domingo, 29 de janeiro de 2012


 

Humanidade

texto completo

 
Pais e filho

- Quem tem os olhos separados vê mais longe, papai?
- Sabe que eu nunca pensei nisso? Pode ser, mas isso é só para fazer uma comparação. Com esses telescópios é como se você tivesse um olho aí na sua cara e o outro lá na esquina, e não só olho, também ouvidos e até nariz! Se o cachorro da sua avó, lá na outra cidade, tiver pulgas, você veria daqui!
- Mas a vovó não tem cachorro!
- Eu sei, mas se tivesse você veria!
- E todos esses países se juntaram para fazer uma nave espacial porque o cachorro de mentira da vovó tem pulgas?
- Éh... mais ou menos. Lucy, acho que me enrolei na explicação. Socorro!
- O que o seu pai quer dizer, bebê, é que as pulgas são como os planetas que estão lá longe no céu. Os países se juntaram porque viram esses planetas e decidiram construir a nave para levar gente lá e plantar coisas gostosas como essas que vocês estão deixando esfriar no prato, então calem a boca e comam!
- Porque a mamãe ta brava?
- Não estou brava, querido. Desculpem. Foi só um dia ruim.
- O que aconteceu?
- Depois, Edgar, depois.
- Vou ficar doente de novo, mamãe?
Lucy olhou para Edgar. Lutava para neutralizar a emoção e não ser traída pela voz. Respirou fundo.
- Vai sim, bebê, mas vai ser corajoso como da outra vez, não é?
- Droga, mamãe! A Rose é legal, mas fica me espetando! E lá no hospital não tem nada pra fazer!
O pai não deixou que o silêncio se tornasse muito denso.
- E os palhaços? E o sorvete?
- Eu gosto de abacaxi!
- Não era chocolate?
- Era, mas agora eu quero abacaxi. Vai ter sorvete de abacaxi, mamãe?
- Vai sim, querido, todo abacaxi que você quiser. Agora coma!

Mais tarde.

- O que ele tem dessa vez?
- Mutação, rejeição de tecidos novos, todo o organismo dele é um caos! Eu estou cansada, Edgar! Nós erramos, eu errei. E vamos acabar sem o nosso bebê e presos assim que descobrirem.
- Quanto a sermos presos, temos cúmplices importantes, o ministro e o alto comando militar. Claro que eles não iam escrever isso, mas existem outras provas que posso usar caso tudo dê errado. Já falamos sobre isso, estaríamos prontos, lembra? Quanto tempo ele tem?
- Meses, Edgar, e vai sofrer! Pensei até em...
- Vamos ser frios, Lucy. Temos drogas, temos cirurgiões, vamos analisar todas as possibilidades e fazer o que é certo.
- Fazer o certo? A coisa toda começa eticamente errada!
- Lucy, eu sei que é uma vida, sei o quanto você se afeiçoou, o quanto nós nos afeiçoamos, mas não deixa de ser alguém que pode contribuir para um avanço brutal de várias áreas. Uma vida que pode salvar muitas. Ele, pelo simples fato de existir, pode mudar toda a medicina. Cabe a você deixar de lado as emoções e fazer o seu trabalho.
- É como se fosse meu filho de verdade!
- Mas, amor, ele é nosso filho de verdade! Quando cuidamos dele, quando jantamos, quando passeamos, aí ele é nosso filho. Fora isso, principalmente quando ele fica doente, volta a ser o ponto central da pesquisa. Você é uma cientista com um projeto. Aprenda! O dinheiro vem por vias diferentes, mas vem. Somos financiados secretamente porque o que não é ético hoje, amanhã será comum.


Edgar

Edgar é um entusiasmado engenheiro que faz parte do projeto Esperança desde o inicio por isso é responsável pelo contato com o público. Casado com Lucy, uma geneticista, adotou um bebe que faleceu meses antes dela ficar grávida. Esse será o único casal a embarcar levando uma criança.


entrevista

- Boa palestra, Sr. Edgar!
- Não falei nada que não esteja no site. Mesmo assim, obrigado.
- Estamos no ar ao vivo e este, aqui embaixo, é o endereço do site. Basta clicar. Vamos falar um pouco sobre as dificuldades com os passageiros? Soubemos que houve tumulto.
- São representantes de cada etnia, estranho seria se não reproduzissem lá os conflitos que vivem aqui.
- Isso não torna a missão mais complicada?
- Cada detalhe foi previsto. Contamos até com os imprevistos. A nave funcionará como uma cidade, inclusive com policiamento. As pessoas vão ter de fazer comércio, enfim, levar a vida como em qualquer cidadezinha. Com o tempo, as diferenças étnicas ou religiosas vão, naturalmente, sendo minimizadas.
- A viagem vai durar perto de trezentos anos. Como controlar o aumento da população e alimentar as pessoas?
- A nave tem dois níveis, no inferior estão as plantações hidropônicas e fazendas do que chamam de vacas de plástico que são as partes do animal que crescem em máquinas. Há, no limite do sistema planetário, o cinturão de Oort, de onde vem os cometas. Quando chegarem lá, uma das pedras pode ser escavada e anexada ao corpo da nave criando assim mais espaço. Na verdade a nave toda pode receber modificações, do motor à estrutura. Esperamos que isso aconteça. Toda a tecnologia estará disponível assim como os meios de produção. Tudo pode ser ensinado e desenvolvido lá mesmo.
- Por isso não se prevê a data da chegada?
- Exato. Muita coisa deve mudar.
- O pessoal da internet insiste em saber exatamente o que aconteceu entre os novos passageiros e vou acrescentar o seguinte: quais são os riscos e como contornar.
- O que aconteceu foi que dois ou três valentões encontraram antigos desafetos na estação, discutiram no transporte e resolveram instruir e fortalecer a segurança trocando tapas quando chegaram na nave. O risco é dar mais trabalho para os médicos e, como contornar: tendo policiais e médicos.
- Os internautas questionam a qualidade das pessoas que embarcaram. São fanáticos, desajustados e gente com problemas na justiça?
- Isso não é verdade. São e devem ser gente comum como eu e você, gente que torce para um time de futebol, por exemplo, e se exalta. Quando tivermos colonos nos dois planetas habitáveis observados, queremos que sejam humanos como nós, não uma super raça qualquer. O provável é que eles desenvolvam uma tecnologia diferente já que vão estar expostos a necessidades diferentes, o que não pode ser é que sejam, eles mesmos, diferentes!


La nave vá

A nave Esperança deixa a Terra em meio a festas onde era exaltada justamente a esperança por dias melhores.
O mundo estava envolto pela névoa do desabastecimento. Áreas de preservação eram invadidas para que produzissem comida, um objetivo inicialmente nobre mas que, mesmo assim, gera conflitos. Uma vez em litígio, todas as outras diferenças ganham importância.
Basicamente a religião, a etnia e a língua. Essas são as diferenças que subiram a bordo junto com os passageiros.
Seria preciso algum tempo até que os rancores fossem esquecidos. Tempo, orientação, ameaça e repressão violenta, esse sempre foi o meio dos militares lidarem com massas em conflito. E os conflitos vieram.
É surpreendente como bombas e armas podem ser fabricadas a partir de coisas simples de uso diário. Um furo na parede mais externa e todo o ar escaparia matando boa parte dos passageiros, por isso, além das câmeras, foram construídos robôs capazes de imobilizar um ou vários suspeitos e envolvê-los num gel que se solidifica em contato com o ar para conter explosões.
Se as pessoas pareciam razoavelmente equilibradas ao embarcar, o fato de estarem se deslocando pelo vazio, de saberem que não chegariam ao destino e que nunca mais veriam o sol nascer ou se pôr, as enlouquecia.
Os militares criaram concursos de arte, campeonatos de qualquer esporte, instituíram frentes de trabalho compulsório nas fazendas ou de limpeza, toque de recolher, proibiram reuniões. Viram crescer no hospital o numero de drogados, agredidos e mulheres estupradas.
Nas ruas, quem não era bandido era um assustado e semi-fanatizado religioso, explorado por espertos conhecedores de escrituras e divindades.
Ali crescia Arthur, o filho de Edgar e Lucy, notoriamente, um garoto que não era religioso.
Mais velho que os outros garotos, para ele foi fácil tornar-se líder de gangue e levantar algum dinheiro comercializando substâncias proibidas. Aos dezesseis anos já corrompia policiais de forma que muitos lhe deviam favores. De uma forma ou de outra, tornou-se conhecido de policiais, militares, religiosos e comerciantes


