque esse planeta
e esqueça o resto por enquanto, mas fundamentalmente, não corra riscos pessoais
e nem traga esses demônios para cá. Peço isso em nome da Rosa e em meu próprio.
Logo Inferno terá uma nova raça no topo da cadeia alimentar. Agora volte a
falar com seu provocador, dê um abraço nele por mim e, quando voltar,
ergueremos um brinde. Até logo!
- Não há como não me
orgulhar de você, Arn! O engraçado é que parece que eu já disse isso antes.
- Talvez tenha dito, de
qualquer forma é o efeito para uma causa que te inclui, tio Jon.
- Bom... E como vai o
romance com Rosa, a moça?
A conversa seguiu por
caminhos amenos daí para frente e por toda tarde, entediando fãs, observadores
da agência e jornalistas. Arn preferiu não falar de sua relação pessoal e Jon
mudou de assunto. Nada que pudesse gerar conversa surgiu, mas aqueles que buscam
as emoções privadas, só teriam de esperar até que ele chegasse ao palácio.
Gratidão de Marus
Lá todos já se haviam
recolhido, apenas Marus fez o brinde como havia prometido.
Haveria uma festa, a
ocasião merecia, mas esta teria de esperar até que os convidados fossem
avisados.
Aos poucos, Marus se
tornou mais um amigo, longe da imagem do Líder Supremo a quem tratar com
respeito o tempo todo ou o pai, como ele mesmo sugeriu que o tratasse.
Líderes são atenciosos
por natureza, se é que se pode dizer isso de clones modificados. Estão sempre
observando pequenas reações, identificando desejos e criando estratégias para
que todos tenham a impressão que estão conseguindo o que querem. Essas reações
são parte de uma linguagem não verbal, para eles, mais confiável que as
palavras podendo confirmar ou desmentir o que foi dito. Vivem como se a vida
fosse uma peça teatral e sabem fazer o público entender uma mensagem mesmo sem
palavras.
Em primeiro lugar,
Marus estava alegre porque finalmente havia uma chance de dar aos Soldados um
inimigo a altura, mas não deixaria de perguntar sobre a CE.
- Preciso de pontos de
referência, Marus, vou a lugares que vejo ou que sei onde estão.
- Sei disso. Desculpe
por perguntar. Mas você surpreende todo mundo o tempo todo! Não falo só da
descoberta desse planeta, mas com o transporte em si, essa coisa de tempo
dentro do tempo e agora com a possibilidade de se materializar. Você deixa os
físicos e engenheiros malucos!
- Eu bem que gostaria
de ter algumas respostas para eles.
- Bobagem! É o trabalho
deles. Eles que estudem o que você faz e como faz! Aquela maçã da história não
caiu da árvore com uma equação na casca! Tenho certeza que você vai encontrar a
CE de algum modo. Agora vá dormir.
Putarias da Rosinha
No quarto.
- Meu dia foi
proveitoso. Minha mãe serviu o almoço e me contou histórias que ilustram
arcanos da cabala. Mitos antigos da Terra que falam de escolhas, de trabalhos a
serem realizados com inteligência e momentos em que é preciso não fazer nada.
Também fiz sexo com dois caras ao mesmo tempo. O mais culto e bem humorado me
fazia rir enquanto o mais bruto me ofendia e batia no meu rosto. Não sei por
que, meu orgasmo veio com este último. Claro que as ofensas eram infundadas e
não me atingiram, mas a maneira como ele falava me excitava. Acho que a
violência é prova de capacidade para defender crias, não era alguma coisa
contra mim, mas meu corpo reagiu me mostrando, com o orgasmo, quem seria um
melhor pai para filhos meus, numa época qualquer, antes do começo da agricultura.
Falo de quinze mil anos atrás. E o seu dia? Foi bom?
- Foi. Quer dizer,
normal. Aconteceram algumas coisas, mas... vi o Jon.
- Você estava louco
para falar com ele. Ele está bem?
- Está sim.
- Ah, Arn! É tão bom
ter o calor do seu corpo na hora de dormir! Quando você quiser prazer sexual é
só me dizer, ta?
- Você faria qualquer
coisa por mim, não é?
- Qualquer coisa! Claro
que não tenho um corpo como o daquelas suas mulheres Soldado, mas posso
descobrir suas zonas erógenas e fazer um bom uso delas. Gosto de você, Arn,
querido! Vou gostar sempre! Minha mãe está certa quando diz que as famílias
devem voltar. Sinto que sou só sua!
- Seu coração é só meu?
- Só seu. E estou muito
feliz ao seu lado. Acho que isso é o mundo que você me daria conforme a previsão.
Um mundo de paz, segurança e esse calorzinho gostoso. Não preciso de mais nada
além de saber que o seu coração também é meu!
Refazer visitas - monstros
Não havia um raciocínio
por trás das viagens, o que Arn fazia era ir onde queria. Ter encontrado o
planeta Inferno foi só coincidência, uma estrela visível perto de outra e perto
desta, um planeta que lhe atraiu a atenção.
Tinha de memorizar
caminhos e refazê-los cada vez que queria repetir um lugar. Os mapas ajudavam,
mas eram uma prisão do mesmo tipo que o obrigava a realizar testes como tentar
se materializar exatamente no mesmo local, o gramado em frente a Escola, mas
não sabia se o momento era o mesmo. Não conseguiu.
Pensou em ir até
Inferno e, de lá, refazer o caminho de volta. Novamente falhou. Permanecia um
fantasma flutuando acima do gramado e então decidiu voltar ao planeta Inferno
disposto a encontrar os demônios que, teve de admitir, o conduziram.
Sobrevoou o primeiro
bando que encontrou e sentiu medo quando foi acompanhado com o girar das
cabeças, mais medo ainda quando começou a descer sem controle e se materializar
no meio deles.
Sentiu o chão contra
seus pés e viu a cabine desaparecer, então respirou o ar daquele planeta pela
primeira vez.
Um dos monstros, muito
mais assustador quando visto de perto, aproximou-se apoiado nas quatro patas
traseiras como um centauro. Sua atitude não era agressiva, pelo contrário,
esforçava-se tentando algum tipo de comunicação.
A dificuldade estava na
ausência de ego. Ele, na verdade eles todos, não concebia a idéia de indivíduo.
Houve comunicação. Um
volume muito grande de informações foi passado, mas tudo ao mesmo tempo de
forma que Arn precisaria de tempo para separar o que recebeu.
Num piscar de olhos,
ele tinha não só a informação que foi buscar, mas todo o tempo de existência
daquela raça.
Poucos segundos diante
daquele enorme e horrível animal foram suficientes para que Arn se
desmaterializasse e voltasse ao tempo normal. Já havia deixado a bolha
engatada, mas não esperou que os passageiros saíssem.
Normalmente usava o
motor da cabine para ir dali para sua porta privativa na parede externa da
estação, desta vez resolveu saltar.
Ainda sentia os efeitos
da adrenalina no sangue, afinal, seu corpo funcionava neste tempo e não naquele
em que esteve a poucos centímetros de um monstro que facilmente poderia abrir
seu peito e devorá-lo a partir de dentro. Mas já não havia motivos para ter
medo, não só pela distância, mas por que eles, os demônios, não foram
agressivos.
Ao sair da cabine para
a estação, estava absolutamente confuso. Abrir as portas e sair foram atos
feitos sem pensar, no automático.
Precisava de tempo para
por as idéias em ordem e imaginou que poderia sentar-se no café e não falar com
ninguém por alguns minutos, mas havia um grupo de fãs lá. Seu nome foi gritado
e xícaras foram erguidas. Arn deu meia-volta e entrou no banheiro.
Escolhia um box vazio
quando viu um demônio às suas costas. Com o coração novamente aos pulos,
percebeu que era o espelho e este não refletia nada além de sua cara
empalidecida pelo susto.
Sentado no vaso,
finalmente sozinho, entendeu que os demônios não foram agressivos com ele por
uma razão: identificação. Eram inteligências sem ego e sem tempo. Talvez uma
coisa seja conseqüência da outra, mas por que se identificariam com ele? De
qualquer forma, a falta de agressividade foi exclusivamente com ele em função
dessa identificação. São, pelo menos neste momento da evolução, predadores
ferozes e espertos. Ao mesmo tempo, ou num outro tempo, são sábios e
sofisticados. Como isso pode fazer sentido? Por que parece tão natural?
Um dos fãs o procurou
no banheiro, chegou a chamá-lo, mas desistiu. Arn já sabia com quem falar e
como faria para que a conversa não constasse nos arquivos. Mais alguns minutos
e surgia em frente à Escola, horas antes de sua última visita a Jon no tempo
real.
Desabafo com a imagem de Jon
Era estranho estar ali,
surpreendente a facilidade com que desceu depois de um planeio e sentiu o chão
livrando-se da cabine. Caminhou até a sala onde viu seu ex-provocador sentado
no chão com crianças.
- Jon?
- Oi, Arn! Eu só te
esperava mais tarde, mas que bom que você está aqui! Estes são meus novos
provocados e, molecada, este é Arn 6, o garoto do transporte instantâneo. Digam
oi pra ele!
- Oi, Arn 6!
- Oi, pessoal! Tio Jon,
se você tiver, acho que menos de um segundo, eu gostaria de ouvir sua opinião
sobre um assunto.
- Menos de um segundo?
Acho que sei de que se trata! Meninos, eu já volto. Continuem a discussão.
Passaram dos corredores
para o jardim.
- Não sei como começar,
tio Jon, nem sei exatamente como fiz para estar aqui. Encontrei uma raça de
animais alienígenas e falei com eles.
- Isso eu sei. Você
relatou sobre o planeta Inferno com os demônios.
- Sim. O que acontece é
que eles me ensinaram a voltar no tempo e aqui estou, no passado, logo depois
de uma conversa com um deles que não é um deles, mas todos eles. Eles não têm
ego, um é todos e, de alguma forma, eu sou um deles, ou serei, já que eles
também não tem tempo.
- Espere, espere,
espere! Você parece drogado! Que viagem é essa? Se quer que eu entenda, fale a
minha língua! Você está no passado? E eu? Como você conversa com um deles e com
todos? Não entendi nada!
- Tio, você não é você,
é só sua imagem. Sabe quando você gira uma brasa no escuro, que fica um rastro
de luz? Eu estou num ponto qualquer desse rastro, não na brasa onde seria o
presente. Isto é passado! Sua essência está aqui, por isso posso falar com
você. Mas vou desaparecer e você estará lá com seus provocados até a noite
quando vim no seu tempo de agora, que também é passado. Mas isso não interessa.
Acabo de falar com esses monstros e preciso pensar...
- Não Arn! Não precisa
e, aliás, não deve! Não entendo porra nenhuma do que você está falando, mas por
boa parte da vida, trabalhei com crianças estranhas, meninos e meninas que vêem
coisas, que fazem cálculos, que prevêem fatos que se concretizam. Nunca sei do
que falam, nunca entendo, mas tenho um sistema, quando tudo está confuso, pare,
pense em outra coisa, distraia. No momento certo a solução vem por si. O ócio é
fundamental. Quando se está envolvido com alguma questão que gera essa ansiedade,
relaxe, adie! O que quer que seja que está na sua cabeça não vai sair, pode se
misturar com outras coisas e é a soma dessas coisas que vai trazer a solução do
problema. Isso acontece naturalmente, sem esforço. Por isso, relaxe! Apenas
relaxe!
- Tio Jon, acho que
entendo o que você quer dizer. Não esperava menos do que isso. Até já me sinto
melhor. Mas quero aproveitar e colocar algumas coisas que recebi dos demônios
em ordem. Por exemplo, percebo que o lado emocional da nossa relação é
importante. Talvez sejamos um. Talvez eu seja um com Rosa, com Marus, com Rosa,
a velha, com meus irmãos Sensitivos Pilotos. Os demônios de Inferno são assim,
nascem e são amados por todos, são um com todos. Eu realmente acho que você é
só um reflexo do Jon real. Este momento vai desaparecer, por isso vou dizer uma
coisa do fundo do meu coração e sumir de volta ao tempo normal, covardemente,
para onde abro e fecho portas: eu amo você, seu filho da mãe generoso, justo,
companheiro, equilibrado e sei lá que outros elogios eu poderia fazer. Você foi
o pai que eu não tive. Eu odeio você de tanto amar, seu prepotente,
dono-da-verdade, estúpido!
- Arn.
- Cala a boca que eu
não terminei! Não gosto da atitude da Rosa. Vagabunda filha da puta! Amo e
odeio aquela vaca! Odeio a mim mesmo por não dar um basta nas aventuras dela.
Mas quem sou eu para fazer isso? O coração dela é meu, mas orgasmo ela tem com
quem quer. Sou inteiro? Ou sou só um fantasma, um coração, um cadáver quente na
cama na hora de dormir? Jon, amor é prisão? É gaiola de ouro?
- Arn, você está
surtando?
- Tio Jon, você é um
babaca! Trabalhador estúpido, nascido só para povoar. A porra da sua vida não
tem qualquer valor! Eu te sustento, pago a comida que você come e o lugar onde
você dorme. Pago tudo! Até os meus irmãos Pilotos nos três mundos vivem ás
minhas custas! E para que eu preciso de dinheiro? Para nada! Não existe
dinheiro, só prestígio! Trabalhador imundo, eu tenho isso, tenho crédito e fãs,
e tenho tudo isso por sua causa, seu filho da mãe!
- E mora no palácio da
Suprema Liderança, e dorme com a mulher mais gostosa dos três mundos e pode
absolutamente tudo, seu branco azedo!
- Por que você me chama
assim? Eu sou um mestiço claro, você sabe disso.
- É só uma expressão,
bwana! Alguém foi arrogante aqui. Esse alguém tem nobreza suficiente para pedir
desculpas?
- Me desculpar por
falar a verdade?
- Não sou sujo,
estúpido ou babaca. Meus proventos vêm de trabalhos feitos por anos com
honestidade e carinho. Ou você acha realmente que o que você disse é verdade?
- Não, senhor “imagem
animada do tio Jon”! Nem sujo, nem estúpido e nem babaca. O que eu quero é
abraçar esse safado até que ele sufoque de tão grato que sou! Foda-se se você
não entende e se ofende. Eu amo aquele velho safado que tornou possível o que tem
acontecido, não pelo que tem acontecido, mas por ele mesmo, pelo simples fato
dele existir e ter feito parte da minha vida. Você fez muito bem o papel dele,
mas não é ele. Não no tempo certo.
- Você ama mesmo o
filho da puta, né?
- Mais do que eu mesmo
imaginava.
- Posso estar no tempo
errado, mas vou dizer uma coisa: ele também te ama e se orgulha de você, seu
bostinha! Agora, se era só isso o que você queria dizer, podemos voltar para
nossas atividades do seu e do meu tempo normal? Tenho uma sala com meninos
ansiosos por informação e não lido muito bem com emoções deste tipo.
Como funciona – planeta Rosa
Arn não tinha certeza
do que aconteceria quando reassumisse seu lugar na cabine de onde, do ponto de
vista do tempo normal, aquele em que as imagens são captadas e arquivadas,
nunca havia saído.
