quarta-feira, 25 de abril de 2012


PLACEBO

ETERNO COMO A VIDA




papel amarelo


- Puta que pariu! Só me faltava essa!
Seu João não estava de bom humor e a notícia de ter de ir à capital para refazer o contrato com a gráfica não chegou a animar.
O jornal não ia mal, tinha bastante tempo na praça e poderia ser dirigido pelos meninos, melhor até do que por ele mesmo. Mas o mau humor não era por causa de qualquer viagem forçada e sim porque Inês, sua mulher, vinha se tornando cada vez mais insuportável.
Casamentos de quarenta anos se baseiam em mentiras aceitas, bem ou mal contadas, ou não chegam a isso.
Foi oportuno para os dois. Ele era o marido promissor vindo da capital para a filha bonita e burra do fazendeiro rico.
Nunca deu certo, mesmo por quarenta arrastados anos e três filhos. Mas o que o irritava de verdade era perceber que envelhecia e o jornal, um sonho de adolescente, não o fazia sentir realizado. Amava os meninos, mas tinha uma família de fachada, tudo era falso e sabia que Inês pensava o mesmo. Ela se havia acomodado, quando se davam ao trabalho de discutir, ela fazia cara de nada e depois saía para comprar qualquer besteira cara.
A caminhonete velha vazava combustível. Havia mandado um dos garotos consertar, mas não houve tempo. Poderia mandar um deles para a capital, mas ir ele mesmo tinha suas vantagens. Exercitaria sua rabugice acusando o garoto de incompetência mesmo sabendo que a caminhonete não foi para a oficina porque ele mesmo havia incumbido o garoto de diagramar o próximo número. Indo sozinho ele poderia tomar alguns uísques, fumar quantos charutos quisesse, de preferência numa casa suspeita, longe do controle da família.
O que ele não contou é que o dono da gráfica era um velho amigo com quem fez o negócio de boca. Este havia morrido há pouco tempo e agora o herdeiro, o filho debilóide, queria pôr tudo no papel.
São o quê? 30 anos sem qualquer problema? Moleques!
Poderia ir com seu outro carro, o de um deles ou de ônibus, mas sentia certo prazer em aporrinhar, em sofrer e fazer sofrer àqueles que roubaram sua vida.
Saiu aos trancos, acelerando para fazer fumaça, barulho e cheirar bastante.
Se acalmou quando entrou na estrada.