papinho

- Boa tarde, meu pai.
- O que você quer?
- Conversar um pouco, se o senhor estiver disposto
- Se meteu em confusão de novo?
- De um tipo que não depende de dinheiro e nem de influência. Quero só fazer umas perguntas.
- Entre, antes que passe um robô da polícia e sente-se.
- Pai, não é fácil para mim vir aqui assim como não é fácil para o senhor me receber, mas acho que o senhor não me odeia a ponto de me negar certas respostas.
- Não odeio você, mas você sabe que não é o filho dos sonhos de qualquer pai. Qual é a dúvida?
- Eu tenho uma namorada, pai, e ela não engravida. Eu andei estudando e acho que sou estéril
- Você andou estudando?
- Agora não, pai, me deixa fazer a pergunta
- Vá ao ponto.
- Vou. Que diabos eu sou? Fiz alguns exames, conversai com pessoas, juntei coisas, fatos. É verdade que eu nunca fiquei doente?
- É verdade, nunca.
- Por quê?
- Arthur, você é indisciplinado, rebelde, violento
- Pai, me diga o que eu quero saber, por favor.
- Eu fiz uma coisa, eu e sua mãe...
- Eu sei, pai. O que foi que vocês fizeram?
- Vamos deixar de lado as diferenças agora, ta? Acho que é mesmo hora de você saber.
- Vamos lá, pai, a verdade!
- Não sei que exame você fez, descobriu que é estéril e alguma coisa a mais.
- É, que há algo errado com meus genes. O que é?
- Você foi feito para ser um líder, alguém que pode por ordem na loucura que virou essa nave, não um traficantezinho explorador de putas!
- Como assim fui feito? Feito!? A mãe é geneticista. É o que eu to pensando?
- Você foi criado com carinho. Sei lá o que deu errado!
- Pai, eu sou um porra de um clone?
- Você recebeu trechos escolhidos do DNA dos maiores líderes que pudemos ter acesso, sua saúde é perfeita, sem defeitos congênitos ou tendências a vícios. Com o que você tem, pode viver 150 anos ou mais!
- Mas sou estéril, pai! Isso me parece uma medida de segurança.
- Seus filhos deveriam ser a paz e a harmonia entre esses malucos que tivemos que trazer a bordo, não fazer o que você faz!
- Pai, eu queria ter uma família normal!
- Você não é normal, Arthur, é uma máquina de mandar, um clone que tem os centros de prazer ligados a essa função. Você observa, percebe e contorna os problemas dos outros só para se ver cercado de súditos agradecidos. É isso o que você é! Isso é o que te dá prazer!
- Uma máquina de mandar?
- Uma maquina de mandar.
- Posso convencer as pessoas a explodir tudo isso?
- E pode trazer uma felicidade quase absoluta para todos. Dominar pela paz. Levar a nave até o destino em segurança. Para isso você foi feito. Teoricamente.
- Pai, Esperança é um balaio de gatos!  Eu sou um babaca estéril que se vira como pode, como todo mundo!
- Não, Arthur, você é um porcaria de um traficante de merda, um vagabundo que desperdiça os genes de gente importante e muito dinheiro da Terra. Cresceu dando dor de cabeça para mim e para a sua mãe e não faz idéia do seu potencial! Você é a esperança, ou era quando veio a bordo no colo da sua mãe. Me diz você agora, o que é que fizemos de errado?
- Não sou seu filho, pai?
- O que é ser filho, Arthur? Por um lado você é o sêmem que eu tinha numa seringa quando estava trepando com a sua mãe, por outro é toda uma idéia de futuro, o resultado de um projeto, uma montagem. Acompanhei toda a gravidez, levei mijada sua, troquei suas fraldas, te dei mamadeira. Acho que se não sou seu pai, sou duas vezes sua mãe!
- Você me ama, pai?
- Claro que te amo, filho da puta!






Arthur

Mesmo com o dobro da população inicial, qualquer um que se destacasse, fosse bandido ou crente, ficava conhecido rapidamente. Mas havia um grupo que agia nas sombras, gente inconformada que tentava tomar o controle da nave e voltar.
Os Retornistas eram pessoas inteligentes que usavam os crentes para espalhar a idéia e assim acabavam por uni-los. Se um judeu discutia com um muçulmano, quando o assunto era voltar para a Terra, os dois concordavam.
Fizeram várias tentativas de invadir o computador que controla o leme e os motores e encontraram uma maneira de enganá-lo. Poderiam desviar a nave fornecendo um mapa falso auto-atualizável e fazer uma longa meia-volta instalando um motor menor do lado de fora.
Todo equipamento necessário já estava reunido quando o momento oportuno se aproximou. Os astronautas engenheiros que escolheriam a pedra do cinturão de Oort a ser anexada partiriam em breve e a segurança seria relaxada. Nesse momento, uma nave de manutenção externa poderia ser usada para instalar o motor pirata.
Arthur realmente usava prostitutas que, junto com o serviço tradicionalmente prestado, usavam e ofereciam drogas criadas por ele mesmo no laboratório da mãe.
Ser descoberto gerou o conflito com seu pai. Por ter dinheiro, depois de dias de amargas discussões, preferiu sair de casa e provar seu valor acumulando riquezas a suportar a decepção estampada no rosto do velho idealista.
Teve alguns problemas com a polícia e a justiça, contornados com certa facilidade por ser ele o filho de um dos construtores da nave. Mesmo assim, tinha uma idéia de sucesso que o levava a acumular posses. Para isso julgava-se mais realista e, portanto, mais apto do que o pai.
Enriquecer rapidamente seria a forma de reconquistar o respeito. Não voltaria para casa, mas convidaria seu velho para ver e admitir que ele havia conseguido não só dinheiro e posição, mas também uma família feliz.
O que não esperava era descobrir-se como uma máquina pré-programada, um clone estéril.
O mesmo conjunto de plantas, com ligeiras modificações genéticas e cultiváveis em pequenas áreas, poderia servir para excitar, relaxar ou multiplicar o prazer, tudo sem grandes efeitos colaterais. Mas para Edgar, eram simplesmente drogas, com toda conotação moralmente negativa. Secretamente, o que o aborrecia era ver suas esperanças desperdiçadas. Arthur era seu filho, sentia esse poderoso envolvimento emocional, mas era também o resultado de anos de pesquisa. Ele não tinha o direito de ser menos que perfeito.
Os mais importantes segredos são contados a prostitutas falsamente interessadas, basta ouvi-las para saber de tudo. Elas também podem levar recados e serem fonte de vínculos profundos entre pessoas em posições estrategicamente importantes. Foi assim que Arthur soube o que planejavam os retornistas.
Concebeu e executou uma estratégia que visava dar-lhe poder político. Aos retornistas prometeu códigos de acesso ao computador central em troca de apoio junto aos religiosos e, aos militares, a possibilidade de deter a instalação do motor pirata em troca de poder representar, diante deles mesmos, a população civil .
Quando os astronautas partiram, o motor pirata foi apreendido sem prisões. Os códigos foram entregues, mas eram de um computador fora do sistema, que obedecia ao comando de regressar com uma realista simulação. Para os retornistas, a longa curva que os devolveria à Terra havia sido iniciada, por isso, os religiosos passaram a apontá-lo como um iluminado harmonizador de crenças quando, na verdade, ele não as tinha.
Aos vinte e quatro anos, Arthur, empossado pelos militares, foi o primeiro e único governador da nave Esperança. Mas, desde que concebeu seu plano, decidiu que de nada lhe valeria o orgulho do pai, o amor da mãe ou de qualquer mulher.
Um de seus primeiros atos ao assumir o cargo foi multiplicar as câmeras e chamar a própria população para vigiar.
Ser um retornista passou a significar ser uma pessoa vitoriosa, aberta e vigilante, sendo que não tinha nada a esconder. Como alguns fanáticos tentaram explodir a parede, qualquer local onde pudesse haver uma reunião deveria ser observado. Logo, também as casas e nelas, quartos e banheiros. Todos on line o tempo todo, vendo e sendo vistos.
Surgiram protestos, mas também concursos onde eram eleitos o homem com maior ou menor membro, a esposa mais bonita, o casal que demorava mais ou menos nas intimidades, a careta mais feia ou engraçada ao defecar.
A falsa conquista dos retornistas ajudou a criar um inabalável clima de euforia na nave.
Quando a pedra, na verdade um cometa, foi anexado conforme planejado, surgiu a suspeita de que não estavam voltando. Mas a população estava estabilizada, a economia ia bem e a previsão era que haveria muita comida.
O contra-argumento aos retornistas originais era que haviam nadado até o meio do rio e não faria sentido voltar do ponto em que estavam.
De qualquer forma, os passageiros seguiam felizes e prósperos. Os que haviam nascido ali, e esses já eram a maioria, não sabiam a diferença entre seguir ou voltar, logo, os retornistas deixaram de existir como grupo organizado e força política.
Assim a nave Esperança ou Cidade Errante, como foi apelidada, penetrou o espaço profundo, próspera, feliz e consciente de que não poderia estar em melhores mãos.
Arthur contava com a participação de todos e estava sempre disponível, não era um ditador e, por não poder fazer tudo sozinho, das comissões de representantes de categorias de trabalhadores ou qualquer outro grupo, surgiram os sindicatos e toda uma ordem política com líderes que poderiam vir a substituí-lo,ou seja, uma oposição.
Com o tempo, em busca de alguma coisa que pudesse diminuir a popularidade de Arthur, esses opositores foram investigar seu passado. Ao acusá-lo de envolvimento com drogas e prostitutas, conseguiram apenas enfraquecer as próprias fileiras por também estarem envolvidos com o agravante de serem hipócritas, já o resultado de certos exames criou polêmica.
Na Terra e na nave, por mais liberais que tenham se tornado as religiões, a simples existência de um clone humano seria classificada como uma afronta à divindade principal e criadora do próprio homem. Dizer que esse clone havia recebido “melhoramentos” então, seria chamá-la de incompetente. Se deixar conduzir por tal intervenção nas leis naturais que criaram a raça humana, na melhor das hipóteses, seria atrair um desastre.
Mas ele era um bom governador. Assim pensava a maioria.
Arthur não reagiu de imediato e, quando o povo pensou que ele havia sido atingido, surge com um discurso.