O que sabia era
experiência de outros, de monstros vermelhos alienígenas que não mereciam outro
nome senão demônios. Através deles, tinha a convicção de que não estava no
passado, mas num rastro de luz. É como um surfista numa onda, só que essa onda
é feita da luz que banhou um ponto qualquer do universo num momento qualquer.
Deveriam ser só imagens, mas ondas tão complexas têm a capacidade de reagir a
novos estímulos.
Sua conversa com essa
imagem de seu ex-provocador foi um desabafo, coisa que ele gostaria de dizer ao
Jon real, mas não tinha coragem.
Voltar à estação foi
questão de deixar-se cair no momento presente, como se houvesse um tipo de
gravidade envolvida.
Certamente os
engenheiros transformariam isso tudo em equações que serviriam de base para uma
máquina, mesmo que o ponto inicial fosse um clone com genética alterada. Um
cérebro como o seu poderia ser desenvolvido como as partes de animais que
crescem ligadas a máquinas, as árvores de vacas de plástico.
A conversa não
contemplou os demônios e suas informações misturadas, o desabafo era mais
urgente. Por isso sentia-se melhor a ponto de adiar aquilo que sabia que viria
de qualquer forma.
Mapas detalhados. Onde,
o quê, como, especulações.
Portas abertas, portas
fechadas, portas abertas de novo e lá vinha o garoto tomar café. Pensativo,
meio tonto, às vezes triste, às vezes eufórico. Abria seu Caderno e completava
o mapa. Uma estrela ao lado de outra com planetas, com determinadas
características, com animais e plantas ou só gases, mares e pedras.
Os mundos que Arn
visitava eram os visíveis e as informações que ele trazia, confirmáveis através
de telescópios.
O Planeta Rosa,
batizado por ele, era um exemplo de perfeição, um verdadeiro jardim com duas
luas, sendo que uma delas com anéis. Mares salgados e grandes lagos de água
doce, selvas, geleiras, desertos. Cada continente parecendo colocado
propositadamente em lugares estratégicos para produzir um tipo de ambiente.
Este era o presente para Rosa, a moça, o mundo previsto.
Terra
Por que esse filho da
mãe não vai para a Terra? Se perguntavam os engenheiros. Ele já tinha ido.
Vênus, Marte, Terra,
Europa. Mundos da estela Sol, lar dos Puros.
Aqui se luta contra
condições adversas com armas pesadas. Grandes escavadeiras trabalham no subsolo
marciano criando áreas de plantio enquanto o cinturão de asteróides é explorado
como uma gigantesca mina flutuante. O escaldante Venus produz a energia que é
consumida na Terra, o violento, poluído e super povoado berço da espécie
humana.
Ele não perderia a
chance de sobrevoar como um discreto fantasma algumas cidades.
Nesse planeta as etnias
ainda se mantém apartadas e julgam isso natural. A maioria tem pele escura, se
espalham por todos os continentes e vivem em condições modestas em contraste
com ilhas de abundância onde vivem os de pele mais clara.
Ao relatar o encontro,
ouviu dos engenheiros da agência a sugestão de fracionar a distância deixando
bóias pelo caminho. Estas poderiam encontrar a CE e seriam pontos conhecidos a
visitar periodicamente.
Encontrar a CE era a
idéia original, mas uma vez que a Terra estava ao alcance, seria a vez dos
Líderes entrarem em ação e agirem diplomaticamente antes da chegada das
notícias questionáveis das quais a nave era portadora.
Agentes secretos -
reunião
- Essa é a situação,
senhores. Quero sugestões sobre o que fazer, se fazer e quando fazer. Falem
livremente. Vamos especular! Diga, Nelson.
- Sr. Marus e senhores
da equipe. A agência ainda questiona o tempo no processo do transporte. Existe,
na nossa opinião, um atraso que se torna significativo em distâncias maiores.
Arn não vai para os destinos que vem descrevendo nos mapas, mas harmoniza-se
com a luz que vem desses destinos a ponto de senti-los como sólidos. O problema
é que não há como ele saber a diferença. Isso implica em transferir pessoas e
equipamentos para um lugar que não existe a não ser como onda luminosa.
- Você pode explicar
isso, Arn?
- Posso tentar. Fiz
alguns testes que ainda não relatei. É a primeira vez que estou desconectado e
não resisti. Espero que o pessoal da agência compreenda. Indo ao ponto, sabe-se
em teoria que matéria é energia condensada. Esse ponto de condensação coincide
com o momento presente para onde sempre volto, as vezes involuntariamente. Posso me harmonizar com outros momentos e ser
virtual num universo virtual o que dá a sensação de solidez. Isso é diferente
de estar em outro lugar no presente.
- Desculpe, senhor Arn.
Meu nome é Bao e, como representante do governo de Ox e possível membro da
expedição à Terra, gostaria de saber se o que o senhor faz é ou não é viagem no
tempo e, no caso de ser, o que há no futuro?
- Esqueça o “senhor”
Bao. Não é viagem no tempo, logo, não vi o futuro. Sei que é um conceito novo e
difícil. Talvez um dos Sensitivos engenheiros especialistas seja capaz de
traduzir para Líderes e o povo em geral.
- Ainda não, Arn. Só o
que temos são teorias baseadas em devaneios e futilidades. Se ao menos os mapas
estivessem em dia e com os comentários, isso poderia virar uma equação.
- Senhores. Os mapas
estão sendo completados neste exato momento em que conversamos. Bao, o Arn é
Sensitivo, não Líder, e tem dezessete anos. Ou ele diz o que pensa ou se
preocupa com formalidades. E, Arn, não cutuque a agência. Sei que é chato dar
detalhes e é a primeira vez na vida que você se sente tão livre, mas “vá na
boa!”
- Sei disso, só queria
mostrar respeito, Marus.
- Sei o que você
queria, Bao. Mas vamos voltar ao objetivo inicial. Temos mais um membro da
expedição, a Sensitiva Vta, telepata e boa com estratégia.
- Senhores. Precisamos
de mais informação. Não sabemos em que direção a Terra caminhou nestes quase
trezentos anos e o que Arn trouxe é muito pouco. Falo de linguagem, religião e
cultura geral, quem são e quais as características pessoais dos principais
líderes deles e dos que os rodeiam. Minha sugestão é usar observadores
infiltrados antes de um contato direto.
- Agentes secretos? Me
parece uma boa idéia!
- O termo que o senhor
preferir, senhor Marus. Mas precisamos de imagens dos habitantes para que os
nossos sejam confundidos com os nativos.
- E como o Arn poderia
fazer isso sem se materializar? Tem alguma idéia, Nelson?
- Interceptando sinais
de satélites de comunicação. Podemos preparar equipamento para isso em algumas
horas, só precisamos saber que tipo de onda eles estão usando agora. Também
nesse caso, não há problema.
- Quantos e como descer
com eles até a superfície?
- O número depende de
onde. Quanto mais próximos dos centros de poder, menos são necessários.
- Posso levar uma bolha
com pessoal e equipamento, achar um lugar deserto e deixá-los lá até que
estejam prontos para voltar.
- Bom. Acho que essa
seria uma boa primeira etapa. Estão todos de acordo com o método dos agentes
secretos? Então, assim que soubermos mais sobre a estrutura de poder na Terra,
seus líderes e como pegá-los, volto a me reunir com vocês. Bao, esse é o seu
pessoal, você coordena. Arn, é com você. Como sempre, quero soluções e
resultados e vocês são os melhores. Até logo.
- Agradeço o encargo e
o incentivo, Marus, sei que seremos uma boa equipe, mas quero perguntar mais
uma coisa ao Arn.
- Diga, Bao.
- Durante um desses
sobrevôos seus como um fantasma, se eu for com você, vou poder ver a paisagem?
- Infelizmente não. Em
menos de um piscar de olhos, saindo da estação, você estará no destino. Verá as
portas se fecharem e se abrirem imediatamente para mostrar outra paisagem, o
corredor da estação seguinte. Já vi vários clips engraçados de pessoas confusas
que não acreditam que chegaram.
- Se me permitem,
percebo que nosso líder, por ter passado por um período estressante, tem medo
de altura. Como incentivo, digo que conduzirá o planejamento da ação de modo a
evitar riscos para os infiltrados. Isso fatalmente resulta em sucesso.
- Você é vidente
também, Vta?
- Não, o que faço é
perceber inclinações, algumas vezes motivadas pelo medo. Uma vez com isso em
movimento, calculo os resultados. Não é vidência, é estatística intuitiva.
Também tenho uma pergunta para o Arn, se ele não se importar.
- Claro que não. Fale.
- Você tem uma imagem
fixa na cabeça. É educado e pacífico, mas o que você traz é primitivo, brutal,
meio grotesco. Quem são os demônios? São “seus” demônios?
- Demônio é a raça
alienígena natural do planeta que chamei de Inferno e que consta no mapa que
venho tecendo para a agência, Vta. Se existe alguma coisa que eu posso chamar
de assustador, é ficar diante de um deles, frente a frente. São predadores
enormes que caçam em grupo e têm a cabeça em forma de machado para abrir a caça
com um golpe e devorá-la de dentro para fora. Isso é repulsivo e animalesco,
mas são também inteligentes de uma forma estranha. O contato com um é o contato
com todos. Não espero que você entenda, mas um é todos e todos sabem de onde
vieram e como e quando vão acabar como raça.
- Não são uma parte de
você? Não existe um simbolismo envolvido? Pergunto por que só podemos nos
basear no que você relata e algumas vezes esses relatos parecem a descrição de
sonhos.
- Vta, você esta
convidada a entrar na minha cabeça e pescar o que quiser. Você tem dúvidas
quanto ao que digo por que parecem sonhos, mas quem sabe o que é a realidade?
Talvez os demônios não sejam tão feios. Todo mundo projeta, não sou exceção. O
transporte é e não é o que se vê. Meus humores mudam por que vou além do
observável. Há um universo entre o fechar e o abrir daquelas portas. Todos
imaginam que vão sentir a aceleração ou ver um túnel de luz quando entram na
bolha. Nelson e Bao também gostariam disso, mas não dá. T igual a zero é o que
é: nada. Para mim, ai cabe um infinito. Cabe ver novos mundos, monstros ou
pessoas do meu passado. Tudo é banhado por luz. Se não por fótons, então pelas
ondas que eles produzem.
- Não foi minha
intenção invadir, Arn, desculpe.
- Não me sinto
invadido, você só me ajuda a trabalhar no mapa. Sei lá onde a máquina vai
enfiar o que estou dizendo, mas tudo vai parar lá. Depois tenho de ir numa sala
escura e lembrar onde estavam as estrelas para que a máquina faça as
comparações e medições. Essa é a parte chata. Leva horas! Vamos relaxar? De
onde você está falando agora?
- De Teha. E você?
- Eu sou de Ox, mas
estou em Lasli, no palácio da suprema liderança. O Nelson é do meu mundo, o
cara da agência. E você Bao?
- Sou de Ox também, Arn,
mas eu sou pé-grande.
- Do sul ou do norte?
- Do sul.
- Pé-grande do sul?
Segunda linha?
- Segunda linha é
aquele monte de palavrões que você esta acostumado a ouvir quando diz isso a
qualquer um de nós! Ser pé-grande do sul é coisa séria! De onde você é em Ox?
- Do trópico, bwana!
- Bwana é sua madre,
aquela máquina onde você nasceu grudado feito um pedaço de carne sem vida, seu
meio-gente de gênero duvidoso!
- Você está me
xingando, bwana?
- Respeite minha idade,
fedelho, criatura sem alma, amontoado de células! Arn, você é fundamental para
a missão, não me force a ser indelicado!
- Arn. Você não está
exagerando?
- O caipira se ofende
com um nome! Dá para respeitar uma vaca brava dessas? Você quer ou não quer
liderar a missão, bwana?
- Quero com a ajuda e o
respeito de vocês, se não tiver isso, desisto agora!
- Precisamos de um
líder, Arn! Que confusão você está armando?
- Você acha que esse
cara é bom o suficiente, Nelson?
- Acho que sim, e acho
que ele está de palhaçada como você.
- E você, Vta? É um pé-grande
de segunda linha. Você mudou de idéia a respeito dele?
- Não, Arn, ele é
equilibrado, percebe que você está provocando e embarcou na brincadeira. É um
sujeito idealista, confiável e bem humorado. Os medos dele são a proteção que
os agentes precisam. Voto nele como líder.
- Penso o mesmo.
Desculpe Bao, mas Marus sugeriu que eu testasse seu humor antes de trabalharmos
juntos. Bem-vindo à liderança, bwana!
No dia seguinte, um
homem da agência aguardava por Arn na estação. Ele lhe mostraria o equipamento
para gravar a comunicação da Terra e quinze bóias infláveis que emitiam pulsos
de laser invisíveis a não ser para um receptor que passaria a fazer parte da
cabine. O gravador foi deixado junto a um satélite indicado pelo próprio
equipamento. Ao voltar, Arn calculou onde seria a metade do caminho, ali deixou
a primeira bóia, depois metade entre a bóia e a Terra e assim sucessivamente,
deixando uma linha de bóias.
Os quatro agentes
secretos escolhidos, Sensitivos telepatas, logo tiveram suas informações. Seus
chips subcutâneos tiveram de ser adaptados para que tivessem um passado na
Terra e algum dinheiro, aprenderam as línguas locais e tudo para que passassem
por estrangeiros comuns em qualquer lugar onde fossem deixados.
Nas entrelinhas do que
era divulgado, entendia-se que a Terra era um mundo de conflitos, mas também de
esperança. As pessoas viviam mais do que quando a CE, na época chamada
Esperança, partiu. Cento e cinqüenta anos com saúde monitorada pela versão
deles do chip. Ao contrário dos mundos da nova estrela, ali a privacidade era
valorizada, o indivíduo recebia o implante ao nascer, mas poderia desligá-lo
quando quisesse. A base da sociedade ainda era a família e a maioria professava
uma das religiões vigentes. Pela ordem de número de seguidores: evangélicos,
budistas e muçulmanos. Exceção para os do bloco europeu que eram ateus e por
isso, vistos com desconfiança pelo resto do planeta.
Quando o Líder Supremo
teve acesso à transcrição das gravações, fez um comentário indicando a
existência do que chamou um “poder invisível” decidindo os caminhos das massas.
- Nós somos
transparentes. Aprendemos isso com Arthur que era um líder para poucas pessoas
num ambiente fechado. Ali, o melhor que se poderia fazer foi o que ele fez,
incitou as pessoas a pôr suas paixões de lado e pensar visando o bem comum. O
povo da Terra nunca passou por isso, eles sempre tiveram espaço de sobra para
afastar um inimigo ou cometer um crime, bastando mudar-se para fugir à punição.
Tendo um horizonte, é fácil viver a ilusão de que é além dele que está a
felicidade. Nossa tecnologia é melhor que a deles e vocês, agentes, são
melhores do que eles. Lá, as pessoas realmente poderosas não estão em destaque,
não aparecem nos noticiários. É um lugar onde as perguntas têm mais de um
sentido e as respostas devem ser lidas nas entrelinhas.