Na gráfica


O velho galpão estava reformado, com paredes de fórmica clara. Nem sinal das velhas máquinas pesadas verdes, agora tudo era eletrônico, rápido, controlado por computadores.
Uma mocinha sorridente o aguardava atrás do balcão já com os papéis a assinar. O rapaz, o debilóide, não se deu ao trabalho de descer do escritório.
Dane-se se não fui no enterro! O cara era meu amigo e agora não vai no meu! Sinta-se vingado!
Documento pra cá, assina aqui, ali, rubrica acolá. E a mocinha olhando. Um sorriso insistente, cheio, do tipo que enche o coração da gente. E familiar, muito familiar.
- Acho que conheço, talvez, sua mãe...  ou avó...
- Ah, é? Então, como é o nome dela?
O nome da pessoa que o fez absolutamente feliz por dois lindos e loucos anos numa faculdade cheia de gente de opinião num tempo em que era perigoso se expressar. Luna, uma maluquinha sempre metida entre livros com ilustrações medievais e cozinhando porcarias fedorentas.
Luna teve uma filha, claro, ou vários filhos. Teve, e porque não haveria de ter, toda uma vida sem ele. A moça à sua frente era uma cópia exata dela, era como estar de volta no tempo, a não ser pelas roupas modernas.
- Luna. Você é filha dela?
Ela fez uma expressão, um jeito de inclinar a cabeça e olhar que não deixava qualquer dúvida.
- Não, não sou filha e nem neta. Olhe bem para mim, Jó!
- Sua mãe me chamava assim. Ela falou sobre mim, sobre o tempo em que namoramos?
- Contou que você achava as pesquisas dela um monte de besteiras esotéricas criadas pela mídia para desviar a atenção das massas do que realmente interessava: o poder político e blá, blá, blá!
João se calou. Passou por sua cabeça uma idéia louca, impossível. Era evidente que essa menina sabia de muita coisa. Talvez sua mãe tivesse ficado com raiva quando ele decidiu ir para o interior. Naquele momento era ser realista, abandonar sonhos românticos e se dobrar diante do poder econômico ou ser para sempre um Zé-ninguém.
Mas que direito essa bunda-suja tem de jogar isso na minha cara?
Ela continuava olhando, o sorriso cheio agora apenas se insinuava fazendo surgir uma covinha no mesmo lugar de antes.
- Quem é você?
- Alquimia funciona, Jó.
- É João e pára com a palhaçada! Sua mãe te contou essas coisas e tem raiva de mim porque eu fui embora.
- O mesmo babaca de sempre! Eu te mandei embora porque estava começando a entender como a coisa funciona e o seu ceticismo cego estava me atrapalhando.
- Ta bom! O que mais ela te contou? De que lado da cama eu durmo?
- O direito, e ronca quando abraça o travesseiro. Tem uma pinta na sola do pé esquerdo, medo de dentista...
- Eu só passei a roncar por causa dessa porcaria de ponte... fixa.
Nunca gostei de dentistas e muita gente tem medo, mas quem contaria sobre uma pinta na sola do pé?
Calma e conscientemente, a moça deu a volta no balcão, parou diante de João para observar, divertida, a expressão confusa e o beijou terna e demoradamente.
Inicialmente João pensou em resistir, mas eram lábios conhecidos, um corpo conhecido.