Sou clone

“- Ultimamente tenho ouvindo alguns boatos e gostaria de esclarecer alguns pontos.
Em primeiro lugar, sobre se sou ou não um clone, a resposta é sim, sou o clone de vários homens ilustres da Terra, gente que, por seu poder de comando e acerto nas medidas adotadas, foram escolhidos para compor meu corpo. Quanto a se recebi melhoramentos, a resposta também é sim, nunca fiquei doente e posso morrer muito mais velho do que qualquer pessoa. Quanto às questões religiosas, o que posso dizer é que Deus deu inteligência aos homens e eles construíram maquinas. Isso poderia ser considerado uma intromissão na obra original, mas não foi. Quando se fabrica uma máquina, é para um fim específico e ela durará até que o trabalho esteja concluído. Não quero me meter nos assuntos das instituições religiosas e nem me comparar a uma máquina. Quanto a ser ou não humano, quero que vocês saibam que só descobri isso durante uma discussão com meu pai na adolescência, até aquele momento, eu não sabia e nem qualquer dos meus amigos fez comentários sobre qualquer coisa estranha. Em função de ser o que sou, sou também estéril e, por não poder ter filhos, desisti de uma relação amorosa, o que foi bastante doloroso.
Pedir desculpas pelo que sou? Não vou fazer isso. Sou uma heresia ambulante? Não me sinto assim.
Gostaria de poder continuar meu trabalho, mas me coloco a disposição de vocês. Não votem agora. Pensem antes porque isso pode mudar muita coisa. Falo das suas convicções e do poder das religiões que, para o bem ou para o mal, como se pode ver nos livros de história, vem dominando as mentes de todos há séculos.
Em três dias haverá um aviso e vocês poderão votar se querem que eu continue ou abandone o cargo.”

  Religiosos gritaram pelas ruas, houve passeatas, várias brigas. A casa onde Arthur morava foi pichada com frases insultuosas e ameaças. Muita gente votou no hospital, vários na prisão.
Os passageiros, cidadãos da nave Esperança, entre a volta do comando militar e a escolha de um dos líderes, apesar do barulho feito pelos religiosos, optaram com uma maioria estreita, manter Arthur no governo.
Houve comemoração e foi interessante perceber que muitos que votaram pela saída de Arthur acabaram participando das festas.
Máquina de mandar, foi do que seu pai o chamou. Deus não construiu máquinas, o homem sim. Esse foi seu melhor argumento e agora era confirmado no poder graças a uma verdade dita sem preocupação com a delicadeza.
Arrependidos, ou temendo uma represália, os religiosos recuaram. Isso trouxe mais tempos de euforia.
Clones funcionam! Essa foi a idéia que brotou do próprio povo. Se um tão bom líder não pode ter filhos e nenhum outro administrador esta a sua altura, por que não copiá-lo?
Inicialmente, Lucy não quis colaborar, até por respeito a seu filho, mas acabou convencida de que seria como um presente.
Fazer um clone do clone seria um desafio, mas acabou contornado com mais facilidade do que esperava.
Dessa forma é concebido Marus, estéril como Arthur, mas as uma criança perfeita e esperta.
Ainda durante a gestação, já se cogitava sobre as possibilidades de outros clones especializados.
E se tivéssemos clones amantes, por exemplo, da matemática? Quanto tempo até que uma criança dessas produza um motor revolucionário, capaz de levar-nos ao destino em muito menos tempo?
A maioria se entusiasmava, mas alguns começaram a temer pela perda da essência humana. Nada faziam porque também eles queriam chegar ao destino e ver os novos mundos e, afinal de contas, não seriam tantas as crianças.
Cada bebê que nascia era comemorado. Marus seria um líder como Arthur, Oscar e Maurício os matemáticos engenheiros e Rosa, apaixonada pelo pensamento em si, seria uma filósofa pronta para trilhar e conduzir o povo por novos e inusitados caminhos.
Essas crianças mereciam uma escola melhor, alguma coisa que se adaptasse a elas, não o contrário. Como já nasciam com inclinação para alguma área, bastaria colocar a informação ao alcance de cada uma e provocar sua curiosidade com jogos, sem imposição de currículo mínimo ou a preocupação de nivelá-las com os da mesma idade.
Morando praticamente sozinhas num prédio feito para elas por um consórcio de empresas, seria natural que esse “provocador” assumisse também a função de pai. Isso seria positivo desde que essa pessoa soubesse o momento de deixar de ser.

Clones – Rosa, a velha

Por dez anos a Cidade Errante seguiu seu curso através do vazio acelerando sempre a razão de uma gravidade da Terra, o que mantinha as pessoas no chão. Esse foi o tempo que Maurício e Oscar precisaram para surgir com o novo motor e seu subproduto, placas de gravidade artificial.
Uma empresa de engenharia consorciada ganhou o direito de explorar a invenção e, junto com os militares, instalou motor e placas.
Em menos de um ano, ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a andar pelas paredes e teto, presas por uma corrente elétrica imperceptível, a nave multiplicou sua velocidade.
Estava provada a utilidade dos clones especializados e, com isso, as empresas que ficaram fora do consórcio passaram a pressionar por mais deles.
Quanto aos outros, o inicialmente mimado e irritadiço Marus, agora se retraia, colecionava informações sobre o funcionamento das instituições e participava das reuniões dos sindicatos. Tornava-se influente aos poucos, na medida em que era chamado a opinar e demonstrava bom-senso, mas isso só acontecia por ele ser quem era.
Já Rosa não parecia ter interesses específicos. Passou de tímida a depressiva, rejeitando quem se aproximasse. Mais tarde se tornaria a putinha da vizinhança, envolvendo-se com ladrões e drogados.
Dos quatro, dois eram excelentes, um precisaria de mais tempo e a última simplesmente não deu certo. Era uma boa estatística. A idéia de que clones funcionam, mais do que nunca, continuava valendo.
Rosa explodiu quando menstruou.
Sua inclinação e prazer era o pensamento em si, mas interessava-se por tudo ao mesmo tempo. Não tinha um foco e isso tornava seu conhecimento superficial. Era isso o que seus provocadores relatavam.
Na verdade, Rosa apenas demorava a assimilar o grande volume de informação que reunia.
A aparência dispersa e desinteressada escondia um feroz processo interno. Menstruar foi um divisor de águas, em primeiro lugar porque não deveria acontecer.
As crianças naquele prédio eram clones estéreis. Mesmo que não entendessem esse conceito, elas simplesmente aceitavam.
Telepática desde pequena entre outras habilidades, ouvia o que seus provocadores pensavam e sentia a auto-reprovação quando esses pensamentos se relacionavam com desejo.
Como alguém pode lutar contra a própria natureza, sentir raiva e se excitar com isso ao mesmo tempo?
Como causava vergonha, nas poucas vezes que tentou saber, a resposta era sempre mentirosa, evasiva ou indelicada.
Ficou evidente que sua pesquisa seria feita por outras vias que não a direta, então se calou até encontrar pessoas menos preocupadas com aparências, meninos e meninas que viviam nas ruas fazendo música, malabarismos, enfeites e mendigando. Gente que, por seu visual sujo, causavam medo e desconfiança.
Eram crianças entre dose e dezesseis anos que se mantinham unidos para se proteger de estranhos agressivos. Dentro do grupo, as meninas tinham de se proteger até dos amigos em seus momentos de libido exaltada. Rosa aprendeu rápido a se desviar disso sem deixar de poder contar com um braço mais forte quando isso fosse necessário.
Quando menstruou, as outras meninas vieram em seu socorro e, entre risos, explicaram o que estava acontecendo. Para elas não importava quem ou o que Rosa era desde que se mostrasse parte do grupo, basicamente sendo carinhosa e colaborando com o que pudesse conseguir.
Dentre as novas amigas, uma acreditava na existência de um mundo além do visível e, como não tinham acesso ao banco de dados, coube a Rosa trazer informações sobre tribos antigas e seus rituais. O interesse nasceu por si.