Todos estariam em
contato uns com os outros e, em caso de necessidade, Arn poderia resgatá-los.
Assim, um foi deixado num subúrbio de uma das antigas cidades européias, de
onde, segundo Marus, o verdadeiro poder emanava, outro numa cidade da China e
os outros dois em continentes escolhidos aleatoriamente.
Se Rosa, a moça, já não
tinha o suficiente de Arn quando se uniram, agora tinha menos ainda.
Coube a ele, enquanto
os agentes estivessem lá, visitar a Terra de doze em doze horas, levar as
partes de uma futura estação espacial para a órbita de Inferno, verificar as
bóias que diriam onde está a CE, isso tudo sem deixar de lado o transporte
regular entre os mundos. Chegou também a levar alguns equipamentos para o
planeta Rosa. Sua intenção ali era construir uma casa, mas adiou o projeto em
função das outras ocupações.
Encontrada a CE – agentes em ação
Entre as bóias cinco e
seis estavam as duas bolas de pedra unidas ao disco de metal. Finalmente a CE
havia sido encontrada!
Mas, “duas” bolas?
Nunca foi uma
prioridade reencontrar o cometa que Marus havia usado em seu abandono da CE,
era só uma pedra que ressurgiria em cinqüenta ou sessenta anos, mas lá estava
ela, fragilmente ligada ao conjunto, em si, de aparência insegura.
A não ser que o Líder
Supremo tivesse outra idéia, o próximo passo repetiria o que foi feito na
Terra. Seria preciso saber quem eram os líderes e como pensavam, só então se
partiria para o contato.
Os motivos para
comemoração se acumulavam, mas haviam os agentes a serem acompanhados
atentamente e com certa tensão.
Os “meninos” que
estavam nas cidades conseguiram se instalar com certo conforto, já os outros,
em lugares mais pobres, assim que chegaram, percebiam cobiça e desconfiança nas
pessoas. Poucos eram aqueles que confiavam no primeiro contato. Acabaram se
hospedando em lugares sem conforto e nem por isso mais baratos. A maneira de confraternizar
envolvia o consumo de substâncias entorpecentes ou a visita a templos. Cada um
escolheu um caminho. O que optou pelo bar conseguiu reunir impressões dos
nativos sobre os líderes, nunca os locais e, de maneira geral, o conceito era
negativo. Os políticos eram sempre suspeitos de corrupção ou invejados pela
riqueza. O que optou pelo templo teve de assimilar rapidamente regras de
conduta muito rígidas. Detalhes eram observados, desde asseio e roupas a
postura durante o ritual. O sentido deste era levar o fiel a um tipo de transe
hipnótico, uma sensação que eles chamavam de “estado de graça” pelo qual tinham
de pagar.
Apenas turistas
circulavam pelas ruas seculares, limpas e bem conservadas. O agente na China
havia apenas saído para dar um passeio, um pouco entediado com o insucesso após
dois meses de estadia. De repente alguém se meteu em sua mente.
A possibilidade de
existir telepatas na Terra foi examinada durante a série de instruções que
antecederam a viagem. A comunicação interceptada dava conta de que isso não
seria bem visto pelas religiões, logo, seria uma transgressão com fins
questionáveis como roubo de informações ou algum tipo de arma. Por outro lado,
quem estaria por trás de um telepata da Terra seriam industriais ou militares,
dois tipos interessantes dentre os poderes invisíveis. Mesmo que o contato
fosse agressivo, valeria a pena se aproximar de sua fonte.
Rapidamente, o ladrão
sugou o que queria saber. Como defesa, para que não houvesse a troca de
informações, repassava uma lista de mantimentos, certamente como parte de um
treinamento militar. Pessoalmente, ela tinha medo ou estava muito surpresa com
o que descobriu.
O agente ainda tentou
saudá-la, mas só teve acesso á lista de compras.
Era mulher, militar,
idade entre vinte e trinta e cinco anos. Iniciou o contato porque ele estava em
seu campo de visão. Estaria se afastando ou mostraria no corpo essa
necessidade, talvez encurvando a coluna ou dando-lhe as costas.
Olhando em volta, o
agente viu quatro mulheres adultas de costas, a única de uniforme estava atrás
do balcão de um quiosque de informações turísticas e não poderia estar mais
encurvada. Era negra e estava acima do peso. Sua expressão de susto ao vê-lo frente
a frente provocou risos em quem viu a gravação.
Mesmo que tenha pensado
em ser agressiva num primeiro momento, a curiosidade por estar diante de um
legítimo alienígena foi maior.
Através dela foi
possível falar com os militares e através deles, marcar data e local em que
diplomatas dos dois sistemas planetários poderiam se encontrar.
Não havia clones na
Terra. A tecnologia existia, mas havia tomado outro rumo. As pessoas preferiam
substituir partes defeituosas delas mesmas ou de descendentes a manipular os
genes de forma a acabar definitivamente com o problema em sua causa. Contornar
um problema é mais natural do que eliminá-lo. Mais natural, mais aceitável às
divindades e mantém o dinheiro em movimento.
Os clones humanos
completos, as vezes com deformidades para que se adaptem melhor às máquinas que
controlam, ou com as quais dialogam, são idiotas programáveis que só existem na
lua de Júpter ou em Marte.
Houve festa em todos os
mundos, mas havia um detalhe que passou despercebido das massas que comemorava
o reencontro histórico, mas não dos líderes.
Impressões da CE/Brasil
Arn vacilou no primeiro
instante diante de uma pedra escura. Mas era um fantasma, porque não poderia
penetrá-la para ver o que tem dentro?
Arriscou.
“O sol brilha aqui!”
Foi a primeira coisa que pensou ao ver as casa entremeadas de árvores nas
paredes. De onde estava, flutuando entre a luz central e o chão, o que via era
uma grande superfície côncava, o interior de uma esfera. O sol era um fogo
amarelo no centro, o alvo de um canhão de luz lá embaixo.
Certamente, esse falso
astro sempre a pino, perde sua luz no decorrer do dia e, quando é noite,
torna-se uma lua. Nova, crescente, cheia e minguante. Ou cerca-se de nuvens.
Que excelente idéia! Que lugar maravilhoso os Puros fizeram!
Workaholic poeta
De volta aos mundos,
Arn se viu envolto pela rotina. Tudo parecia se repetir. Agência, mapa, Bao,
reunião, agentes secretos, desta vez apenas dois, um deles o que conheceu a
negra gorda da Terra, encontro marcado, festa. A conseqüência era a ressaca, a
desconfiança e o comércio. Depois veio o turismo e, com ele, mais trabalho.
Ir e vir. Líderes,
Sensitivos e Trabalhadores entre os novos mundos, Puros da CE para a Terra e
vice-versa. Puros da Terra e da CE para os mundos e vice-versa. Clones para a
Terra e CE e vice-versa. Saber onde tudo está e ir em tempo zero ocupava toda
sua memória, mas era preciso fazer o que se esperava dele. O dever.
Partes da estação
espacial de Inferno, inauguração, festa.
“Rosa, por favor, me
perdoa pela ausência! Quantas vezes te vi como holograma sólido, um momento
antes do agora? E quanto prazer não desfrutamos nesse universo? Mas não era
você.”
A Rosa verdadeira
estaria com outro em poucos minutos, antes ou depois. O momento não existiu. Só
ondas alteradas que seguem seu caminho. Novamente na ausência de alguém que
desaparece simplesmente.
“Você é dezenas de
Rosas que ficam perplexas, todas, porque num minuto amam e no momento seguinte
perdem.”
Só ondas de luz que
seguem para o infinito.
Poesias ditas para o
nada numa sala escura quando se está cercado de pontos luminosos. Fui nesta
direção e vi, ao redor desta estrela, tal e tal coisa.
A máquina entende e
registra. Ignora o som de uma flatulência involuntária porque não faz parte do
contexto, por mais sonora que seja.
Rosa em Rosa
- Arn. Começou!
Esta era a filha da
Rosa, a velha, falando.
- O que começou?
- O fim, Arn. Os
Sensitivos sabem. Os que negam, fazem isso porque sentem medo, mas todos sabem.
- Que fim? Fim de que?
Sou Sensitivo também e não sinto nem sei de nada.
- Você não sente o fim?
- Sinto que deveria
estar mais por aqui, que deveria passar mais tempo com você. Sei que sou
negligente, um péssimo companheiro! Por favor, me perdoe, Rosa!
- Arn, você é muito
estranho! Eu não sei o que sou porque sou filha natural. Minha mãe é Sensitiva,
deveria ser estéril e não é. Você é fruto de um nível de manipulação genética
que deveria ser criminosa! Se Marus e minha mãe são exemplos de exagero, você é
o cúmulo, o limite do possível! Por isso faz o que faz. Você seria visto como
uma divindade em muitas culturas. Eu vejo o que as pessoas do seu fã clube
gravam, elas não têm amor por você, você não é símbolo sexual, elas têm
adoração por você.
- Rosa, eu não to nem
aí para isso!
- Mais um gesto de
generosidade, de desapego, de humildade. O que quer que você faça, soa como o
certo e exemplo a ser seguido! Mas eu estou aqui e sou a vagabunda amante do
santo. Você está acima da sexualidade, enquanto eu estou imersa nele! Eu não
quero viver sem prazer, Arn! Principalmente quando pressinto o fim!
- Eu não estou acima da
sexualidade, Rosa, eu só não tenho tido tempo pra te pegar de jeito!
- Ah! E é maravilhoso
quando pega! Principalmente porque não é carne, ou melhor, não é “só” carne!
Você me ama Arn, faz amor comigo. E quando fala comigo, não importa a
distância, eu me contorço de prazer. Sua voz, áspera ou carinhosa, me traz seu
cheiro e logo tenho uma sensação tátil de você. Não vivo sem isso. Vivo, mas
seria como uma morte sem parar de funcionar.
- Amanhã quero que você
venha comigo para a estação. Quero te mostrar uma coisa.
- Uma surpresa?
- É, e não se atreva a
ler meus pensamentos!
No dia seguinte, Arn
sentou entre as pernas de Rosa na cabine feita para uma só pessoa e usou o
motor para que ela sentisse, extasiada, um pouco mais a falta de gravidade.
A bolha levaria os
passageiros de costume e três técnicos para a recém-inaugurada estação sobre
Inferno, onde instalariam um dos pontos do Portal. O outro ficaria na
superfície.
Esta seria a primeira
vez que as portas se abririam e fechariam duas vezes seguidas na mesma estação.
A impressão que o pessoal da fila teve foi que os técnicos desapareceram num passe
de mágica. Rosa não percebeu o transporte, mas teria um choque ao ver uma
nebulosa surgir como se explodisse do lado de fora.
Ela até que gostaria de
fazer algum comentário, mas não conseguiu. Arn estava preocupado com o momento
de torná-la sólida e avisou que ela poderia cair. Dali fez outra parada sobre o
planeta e, em seguida estava de pé na frente dela numa mata. Para ela, o banco
desapareceu de repente a menos de um metro do chão, mas não chegou a cair.
- Este é o mundo que
sua mãe previu que eu te daria. O nome dele é Rosa. É seu agora!
Recepção – o povo da CE - mar
Na data marcada para o
encontro dos líderes na CE, Arn fez questão de estar presente, tal foi seu
encanto ao ver o interior da nave.
Sobre tecnologia,
segundo os agentes, apesar das distâncias relativamente pequenas, eles haviam
desenvolvido bastante o Portal. Essa foi a forma escolhida para entrar, já
recebendo as homenagens do povo.
Este povo se via como
uma nação independente dos mundos ou da Terra e assim continuaria. Esse foi um dos
primeiros acordos.
Ali, mais humano era o
mais misturado. Buscavam, como um tipo de moda, parceiros que fossem
diferentes, seja na etnia ou nos costumes. Tinham um ou dois filhos por casal
chamado “estável”, ou seja, ao mesmo tempo em que mantinham sob controle o
crescimento demográfico, assumiam um compromisso na tentativa de retomar a
família, mas não primavam pela fidelidade.
Os muitos pequenos
conflitos familiares resultavam numa sociedade hipócrita, confusa e, apesar
disso, alegre.
Foi colocado um Portal
numa bolha e esta fixada ao corpo da nave. Arn foi transmitido para o interior
da CE, agora chamada Brasil, como parte da comitiva.
O novo apelido da nave
homenageia um país da Terra com características parecidas. Um tipo de piada
como já havia acontecido antes. Cidade Errante, CE, alguma coisa sem rota
definida, que simplesmente segue adiante. Outra piada.
Aparentemente não havia
qualquer rancor com relação aos mundos ou o que motivou a partida há quase
vinte anos, pelo contrário, a comitiva foi bem acolhida pelo fato de ser
composta de pessoas diferentes. Dos mundos lembravam dos woodstocks como ponto
positivo e da CPU subcutânea, coisa que não tinham, como negativo. Tiveram
muito pouco contato com os Soldados, por isso questionavam sua existência como
se não passassem de um mito assustador.
No passeio oficial pela
nave, viram a velha Esperança, o disco original que partiu de Terra. Era o pólo
produtor de alimento e industria. A grande pedra com o sol artificial era
moradia e comércio e a segunda pedra , o cometa de Marus, misturava tudo e
ainda reservava uma surpresa. Era chamada de Praia porque ali estava o “mar
interno”, uma gigantesca massa esférica de água que se equilibrava sobre os
prédios nas paredes. Ao olhar para cima, era possível ver gente nadando, ilhas
e barcos.
Tudo era um pouco
claustrofóbico e a visão do “mar” causou vertigem como se fosse preciso se
acostumar com a idéia. A praia era também o centro de laser com música e
drogas. “Você não sabe com quem está lidando a não ser depois que bebe com ele”
foi uma frase usada por três dos representantes deles. Ali a delegação dos
mundos praticamente foi obrigada a pôr de lado as formalidades e se divertir.
Quase atraso – morte na estação
Entre música, dança,
bebidas e flertes com nativas, Arn perdeu a noção do tempo. Acordou ao lado de
uma nativa, horas depois dos primeiros transportes a serem feitos entre os
mundos.
Havia uma equipe
responsável pela segurança que dependia de ordens superiores para permitir que
ele pudesse usar o portal e voltar para a bolha. Isso consumiu ainda mais
tempo.
Quando finalmente
entrou na cabine, imaginou uma forma de remediar a situação. Transportou a
imagem dos passageiros que estavam nas estações nos tempos certos quando ele deveria
estar lá.
Foi alguma coisa como
“forçar” a harmonização quando essas imagens se tornam sólidas. Alguma coisa
que sabia que funcionaria apesar do improvável porque um monstro de três metros
havia dito que funcionaria.
Depois de colocar o
trabalho em dia, ficou atento ao Caderno para saber o que os passageiros
estavam dizendo. Não ouviu nada de anormal.
Teria de ir também até
a estação de Inferno buscar os técnicos. Isso estava no horário.
Ao se materializar lá,
sentiu que alguma coisa estava errada, só não imaginava a proporção desse erro.
Ao redor do portal,
quase completamente instalado, havia uma sopa vermelha com pedaços de carne
crua. Arn não entendeu imediatamente, ou não quis acreditar no que via, até
reconhecer um pé humano.