Admitiu para si mesmo naquele momento que havia errado ao ir para o interior. Ninguém além dele mesmo havia roubado sua vida. Ele, em nome de um sonho que excluía o coração, se submeteu ao dinheiro de um fazendeiro caipira e passou quarenta e tantos anos esperando por uma segunda chance.
Não havia um balcão, uma gráfica, uma rua movimentada, barulhenta, só ela em seus braços. Era a mesma Luna, com o mesmo humor e viço dos vinte e poucos anos. Já ele estava velho, sem cabelos, sem dentes, cheio dos pequenos e grandes problemas de saúde que a velhice trás.
- Vem comigo!
Ela pegou sua bolsa e gritou para alguém lá dentro que estava de saída. Puxou-o pela mão até a calçada e, dali, praticamente o arrastou até um hotelzinho vagabundo subindo as escadas ao lado de uma loja de sapatos.




créu


Uma putinha nova e seu cliente, um velho libidinoso. Certamente foi isso que pensou o sujeito que entregou as chaves.
No quarto, eles se livraram das roupas como teriam feito naqueles tempos, mas havia o peso da idade, o inacreditável da situação e a emoção do reencontro. Nem Viagra daria jeito!
João repetia não é possível tentando encontrar uma desculpa para si mesmo, mas Luna ardia de desejo apesar de compreender o que ele sentia. Foi quando decidiu fazer um teste. Pegou em sua bolsa um vidrinho como de perfume.
- Beba isto. Todo o vidro. Não me pergunte o que é.
João primeiro bebeu, depois ficou curioso. Em sua cabeça ela ainda era uma menina, a maluquinha que fumava maconha e tinha vontade de experimentar o que viesse.
- É e não é droga ao mesmo tempo, Jó. Não deve funcionar em você já que depende da aceitação de alguns conceitos, por isso dizem que só funciona com quem fabrica. Mas não custa tentar.
- É isso o que te mantém jovem?
- É. Pode fazer a pessoa se manter com a mesma aparência ou, dependendo da quantidade, voltar ao que era na infância. Você bebeu o que chamam de elixir da vida eterna, uma das minhas besteiras mágicas, lembra?
- Quem diz? Quem são essas pessoas?
- Eu não sou a única que conseguiu isso, tem um monte de gente vivendo há séculos.
- Quantos?
- Uns 600, acho, espalhados pelo mundo.
- E como isso funciona? Dá para explicar em poucas palavras?
- Dá. É uma questão de modificar a estrutura de moléculas. Você já ouviu dizer que a existência de um observador muda o fato observado?
- Já. É a parte da física que lida com ondas e coisas pequenas. Átomos. Li em algum lugar.
- O observador pode controlar a mudança usando a vontade. Basicamente é assim que funciona.
- E o que vai mudar em mim?
- Não faço a menor idéia. Depende da sua vontade. Você é o observador agora. O que você deseja de verdade?
João baixou os olhos como se buscasse a resposta nas próprias profundezas.
- Desejo acreditar que isto está realmente acontecendo. Desejo te comer como fazia há sei lá quantos anos. Desejo a segunda chance que venho esperando, desfazer todos os erros que cometi e viver eternamente ao lado da mulher que eu nunca deveria ter deixado!
Ele tinha lágrimas nos olhos ao falar e, diante disso, Luna literalmente saltou sobre ele.
Por causa do tal do elixir ou porque deixou de colocar a atenção no próprio pinto, funcionou perfeitamente a tarde toda.