Escola

O prédio foi aumentado para receber novos moradores, quinze bebês que já não mamavam.
Eram líderes, engenheiros e videntes, uma nova modalidade de especialização. Todos eles já nasceram empregados e com salário calculado a partir da estimativa de quanto podem produzir dividido pelo tempo de vida.
Ao saber disso, as famílias, preocupadas com o futuro dos filhos, começaram a buscar formas de saber se também os seus tinham algum tipo de inclinação natural. Acabaram criando outra escola, nos mesmos moldes da primeira, ou seja, constatada a inclinação, a criança é entregue à instituição e seus pais não só se comprometem a não interferir na educação como passam a fazer visitas semanais e mesmo assim monitoradas.
O valor estimado para uma criança “pura” era inferior à de um clone e isso interessou às empresas. Com os primeiros resultados práticos, ainda que inferiores aos conseguidos pelos clones, mais e mais empresas se interessaram pelo projeto.
A conseqüência disso foi o gradual enfraquecimento da família, pelo menos enquanto conceitual base da sociedade.
Os casais, sentindo que já haviam feito o que podiam por seus filhos, no máximo dois, apesar do sentimento de perda ou talvez por causa dele, se viam desobrigados do convívio como parceiros fixos. Deixaram de ser pais para se tornarem casais que se separavam ou tinham casamentos abertos.
De qualquer forma, ficou evidente que pais despreparados acabam prejudicando a vida emocional e profissional de filhos que poderiam ser muito mais produtivos e equilibrados.
Arthur e Marus conversavam regularmente sobre tudo o que acontecia na nave, mas esse era um assunto recorrente.
Através de seus pais, Arthur sabia da importância que tinha para a Terra que os colonos nos novos mundos fossem inquestionavelmente humanos. Mesmo estéreis, os clones, por mais úteis que fossem, fugiam a essa exigência.
Coube a Marus, como primeiro ato político importante, conduzir os acordos que resultaram na nova instituição, chamada simplesmente de Escola.
Com o passar dos anos, pôde-se perceber que os clones feitos para serem videntes, as vezes se tornavam matemáticos e vice-versa. Passaram a chamá-los Sensitivos ao mesmo tempo em que os não alterados assumiram o termo “Puros”.
Puros, Sensitivos, Líderes. Nasce aqui a idéia de castas.







Bruxinha

Rosa era o clone que não deu certo. Agora era apenas um erro entre vinte acertos ou promessas, por isso perfeitamente ignorável.
Uma moça que crescia nas ruas e rejeitava ajuda a não ser alguns trocados e acesso às informações para uma grande perda de tempo segundo os provocadores e seus irmãos. O aparelho em si, um tipo de Caderno externo, ela não queria, bastava o acesso. Na verdade ela não queria se preocupar com carregar qualquer coisa pelo peso em si, que pudesse atrair inveja, cobiça ou torná-la diferente dos colegas de rua.
A fixação em determinados assuntos ou áreas do conhecimento dava aos clones um ar estranho, um olhar entre paranóico e autista, fora isso, eram pessoas normais, satisfeitos com suas vidas produtivas e talentos reconhecidos. Já Rosa era agitada e arisca, do tipo que marca sua presença com uma gargalhada alta e, quando é procurada, já não está onde deveria.
Escondeu que menstruava por não ter certeza, a princípio, se isso era sinal de fertilidade. Sabia que os outros eram estéreis, mas como o sexo não era uma prioridade para ela, acostumou-se com o fato de ser fértil a ponto de ignorá-lo tendo o cuidado de manter a boca fechada como as outras.
Os novos clones e alguns puros que se destacaram, fizeram mais ajustes no motor de forma a ganhar ainda mais velocidade. Criaram também o que chamaram Portal, um tele-transporte, antigo sonho dos ficcionistas da Terra. Os antigos laptops agora eram implantes subcutâneos que funcionavam com uma interface que entendia a fisiologia e a voz de seu portador. Isso reunia em si todas as informações desde crédito a dados médicos, podendo liberar pequenas doses de medicamentos ou excitar a produção de hormônios específicos. Era também telefone e câmera, tudo ligado o tempo todo, passando e recebendo informações.







Rosa X Marus (I) – na CE

Próximo de iniciar a desaceleração antes de entrar no novo sistema planetário, Marus era o herdeiro legítimo e imaginava uma forma de substituir o Velho Arthur.
Abaixo deles, os outros líderes disputavam espaço a cotoveladas. Alguns rivais menos escrupulosos contratavam uma sensitiva especial e, quando isso acontecia, seus oponentes cometiam erros estratégicos ou sofriam acidentes que os tirava do pleito. A mulher havia ganhado fama por isso e por levar uma vida sem os confortos defendidos como direito de todos.
Rosa não tinha o implante, não podia ser contatada ou localizada facilmente, mas surgiu na casa de Marus quando ele já desejava vê-la há alguns dias.
A gargalhada diante de funcionários preocupados por sua aparência foi a forma dela se anunciar. Marus abandonou um projeto e foi ao seu encontro sem pensar.
- Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, Rosa. Venha por aqui, irmã. Vou pedir que tragam comida. Você quer tomar um banho? Vou pedir roupas também. Ou você quer escolher?
- Não se preocupe comigo, Marus. Vamos direto ao assunto. Você deseja o controle da nave e estou aqui para...
- Ainda não, minha irmã. Um líder sempre quer o poder, mas tudo a seu tempo. Vamos cuidar de você primeiro.
- Tenho todo o cuidado de que preciso e trago uma mensagem que pode ser dita em qualquer lugar. Você será o líder chamado “Supremo”. Terá que lutar contra um exército. Estarão em suas mãos as vidas de muitos que são como seus próprios filhos e pensará, o tempo todo, em formas de tirar essas vidas. Quando conseguir, virá dos céus o fim. Tudo isso acontecerá depois de um longo tempo num deserto negro e não da forma que imagina e nem no momento que deseja.
- Rosa, nada disso faz qualquer sentido para mim. Gostaria que você explicasse, mas não nos vemos há anos. Aceite minha hospitalidade. Vamos conversar um pouco!
- Nos amamos, meu irmão, quando isso acontece o tempo não passa da mesma forma. Aguardamos a próxima frase com a mesma ansiedade que o próximo encontro, seja ele amanhã ou daqui dez anos.
- Por isso mesmo não me importo com esse enigma que envolve vidas de filhos que não posso ter, desertos que não conheço e fim vindo dos céus. Haverá tempo para isso. Quero só saber da minha irmã antes que ela desapareça novamente e, se possível, evitar que isso aconteça.
- Foi um prazer te ver.
- Como posso te encontrar?
- Vivo nas ruas e durmo nas plantações. No momento certo estarei ao seu lado.
- Me diga ao menos, de forma que eu compreenda, como vencer Arthur.
- Ele não precisa ser vencido para entregar o poder.
- Acredito nisso. E quanto a ser aceito pelo povo?
- O que vejo é um exército e você buscando uma forma de eliminá-lo sem passar por bárbaro já que é isso o que eles são. Eles afugentaram alguns e esses serão encontrados pela inocência, a mesma inocência que derrota o exército.
- Estou a par do que dizem sobre você. Não acredito que você seja louca, ladra ou bruxa. Eu te conheço, irmã, sei que essa é a forma que você encontrou para se defender nas ruas. Você é muito capaz de falar claramente. De alguma forma soube que eu queria ver você e veio até aqui. Fico feliz e quero demonstrar isso comendo com você.
- Marus, a afeição é mútua, mas o que você quer é detalhes de fatos que ainda não aconteceram. Não há como fazer isso. O que posso fazer é avisar: o que dá início ao fim da nossa civilização começa agora, com você. É por isso que estou aqui.
- É muito grave o que você está dizendo. De que civilização você fala? Da humana em geral ou da nossa aqui na Cidade Errante?
- O que eu disse está gravado. Você reverá dezenas de vezes. Não há o que acrescentar.
- Você não me dirá mais nada?
- Não sobre esse assunto.
- Mesmo assim quero comer com você, minha irmã, vê-la banhada, suas feridas tratadas, com roupas decentes. Por favor, me deixe fazer isso por você!
- Por amor você colhe uma rosa, para tê-la com você e poder vê-la quando quiser, o que não percebe é que colher é matar. Aceito seu amor desde que você não use uma tesoura que me impeça de desabrochar.
Depois desse encontro, os líderes, sempre ligados nos movimentos de seus colegas e possíveis rivais, adotaram sensitivos videntes como parceiros.


Marus X Arthur

Arthur já não se interessava por reunir-se com quem quer que fosse. Aos 170 anos, era um senhor digno de respeito, mas que não suportava com tanta paciência os eternos resmungos de líderes menores, trabalhadores, empresários. Dava claros sinais de cansaço ou enfado e protelava decisões. Isso irritava a todos.
Marus se baseou nisso quando decidiu substituí-lo, mas precisaria do apoio popular expresso em votos, uma exigência dos militares em nome da segurança.
Rigorosamente tudo era gravado e automaticamente publicado. Cada encontro, cada conversa, cada acordo. Se não pelos portadores de implante, então por outro implantado próximo ou qualquer das muitas câmeras espalhadas. Por isso os debates nas ruas começaram bem antes do pleito ser organizado.
Apenas os interessados tinham paciência de ver toda uma palestra, por exemplo, por isso jornalistas a editavam mostrando o que julgavam ser os momentos de interesse, irremediavelmente, “suas” convicções e “seus” interesses.
Dessa forma, ao mesmo tempo, Arthur podia ser visto como um velho decrépito que mal caminhava ou como o único realmente adulto entre crianças.