Por um instante achou
que cairia dentro da cabine, a ponto de engatá-la numa estação qualquer. Isso
não aconteceu. Era real. Acontecia no tempo normal e as imagens do que via
estariam disponíveis assim que ele retornasse aos mundos.
O que é isso? É mesmo
sangue? O que aconteceu aqui? Se são corpos, onde esta o resto? Devorados!
Todas as respostas
estavam na mente de Arn, mas ali não era o lugar para pensar, por isso se
afastou.
Fácil! No momento em
que testavam o equipamento, um demônio estava perto do quiosque da superfície e
subiu por acidente. Ao encontrar os homens, agiu como o animal selvagem que é.
Não era assim. Por trás
do animal assassino havia o ser inteligente com um propósito e meios para
chegar até ele. Uma criatura sofisticada que repetia em sua mente rebelde: “Aqui
começa a guerra. Traga mais comida, Arn!”
Assustado – Marus feliz
Marus fez um discurso
emocionado. Precipitado.
Os técnicos tinham de
instalar o portal da estação, mas caberia a Arn descer levando os homens para
preparar o receptor de terra, a não ser que eles tivessem um veículo capaz de
fazer isso, coisa que não tinham.
Como o demônio subiu?
Essa foi uma pergunta
que o povo não fez. Todos estavam entusiasmados com a descoberta de um inimigo
legítimo, um agressor não provocado e bárbaro. A resposta deveria ser a altura
e rápida. Assim era a opinião da maioria dos cidadãos dos três mundos e, pela
primeira vez, agradeciam pelos Soldados existirem.
Como final de um dia
estranho, vinho espumante com Marus, com direito a abraço de boa noite e, em
seguida, Rosa, desta vez decidida a seduzi-lo.
Nessa noite fizeram
sexo rasgado, coisa que o pessoal do fã clube colocaria em destaque no álbum de
recordações.
Na verdade foi um
momento em que Arn ainda tinha o cheiro do sangue muito claro na memória.
A relação entre sexo e
violência é estatística, quanto mais violento o ambiente, mais sexo se faz. É
um comando natural que visa a preservação da espécie. E Arn estava apavorado.
“A guerra começa aqui.
Traga mais comida, Arn!”
Soldados atacados
Nas vilas, cinco vezes
maiores do que quando foram criadas, os Soldados queriam vingar os técnicos
“bundas-moles”, como chamavam qualquer um de qualquer casta que não a deles.
Clones, humanos Puros
ou mamíferos superiores fazem sexo quando expostos a violência continuada. Uma
vez com medo, um Soldado luta mais ainda.
Mas é preciso deixar
que a ansiedade se acumule e Marus sabia disso.
Arn levou o pessoal
para a limpeza da estação e outros técnicos que instalaram o receptor de terra
já com uma escolta pequena.
Os Soldados ficariam
acampados na superfície, mas armavam as barracas quando foram atacados.
Agora sim havia
motivação. Estes se tornaram mártires mortos em combate, não bundas-moles das
cidades a serem defendidos de inimigos virtuais, mas Soldados de verdade que
enfrentaram uma ameaça real.
Rosa na CE
De membro da comitiva,
Arn se tornou um turista freqüente na Brasil.
Rosa, a moça, parecia
muito preocupada com alguma coisa que sua mãe faria com Marus antes do fim.
Teve uma noite com ela
ali, mas sentia-se tão livre que não fez questão de parecer o dono. Ela acabou
dormindo com outro, um interessante nativo da Brasil que tinha idéias
diferentes sobre a história da CE e Arthur, além de um bom jogo de quadris.
Arn já não se
preocupava com a hora de acordar e, aos poucos, adotava as idéias de sua Rosa.
Se ela podia dormir com alguém só por um orgasmo, ele também podia.
Sabia que qualquer
passageiro exposto ao transporte, chegaria no horário marcado com a ajuda de
fenômenos desconhecidos da luz e dos demônios fornecedores de informações
ininteligíveis, estripadores de Trabalhadores técnicos e de Soldados
desavisados.
Soldados machos nas cidades
Reagir era questão de
honra para os Soldados. Estes invadiam as estações em formação cerrada e cara
de mau, assustando os passageiros regulares.
Arn os transportava
para a estação Inferno de onde desciam para a superfície e ajudavam na
construção de uma fortaleza.
Se o comum era achar
que Soldados eram estúpidos, ali ficou claro que tinham um considerável conhecimento
de estratégia e fabrico de armas com o que a natureza oferecia.
Os demônios são
criaturas nômades, mas a consciência coletiva lhes dá a capacidade de fustigar
ininterruptamente um inimigo, em grupos sucessivos, ate sua completa extinção.
Homens de dois metros
treinados e motivados se equilibram com monstros de três metros, carapaças
naturais e sofisticados instintos caçadores.
A briga prometia ser
boa!
Para os demônios, a
fortaleza ao redor do portal não era nada além de um armário de comida. Essa
idéia não chega a desmotivar um Soldado ciente de que deve defender o portal e
seu entorno. Ele fará isso a qualquer custo, usará as armas que traz, o que
puder conseguir ao redor, os próprios punhos ou os dentes.
Algumas frases podem
definir como um Soldado pensa:
”Ou é vítima ou é
Soldado.”;
“Justiça é mais
hematomas no agressor do que no agredido.”
“O fraco corajoso deve
ser treinado, o fraco covarde deve ser encorajado, o fraco e covarde
incorrigível, esse é um alvo.”
“Quando quiser um bom
amigo, tente surrar alguém maior que você.”
“Inimigos são
necessários, na falta de um a sua altura, case-se.”
Uma outra frase é:
“A morte não é um
problema, é o fim de qualquer problema.”
Já que eles estavam a
ponto de deixar seus problemas, receberam autorização para divertirem-se nas
cidades, devidamente acompanhados pela polícia deles.
Num primeiro momento,
pareceu justo a alguns políticos locais oferecer alguma coisa como uma festa de
despedida. Mas não se pode obrigar os comerciantes a abrir seus estabelecimentos.
A falta de reconhecimento pelo heroísmo de homens que iriam para a guerra para
defendê-los irritou os Soldados.
Se já eram vândalos
quando fugiam das vilas em grupos pequenos, batalhões inteiros transformaram as
cidades em campos de batalha.
Como resposta,
reduziram os grupos e criaram bares “seguros” apenas para os Soldados.
Solução para atraso
Depois de seu contato
com os demônios, as habilidades de Arn melhoraram significativamente e isso
tinha estranhas implicações. O que chamou de “forçar” a harmonização num
momento passado, pelo menos no caso de passageiros que esperavam numa fila para
serem transportados, mudou o momento seguinte.
Numa realidade, o tempo
normal, enquanto Arn dormia num hotel da nave Brasil, os passageiros esperavam,
começaram a comentar e depois, irritados, foram falar com o pessoal da agência.
Por ter forçado sua presença, no momento programado, as portas da bolha se
abriram e as pessoas seguiram viagem. O que aconteceu com os passageiros
irritados que reclamaram com funcionários?
Houve um momento em que
ele estava dormindo num hotel qualquer da nave e operando o anel invertido ao
mesmo tempo, o que é teoricamente impossível.
De qualquer forma, não
era mais necessário preocupar-se com horários, os transportes eram feitos com infalível
regularidade.
Decorre disso que Arn
não é mais de uma pessoa, mas pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.
Morte de Jon
As imagens de
conectados fora do alcance, em Inferno, na Terra ou na Brasil são carregadas
com atraso, mas finalmente, o povo dos mundos podia ver como eram os lugares. A
grande surpresa veio, através dos olhos de um engenheiro construtor a beira de
um colapso nervoso, um demônio se esgueirando em meio a vegetação,
imediatamente atacado pelos Soldados sentinelas.
Assim que souberam que
havia imagens de um monstro, os Soldados nos mundos foram à loucura. Invadiram
as cidades para ver as imagens, usando o Caderno de qualquer bunda-mole que
encontrassem.
Jon voltava para casa
quando ocorria um tumulto numa das ruas. Policiais Soldado enfrentavam um grupo
que cantava hinos marciais enquanto destruíam tudo o que viam pela frente.
Naquele momento tentavam escapar dos cassetetes jogando pedras para todos os
lados. Uma delas encontrou a cabeça do ex-provocador de Arn, uma pesada o
suficiente para romper uma veia importante.
Arn sentiu.
Almoçava com um novo
amigo, um nativo da Brasil que era casado e se dividia entre várias profissões.
Parou quando levava à boca uma garfada. Sabia o quê e com quem. Pediu desculpas
e saiu.
Não estava sozinho na
cabine em tempo zero, com ele havia um vulto vermelho.
Planou sobre a casa e
seguiu pelo caminho para o prédio da Escola até uma rua onde pedras se
espalhavam pelo chão. Como um fantasma, viu a baderna, os policiais chegarem
com seus cassetetes, a tentativa de fuga e o transeunte sendo atingido.
Jon dobrava uma esquina
quando deu de cara com Arn.
- Oi, Arn! O que faz
por aqui?
- Salvando você, Jon!
Não vá por aqui. Há um distúrbio. Você foi... Você “seria” atingido.
- Fui ou seria? Arn,
acho que você está com problemas! Por que toda essa afobação? Se por aí não dá,
vamos dar a volta. Simples! Enquanto andamos, você explica o que está
acontecendo.
- Tio Jon, em primeiro
lugar, quero um abraço e dizer que estou muito feliz!
- Pelo jeito, alguma
coisa deu muito certo! O que foi? É a Rosa?
Arn o abraçou e começou
a falar sobre o que descobriu com relação a forçar sua presença num momento
anterior ao real e assim nunca atrasar um transporte. Dobraram outra esquina e
começaram a ouvir cantos e ruído de coisas quebrando. Soldados passaram por
eles correndo, saídos de um beco e, de repente, estavam no meio de uma batalha.
Bombas de gás e pedras
voavam de um lado para o outro forçando os dois a se separarem. Novamente Jon
era atingido e morria ali no chão, aos pés de um fantasma vermelho.
- Oi, Arn! O que faz
aqui? Por que essa cara? Aconteceu alguma coisa?
- Tio Jon! Não faça
perguntas. Aquela coisa ali é a cabine que eu uso para fazer os transportes.
Entre lá e se afunde no banco que vou sentar entre suas pernas. Rápido!
A cabine não foi feita
para ficar de pé onde existe gravidade, é uma caixa de vidro com o fundo em
ponta que teve de ficar escorada numa parede. Ao tentar entrar, Jon a derrubou
no chão. Tentavam levantá-la quando a turba se aproximou.
- Oi, Arn! O que faz
aqui? Que cara é essa?
- Tio Jon, hoje você
não vai para a Escola!
- Mas que diabos! E por
que não?
- Porque se for vai
morrer! Por favor, tio Jon! Por favor!
- Mas, Arn, é meu
trabalho!
- Dane-se o seu
trabalho! Você não escutou o que eu disse? Quer morrer?
- Essa coisa de
transporte instantâneo é viagem no tempo afinal de contas, não é?
- Eu não sei, tio Jon.
Neste momento acho que é um pesadelo! Já tentei evitar várias vezes. Se não é
numa rua é noutra. Tudo dá errado. Você é atingido por uma pedra, por um
estilhaço de vidro, por uma flecha. Uma flecha, tio! De onde esses filhos da
puta foram arranjar uma flecha? Já não sei o que fazer!
- Você veio do momento
onde a luz é mais densa. Agora para você é passado, certo? Onde você está
agora?
- Como assim, tio?
- A essa hora você
estava em algum lugar. Onde foi?
- Coloquei em dia
alguns transportes de noite e de manhã fui para a CE, digo, a Brasil.
- E está fazendo o que?
- Dormi algumas horas.
Por quê?
- Sabe o que eu
gostaria de fazer se soubesse que hoje é meu último dia? Gostaria de ver tudo o
que não vi. E acho que estou falando com a pessoa certa para realizar esse meu
sonho. Você faria isso por mim?
- Tio, você está
desistindo? Está se entregando?
- Você está dizendo que
tentou me salvar várias vezes sem conseguir, logo, é meu último dia. Uma
fatalidade. Ao longo da vida, acho que fiz o que tinha de fazer. Se tenho a
chance de ver a Terra, a CE e sei lá mais o que antes de acontecer, quero
aproveitar.
- Em Rosa você quebra o
pescoço ao cair num rio, na Brasil é atropelado e na Terra...
- Você tentou tudo
mesmo, não foi? Saímos um pouco antes de cada evento, mas vamos combinar outra
coisa também, quero ver meus provocados e não quero estar tenso por saber o que
vai acontecer. Você pode me devolver antes deste momento? Pode não vir aqui
para termos esta conversa?
- Mas, tio, assim você
não vai lembrar.
- Mas terei ido! Isso
vai ficar gravado na luz!
Arn pediu que Jon fosse
para a estação onde roubaram uma bolha. De repente, ele era aplaudido junto com
o pessoal da delegação na primeira vez que clones estiveram na Brasil.
Acamparam em Rosa, alimentaram pombos numa praça da Terra, viram as máquinas
que escavam Marte e, quando Jon se sentiu satisfeito, voltaram para um momento
antes dele mesmo acordar naquele dia.
- Foi um dia e tanto,
Arn! Eu bem que gostaria de entender melhor como isso tudo funciona, aliás,
gostaria que fosse simples para que uma mente primitiva como a minha pudesse
alcançar.
- O engraçado é que foi
um monstro primitivo quem enfiou tudo na minha cabeça. Um não, todos.
- Nesse caso, gostaria
de cumprimentá-lo.
- Um não-indivíduo
deles nos acompanhou o tempo todo.
- Invisível?
- É.
- Onde ele está agora?
- A sua direita.
- Muito obrigado pelo
dia excelente, senhor! Ele ouviu?
- Se inclinou, tio. Não
pensei que faria isso!
- Legal! Agora vá embora que eu não gosto de
estranhos na minha casa quando acordo! Como ficamos?
- Como ficamos? Ah sim!
Não tentei te salvar, não estive aqui, não houve o roubo da bolha, não
estivemos em lugar nenhum a não ser na luz que se expande em direção ao
infinito.
- E?
- E hoje a tarde você
morre, tio, e eu toco a minha vida.
- Os dois felizes e
gratos por termos convivido o quanto pudemos. Não sofra, seu bostinha! Como
você está?
- To bem.
- Não existe infinito
para corpos que se desgastam, Arn. Eu bem que gostaria de morrer de velho, mas
se é hoje o dia, ao menos não vou passar pela decadência de ossos e tecidos
cansados. Você vai poder criar essa coisa de luz e me visitar quando quiser.
Acho que sou sincero o suficiente para repetir sempre a mesma mensagem: toque a
sua vida, faça o que te parecer certo, o que, no final das contas, é divertido.
Se fizer isso, vai acertar mesmo no erro. É fácil justificar um erro
bem-intencionado, principal e basicamente para você mesmo. O resto não é
importante. Para onde você vai daqui?