acidente


Ao voltar para casa, de noite, João não reclamou da caminhonete. Esperou até que mulher e filhos estivessem na mesa para jantar e foi gentil com todos.
Maria Inês sabia o que fazia com que ele agisse assim, mas se calou. Dormiam em quartos separados desde que a filha se casou há 2 anos e, há muito mais do que isso, não tinham qualquer intimidade.
Depois dos dez anos de casados, quando João teve um caso que quase os separou, o pai dela surgiu com a idéia de um tipo de acordo: cada um resolveria seus desejos sem cobranças desde que fossem discretos.
Políticos não podem dar munição a rivais, é o que o velho caipira dizia.
As pretensões políticas dele definiram qual de suas filhas deveria se casar, a abertura do jornal, o número de filhos que eles deveriam ter quando nasceu a menina, que João poderia trair porque é aceitável aos olhos do povo e que, quando isso acontecesse, ela se manteria calada.
Os meninos são ótimos. Honestos, inteligentes, esforçados. Podem tocar o jornal e ainda garantir a velhice da mãe.
Maria Inês também não é má pessoa. Trepa com um peão da fazenda do pai há anos, discretamente, como filha obediente. Ultimamente é que vem tendo ataques de raiva, talvez porque o sujeito não esteja mais dando no couro ou algum problema relacionado com a tal da menopausa.
Ela sabia que ele tinha transado, o que não poderia imaginar é com quem e o que eles teriam conversado durante a tarde.
Por duas semanas ele ficou assim, tranqüilo, procurando formas de deixar as decisões nas mãos dos garotos, sem pressionar.
Foi estranho descobrir que era ele quem criava desarmonia ou poderia, facilmente, devolver a paz à família.
Mas um telefonema o fez lembrar que havia um plano a executar.
Manter os meninos ocupados serviu como desculpa para ir, ele mesmo, à cidade vizinha consertar a caminhonete. Lá foi direto ao cemitério local, subornou o coveiro e levou um cadáver enrolado num plástico. Passou num posto e encheu dois galões de gasolina. Na estrada de chão, na volta, escolheu uma curva fechada e fez o carro derrapar, colocou o cadáver no lugar do motorista, uma pedra no acelerador e deixou que o carro invadisse a mata. Quebrou os dentes do cadáver com a chave de rodas, espalhou a gasolina e tocou fogo em tudo.
O próximo carro que passou na estradinha o levou a um para um sítio com uma pista e um avião bimotor. Depois de cerca de duas horas foi deixado em outra pista aberta a facão. Dalí pegou um ônibus do tipo que carrega trabalhadores rurais e foi deixado na porteira de uma fazenda, sendo orientado pelo motorista a caminhar até encontrar uma casinha onde deveria ficar até que alguém o procurasse.
Nunca imaginou que poderia agir com tal frieza. Não tinha medo de fantasmas, mas comprar um cadáver, andar com ele no banco do carona e quebrar-lhe os dentes é coisa que nunca imaginou fazer e nunca mais faria.
Durante toda essa nervosa operação, coisa de agente secreto, repetia para si mesmo que era por uma boa causa enquanto tentava manter a imagem de Luna na mente.
Quando se deitou na cama antiga com colchão de palha no casebre pôde perceber que havia feito um esforço muito grande para um homem de sua idade. Sentia-se cansado quando deveria estar exausto e nem a fome o incomodava tanto.
Antes de adormecer imaginou o volume de dinheiro gasto na simulação de sua morte. Quem pagou?
Morra, foi só o que Luna disse quando ele perguntou o que poderia fazer para ficar com ela. Depois, quando já se despediam, veio a possibilidade dessa simulação.
Inicialmente pareceu uma coisa absurda, mas tudo ali era absurdo a começar por uma mulher de sessenta anos que aparentava vinte.
O acidente com a caminhonete foi idéia dele, ele também saiba que conseguiria o cadáver. A parte dela era encontrar lugar onde ele poderia ficar e estudar para produzir seu próprio elixir.
Quando ela ligou, disse apenas que já tinha o apoio do seu grupo e em que estrada deveria acontecer o “acidente”.
- Ou você faz amanhã ou nunca mais me verá!
Ela não era tão firme assim antes, mas era ela. A vida dele era uma merda e escapava por entre seus dedos. Seria uma aventura simular a própria morte e não havia certeza de que iniciaria uma nova, mas em nome do que sentia por ela, estava pronto para arriscar.