Novos Mundos

 Nem colocando pessoas nas ruas com o único propósito de encontrar Rosa isso foi possível. A alternativa de Marus foi contratar outro sensitivo vidente.
O escolhido foi Uwe, uma mistura de vidente e matemático que, ao analisar as possibilidades, concordou com o que Rosa havia dito com a diferença de que o tal deserto negro, como parecia evidente, não era físico. Bastava que fosse uma ameaça, uma chantagem infantil a ser usada para comover o eleitor antes da vitória, a liderança que viria a ser conhecida como suprema.
Ao passar ao largo do equivalente ao cinturão de Oort do sistema planetário da Terra, um cometa foi visto fazendo a curva para iniciar o caminho de volta. Marus ordenou que ele fosse escavado ao mesmo tempo em que Arthur iniciava a construção das naves de desembarque.
Os novos mundos eram Ox, pouco mais oxigenado e quente que a nave ou a própria Terra, Lasli com desertos de areias azuis, satélite de um planeta gigante gasoso, e Teha, o mundo mais parecido com a Terra.
Parte da propaganda de Marus dizia que a nave era pequena de mais para dois líderes. Já Arthur não parecia preocupado com isso ou com a rejeição popular à idéia de desembarcar.
Quase duzentos anos após a partida, apenas ele havia visto o planeta natal. Todos eram nativos da nave e este era o único mundo que conheciam e onde desejavam seguir vivendo.
Os novos mundos ofereciam a chance de voltarem a se reproduzir, seria uma vida de descobertas, prazer e aventura, pela primeira vez ao ar livre.
O que se perguntava nas ruas era: isso deveria ser sedutor?
No dia da eleição, apesar da confiança na vitória, Marus se viu obrigado a cumprir a promessa de abandonar a nave.
Foi uma disputa apertada, mas na última hora, as pessoas preferiram aquele que lhes parecia como um rei, uma figura paternal que, se cometia alguns erros, merecia o carinho e o reconhecimento por ter sido justo e imparcial por tanto tempo.
Até o último instante Marus esperou que seus eleitores pedissem que ele ficasse. O que houve foi um grande volume de piadas com relação ao toque teatral apontado como ridículo e a dúvida sobre um político que se diz sério, mas que não cumpre com a palavra.
O deserto negro não era uma abstração afinal, tratava-se do espaço. Sua partida foi cercada de brincadeiras, ele era a criança birrenta da própria infância, fingindo que ia embora. Esperou-se que voltasse, mas não voltou.
A vida no interior da Cidade Errante prosseguiu normalmente por mais vinte anos, antes que estacionasse na órbita do planeta gasoso ao redor do qual circulava Lasli, um satélite não observado da Terra, mas que viria a ser a capital dos mundos habitáveis.
Havia gente treinada para enfrentar os desafios da colonização, mas o que viam ao redor era medo do desconhecido. Não havia alguma coisa, planta ou animal, especialmente perigoso em qualquer dos mundos, o que havia era uma sensação incômoda e inexplicável.
Alguns desceram, ganharam casas, terras, armas, fundaram vilas, iniciaram plantações, mas não se reproduziam, acostumados com a idéia de ter apenas um filho por casal.
A solução foi criar uma nova casta de clones, desta vez sem modificações e férteis, os Trabalhadores, e iniciar uma reforma na nave. Isso não seria necessário, a idéia era tornar o ambiente menos equilibrado, menos aprazível. Mesmo assim, principalmente os Puros batiam pé, queriam ficar na nave.
Arthur criou áreas próximas das vilas onde era lícito usar drogas excitantes que passou (ou voltou) a fabricar. As áreas de convivência, apelidadas de Woodstocks eram uma forma de possibilitar o crescimento demográfico enquanto os Trabalhadores amadureciam, mas foi visto como uma “falha ética de um velho libidinoso”.
Sobre cada mundo foi colocada uma estação espacial. O portal era a maneira de transmitir cargas e pessoas para as estações e dali para as naves de desembarque transformadas em transporte interplanetário.
Se o ar livre era uma prisão, ao menos se poderia transitar entre os mundos e escolher assim onde viver.
Administrar descontentes não é tarefa fácil. Arthur era um velho incrivelmente saudável, mas sua pouco aparente decadência física era acompanhada de uma irremovível sensação de cansaço.
Líderes locais e planetários foram eleitos e mal começaram a trabalhar quando um cometa foi observado despejando três naves, cada uma com destino a um dos mundos.
Os Puros, expulsos da Cidade Errante, estavam organizados como força política subversiva e planejavam sua retomada.
Marus desceu com exércitos de um novo tipo de clone, os Soldados, feitos a partir do que de mais brutal houvesse no gênero humano.
Tudo era desordem. Drogados e prostitutas se misturavam com fazendeiros ricos e políticos corruptos. Marus era a esperança, o líder acolhido como legitimo quando esperava uma batalha pelo poder.





Novos Retornistas

Líder Puro de Teha conversando com os líderes de Ox e Lasli:
- Esta reunião está sendo transmitida pela estação, mas acho que estamos seguros pela criptografia e já que a ação deve ser rápida, mesmo que nos encontrem, não será problema. É isso o que peço, que seja rápida. Arthur está às voltas com a chegada de Marus e aquele ridículo exército. De qualquer forma, acredito que podemos falar a vontade.
- Ridículo? São animais! Batem nas pessoas sem qualquer motivo e são enormes! Aqui em Lasli, cercaram o palácio de Arthur justo quando os líderes locais estavam reunidos. Fizeram um corredor humano na saída e bateram neles na medida em que passavam. Uma estupidez!
- Aqui em Ox, ficaram embriagados com o ar, não foram tão violentos com o povo, mas estupraram algumas mulheres nos Woodstocks daqui.
- Eles vão se acostumar com o ar e logo vão mostrar a merda que são!
- São uns bostas e não são tão grandes! Podemos dar conta deles.
- Eles têm espírito de corpo, não se meta a enfrente-los. Pegue um e os outros vêm atrás de você.
- Concordo que a ação deve ser rápida. O cruzador está aguardando passageiros na nossa estação, os nossos estão prontos, é só ter a ordem e dominamos aquela merda!
- Chegaram aqui as meninas, as Trabalhadoras. Putas! Que inclinação elas tem? Trepar?
- Trabalhadores são só réplicas. Puros cederam esperma. Vamos com calma!
- Essas merdas não são meus filhos!
- Um amigo Sensitivo me disse que a hora é agora. Ele é de confiança. O cruzador chega em seis horas e meu pessoal está pronto. Temos piloto e a porra toda! Vamos agir!
- É o seu pessoal que tem os programas da CE, não adianta nada subir lá sem alguém que possa programar o retorno.
- Tranquilo! To dizendo que estamos prontos!
- Vocês estão prontos, Lasli?
- Nosso cruzador está vigiado, ninguém entra e ninguém sai! Meu pessoal está avisado. Devem ficar para trás uns vinte por cento se a ação for agora, quinze em oito horas.
- Não quero Sensitivos na ação e nem qualquer vagabundo de genética alterada. Somos humanos, porra!
- Ele não faz parte, só previu. E é de confiança. Também quero uma CE de Puros para Puros. Só nós somos humanos, mas essa merda funciona quando temos um objetivo a ser atingido em duzentos anos. O cara que liderar tem que ser paranóico e viver pra caramba! Vamos partir sem isso. Sabe-se lá o que seremos quando chegarmos. Já não fazemos a menor idéia do que é a Terra agora, quanto mais daqui a duzentos anos!
- Minha Terra é a Cidade Errante!
- Você é um babaca que sonha com um lar quando isso já não existe! Estamos embarcando numa aventura que não podemos imaginar o final. Morreremos a caminho. Vamos impor nossas esperanças a nossos filhos e netos, mas a Terra, neste momento, já não é o que imaginamos. Como eu, você se revolta com a clonagem, com as castas, Sensitivos, Líderes, Trabalhadores, Soldados. Não é isso o que viemos fazer aqui. Não somos mais humanos na maioria e, nós os que restaram da humanidade pura, por teimosia dos nossos pais, estão prontos para abandonar essa loucura, essa salada genética e voltar para a origem. Quem pode garantir que a origem não está contaminada? Que porra de sonho não é essa volta?! Eu arrisco! Não quero a Terra, esse mundo que mais parece uma fantasia infantil. Quero envelhecer e morrer no espaço onde nasci!
- Soldados, cara! O que Marus, depois de vinte anos, achou que encontraria aqui?
                   - Veja os registros! Ou não veja, tanto faz! Ele foi humilhado e clones como ele são exagerados nas inclinações. Não havia tecnologia para controlar a alteração. Ele é clone do clone! Isso não tem como dar certo! O cara é um tirano inumano! Voto pela ação imediata! Vamos sair daqui! Foda-se pra onde!
- A CE está pronta e operante. Temos os códigos e o pessoal. Vamos dar uma margem de duas horas para a partida a contar da hora prevista para o último embarque. Isso dá dez horas. Nesse tempo atacamos os militares que são poucos, e tomamos a ponte. Quem estiver lá parte conosco, quem não estiver e souber da operação vai passar por maus bocados nos mundos. Enquanto Arthur e Marus se enfrentam, a gente ganha velocidade. Li o registro original, a nave Esperança foi feita para levar colonos humanos. Não acho que Líderes, Sensitivos, Trabalhadores e Soldados se encaixam nessa categoria. Para mim não são nem colonos e nem humanos. Não sei como o povo da Terra vai entender isso, a verdade é que os novos mundos estão sendo colonizados por coisas de aparência humana feitas em laboratório.
- Não só não são humanos como também não são pacíficos! Quero esta gravação na memória da nave para ser recuperada quando chegar, mesmo que eu não chegue!
- Teremos registro desta conversa, imagens dos desfiles e da violência dos Soldados. Temos tudo desde a partida da Terra. Se o interesse for o que aconteceu nos mundos, levamos más notícias.
- Que o povo da Terra saiba que não somos os libertinos dos Woodstocks.
- Saberão. Tudo esta registrado.