- Volto para a Brasil
no tempo normal. Larguei um almoço no prato. To com fome. Acho que vou procurar
onde comer um sanduíche, de preferência na praia.
Arn fez exatamente isso
e voltou ao hotel. Também ele estava cansado depois de toda a aventura física e
emocional com seu ex-provocador.
Pé-de-vento
Era noite alta quando
foi acordado por seu amigo nativo, um sujeito que tinha três nomes, um próprio,
um da mãe e um do pai, mas que era conhecido por um apelido, Pé-de-vento, ou
simplesmente, Pé.
Conheceram-se na sede
do governo. Os dois perambulavam enquanto os líderes das três localidades,
Terra, Novos Mundos e Brasil faziam seus acordos. Depois de se encontrarem
algumas vezes, decidiram conversar. Pé se apresentou recitando seus três nomes
e Arn retrucou com um nome e um número o que soou estranho ao nativo.
Depois do longo
discurso elucidativo, foi a vez dele, mas não havia muito a esclarecer.
- Arn não quer dizer
nada. É a abreviação de Arnaldo que também não sei o que quer dizer. O povo dos
mundos adotou nomes de três letras para os bebês por questão de economia. O
número significa que usaram seis doadores de material genético.
- Como assim? Meu filho
têm um só doador de material genético, eu! Você é fruto de inseminação artificial?
- Sou. Muita gente nos
mundos é.
- Então o que contam é
verdade? Você é um clone, um cyborg com super poderes?
- Sou o que você está
vendo. Faço uma coisa que ninguém mais faz, mas cyborg é outra coisa.
- Você parece só um
meninão comum para mim. O que você faz de especial?
- O transporte
instantâneo.
- Só isso? Não tem
super força? Não lê pensamentos?
- As vezes leio, mas
não tenho “super” nada.
- E seus pais? Seus
doadores de material genético?
- Não temos famílias
nos mundos, senhor Pé, só os Puros insistem em relações monogâmicas
heterossexuais estáveis produtivas.
- Caramba! Relações
monogâmicas hétero... Isso parece fórmula de remédio! Traduzindo para a nossa
língua, você é um órfão, não tem nem pai nem mãe e eu, por ter isso, sou um
Puro. Entendi direito?
- Entendeu.
- Mas você parece tão
normal, cara! A minha mulher vai te adorar! Preciso mostrar você para ela!
Almoce com a gente daqui a pouco! Aviso que, na nossa cultura, é uma
indelicadeza muito grande recusar.
- Nesse caso, aceito o convite.
Mas não sei como me locomover aqui e nem onde vocês almoçam.
- Eu te levo, cara!
O que o senhor
Pé-de-vento não contou nesse primeiro momento e o que tornaria o almoço mais
divertido é que seu apelido não homenageava sua agilidade e nem se relacionava
com o deus grego do comércio com asas nas sandálias. Pé, melhor esquecer o
“senhor”, ganhou esse apelido quando tentava amenizar o mau-cheiro que vinha de
seus pés assoprando e sacudindo as meias quando foi flagrado. Daí, pé-de-vento.
Conversa anterior com Pé
Meio atordoado e ainda
ouvindo as batidas insistentes na porta, Arn se levantou e foi abri-la.
- Pé? O que faz aqui?
- Arn, sei lá o que
você foi fazer quando deixou o prato na mesa e saiu. Você sabe o que aconteceu?
Tem uma mulher do seu planeta te procurando com uma notícia ruim. Você disse
que não existem famílias onde você vive, mas...
Acho melhor você sentar!
- Eu sei, Pé. O meu
provocador morreu. Foi por isso que eu saí daquele jeito. Desculpe de novo.
- Cara, se você está
aqui, quem pilotou a sua nave? Como ela chegou?
- É uma história
complicada. Um dia eu te conto.
- O seu pessoal está
doido atrás de você e você aqui dormindo!
- Está tudo certo, Pé.
Obrigado pela preocupação.
- Eu não entendi nada
da sua cultura, mas acho que esse tal provocador era importante para você. Foi
isso o que percebi falando com ela.
- Era sim.
- E você diz isso com
essa cara? Você não tinha uma relação de amor com ele?
- Tinha. Descobri meio
tarde que levava esse nome. Mas resolvi.
- Como assim resolveu?
O cara era como um pai para você! Você é maluco? O cara que viu você crescer,
que te ensinou tudo! Porra! Quando meu pai morreu, eu pirei! Não gosto nem de
falar! Você tem um coração no peito?
- Você não faz idéia,
Pé! Eu tentei tudo o que podia, passei horas fazendo coisas que nem eu mesmo
sabia que podia fazer, no final, ele quis morrer. Ele quis! Você não vai
entender. Obrigado pela preocupação, mas foda-se você e suas limitações! Eu
estive com ele o dia todo, até ele mesmo me convencer que, se era a hora dele,
eu não deveria fazer nada para impedir.
- Você esteve com ele
antes dele morrer?
- Estive. Falei muito
com ele. A maneira como fiz isso tem haver com o transporte e com velocidade da
luz. Nem os engenheiros entendem como funciona. Desculpe pelo foda-se.
- Pára de pedir
desculpas, Arn! Não tenho o menor interesse na merda do seu transporte, mas sei
o que é importante! Quando chega a hora de ir, a pessoa vai mesmo! Isso todo
mundo sabe! Vão como se tivessem conversado com a gente. Uma conversa sem
palavras que a gente vai lembrando aos poucos. Pode demorar anos para
reconstruir a conversa inteira, e acho que isso só acontece quando chega a
nossa vez de ir. Sem perceber, passamos a vida toda mexendo nesse
quebra-cabeça. Eu sei muito bem o que é isso! Pode acreditar!
- Pé! Não sei como pode
ser isso, mas você não imagina o quanto está certo!
- Sei que você é rico e
faz coisas que ninguém mais faz, mas isso não te dá o direito de subestimar as
pessoas, meu amigo. E não me peça desculpas de novo! Sabe o que fiz quando meu
pai morreu? Saí para me divertir. Acabei tomando um porre, mas não é para isso
que te convido. Hoje não tenho nada para fazer que não possa adiar. Quer sair?
Conversa com bêbados na CE
As pessoas na Brasil se
deslocavam a pé, com bicicletas e carros de carga, mas basicamente, usavam os
portais. Não eram distantes uns dos outros e nem tinham um quiosque só para
eles como nos mundos, qualquer esquina poderia ter uma moldura para as quais as
pessoas diziam o destino e atravessavam surgindo no ponto programado.
A tecnologia para o
portal deles era evidentemente melhor. Isso fez Arn pensar sobre a diferença
entre ter genes selecionados e não ter. Toda a agitação aparentemente caótica
da nave, coisa que ele julgava primitiva atribuindo isso ao fato dos Puros não
terem alterações, era um conceito que podia estar errado. Percebeu que
realmente subestimava aquelas pessoas, via hierarquia onde só existiam
diferenças, um erro que, historicamente, destruiu culturas e etnias inteiras.
Na medida em que visitavam
lugares diferentes, basicamente bares e restaurantes, Pé ia encontrando amigos
e apresentando a Arn. Claro que muitos estavam sob efeito de alguma substância
que lhes acrescentava alegria, mesmo assim, eram pessoas comuns que tendiam a
um hedonismo moderado. Qualquer pessoa dos mundos lhe pareceria sisuda.
“O que há com seu
amigo?” era uma pergunta que faziam a Pé quando Arn estava distraído. ”O pai
dele morreu, mas não toque no assunto.”
Outro assunto a não ser
abordado era a profissão de Arn. Ao contrário dos mundos, ali ele era um
desconhecido e queria continuar assim. Mas nem sempre isso é possível,
principalmente numa mesa com bêbados.
- Ah! Então você é o
cara famoso do Transporte Instantâneo? Você é o vocalista?
- Vocalista? Cara, como
você é estúpido! Transporte instantâneo não é uma banda! Ele é piloto de nave
espacial!
- E existe isso? Eu que
sou estúpido? Você faz idéia das distâncias no espaço? Nave espacial não pode
ter piloto, se não o cara pira! Mas quero ouvir o rapaz. O que você faz da vida,
afinal, Arn?
- Eu conduzo
passageiros entre planetas.
- Não falei? Otário!
- Cala a boca, Pé! E
você fica segurando um leme?
- Não exatamente.
- Porque se fizesse
isso ia pirar, certo?
- Acho que sim!
- Escutou essa, garoto
esperto? Arn, meu amigo, imagino que isso seja como fazer qualquer tipo de
transporte. Porque ser piloto te faz famoso?
- Deixa o cara, Barba!
Vê se é hora de falar de trabalho!
- Pode deixar que eu
respondo, Pé! Sou famoso lá onde moro porque ganhei uma corrida importante.
- Isso sim faz sentido!
E me dou por satisfeito no meu interrogatório principalmente por que também
acho um saco falar de trabalho quando a gente tem essa vista! Só mais uma
coisa: você deve ser influente, do tipo que fala direto com o dono da empresa e
fica sabendo de tudo. O que o seu pessoal pensa sobre o nosso acordo com a
Terra a respeito do portal?
- Não sei que acordo é
esse. Não tenho acompanhado as decisões.
- Porra, Barba! De
trabalho para política? Isso é falta de sexo!
- Ta bom! Ta bom!
Desculpem! Você tem razão, Pé! Mas quando você vai me apresentar aquela sua
prima?
A vista que tinham era
a superfície da água, perfeitamente plana refletindo as luzes da cidade de
cabeça para baixo como se fossem estrelas.
Era a primeira vez que
Arn visitava uma das ilhas flutuantes do mar interno a noite e estava
extasiado. A nave era um ambiente fechado como não poderia deixar de ser, mas
apesar de ser possível ver pessoas caminhando nas ruas acima, ali qualquer
sensação claustrofóbica desaparece.
Por outro lado, quando
Barba falou sobre o acordo entre a nave e a Terra, ele sentiu um desconforto
estranho. Estava alto, tentava não pensar em Jon. Isso era decisão tomada, uma
fatalidade como os transportes a fazer. Quando quisesse, moveria pessoas entre
os mundos, Terra e CE/Brasil, inclusive alguém que veio para a Brasil em nome
do palácio com uma má notícia.
Arn X Rosa, a velha
Luzes piscantes ao
redor da estação de Lasli, letreiro luminoso. “Arn, comunique-se com a
agência.” De que outra forma chamar a atenção de um não conectado?
Ele só desceu para
Lasli depois de pôr em dia os transportes. Segundos numa seqüência de abrir e
fechar de portas. Em seguida, deixou ali uma fila de passageiros perplexos e
caminhou para o portal.
Chegando ao palácio,
foi direto para o apartamento de Rosa, a velha, a única que poderia elucidar as
dúvidas que o moviam.
- A porta está aberta,
Arn. Entre!
Cabelos brancos com dreds e neles um monte de coisas
penduradas, chaves, garfos torcidos, retalhos de roupa. A velha não cheirava
bem, tinha péssimos hábitos de higiene. O apartamento era escuro, razoavelmente
limpo, mas refletia os cabelos quanto às coisas inúteis que serviam de enfeites
e recordações.
Assim que ele entrou,
ela se levantou de uma cadeira e deu-lhe as costas, seguindo para outro cômodo.
Ali havia assentos onde poderiam falar frente a frente.
- Dona Rosa, falamos
poucas vezes e sempre cercados de pessoas com interesses...
- Pula o blablablá,
Arn! Você é o cara que escolhi para minha filha e não foi sem motivo. Você veio
aqui para termos uma conversa. Garanto que tem minha simpatia. Agora, vá ao
ponto!
- Dona Rosa, não sei
quem é a senhora e quero crer que seja uma boa pessoa apesar da fama de bruxa
má. De qualquer forma, recentemente percebi que alguma coisa muito séria está
para acontecer e vim na esperança de que a senhora me tranqüilize.
- Tem Esperança. Quer
crer... O que você “sabe”, Arn? Não pense para falar, fale! Coragem!
- Não “sei” nada com
segurança ou não estaria aqui. Não me impressiono com sua fama, com sua
aparência, com este lugar escuro e nem com essa grosseria que a senhora pode
chamar de ser direta. Não sou vidente, essa coisa me veio como um raio e me
ocorreu que aqui eu encontraria a verdade, mesmo que esta esteja no silêncio da
sua ignorância.
- De onde você tira
essa arrogância, menino? Já disse que você tem a minha simpatia. Cuidado para
que essa sua mentira sobre não se impressionar não me ofenda de novo!
- A intenção foi ser
claro, não ofender. Peço desculpas.
- Ótimo! Pedi que você
falasse sem pensar para vencermos esta etapa. É claro que não sou o que dizem e
você tem agora a chance de formar a própria opinião. Podemos passar para o
assunto que o trouxe aqui? Me dê mais detalhes sobre como as coisas caminham
para o fim.
- Então é verdade?
Caminhamos para um desastre? O fim?
- Por que essa cara de
espanto? Conhece alguma coisa que não acaba? Claro que caminhamos para o fim, o
que não tenho como saber ainda é de que maneira. Sabendo como, talvez eu possa
calcular o tempo que nos resta. Comece me falando como foi esse momento do
raio. Onde estava, com quem, o que estava fazendo...
- Há algumas horas eu
estava com amigos, bebendo para relaxar depois da morte do meu ex-provocador.
- Achei que esse seria
nosso assunto inicial, mas percebo que você esta se recuperando bem. Continue.
- O “raio” veio quando
um desses amigos falou de um acordo entre a Terra e a Brasil para desenvolver o
portal deles.
- O que é a Brasil?
- A CE. Agora tem esse
nome. Alguns chamam de CE/Brasil.
- E que acordo é esse?
E quem é o interessado?
- Não tenho acompanhado
as discussões tão de perto. Há uma lista de acordos comerciais. As idéias
principais já foram definidas, estão agora na fase dos detalhes e isso é muito
chato! Um desses novos amigos trabalha com um negociador deles e disse que são
militares da Terra os interessados.
- Militares?
- É. Depois de Marte
eles têm um cinturão de asteróides de onde tiram minério. Eles têm problemas
com pirataria lá.
- Onde deveriam ser
todos iguais há uma elite que acumula riqueza, logo, ladrões de um lado e
militares de outro. Natural. O que você faz na CE? Não está lá oficialmente,
está?
- Não. Sou um
observador convidado. Estou curioso com relação ao modo de vida dos Puros de
lá, as famílias, a hipocrisia, a alegria. Você suspeita dos militares da Terra?
- Não suspeito mais!
Nem precisaria ser a bruxa má para perceber de onde virá o golpe final. Eles
não tiveram a chance de conviver na CE e resolver suas diferenças como nós. Não
têm culpa de agirem dessa forma.
- Você está dizendo que
eles não são culpados por planejar nos matar a todos?
- Esse é o fato, Arn.
Se fizeram o acordo agora e a tecnologia deles é um pouco inferior à nossa,
imagino que em pouco mais de um ano a situação estará definida. De qualquer
forma, daqui para frente é com Marus e seus agentes secretos. Mas não se
preocupe, você sobrevive.
- Eu sobrevivo e todos
morrem? É isso?
- É. Você esta com
algum problema para ouvir?