Takano


- Bom dia!
Por um momento João achou que estava na própria casa, que nada daquilo havia acontecido, então atinou que o oriental ao pé da cama devia ser alguém do grupo de Luna, alguém em quem confiar.
- Bom dia. Desculpe estar aqui, mas...
- Eu sabe, Takano conhece história toda. Você amor adolescente de Vitória, né?
- Vitória? Quem é Vitória?
- Luna. Nome dela agora Vitória, antes Luna. Café da manhã para amor de Luna. Muito trabalho espera. E muito estudo também. Você Joao agora, depois escolhe nome novo. Eu, Takano, instruir Joao tudo que Joao precisa saber para não morrer e evitar mortes.
O sujeito com aparência de quarenta anos não poderia ser mais japonês, desde a roupa até o sotaque. Enquanto falava mostrava uma mesinha onde havia café, leite, pão e frutas.
João levantou estendendo-lhe a mão.
- Obrigado, Takano. É um prazer. Mas gostaria que você entendesse que tudo isso é novidade para mim. Na verdade estou um pouco confuso, sem saber no que acreditar apesar de ter feito o que fiz. Você é um deles, um tomador de elixir que vive há muito tempo?
O homem pensou por um momento e, de repente já não tinha o sotaque.
- Você foi corajoso ontem, provou o que sente e isso pode salvar algumas vidas. É melhor que entenda de uma vez o que está em jogo aqui. Respondendo, sim, venho tomando o elixir há mais de quatrocentos anos. Sou um entre as poucas centenas, talvez por não ser dos mais velhos, que insiste em continuar vivendo. Muitos de nós estão deixando de tomar e, com isso, morrem.
- Luna falou sobre isso, o que não entendo é porque alguém que descobre a fonte da juventude, que pode viver eternamente e com saúde, de repente decide morrer.
- João, é simples. Me diga o que te fez viver até hoje.
A primeira coisa que lhe veio à mente foi Luna, em seguida os meninos, o jornal e alguns momentos alegres.
- Não sei dizer. Talvez objetivos e amor?
O homem abriu os braços.
- Tudo o que você vê é o objetivo conquistado de alguém. Esta casa, esta fazenda inteira, tudo foi feito por amor a alguém, para dar segurança e um futuro. O primeiro dono morreu e outras pessoas ficaram com ela, outros amantes. Tudo morre e perde o sentido, inclusive o amor. Pessoas vivas há muito tempo vêem esse ciclo várias vezes, passam a preferir se relacionar com seus iguais, outros imortais, mas o que sentem também se esgota. Fazem novas tentativas até que todos tenham se relacionado entre si. Quando isso acontece, não resta nada. Todos os objetivos foram conseguidos e todas as pessoas amadas.
- O que sinto por Luna não vai acabar!
- É o que nosso grupo acredita. Você manteve o que sentia oculto por bastante tempo e agora isso ressurge com tanta força que o elixir dela funcionou em você. O que vamos fazer é te dar uma dose maior e ver quanto tempo passa até se esgotar o efeito. O problema é que isso cotraria os interesses de alguns. Todos nós achamos que você deveria desenvolver seu elixir sem ajuda, mas até ter tomado com ela, você não fazia idéia da existência disso e seu corpo não duraria tempo suficiente para entender os conceitos e preparar o seu. Por isso, nós os amigos de Luna, decidimos interceder e te dar essa chance.
- Por isso estou escondido aqui?
- Exato. E como somos criminosos, seremos perseguidos e punidos.
- E o que acontece comigo?
- Você seria eliminado sumariamente. A maneira de evitar isso é você desenvolver o seu elixir o quanto antes e aprender a se defender. Mas não se preocupe, temos como defendê-lo enquanto você estiver aqui. Por ora, tome seu café. Aí fora tem um carrinho de mão com livros e amanhã chega o elixir de Vitória ou Luna, como preferir. Volto mais tarde com seu almoço.
Ele já ia saindo quando João o deteve.
- O que houve com o seu sotaque?
- Primeiro ensinamento, né?  Sinhoro Joao aprende que aparência importante. Takano japonês, com jeito japonês. Ninguém faz pergunta. Notícia não chega no inimigo.
No carrinho de mão estavam os mesmos livros que Luna lia na faculdade e mais alguns. João conhecia o conteúdo, coisas que para ele não tinham sentido e que agora teriam de ter.
Era excitante estar ali, mas ele não se reconhecia como ele mesmo. Não era mais o velho dono de jornal, um sujeito que jamais faria o que ele fez no dia anterior.
Não sabia o que imaginar. Aquilo que estava no vidrinho pode ter sido uma droga qualquer. Seria tudo uma alucinação? E que droga o faria sentir mais jovem, com forças para desafiar o desconhecido?
Melhor ler já que sua vida depende disso e não pensar.
Luna viria, foi o que pensou. Por isso passou todo o dia sozinho, lendo e tentando entender. Takano apenas deixou um prato de comida e se foi. Outro quando caiu a noite e só o que disse foi onde estava um lampião de gás.
Pela manhã, lá estava o japonês com uma garrafa de refrigerante de dois litros, uma caneca e um despertador.
- Tome agora. Não sei como é o gosto, mas tem de ser a caneca toda. Vou regular este relógio e toda vez que tocar, você toma uma. Acho que você vai perder a noção do tempo, talvez fique confuso, mas não deixe de tomar.
- Luna não veio?
- Ela não pode vir. Está sendo vigiada. Nossos rivais não são estúpidos. Sabem que vocês se encontraram e vão estranhar que você tenha morrido logo depois. O coveiro mudou de emprego e de cidade, mas eles vão encontrá-lo. Mais algum tempo e virão até aqui.
- Sei que é urgente, mas eu não consigo entender nada do que esses livros dizem!
- Não tente entender com a razão, são símbolos, leia como se fossem poemas. Quando estiver pronto, naquele baú tem um fogareiro e tudo o que você vai precisar.
- Mas o que é ovo cósmico?
- Poesia, João, poesia!
O gosto não chegava a ser ruim, uma água densa, doce e um pouco enjoativa. De alguma forma, talvez por saber que era dela, o gosto ou o cheiro lembrava Luna.