Marus perplexo

Lideres locais, Sensitivos e comerciantes de qualquer casta eram a elite de mundos absolutamente estranhos para alguém que viveu por mais de vinte anos no interior de uma pedra gelada.
Marus, uma vez ridicularizado, achou que nunca mais teria a chance de mostrar seu poder de comando. E havia a profecia, o deserto negro, o exército a derrubar.
Para derrubar um exército, pela lógica, deve-se poder contar com outro. Oponha dois exércitos e terá uma guerra. Para vencer a guerra, seu exército tem de ser mais forte que o oponente. Se não for possível conhecer o oponente, que seja o mais forte possível e com uma arma secreta. No caso, mulheres extremamente férteis gerando crianças agressivas.
Em meio ao deserto negro, durante o lento avançar de seu cometa, só o que restou a Marus foi a previsão feita pela melhor vidente da nave. Se o deserto negro era real, o resto também deveria ser. Com base nisso, quando desembarcou, tinha uma casta de clones altos, fortes, agressivos e obedientes, prontos para combater até a morte. O que não havia era o exército oponente, apenas as boas-vindas de um povo sedento de ordem e uma velha amiga que, depois de uma sonora gargalhada, lhe perguntava o que ele pretendia fazer com um bando de belos e grosseiros garotos em uniformes.
Havia tanto a fazer, tantos descontentes, corruptos, drogados. O que eram os Trabalhadores? Que templos de devassidão eram os woodstocks?
À força invadiu o palácio de Lasli à procura de Arthur e o encontrou morto sobre sua mesa. O velho havia enlouquecido e disseminado sandices em seu processo degenerativo.
Tomar as rédeas daqueles mundos era só o que poderia fazer e usaria seu exército para impor a ordem, mesmo que moderadamente, já que o tinha.
Os líderes locais reclamavam em nome de seus eleitores e estes se organizavam dispostos a reagir. Houve resistência, um início de revolução, tão rápida e violentamente suprimida que surpreendeu até o próprio Marus.
Ele era, reconhecidamente, o herdeiro legítimo do poder, o que os líderes questionavam era o tratamento dispensado ao povo e a eles mesmos.
Ficou claro que tudo seria contornável sem qualquer tipo de violência, mas os Soldados estavam ansiosos por ação.


Rosa X Marus (II) – fazer Arn

- Rosa! Como você entrou aqui? Você está bem? Os guardas não tentaram te barrar?
- Marus, sou eu, querido! Você acha que alguém é capaz de me ver se eu não quiser ser vista? Como vai você, meu irmão?
- Com saudade, irmã! Mas metido nessa confusão e acho que parte da culpa é sua! Vou avisar meu pessoal que você está comigo ou são capazes de entrar aqui armados.
- Bobagem! Mas sei do que você fala, das previsões. O que eu disse?
- Do deserto negro e de um exército a derrotar. O deserto era o espaço, a lenta descida até aqui. Já o tal exército não existe. Você errou!
- Errei? Não falei de vidas nas suas mãos? Esses meninos de uniforme não são um exército?
- É o meu exército! Onde está o outro? Com certeza não são esses idiotas que tentaram enfrentar os meus meninos!
- O que eu disse foi que você enfrentaria sozinho um único exército. Não disse quem o criaria.
- Fazendo isso você me induziu a criá-lo!
- Só disse o que vi no futuro atendendo a um pedido seu.
- O que eu queria saber era sobre a eleição na nave, não o que aconteceria vinte anos mais tarde. Como você ganhou tanta fama cometendo esses deslizes?
- Nunca busquei fama. E se fui além do seu interesse imediato, foi em resposta à sua ambição. Concordo que deveria ter sido mais clara, mas o destino tem seus caminhos. O exército deveria estar aqui para trazer o povo mais para o chão e a animalidade necessária a mundos a serem conquistados.
- O povo vai me odiar por causa dos Soldados! Foi um erro brutal! Eles foram criados para guerra, amam os combates, armas, estratégias, emboscadas, tudo isso. O instinto de auto-preservação foi reduzido para que valorizem mais a vida do companheiro do que a própria. E suas fêmeas não só são férteis como taradas!
- O que você pretende fazer?
- Não tenho a menor idéia! E não posso dividi-los para que se matem. Sou um tipo de divindade para eles.
- Tenho uma sugestão.
- Claro. É isso o que você veio fazer aqui, não é? Adiante! Fale!
- Você sabe onde está a Cidade Errante?
- Os Puros fugiram nela. Usaram os cruzadores do Arthur e os abandonaram em algum lugar. Só não isolaram os mundos porque as agências espaciais estão usando as minhas naves de desembarque. Preciso de comunicação e quero que as pessoas transitem. A CE pode esperar, não vejo em que pode ser útil.
- Que tipo de notícia ela leva? O que os Puros viram aqui?
- Onde você quer chegar?
- Mundos habitados por clones especializados, divididos em castas e submetidos a um tirano com um exército.
- São duzentos anos até a Terra.
- Depois da reforma?
- Você tem razão. Vou mandar buscá-la.
- Já está muito longe.
- Os engenheiros das agências darão um jeito. Mas diga qual é a sugestão.
- Uma nova casta, a última. Dela vai nascer um menino que pode alcançar a CE e resolver o problema dos Soldados.
- Concordo com os Puros, chega de clones! Mas não gostei da maneira como você disse “a última”. O que quer dizer?
- Que será a última casta a ser produzida por nós, clones aqui dos novos mundos. Não são boas notícias.
- Para quem são as más notícias?
- Para todos nós, a não ser para um desses novos meninos e para minha filha.
- Sua filha? Rosa, você é estéril como eu! Só Puros, Trabalhadores e Soldados são férteis. Você tem uma filha? Pode ter?
- Posso.


Corrida - Roda

A velocidade da luz. Esse foi o problema.
A coisa começa com um cálculo simples, se um veículo viaja perto da velocidade da luz, outro que parta com atraso só pode alcansar o primeiro se for além dessa velocidade. Ai está a complicação.
Na prática, essa velocidade destrói as moléculas e transforma tudo em sub-partículas que se espalham por todo o universo.
Não importa quão poderoso é o motor, na velocidade da luz, tudo é luz e qualquer objeto que alcance essa velocidade, não voltará a ser o que era.
Marus criou a Corrida, uma disputa entre as agências espaciais de cada planeta em busca, não de um acelerador, coisa que já se tinha, mas de um freio quântico, alguma coisa que devolveria a forma original a um objeto acelerado.
As agência reunidas propuseram a Roda Gigante, um conjunto de projetores de onda que funcionaria como um condensador para objetos acelerados, tornados luz.
O que se viu foi um espetáculo de gosto duvidoso. Uma sonda acelerada ate desaparecer pouco antes de atingir essa monstruosidade, um círculo gigantesco que teoricamente transformaria um raio de luz numa coisa sólida, Funcionaria como uma lente, convergindo raios luminosos, mas so que se viu foi uma massa de metal fumegante. Não a sonda original, mas um bloco incandescente quando isso deveria transportar cargas e passageiros.
Na dúvida, Marus já havia encomendado quinze novos clones feitos a partir dos Sensitivos que mais se destacaram. Os autistas telecinéticos e bruxos videntes como Rosa.
Ox foi o mundo escolhido para o nascimento e criação de cinco dentre os quinze com a mesma alteração genética, um garoto chamado Arn 6.
O numero depois do nome indicava que era um clone em primeiro lugar e que havia sido feito a partir da mistura de parte da dupla hélice de várias pessoas, os adivinhos que desafiavam a estatística como Rosa e os que haviam produzido fenômenos como telepatia, ignição espontânea, telecinesia.
Quinze meninos e meninas nasceram e foram repartidos pelos mundos, ele foi o sexto.
Não havia como classificá-los. Eram Sensitivos, sem dúvida, mas o que esperar deles?
Arn gostava, ao crescer, de mecânica. Mas era um interesse superficial.
A Escola havia aprendido a lidar com o que chamavam “rebeldes de maturação lenta”. Sabiam que seu interesse era, não a mecânica em si, mas os jogos das relações humanas e seus efeitos emocionais vistos sob o prisma da mecânica newtoniana. Causa e efeito. Sendo que algumas emoções, causas, geravam os fenômenos que ele sabia ser capaz de realizar, efeitos.
Os outros quatorze não passavam de Sensitivos comuns, crianças que discutiam sobre cálculos complicados ou fantasmas e, em seguida, corriam atrás de uma bola.
Aos cinco anos, Arn parecia saber do que era capaz, e para encanto de seu provocador, conduzia uma pesquisa coerente, mesmo que essa coerência fosse interna. Ele tentava provar os conceitos que via em Jon e, caso fossem falsos, antes de um jogo qualquer, expunha suas idéias de forma indefensável e nem por isso desafiadora, a não ser que ele, Jon, visse desse modo.
Jon era um Trabalhador, clone de um ou vários Puros que haviam partido com a CE. Não era um filho, mas bem que gostaria de ser. Tinha uma idéia de família, ou antes, de amor familiar, que vinha de antes da dissolução dessa instituição.
Esse amor entre provocador e “potencial” era incentivado pela Escola, desde que o provocador tivesse equilíbrio para abandonar seu protegido quando este fosse capaz de voar sozinho.
Ele era um homem que amava uma criança como a um filho e Arn era o potencial que precisa da imagem de um pai para construir a própria personalidade.
Um clone especializado não é uma máquina. É uma criança, um adolescente e um homem com um interesse e respostas utilizáveis sobre uma determinado área do conhecimento que é fruto de sua especialização genética artificialmente determinada. Fora isso, é uma pessoa, um menininho que brinca e tem medos infantis, que chora e pede colo.
É preciso ter um coração de pedra para não dar, e é preciso muito respeito para saber quando é hora dessa criança trilhar o próprio caminho.