- O que eu não estou
conseguindo é acreditar que estamos falando sobre a mesma coisa!
- Estamos falando sobre
a morte repentina de milhares de pessoas, quase todos nos três mundos. Restarão
alguns Soldados que não foram para Inferno. Eles tentarão se organizar numa
resistência, mas serão esmagados. Os clones que estarão na Terra serão perseguidos
e mortos, os da CE, ou Brasil, como queira, terão melhor sorte. Você sobrevive
e leva para algum lugar seguro minha filha e um outro que você não precisa
saber quem é agora.
- E o que Marus vai
fazer com os agentes? Certamente tentar evitar que a situação chegue nesse
ponto.
- Claro que vai tentar
de todas as formas que puder imaginar. Seu instinto de auto-preservação vai dar
um pulo assim que ele souber.
- Então é possível que
consiga?
- É perfeitamente
possível.
- Ah! Isso sim me
tranqüiliza!
- Que bom!
- Que ótimo! Tenho
ouvido que vários Sensitivos estão prevendo coisa parecida. É um alívio saber
de você que eles estão errados!
- Não foi isso o que eu
disse. Mas vamos falar de outra coisa. Gostaria que fosse mais agradável, mas
lá vai: Porque você não atendeu ao aviso colocado do lado de fora da estação?
Como o mensageiro pode ter ido até a CE numa bolha se você estava lá, dormindo?
Os engenheiros acham que você automatizou o processo, só não sabem como ou
quando. Pode explicar?
- Posso. Falei alguma
coisa na Brasil com o Pé, ele é um dos novos amigos de lá e não me deixou falar
muito porque envolve a morte do Jon. As informações já estão disponíveis, mas
deve haver alguma coisa que o computador ainda não colocou no mapa.
- Aqueles que tiveram
ancestrais que enfrentaram a neve tendem a buscar, acumular e defender coisas
para um inverno mortal que só existe na memória celular.
- Não entendi a relação
entre uma coisa e outra.
- Falo dessa elite da
Terra. Eles agem de acordo com uma programação que não tiveram a chance de
substituir. Por que o medo faz tremer? O frio, Arn! Olhos arregalados e tremor,
essa é a imagem de alguém com medo. Quantos ancestrais humanos não passaram por
situações em que tiveram de enfrentar animais noturnos em busca de cavernas onde
se abrigar do frio? Por outro lado, quando expressamos alegria, sorrimos,
mostramos nossas ferramentas para comer e observamos a chama com gratidão.
- Dona Rosa, a minha
Rosa está em casa?
- Não. Ela é o
mensageiro. Deve estar na CE a sua procura.
- Então, se não se
importa, vou me despedir. Grato pela preocupação com relação ao Jon, mas já
tive o bastante desse universo mágico pseudo-antropológico por um dia.
- Eu gostaria de olhar
as suas mãos antes que você fosse, Arn.
- O que têm elas?
- Ahã... aqui... isso!
Facilidade para ganhar dinheiro... pessoa inteligente... Do monte da lua,
atravessando esta linha, aqui está a nossa Rosa seguida de uma ilha. Não sinta
ciúmes dela, encare o que ela tem feito como masturbação! Isso passa! Ela é seu
grande amor!
- Isso é uma bobagem!
- O que é bobagem?
Leitura de mãos?
- A grande bruxa má da
CE lendo frivolidades nas minhas mãos como uma cigana rural em feira de
domingo!
- É assim que uma bruxa
estende o próprio presente. Passado e futuro estão em cartas, moedas, xícaras e
mãos, basta saber ler. Sua linha da vida tem uma estrela logo aqui... Me deixa
continuar!
- Outro dia, dona Rosa.
Preciso ir. Boa tarde!
Coronel Lúcio
Qualquer pessoa dos
mundos, por mais alegre, pareceria sisuda se comparada a um nativo da Brasil. O
domo Praia, o asteróide oco onde ficava o mar interno, se transformou num
balneário para ricos dos mundos e da Terra. Ali eram realizadas festas que
lembravam os woodstocks e foi o lugar que Arn escolheu como uma segunda casa
depois do palácio. Como não poderia deixar de ser, conheceu seus vizinhos e fez
amizade com alguns.
- Senhores, já que a
agência espacial de Ox não se opôs, aceito o trabalho, mas é útil que alguns
pontos sejam esclarecidos. Não é novidade para nenhum de nós que existe
preconceito entre os nossos povos, somos chamados de máquinas de carne entre
outros nomes e é exatamente isso o que eu sou, ou melhor, essa é a minha forma
de trabalhar. Nos horários programados, abrirei as portas da bolha e farei os
transportes. Não descerei para as estações, nem para café e muito menos para
conversas. Não atendo emergências, não farei viagens não programadas. Minha
cultura não me permite corrupção, sendo assim, serei indiferente a qualquer
oferta fora dos termos do contrato.
- Porra! Você falou assim
mesmo? Chamou os caras de corruptos?! E eles?
- Falei exatamente
assim, e eles engoliram. Que mais poderiam fazer?
- Mas eram funcionários
da empresa de mineração?
- Eram militares como
você, coronel! Claro que não eram generais, mas...
- Me chame de Lúcio,
Arn! Somos vizinhos e aqui, afinal de contas, é a Praia!
- Desculpe, é que não
temos isso nos mundos, somos uma só nação, nossos militares deixaram de existir
quando isto aqui chamava CE. Mas acho legal essa coisa de hierarquia,
uniformes, exercícios forçados...
- E os seus Soldados
não são militares?
- Por um lado sim, mas
são como uma tribo primitiva. Na verdade são apenas brutamontes estúpidos! Por
falar em estupidez, descobriu alguma coisa nos seus arquivos sobre aquele
assunto?
- Assunto? Ah, sim!
Quem surgiu com essa idéia?
- Minha sogra. Tem mais
um monte de Sensitivos videntes que estão apavorados. Existe alguma coisa que
pode ser ameaça?
- Não com relação à
nave. O que esses videntes vêem?
- Basicamente gente
caída pelo chão. Essa nave é assim tão rápida?
- O protótipo dobrou a
velocidade da luz entre a Terra e Marte, mais rápido do que isso, só você
mesmo! Tempo zero não dá para bater assim tão fácil! Mas a nave é só um
veículo. Poderia levar uma bomba. Esse pessoal vê escombros?
- Não. Os prédios ficam
intactos.
- Eles não cometem
erros?
- Claro que cometem,
são clones, mas clones de Puros!
- Não gostei da maneira
como você falou “Puros”, e acho que os seus Sensitivos “macumbeiros” cometeram
mais um erro. Não seria necessário, mas vou te contar uma coisa: havia um
programa, no nosso banco central de dados, do tempo do lançamento da Esperança.
Corremos atrás do autor e descobrimos um nome: Edgar, o pai do governador da
CE, Arthur.
- Para que servia?
- Para nada. Ficou
escondido e inativo por todos esses anos, quando fizemos contato, ele acordou,
se reescreveu para se modernizar ao mesmo tempo em que se esgueirava dos
sistemas de proteção. Coisa muito bem bolada para a época! Mas nós o pegamos e
deletamos.
- Qual era o objetivo
desse programa?
- Arn, a Terra espera
que vocês dos mundos produzam alimento. Precisamos de terras e de pessoas que
as cultive. Nossos clones são diferentes de vocês, eles sim são mais máquinas
que gente! Eu não diria que você é um boneco... desculpe... não se ofenda!
- Boneco, máquina de
carne, genético, genérico... Nada disso me afeta, coro... Lúcio, diga apenas
qual é o objetivo do programa.
- Foi deletado, não
existe mais! Era feito para encontrar uma forma de identificar e eliminar... o
que chamou de... “artificialidade... genética”. Mas foi deletado, excluído. Não
há mais perigo, posso garantir!
- Não, coronel! Posso
sentir. Estão todos mortos agora! Preciso ir!
mortos
Não existia uma
urgência a não ser nos olhos marejados e no coração apertado, mas o corpo não
reconhece a morte a não ser como uma dor mais forte, por isso se apressa.
Fez os transportes
atrasados até que não havia mais passageiros. Nesse momento decidiu manter-se
como um fantasma.
Do lado de fora da
estação sobre Lasli, o letreiro luminoso dizia: “Arn, livre-se do implante. Os
não conectados estão bem.”
As lágrimas só brotaram
quando viu, ao sobrevoar a cidade onde fica o palácio, pessoas caídas pelas
ruas. Retrocedeu um pouco mais para ver como havia acontecido. Elas
simplesmente caíam. Algumas levavam a mão à cabeça como se sentissem dor,
outras viravam o rosto parecendo enjoadas, mas nada explicava a morte
repentina, antes mesmo de baterem no chão.
Esperava encontrar as
duas Rosas e Marus no palácio. Apenas a velha agitava os braços segurando uma
faca entre corpos de funcionários no salão principal.
- Arn, não se
materialize! Se você está aqui, me leve para algum lugar fora de alcance e eu
tiro o seu implante! Se estiver aqui, me dê um sinal!
- Não posso fazer isso
sem me materializar! Você precisa ir para a estação!
Ela repetiu suas
frases, não podia ouvir. Também ele não tinha como dar sinais, era um fantasma
flutuando na luz que ela refletiu uma fração de segundo depois do que realmente
fazia.
Poderia, muito
rapidamente, golpear um vaso, mas quanto tempo o implante precisaria para
matá-lo? E o que ela entenderia com um vaso caindo ou explodindo? Na estação,
bastaria que ela entrasse na bolha e ele faria o transporte sem se
materializar. Como fazê-la entender?
De repente, como que
saindo de seu peito, um demônio de Inferno se materializa diante de uma mulher
enlouquecida, paralisada ainda com os braços acima da cabeça. O que Arn deduz é
que houve um breve diálogo telepático encerrado com o monstro indicando a saída
e a mulher caminhando para lá mecanicamente como que hipnotizada.
Antes de desaparecer
como fumaça, o monstro ainda voltou a horrenda cabeça para ele. Não houve medo,
talvez estranheza
A outra Rosa estava na
estação acompanhada por um desconhecido de sua idade, mas muito familiar. Os dois
estavam bem, por isso Arn foi para sua posição junto à bolha e aguardou.
Mesmo que sacuda um
pouco de vez em quando, o lugar mais defendido do corpo é a região do púbis. Em
algum lugar por ali estaria o implante. Dentro da cabine, Arn olhava para essa
área e pensava: aqui está o inimigo!
Quando a velha entrou
na bolha, bateu na parede de metal com o cabo da faca e gritou que haveria
risco de contaminação, a operação deveria ser em algum lugar isolado.
Arn usava uma entrada separada nas estações,
feita para entrar e sair da cabine. Uma outra bolha havia sido fixada ao corpo
da Brasil para que servisse como salão para partidas e chegadas, tendo sua
saída particular.
Ao abrir as portas, a
velha assustou os passageiros. Gritava para que ninguém entrasse, mas era uma
velha suja, com dreds nos cabelos
grisalhos, agitando os braços enquanto segurava uma faca. Em seguida Arn
explicou resumidamente o que ela faria. Por sorte havia um médico ali com
ferramentas adequadas.
O implante, além de
manter as pessoas em contato e informar sobre crédito entre outras coisas, é um
mini laboratório que fabrica vacinas. Para isso acumula, numa bolsa, tudo o que
invadiu o corpo por toda a vida, de fungos a vírus, passando por todo o tipo de
toxinas.
Foi essa a maneira que
o programa de Edgar encontrou para eliminar a “artificialidade genética” em
milhares de pessoas pelos mundos, liberando de uma vez tudo isso na corrente
sanguínea. Um programa como esse saberia
fingir ter sido excluído.
A intervenção foi quase
indolor, mas mesmo que a completa recuperação demorasse, Arn não esperaria para
ir buscar Rosa.
Marus II
Na estação sobre Lasli,
o rapaz organizava a remoção dos corpos. Rosa o abraçou terna, mas
cuidadosamente ao ver o curativo. Já ele o saudou sem parar de incentivar os
sobreviventes. Em seguida viria ao seu encontro.
- Quem é esse cara?
- Marus.
- Como assim? Ele é um
garoto!
- Eu e minha mãe
fizemos um ritual. Esse é o Marus com um novo corpo.
- E isso é possível?
- Você vai ver!
- Arn! Que bom que você
está bem! Precisamos de toda ajuda possível aqui. As estações precisam ficar
livres de contaminação. Qualquer sobrevivente de bom-senso vai subir. E
precisamos avisar o pessoal da CE. Tivemos duas epidemias lá, é só dizer que
existe o risco e eles vão saber o que fazer.
- Você é mesmo o Marus?
- Claro que sou! Ah!
Meu corpo! Essa aí e a bruxona velha fizeram um abracadabra qualquer e o
resultado é este! Mas sou eu mesmo! Arn, depois a gente conversa sobre isso.
Precisamos ir para as outras estações. Cadáveres pelo chão podem infectar as
pessoas pelo ar. Temos turistas da CE e da Terra nos mundos. Vamos salvar essa
gente!
- Seja quem for, o que
você diz faz sentido.
- Ótimo! Vamos deixar a
Rosa na CE, ela avisa o pessoal, se é que minha irmã já não avisou. Tem um
grupo que ficou amontoando os corpos lá embaixo, eles devem ser levados
primeiro porque estão mais expostos.
Marus foi falando e
conduzindo o casal na direção da bolha, quando Arn abriu as portas na estação
da Brasil, a bolha fixa já havia sido esvaziada. Ao descer, Rosa viu apenas
gente instalando equipamento médico e alguns jornalistas.
Pessoas desesperadas
tentaram invadir a bolha, mas deram com um rapaz que sabia usar a voz de forma
a acalmar e chamar ao bom-senso. Logo havia grupos organizados na execução de
tarefas específicas e uma hierarquia de líderes. O mesmo na estação seguinte.
Quando os primeiros
sobreviventes desembarcaram na Brasil, a bolha fixa já havia sido transformada
num hospital e todos puderam ser atendidos imediatamente.
- Arn! Arn, acorde! Sou
eu, Marus!
- Ah! Você! Vá dormir,
a quarentena não acabou!
- Fomos liberados, Arn!
Não tivemos contato com os corpos, não estamos contaminados. A Terra ainda não
sabe de nada e os Soldados ainda estão lá nas vilas. Temos trabalho a fazer!
- Estão todos mortos
mesmo? Aconteceu realmente?
- Infelizmente sim. Mas
é hora de nos ocupar com os vivos. Estão montando robôs para queimar os
corpos...
- Os Soldados não têm
implante, eles estão bem e a Terra pode esperar. Aproveito para te perguntar
uma coisa: onde está o Marus antigo?
- Ficou no palácio,
morto.
- Ele não tinha
implante e estava saudável. Como morreu?
- Não sei dizer, Arn.
Isso é pergunta para as duas bruxas. Mas não estou pensando só nos Soldados,
pode haver turistas que não conseguiram subir para as estações.
- Onde estão as Rosas?
- Se já não saíram,
estão se preparando para isso. Entendo que você esteja desconfiado. Se não
fosse essa situação, eu mesmo ficaria confuso. Acho que vou ficar assim que
tiver tempo para me olhar no espelho, mas sou um Líder num momento de
catástrofe. Você não imagina o volume de adrenalina que tenho no sangue!