Seguiu lendo assim que Takano saiu, poucas páginas depois começou a sentir torpor. Em seguida as letras se embaralharam e as ilustrações pareciam se mexer.
O despertador tocou fazendo-o perceber que havia dormido. Encheu outra caneca e tomou sem pensar. Os ponteiros moviam-se rapidamente. Novo toque e mais uma caneca era esvaziada. Era um relógio antigo. Quem dava corda?
Ao olhar pela janela, via a luz do sol e logo a escuridão da noite. Saltava de um ponto a outro do casebre sem se lembrar de ter caminhado ou para quê. Dormia e acordava sem perceber. Sentia dor e prazer alternados, tossia, cuspiu alguma coisa que o incomodava. O relógio tocava e ele tomava uma caneca automaticamente, completamente sem noção de tempo.
- João! Acorde!
A voz parecia vir de muito longe. Takano o sacudia. Antes mesmo de abrir os olhos sentiu o cheiro forte, acre. Sem se levantar, olhou ao redor. O casebre estava uma bagunça, havia poças de vômito e fezes pelo chão.
- Putz! Eu fiz isso?
- Nada além do previsível. Mas podia ter usado o banheiro. Como se sente?
- Como se tivesse sido atropelado por um trator. Estou fraco. Meus músculos estão travados e to meio zonzo como se tivesse tomado o maior porre da minha vida! Minha memória também pifou. Por quanto tempo fiquei aqui?
- Oito dias agora e todo o elixir. Você comeu muito pouco, mas é melhor não abusar. Lá fora tem uma jarra de caldo de cana e frutas. Também vassoura, um balde e um esfregão.
Havia alguma coisa diferente em sua boca que modificava sua voz. Buscou a ponte, os dentes estavam lá, mas faltava o ferro. Suas mãos estavam diferentes, com a pele mais hidratada e sem os pêlos brancos.
- O que houve comigo?
Tentou se levantar, mas sentiu o mundo girar e praticamente caiu no lugar onde estava.
- Calma! Você vai ter muito tempo para se acostumar com as mudanças.
- Um espelho! Me arranja um espelho!
Takano foi até o banheiro e tirou da parede o pedaço fixado por pregos e arame. Quando viu seu próprio rosto, num segundo a mente de João repassou tudo o que havia acontecido até aquele ponto.
É verdade! Aconteceu mesmo! A coisa funciona!
A aparência era de um homem de, talvez 35 anos, mas não como ele era nessa idade. Os cabelos brancos estavam no travesseiro, em chumaços e, embora estivesse quase careca, o couro cabeludo estava cinzento, pronto para produzir fios novos. Seus olhos pareciam maiores, o mesmo para a boca e, dentro dela havia dentes novos.
- Isso é absolutamente fantástico!
- Mais do que você imagina. Isso não deveria acontecer. Nunca aconteceu antes.
- Nunca?
- É, você é o primeiro caso. Isso que você tomou, num laboratório comum de análise, seria classificado como água suja. É temperado com símbolos, rezas e esperanças. Que funcione para quem fabricou é compreensível, mas não para alguém que não tem a mesma memória celular e os mesmos sonhos. Não funcionaria nem com gêmeos idênticos.
Takano parecia contrariado ao andar para a porta.
- Limpe tudo isso e coma. Se você estiver bem, amanhã começaremos seu treino.
Aos poucos João se levantou e logo se sentia muito bem. A fome era moderada para quem não se lembrava da última refeição. Algumas frutas bastaram. O quarto parecia uma área de desastre, mas como seria ele a dormir ali, o jeito foi encarar o mal cheiro e pôr mãos a obra, com paradas para se ver ao espelho e renovar a surpresa.



treinar


- Acorda, sinhoro Joao! Vamos ver do que esses músculos renovados são capazes!
O dia ainda não tinha nascido. Takano vestia um quimono e tinha outro para ele.
- Mas ainda é noite, Takano!
- Isso é porque sol não aparece, quando aparece é dia, né?! Café da manhã casa Takano, Takano correr, Joao atrás. Se Joao alcança Takano, aprende luta do jeito bom, se não alcança, aprende do jeito mau.
- Por que o sotaque?
- Esposa Takano pode acordar. Ela burasirera, Takano japonês. Os detalhes são importantes, João.