Roda

Arn já existia quando o Freio Quântico Magnético Circular, FQMC ou Roda ficou pronta. Não tinha idade para participar da ansiedade dos engenheiros, mas viu as gravações muitas vezes depois.
Ainda que a Roda não tivesse dado resultado, a Corrida continuou nos laboratórios e Arn crescia sendo parte deste grande projeto. A agência espacial vencedora ganharia o direito de explorar o transporte entre os mundos e Arn era parte da agência de Ox.
Muita coisa poderia mudar se viagens além da velocidade da luz fossem possíveis e os jornalistas faziam intermináveis listas delas. Assim, os engenheiros discutiam, os empresários defendiam seus investimentos, todo mundo lucrou até o momento em que a sonda começou a acelerar em direção à Roda.
Uma explosão luminosa marcou seu caminho, a transformação de partícula em onda. Imediatamente essa luz foi absorvida e condensada mais adiante. O que surgiu do outro lado foi uma bola de metal incandecente que ia deixando um rastro de luz e fagulhas.
Imediatamente começaram as piadas que comparavam a Roda a um anel dado a uma prostituta por um ingênuo apaixonado que pede fidelidade. Depois disso o Freio quântico Magnético, a Roda, ficou conhecida como “Anel de tolo” ou simplesmente Anel.
Começaram as piadas que comparavam a roda com um anel dado a uma prostituta por um ingênuo apaixonado que pede fidelidade. Logo, o Freio Quântico Magnético Circular, FQMC ou Roda, passou a ser conhecido como Anel de tolo ou, simplesmente Anel.
As agências continuaram pesquisando em separado, mas perderam o apoio dos anunciantes. A Corrida não seria vencida tão facilmente por nenhuma delas, a não ser alguns anos mais tarde.


Primeiro Salto

 Arn passou por fases ao crescer. Teve seu momento telepata, sob estresse chegou a incendiar algumas almofadas e, em estado de meditação, conseguia mover objetos pequenos com a mente.
Determinado o desmonte do Anel, a agência de Ox trouxe para a Escola dez projetores de onda, para que os meninos o estudassem. Um deles ficaria a disposição de Arn, podendo receber qualquer modificação.
Aos doze anos, ele colecionava maquetes de naves espaciais, reais ou de fantasia e não julgava o Anel um fiasco. Não que tivesse algum argumento em defesa, só tinha simpatia pelo esforço.
Feliz ao receber seu projetor, pediu que a onda, ao invés de projetada numa direção, fosse esférica como uma bolha.
O aparelho era uma caixa retangular metálica de um metro de altura com uma esfera na parte de cima. Arn não tinha planos quando pediu a modificação, gostava de criar a bolha apenas para ficar dentro dela. Isso lhe dava sensação de proteção ainda que não tivesse do que se proteger.
Numa tarde, estava dentro de sua bolha perto de uma janela quando viu, lá fora, Jon trazendo nas mãos uma réplica do Voyager. O desejo de ver o que ele trazia associado ao fato de estar dentro da bolha criou o fenômeno, um salto, de dentro da sala para o gramado diante de seu provocador.
Jon ficou paralisado ao ver Arn surgir na sua frente, este também estacou sem entender o que havia acontecido. Jon precisou de um momento para sacar seu Caderno, a interface do implante, e rever a cena por todos os ângulos e em várias velocidades. Ao deixar a sala, Arn criou um efeito chicotada e já surgia em sua frente mesmo antes de desaparecer completamente, ou seja, o tempo entre um ponto e outro era zero.
Pediu que Arn ficasse onde estava e levou a maquete para dentro da sala. Voltou ao gramado e pediu que ele repetisse o que havia feito, que fosse ver seu presente, tendo o cuidado de acionar um cronômetro mais preciso.
O menino vacilou, deixou que seu cérebro percorresse o caminho normal, físico. Então se lembrou que havia dado o salto antes disso, só com o desejo de estar lá. De repente estava dentro da sala, ao lado da maquete.
Desligou o projetor e, olhando os detalhes da maquete, esperou que Jon entrasse com frases soltas, entusiasmadas:
- Arn, olha só! Tempo igual a zero em dois deslocamentos! Você atravessou a parede! Consegue repetir? Reparou como faz? Podemos tentar outras distâncias assim que você quiser! Você se sente bem?


Soldados

Marus havia criado vilas militares nos subúrbios das cidades onde eram realizados violentos jogos de guerra. Foi a maneira que encontrou de ocupar seus Soldados ao mesmo tempo em que os afastava da população.
Os Soldados não tinham os implantes, não estavam conectados à sociedade civilizada. Seus jogos podiam ser vistos, mas não havia informação sobre dados médicos ou os níveis de dor e estresse.
De competições, batalhas internas, cada cidade passou a sediar um time principal que atravessava as matas, selvas ou desertos para combater o time, exército, de outra cidade.
Suas armas eram arcos, bestas, facas, espadas, lanças e cópias de armas de fogo antigas. Sem acesso às fábricas das cidades, faziam essas coisas artesanalmente nas próprias vilas, sempre tentando surpreender os adversários com alguma novidade. Felizmente, Soldados não são criativos, ou melhor, não se permitem o ócio que leva a criatividade. Estão sempre ativos e, confrontados com qualquer questão, suas respostas são as mais simples e rápidas, de preferência violentas. Um palmo mais altos do que a maioria nas cidades, intimidavam e criavam confusões apenas por diversão.


Teste de Campo

A agência de Ox, cuidadosa, propôs alguns testes para que seus engenheiros pudessem entender o fenômeno criado por um de seus funcionários antes de reclamar o prêmio.
Aparentemente, não havia relação entre o campo formado pelo “anel invertido”, como Arn o batizou, e o transporte instantâneo, a não ser que fosse considerado o estado de ânimo do adolescente telecinético que produzia esse efeito.
Os testes viraram uma rotina, ele era obrigado a levar cada vez mais peso, materiais diferentes e por distâncias maiores. Arn conseguiu quase todas as vezes, sempre em tempo zero e com o efeito chicotada no ponto de origem. A limitação estava no conhecimento do ponto de destino. Quando foi chamado a ir a uma cidade próxima onde nunca havia estado, simplesmente não conseguiu. Depois que foi até lá pelas vias normais e viu o ponto exato onde surgiria, então pôde fazer seu transporte levando dentro de sua bolha do anel invertido, metais, sementes e seu provocador Jon.
O aparelho, o anel invertido, tinha limite de alcance, vinte metros antes da esfera até o horizonte de evento, onde as linhas magnéticas voltavam ao emissor. Tudo dentro disso era transportado, mesmo poeira e insetos.
O maior problema era a instabilidade emocional de um adolescente que agora tinha a habilidade, mas que poderia perdê-la a qualquer momento. Por isso a agência de Ox testava os outros garotos da Escola, enquanto as outras agências faziam o mesmo com seus Pilotos, nome dado aos da mesma geração.
Arn já havia provado sua constância e estava no limite de sua paciência quando o chamaram para um teste no espaço. Ele teria de levar um veículo de manutenção externa até uma das pequenas luas que flutuam ao redor de Ox e voltar enquanto os engenheiros usavam cronômetros muito precisos.
Seria mais um evento televisivo como ocorreu com a Roda ou Anel-de-Tolo, mas desta vez, haviam as imagens dos saltos feitos na Escola.
Arn nunca havia estado na estação espacial, olhava as luas por telescópio e sonhava poder vê-las de perto. Agora, de dentro do veículo apertado com seu anel invertido entre as pernas, podia ver duas delas.
Tudo era novo e muito excitante para um garoto e seu provocador, dois caipiras segundo a maledicência de seus rivais da capital Lasli.
Os engenheiros temiam que a potência do projetor ou anel invertido colocado dentro do veículo não fosse suficiente para atravessar seu casco. Ao mesmo tempo, seus cálculos mostravam que aquilo não tinha qualquer função, era apenas um apoio psicológico. Consideravam o risco dele se transportar sem o rebocador e morrer no vácuo. Para evitar um desastre, contavam com o sentido de autopreservação do garoto e com as previsões dos Sensitivos.
Isso foi dito a Jon pelo chefe dos engenheiros, como forma de convencê-lo a ficar na estação, mas teve efeito contrário.