Preciso agir, Arn! Me ajude a ajudar essa gente, por favor!
vingador
- Porra, Arn! Eu não
tinha idéia... sinto muito mesmo!
- Pára de se desculpar,
Lúcio! Você não tem culpa de nada!
- Mas se eu tivesse te
avisado assim que descobriram o programa desse filho da puta... mas quem ia
dizer que um programinha de trezentos anos ia fazer esse estrago?
- Começo da
inteligência de máquina. Tudo que é inventado é perfeito no começo, depois é
que avacalham. Chamam o programa de Cronos agora. O que é isso?
- Um deus mitológico,
um monstro que comia os próprios filhos. Esse tal de Edgar é esse monstro, é
assim que vai para a história. O programa nos enganou, achamos mesmo que tinha
sido excluído. Quando você falou da nave, cheguei a pensar que seria ela a
levar alguma coisa. Uma bomba, sei lá! Mas não faria sentido. Mesmo com todo
preconceito, precisávamos de vocês!
- Já terminaram a
construção da grande?
- “Das grandes”. São
três e quanto maior a distância, mais rápidas! Acho que você está prestes a
perder o emprego, amigo! Imagine uma onda de rádio que multiplica a própria velocidade
em progressão geométrica! Você é bom, mas não carrega um centésimo do volume
delas!
- Bom para vocês!
- Não fique tão
apático, Arn! Sabe alguma coisa sobre Marus?
- Desde que ficou em
Lasli, não tive mais notícias. Por quê?
- Você não acredita nele,
não é?
- É um Líder, está com
os Soldados que sobraram... O que há
para acreditar?
- Ele vai tomar aquela
lua!
- O Marus original era
um bom político, mas esse clone dele está sozinho. Os Soldados são guerreiros
românticos, não passam de índios! Estão desarmados...
- Estavam!
- Como estavam? Você
está contrabandeando armas na minha bolha?
- Tem gente aqui e na
Terra que acredita nele, Arn! Gente poderosa! A Terra pode ficar com os outros
dois planetas. Deixar Lasli para ele seria um tipo de compensação depois de
Edgar e seu Cronos, não concorda? Quanto às armas, não são para serem usadas,
basta que existam. De qualquer forma, você seria uma boa aquisição se achar a
causa justa. Afinal de contas, você é um clone!
- Lúcio... “coronel”
Lúcio, você disse que existem pessoas poderosas envolvidas. Por acaso, entre
eles existem fabricantes ou comerciantes de armas?
- Claro, não há outra
forma de conseguí-las!
- Isso significa que
uns vão ficar mais ricos enquanto outros morrem, certo?
- Bom, se você é mais
pacifista do que tem amor pelo solo onde você nasceu e que te viu crescer, acho
que perdi meu tempo.
- Perdeu sim. Foram
milhares, mas sei que foram apenas porque era hora deles irem e, pode
acreditar, essa é uma convicção baseada em experiência. Devolver uma ofensa é
aceitável, as vezes até necessário, vingar “uma” morte que seja, é um total
absurdo!
Crise conjugal
Os mundos já tinham
novos colonos Puros, termo já em desuso, e com as novas naves em operação, Arn
passou a conviver mais com seus amigos nativos da Brasil. Com isso acabou por
adotar alguns dos seus costumes. Vivia uma união estável e exclusiva, um
casamento comum. Rosa se mantinha fiel e parecia satisfeita, já ele não se via
obrigado a isso, não comentava para que ela “não tivesse idéias” e mentia
quando perguntado. Nos mundos, ele mesmo classificaria essa atitude como
“machismo hipócrita”. Imaginava que ela agia da mesma forma o que teria certas
implicações. Ela era mais discreta do que ele, o que é bom e, na total ausência
de indícios, melhor mentirosa, o que não é. Entre a culpa, a dúvida e a rotina,
sobra pouco espaço para sentimentos.
A solução nessa cultura
eram conversas periódicas, normalmente emocionais, que passavam por um momento
em que era dito qualquer coisa do tipo: “Eu fiz e você também! O que nos
resta?”
No caso de Pé e sua
parceira, não restou nada, nem raiva sentiam um do outro. Eram um casal amigo
e, separadamente, continuaram a visitá-los. Mas deu-se o que seria previsível,
o carente Pé se apaixonou por Rosa e ela pareceu feliz com isso.
Quando soube, Arn riu,
depois ficou furioso.
- Logo ele?! Um
mentiroso, um hipócrita, um traidor!
- Arn, de quem você
está falando? Dele ou de você mesmo? Esquece que sou telepata?
Sem os Sensitivos
engenheiros da agência espacial pressionando, ficou fácil para ele esquecer os
“super poderosos” clones dos mundos, como se ele não fosse um telecinético
geneticamente alterado com esse fim. Atribuía o transporte instantâneo ao anel
invertido como sempre fez e via a si mesmo como um trabalhador normal.
De qualquer forma,
aquele era um bom momento para conter suas emoções e mudar de assunto.
Visita a Lasli – Velha morrendo
A vida seguia num ritmo
sem graça, mesmo com as rápidas aventuras sexuais dele, sempre seguidas de
mentiras que, agora ele tinha certeza, não convenciam.
De repente, num dia
qualquer, depois do almoço, ela pára com olhar perdido.
- Minha mãe... Ela está
morrendo.
A velha Rosa havia
desaparecido há meses, desde que saiu da quarentena. Havia voltado a viver nas
ruas e dormir nas plantações como fazia quando moça. Se estava morrendo,
certamente estaria no lugar onde dorme o que limita a busca a uma área circular
de dois quilômetros de diâmetro, servida por doze portais. Rosa, a moça, sairia
sozinha, certa de que a encontraria rapidamente e foi o que acabou acontecendo
depois de um único erro que serviu para que outros mendigos informassem com
mais precisão onde a velha dormia.
No andar abaixo da
cidade antiga estavam as plantações e as estradas, agora abandonadas por causa
dos portais. Ali se acumulava poeira e todo o tipo de coisas velhas e
quebradas. O cheiro era de mofo e urina. Ao menos a velha não gostava de
visinhos e com razão, as pessoas que moravam ali tinham problemas psicológicos
ou eram viciados ou deprimidos ou tudo isso junto.
Para encontrá-la foi
preciso invadir uma fazenda atravessando um alambrado rompido e andar alguns
metros até encontrar uma casa feita de panos e caixas, cercada de coisas que
poderiam ou não ser úteis um dia. Dentro, a velha aguardava deitada sobre
embalagens usadas ao lado de panelas velhas com restos de comida. Estava magra,
suja e tinha as pernas cobertas de feridas.
- Mãe! O que você fez?
Isto não é a mata! Porque não nos procurou?
- Oi, filha! A CE não é
mais o que era! Oi, Arn! Desculpe por não me levantar.
- Dona Rosa, vamos sair
daqui? Limpar essas feridas e começar uma vida nova conosco lá na Praia?
- Não há tempo, estão
aqui porque sabem disso. Então vamos ao que interessa. Só me ajudem a ficar
mais ereta. Filha, errei com você, eu não devia ter falado sobre o rapaz
maravilhoso que te daria um mundo, lembra? Lembra de tudo?
- Claro que lembro,
mãe. É um planeta inteiro e se chama Rosa como nós!
- Arn, você mudou
muito! Está mais maduro e mais amargo também. As mortes nos mundos te afetaram
bem além do que você admite, mas houve uma especialmente difícil de digerir.
- Marus.
- Você não voltou lá
para ver por respeito a nós, suspeita de quem ama, mas não insistiu em
perguntar por que sabe que não poderia impedir. Preferiu negar tudo, todo o
passado, passou a pensar e agir como um nativo da Brasil, torturado por dúvidas
que acha melhor não esclarecer. Você não é um “mestiço”, muito menos um Puro, é
um clone especializado que pode voltar lá e ver. Faça isso. Mas antes quero te
perguntar outra coisa: você sabe onde está o monstro que surgiu para me fazer
subir para a estação?
- Não voltei a Inferno
nestes últimos meses, não tive mais visões. Ele simplesmente sumiu.
- Rosa, pegue aquele
espelho, por favor. Dê para ele. O que você vê. Arn?
- Meu rosto.
- Não é o monstro?
- Não.
- Éh... essas coisas
nem sempre funcionam. Vá até o palácio, Rosa fica comigo enquanto isso. Vai
fazer bem para todos nós.
- Volto em poucos minutos.
Arn correu para o
portal. Não queria que Rosa ficasse sozinha com uma velha moribunda num lugar
como aquele.
A estação fixa tinha os
dias contados, as naves grandes da Terra precisavam de portais maiores para
cargas em quantidade. Tudo estava em reforma, a espera de tempos de fartura.
Não era fácil para ele
voltar até aquele momento e ver pessoas que já não existiam despreocupadas,
como se nada pudesse acontecer Como um fantasma, atravessou as paredes do
palácio até encontrar uma sala onde quatro pessoas se reuniam a luz de velas,
as duas Rosas, o velho Marus e o rapaz.
Lembrou-se de como a
velha estava sensível naquele dia. Para não ser descoberto e não alterar assim
a seqüência dos eventos, estabilizou-se num momento um pouco mais distante e
com isso não ouvia o que era dito.
O rapaz entrou na sala
amparado entre as duas e foi colocado na cadeira de frente para aquela onde
estava Marus. O primeiro parecia drogado, um melhor termo seria “vazio”, já o
velho meditava ou foi hipnotizado. Seguiu-se uma série de rezas e gestos
enquanto a moça se colocava entre os dois com uma mão em cada peito como se
tentasse ser uma ponte. Ao som do que quer que ela dizia, o que parecia vazio
se encheu e o mais ereto foi tombando.
Houve uma conversa
sobre isso com Rosa, a moça, na Brasil.
- Ele simplesmente
morreu.
- Como assim
”simplesmente”, Rosa? Estava tão saudável quanto sempre foi!
- Um corpo não vive sem
a alma, Arn.
- E o que diabos você
chama de alma? Não é a “assinatura de onda”?
- Não, isso está mais
ligado ao ego e a fantasmas. Alma é essência, uma parte nossa que é imaterial e
nos liga ao todo. Sem alma o cérebro desiste de pensar e o coração pára de
bater. O clone recebeu a alma de Marus quando já tinha sua assinatura, passou
anos sonhando com o que ele fazia num coma induzido numa sala secreta que o próprio
Marus construiu. O terrível foi a coincidência!
- Rosa!... Parte
imaterial?... Me diga que foi um acidente!
Terminado o ritual, o
rapaz levantou para comemorar e sentir cada músculo esfregando o próprio corpo,
enquanto isso, o outro deixava a cabeça cair para frente ao dar seu último
suspiro.
Impressionada, Rosa, a
moça, sai da sala para retornar em seguida mais assustada ainda. Esse novo
Marus falava com a velha justamente sobre como descartar seu antigo corpo
quando a moça dá a notícia das mortes.
- Me senti culpada,
Arn! Era como se o velho Marus, ao morrer, tivesse levado toda a população com
ele! E fui eu quem serviu de ponte! Minha mão em seu peito foi a última coisa
que aquele corpo sentiu!
O velho foi deixado
onde estava enquanto o novo corria os cômodos a procura de sobreviventes até
deixar-se cair de joelhos no salão depois de olhar a rua. Ali as duas Rosas se
abraçavam, a velha tentando consolar a nova.
Quando se ergueu, o rapaz já tinha uma direção a seguir. Arn deduzia a
partir dos gestos que sua intenção era que as duas subissem para a estação. Em
meio à discussão, foram olhar um dos corpos e, certamente nesse momento,
perceberam que eram os conectados as vítimas. A velha pegou uma faca, mas foi
impedida de cortar o cadáver, então decidiu ficar e insistiu que os dois
usassem o portal do hall de entrada do palácio.
Isso foi o suficiente.
A velha estava morrendo na Brasil e deixaria a sua Rosa sozinha entre mendigos
imprevisíveis.
Morre a Velha
Arn desceu da cabine e
correu para o portal. Bastaria dizer Esperança, andar inferior e um número
entre um e doze. Mas qual era mesmo o número? Ele sabia, ou achava que sabia
qual “não” era, restando metade das possibilidades, começou a arriscar. Disse o
primeiro numero e atravessou. Deu num ponto onde as luzes sequer funcionavam e
o lixo se acumulava logo adiante. Voltou. Tentou o segundo numero em sua lista
mental. Mais um erro. O terceiro e novo erro. Viu surgir um trabalhador com uma
caixa e ar de afobado. Ao atravessar pela quarta vez, um mendigo enlouquecido o
agarrou pelas costas e o chamou de ladrão. O sujeito fedia a urina e suor, foi
só o que sentiu antes de jogá-lo no chão com um golpe de judô, coisa que havia
aprendido na infância e, até ali, nunca usou.
“Essa velha horrível
não quer que eu a veja morrer!” Foi o que pensou, cheio de adrenalina, de volta
à estação.
Conseguiu na tentativa
seguinte, mas a moça já chorava sobre o corpo sem vida da velha. Pouco atrás
das duas, quase visível, um monstro vermelho o olhava com uma mensagem simples
e irresistível: era hora de partir.
Seria um golpe muito
forte perder a mãe e o marido num só momento, por isso Arn a acompanhou até o
apartamento na Praia. Caminharam abraçados e silenciosos, cada um lembrando
fatos diferentes, mas com pontos em comum.
- O que você acha do
que ela disse sobre nós?
- Sei o que você esta
pensando, Arn, e agradeço pela gentileza. Você olhou o vazio e isso mudou
alguma coisa dentro de você, nasceu um desejo irresistível de partir. O que
você viu?
- Um demônio de
Inferno. Ele trouxe esse desejo.
- Eu deveria saber.
- Como você fica? O que
ela te falou?
- Que vou ter uma vida
comum ao lado de alguém que me trata bem, que terei dois filhos normais...
enfim, uma vida vulgar, sem novidades, estúpida! Mas disse também que não devo
ficar triste e contou a parte filosófica que sempre segue um conselho desses.
- Bom, normalmente faz
sentido. Quer me contar?
- Da última vez que ela
explicou essas coisas, foi porque morreram todos dos mundos. Desta vez ela
repetiu que o sentido da vida é o óbvio, do nascimento até a morte e entre uma
coisa e outra, nada além de viver. Fez uma relação confusa com o “alguma coisa”
ter saído do “nada” e que, por isso, o nada deixa de ser nada e, como esse
“alguma coisa” tem muito nada, deixa de ser “alguma coisa”.
- Ela estava
alucinando? O que você entendeu de tudo isso?
- Para variar vou ter
de pensar a respeito, mas nunca mais vou ver o símbolo do yin yang da mesma
forma! Mas tem haver com esperança e eternidade.
- Ela morreu bem?
- Apenas suspirou
depois de beijar minha mão. Foi em paz.
Desvio – Pé de Rosa – guerra de Marus
- Senhores, acho que
não sou mais necessário. Vocês têm o protótipo para transportar pessoas
rapidamente e ganham em liberdade podendo usá-lo quando quiserem. Não vejo em
que posso ser útil, logo, aceitem minha demissão. É isso o que vou dizer.
- Bom, se você quer
assim... A Terra pode passar sem você. Claro que vão lamentar a perda do
transporte instantâneo, mas eles sobrevivem. Me diga uma coisa: há boatos de
que a Brasil quer se desviar do curso para a Terra. É verdade?
- Porque você não
pergunta isso para o Pé? Ele é quem anda com os políticos.
- Arn, você era
importante nos mundos e continua sendo aqui. Sei que os empresários querem você
e certamente você fica sabendo como eles pensam.
- Lúcio, meu amigo
militar e agente secreto da Terra, vou te dizer uma coisa: É sim, os políticos
têm falado disso há algum tempo, é a vontade do povo e o comércio suportaria
segundo os empresários.
- Fora o fato de se
verem livres do preconceito contra os “mestiços” da Brasil.
- Não tenho a menor
dúvida de que isso conta! A Brasil é uma nação! Isto é como uma arca de Noé,
aqui está o “humano” por excelência! Somos brancos, negros, asiáticos, índios e
alguns clones, quanto maiores as diferenças, mais felizes ficamos, maior é a
festa! Por causa disso somos o cartão de visita do que é ser um ser humano. Há
civilizações por aí e queremos conhecê-las. Admitimos nossos defeitos, fizemos
escolhas erradas ao longo da história porque temos um ego a valorizar, mas isso
não significa que alguns de nós vão prevalecer sobre os outros e chamá-los de
inferiores. Somos uma raça só. Voltar para a Terra, pensando assim, é dar um
passo atrás.
- Percebo que você
concorda, mas vai mesmo acontecer? O que a Rosa diz?
- O Pé é um puta
ciumento, desde que ficaram juntos não falei mais com ela, mas é questão de
alguns meses para o desvio. Estão com meu implante e acham que podem recuperar
parte dos mapas.
- A Rosa está com o Pé?
Porra! Como isso aconteceu?
- Do jeito normal! Ele
se apaixonou por ela, eu vou para Inferno, ele é um cara legal... Que fiquem
juntos!
- Bom... se você está
tranqüilo... Mas não deixa de ser uma surpresa. Achei que você a amava.
- E amo.
- Ama e entregou assim,
de bandeja?
- Não posso ter filhos,
Lúcio, e quando for para Inferno, não volto mais.
- Cara, você é muito
civilizado! Porque não leva ela com você?
- Por que ela não
duraria meia hora lá.
- Você fala dos
monstros ou dos Soldados?
- No fundo, falo de mim
mesmo. Mas é assunto encerrado. Como vai a guerra de Marus?
- Não vai bem. Ele é
conciliador, tende a ceder esperando gratidão e os políticos da Terra não têm
memória. Ele tem perdido apoio lá e mesmo os Soldados não o respeitam como ao
velho.
- Da outra vez que
conversamos você parecia entusiasmado com a “causa”. Mudou de idéia?
- Não há como vencer!
Lasli seria a lua dos clones, mas quem são eles agora? Você, Marus, Rosa e mais
alguns poucos, a maioria são Soldados, gente difícil de conviver, ignorantes,
grosseiros. O objetivo de Marus é a Terra, Lasli é apenas um meio de ganhar
publicidade. Matam ele antes disso!
- Conhecendo Marus,
aposto que ele sabe disso e, demore o tempo que for, enquanto estiver vivo, ele
vai tentar até conseguir.
Magia Sexual e retorno
Rosa o olhava direto nos
olhos, estava dentro dele e, ao mesmo tempo, fazia movimentos ondulantes com o
canal da vagina. Tinha absoluto controle sobre o que ele sentia, com isso o
mantinha a um passo do orgasmo. Arn ia enlouquecendo aos poucos, perigosamente
perto do desespero. Tentou retomar o vaivém e assim terminar com o melhor
sofrimento pelo qual alguém pode passar, mas ela tinha os calcanhares logo
acima da parte de trás de seus joelhos e as mãos em suas nádegas. Estava preso, enlaçado por pernas e mãos implacáveis.
Já não pensava, alucinado,
via cores e formas inexistentes. Perdia-se nas variações de tom do castanho de
olhos que já não eram os dela, ele mesmo não estava ali. A cama foi substituída
pela areia fria de uma praia em Rosa. Por um segundo ele se distraiu, quis olhar
em volta, mas ela não deixou. Empurrou-o para o
lado e, ao rolar junto, se colocou por cima sem se desencaixar, recomeçando
imediatamente os mesmos movimentos agora com os pés no chão, ao lado de seu
quadril.
Num momento era areia,
em seguida terra e folhas.
Estavam no centro de um
círculo de demônios que, em posição de centauro, guardavam um silêncio
reverente. Se não participavam, ao menos conheciam as sensações ao se meterem
em sua mente.
Sentiu que morria. Se
não gritasse, seu coração ia explodir. Rugiu, soltou qualquer coisa sonora, um
ruído que não saberia dizer se foi alto ou baixo.
Exatos, três movimentos
do ventre dela, coisa pouco menos sutil do que aquilo que vinha fazendo e tudo
se tornou dolorosamente luminoso.
Arn teve espasmos tão
violentos que jogou Rosa para o lado na cama.
O carinho instintivo o
fez rolar para junto dela antes mesmo de se dar conta do que havia nesse
momento de luz cegante, agora reduzido a pontos luminosos, como estrelinhas.
Quis falar, saber se
ela também havia gozado, mas teve a boca tapada por dedos delicados. Ficaram
imóveis por alguns minutos, o tempo necessário para que o quarto e a cama
voltassem a ser reais.
O clarão durante o
orgasmo trouxe alguma informação importante, mas que precisaria ser capturada
pela mente ou se perderia. Alguma coisa sobre três mulheres de alguma
mitologia. Uma fia, outra tece e a última corta. Símbolos para fenômenos que
podem ser compreendidos, mas não através de palavras.
Quando finalmente pôde
se mover, percebeu que tinha areia e folhas nos lençóis e grudadas no suor de
suas costas.
- O que você fez? Não
foi alucinação! Nós estivemos lá e você não parou. Saltamos juntos sem o anel
invertido! Isso nunca aconteceu! Você percebeu, não foi? Claro que sim, e não
parou. O que você pretendia?
- Porque a agitação,
Arn? Além de dar prazer a quem amo, quero ser uma lembrança mais forte do que
algumas mulheres Soldado... Mentira, crueldade minha! Não é isso. Minha mãe
surgiu em sonho e me disse para te torturar dessa forma, para que você se
libertasse.
- Torturar?!
- Uma mulher que faz
isso com freqüência, só por diversão, escraviza o parceiro, se decide deixá-lo,
destrói sua vida sexual.
- Não duvido!
- Ela também deixou
claro que eu não deveria parar porque poderíamos não voltar.
- Sem a cabine ficaria
difícil. Não pensei que seria capaz de me transportar sem ela.
- Desejei ficar em Rosa
e tive medo em Inferno. Foi um orgasmo em cada lugar, outro aqui, junto com o
seu. Sobre as mulheres que vieram à sua mente, são as Moiras. Não sei quanto ao
contexto, mas até os deuses são submissos a elas. Elas são as senhoras do
destino.
- Por falar em
destino... o que o Pé vai achar disto?
- Fizemos um acordo.
Ele projeta em mim uma coisa que não sou, como você. Para evitar ser chamada de
mentirosa mais uma vez, o que fiz foi propor uma relação de fidelidade diante
dos amigos, mas com liberdade e discrição nos “dias de folga” como hoje. Melhor
que uma amiga, hoje sou “o cara que divide a casa com ele”. Amanhã vou escutar
suas aventuras e contar parte das minhas, as menos picantes.
- Você acha que isso
dura?
- Ele aceitou bem a
idéia. Somos um casal e temos liberdade ao mesmo tempo. Hipócritas como todo
mundo aqui, mas somos honestos um com o outro.
- E você...? Até quando
pode seguir com isso?
- Você ia me perguntar
se eu estava “feliz” e reformulou porque sabe como penso. Não espero conviver
com um palhaço que me faz rir o tempo todo, bom humor é fundamental, mas o mais
próximo que se pode chegar dessa abstração, a felicidade, é um ponto acima de
um equilíbrio emocional perfeito, coisa que só a própria pessoa pode conseguir.
Vai durar porque não sou propriedade dele e deixo isso claro. Mas me sentiria
completa com alguém que tem medo de me matar.
O destino dos Soldados
Havia mais alguns
transportes a fazer para empresários da Brasil com interesse nos mundos, coisa
que um deles chamou de “batalha perdida” e expôs as razões. Por melhores que fossem
os portais feitos na Brasil, os colonos prefeririam os da Terra, como fariam
com qualquer produto, por uma questão de amor à própria origem.
Na verdade, Marus
estava conseguindo o efeito contrário ao esperado com sua “luta por uma Lasli
para os clones”. Lúcio estava certo quando disse que não havia mais clones, não
os interessantes. Soldados só servem para combater, não são bons guias
turísticos, não gostam de trabalhos repetitivos, podem caçar, mas não
acompanhados por bundas-moles da Terra.
Não havia como levantar
a economia a não ser reabrindo os woodstocks e usando as mulheres Soldado como
prostitutas.
Dessa forma, na opinião
desse empresário, Marus passou de Líder Supremo com a ridícula pretensão de
governar até a Terra, a gigolô e tirano de uma lua falida.
Os woodstocks
funcionaram bem inicialmente, mas isso gerou corrupção e violência.
Era por ser um Líder
que ele dominava os Soldados, diferente de antes quando era visto como uma
divindade inquestionável.
Em meio a uma história
que mistura paixão e corrupção, Marus morre alvejado por uma das armas que
comprou nas mãos de um homem da casta que criou.
A partir daí, Soldados
sem comando formam gangues e matam indiscriminadamente tanto seus próprios
membros como turistas. A Terra reage enviando tropas que não viam os clones a
não ser como um tipo qualquer de infestação, eliminando o maior número com o
menor custo.
Penalizado, Arn
sobrevoa as áreas povoadas até encontrar uma vila onde havia mais Soldados.
Mesmo que sua bolha não
fosse feita para pousar no chão, acomoda o melhor que pode a estrutura ovalada
numa praça e salta da cabine para seu interior de onde abre as portas. À
primeira criança que vê, grita quem é e que levará quantos puder para Inferno
onde ao menos terão uma chance de sobreviver. Logo havia filas bem organizadas,
basicamente de mulheres e crianças.
Sabia que não estava
fazendo um salvamento. Se aqui eram alvos, lá seriam comida, mas poderiam
contar com a proteção de homens adultos na área fortificada ao redor do portal.
A bolha estava cheia
quando a engatou na estação espacial sobre Inferno. Saltou da cabine para
dentro sem a ajuda do anel e sentiu alguma coisa de divertido nisso. Antes de
abrir as portas, deu uma olhada no lugar. Havia marcas de sangue, mas se isso o
incomodou um dia, agora só parecia o que realmente era, um prato de comida
usado.
O portal não
funcionava, então saltou para a área fortificada ao redor da outra moldura na
superfície, tendo o cuidado de não se materializar completamente.
As pessoas estavam
usando peitorais de metal como parte do uniforme, havia um muro alto ao redor
da vila com guaritas e homens armados. Além das casas brancas, uma horta e um
pomar. Mais adiante, a praça onde seria possível pousar a bolha.
Sentia-se feliz por
ajudar, na verdade, estava eufórico e não sabia ao certo o motivo.
Entre os assustados
passageiros que desceram quando as portas foram abertas, notou uma mulher que
era amparada enquanto gritava, chorava e batia no próprio peito. Faria ainda
dois transportes antes que ela viesse tentar agredi-lo.
Onde está meu filho? É
o que ela repetia aos berros, segura pelos outros passageiros. Como ele não
sabia o que estava acontecendo, outra mulher disse que as portas se abriram na
estação e assim que o menino saiu, se fecharam novamente.
Seria um defeito
perigoso e que nunca aconteceu, mas se o menino havia saído na estação deveria
está lá ainda. Bastava ir buscá-lo.
Chocados, a mãe, a
outra mulher e um homem viram a criança despedaçada.
A estação era composta
por apenas quatro compartimentos mais um banheiro, num deles poderia estar um
demônio. Voltaram para a bolha e quando desceram na praça a mãe estava
descontrolada. Na cabine, Arn verificou seu equipamento a procura de algum
defeito que pode ter aberto as portas, não encontrou apesar de confirmar a
abertura no monitor. Enquanto isso, o homem dava a notícia de um monstro na
estação e reunia um grupo armado.
A estação foi
vasculhada, só o que encontraram foi manchas de sangue no banheiro. Assim que
ouviu isso, um dos Soldados agarrou Arn pelos pulsos e o esbofeteou depois de
olhar suas mãos.
Meio tonto e ouvindo um
sino, ele saltou para a cabine onde pôde ver, debaixo de algumas unhas, marcas
de sangue.
Os homens conversavam
enfurecidos ao redor do portal enquanto um deles tentava ligá-lo.
Incrédulo, Arn recuou
no tempo para ver o que havia acontecido. Como fantasma, estabilizou-se diante
das portas e viu o garoto sair. Em seguida ele mesmo surgiu e ergueu o menino de
quatro ou cinco anos pelas axilas. Não parecia disposto a fazer mal a ele, mas
uma cabeça monstruosa surgiu de seu peito e, com um só golpe, praticamente
cortou o menino em dois. Então, seguro por um dos bracinhos, o menino teve o
coração arrancado e comido enquanto ainda pulsava.
De volta à cabine, Arn
se afunda no banco tremendo de nervoso. Ele havia feito aquilo. Estava
descontrolado e era perigoso. Precisava fazer a coisa certa, ir para junto dos
demônios e ficar com eles. Ficou ali até se sentir melhor.
- Senhores, vão para a
bolha. Vou levar vocês de volta.
- Seu Arn, o rapaz que
te deu o tapa, ele...
- Deixa pra lá! Apenas
vão enquanto posso me controlar.
- Ele não quis fazer
aquilo! É um idiota e vai pedir desculpas. O senhor não consegue se controlar?
Podemos ajudar?
- Ninguém pode me
ajudar. Só quero ter uma última atitude humana. Agora entrem na maldita bolha
antes que seja tarde!
- Não confio nele! É o
monstro que matou o moleque! Vi o sangue nas mãos dele antes dele sumir como um
demônio!
- Cala a boca,
estúpido! Não tem outro jeito de sair daqui!
A bolha surgiu na
praça, mas as portas não se abriram. Foram abertas pelos Soldados e não havia
ninguém dentro.
Arn nunca mais foi
visto nem os que foram com ele para a estação.
Mulheres Soldado são
muito férteis, o comum é que nasçam gêmeos, mas é preciso atacar a fortaleza de
tempos em tempos para que o medo as faça produzir mais filhos.
Nos mapas salvos do
implante, um caminho estava claro e foi a opção quando o desvio da Brasil foi
decidido. Dentro de trezentos anos, Inferno seria novamente visitado por
humanos.