- Bom, Arn, estamos aqui e ali está a lua. Já fizemos isso antes e não vejo dificuldade em fazer de novo. Você acha que consegue?
- Acho.
- Acha ou sabe?
- Sem problemas! Ta vendo aquela cratera ao lado da grande bem no meio? É ali. Sempre quis ver de perto.
Jon olhava para Arn, imaginou que ele estivesse nervoso com as novidades e a responsabilidade que estavam depositando em suas costas. Não o viu acionar o anel invertido, apenas sentiu a iluminação mudar dentro do veículo. Ao olhar para fora, a cratera da qual ele falava estava bem adiante. Como se tivesse experiência, o garoto ligou o veículo para dar um passeio um pouco acima da imensa pedra flutuante parecida com uma batata.
- A gente devia esperar um sinal da estação!
- Oops! Agora já foi! Vamos ver a outra?
- Isso não está programado, Arn. Você está sendo indisciplinado!
A luz mudou de novo. Agora estavam sobre outra lua, esta um pouco maior e cinzenta.
- Tio Jon, esses caras não confiam em mim, acham que sou um babaca qualquer e querem me substituir o tempo todo. Um ou vários dos outros meninos com certeza pode fazer a mesma coisa, antes que façam, quero ver essas luas. Na verdade, quero ver o deserto azul de Lasli.
A luz mudou mais uma vez. Jon viu a superfície quase plana do gigante gasoso e, em seguida, já sobre Lasli, o deserto azul, trinta quilômetros abaixo.
- Arn, isso é como roubar!
- Isso encerra nosso passeio, tio Jon. Vou devolver o veículo e posso pagar multa ou o combustível. A cronometragem foi feita. Vão dividir as distâncias pelos tempos em cada lugar e ver que, no transporte, o tempo gasto é sempre zero.
- Não sabia que você estava tão irritado com eles.
- Não estava e não estou, tio, mas você me ensinou que a gente deve fazer o que a gente deve fazer, não é assim? Quem são eles para impedir?
- Afinal de contas, você está entregando para eles todo o transporte entre os mundos! Queria ver a cara do chefe.
Nesse momento, surge um rosto no painel.
- Pode olhar, Jon. E pode dizer para esse indisciplinado ao seu lado que ele tem a nossa confiança daqui para frente. Nenhum dos outros Pilotos tem essa habilidade. Todos foram testados com cópias do seu anel invertido, uma menina de Teha conseguiu levitar coisas e arremessá-las, mas só o Arn dá os saltos e com toda essa precisão que demonstrou quando indicou de qual cratera se aproximaria. Entenda, Arn, que precisamos nos cercar de segurança e não há como garantir que você não vai perder a habilidade ou simplesmente enjoar de fazer a mesma coisa. Tenho mais dados. Entre a lua e o planeta gasoso, a velocidade da luz precisaria de três segundos. Uma nave convencional gastaria muito mais tempo só para acelerar e consumiria uma energia absurda! Ox acaba de vencer a Corrida, senhores! Estamos preparando uma festa aqui na estação. Agora sei que você pode voltar instantaneamente, mas aprecie um pouco mais a vista enquanto nos preparamos... ou vá dar uma volta!


Rosas

Todo o planeta Ox estava em festa. O próprio Marus veio a público parabenizar a agência, o mundo e o autor da façanha. De uma hora para outra, Arn era uma celebridade comemorada até pelos Soldados.
Por uma semana, as drogas que eram oferecidas nos woodstocks, fechados quando Marus assumiu a liderança suprema, foram liberadas em Ox. Isso trouxe turistas de todos os mundos. A festa que duraria uma semana, acabou tomando todo um mês.
Arn usou dessas drogas, teve de desfilar em carro aberto por várias cidades e precisou de excitantes.
Apesar do momento de glória, não se via como superior. Não ficou vaidoso, mas seu mundo ficou extremamente colorido e excitante como se ele fosse o grande Sensitivo, o Piloto real entre quinze tentativas.
Nesse mês, apaixonou-se por quatro mulheres, duas lascivas Soldados que lhe tomaram a virgindade juntas e praticamente a força, uma Trabalhadora, turista de Teha muito determinada e uma Sensitiva. Esta última, apenas virtualmente.
Reviu várias vezes o discurso de Marus alternando entre a câmera que ele usou para discursar, as da sala e as das pessoas conectadas que estavam ali no momento. No grupo havia seu Sensitivo oficial, o governador geral de Lasli, o governador do continente onde fica o palácio da Suprema Liderança, o prefeito, dois Trabalhadores funcionários do palácio, um Soldado, uma folclórica senhora, Sensitiva da geração do próprio Marus e que se envolveu em fatos controversos envolvendo lideranças locais desde a CE e uma moça de nome Rosa.
Os que tinham o implante e podiam ser pesquisados ofereciam informações sobre os que não tinham. Esses eram Marus, o Soldado e as duas mulheres.
Rosa, a velha, era a irmã genética de Marus. Desde a CE optou por uma vida de miséria mendigando nas ruas e, se não diretamente envolvida em derrotas políticas inexplicáveis, acidentes e mortes de rivais, esteve sempre próxima aos interessados, suspeitos de crimes que nunca foram provados. Era a grande bruxa, uma mulher que nunca era encontrada, mas que surgia do nada quando tinha algum interesse.
A CE não produziu nenhum clone fértil oficialmente porque havia o medo das alterações genéticas fugirem ao controle em descendentes. Apesar de seu ambiente moralmente questionável das ruas, Rosa, a velha, soube manter sua fertilidade em segredo até o momento em que julgasse oportuno.
Rosa, a moça, era filha, não um clone do clone como a velha e Marus eram de Arthur, mas uma filha legítima, concebida numa relação sexual e criada junto á mãe como era na antiga Terra. O pai era um Puro que também vivia nas ruas e fugiu quando do seqüestro da CE.
Não seria justo julgar na ausência, mas a atitude do pai é a de um hipócrita preconceituoso, irresponsável e covarde.
Rosa, a moça, tinha quatorze anos e, aos olhos de Arn, não tinha qualquer defeito. Se a mãe era a grande bruxa, no mínimo ela era uma Sensitiva com os hormônios fazendo explodir todas as suas potencialidades, seu poder sobre a matéria e sua sexualidade.
Esse era seu amor espiritual. Como Sensitivo, ele tinha certeza disso, e o universo conspiraria para colocá-los lado a lado, por isso, não havia pressa.





Mulheres Soldado

As mulheres Soldado não eram visíveis, os homens, com sua violência, ocupavam um espaço muito maior, tanto da mídia quanto da memória de quem se expusesse a eles.
Da mesma forma que Soldados homens invadiam as cidades dispostos a criar tumultos e se embriagar em suas folgas, também as mulheres vinham desfilar corpos perfeitos, sedutores, ansiosas pelo tipo de sexo mais delicado e preciso que só encontravam ali.
Que Marus tenha criado a pior das castas, que tenha colocado neles tudo o que temos de mais primitivo e selvagem, mas quando se depara com uma mulher Soldado, o inferno se torna luminoso. Junte duas dessas famintas lascivas e um orgasmo não será, nunca mais, apenas uma ejaculação.


Aposta errada de Marus - Woodstocks

O Líder Supremo buscava inimigos à altura de seus Soldados. Em seu cometa, durante o caminho através do deserto negro, imaginou um exército sofisticado como inimigo ao chegar. De que maneira pessoas inteligentes, embrutecidas pela vida rude de mundos indomados reagiriam diante de um invasor?
Apostou nesse embrutecimento natural de colonos e, se não a volta das famílias, a formação de pequenos clãs rurais que seriam defendidos energicamente.
O que as pessoas fizeram ao desembarcar da CE foi enviar máquinas que fizessem todo o trabalho duro enquanto se acumulavam nas cidades repetindo ali a vida que levavam na nave.
Arthur queria que procriassem para povoar os mundos, que esquecessem os dois séculos de contenção e fossem promíscuos, para isso precisava enlouquecer a todos com drogas que não viciassem, arte e música em festas que não terminavam. Assim nasceu os Woodstocks ou “áreas de convivência”.


descabaço

Arn desfilava sobre um enorme carro aberto, normalmente usado em shows de música, e se imaginava a ponta do iceberg, gelo como todo o resto, mas momentaneamente acima da superfície.
As duas mulheres Soldado escalaram o carro por lados diferentes e se encontraram na parte de cima contornando a segurança. Houve o momento de tenção, afinal eram invasoras, mas sendo o objetivo comum rapidamente adivinhado, o acordo brotou naturalmente, quase sem palavras.
Por mais assexuado que Arn fosse, naquele momento era um chamado que ele não poderia deixar de atender. Depois de horas dançando e acenando, no local usado como camarim, dentro desse tipo de carro, deitou-se entre as duas, exausto, mas viu sua vitalidade ressurgir com o carinho de mãos precisas, bocas, seios, coxas, nádegas.
Sexo no melhor estilo esportivo com maravilhosas mulheres Soldado que tinham de voltar para casa antes da alvorada.
Ritos de passagem são parte da fisiologia humana, dessa forma, um menino passa a se reconhecer como homem e muda a própria atitude.


A bolha

Passados os festejos, a agência de Ox chamou Arn ao trabalho. Caberia a ele levar periodicamente passageiros de um mundo ao outro usando uma estrutura feita para se encaixar no campo do anel invertido, uma bola oca de metal com dez metros de diametro. A freqüência dos transportes seria definida de acordo com sua reação.




Rosa, a moça

Rosa, a velha, não gostava de ser o que era, nunca gostou. A vida nas ruas da CE e agora nas florestas e desertos de Lasli era o que ela chamava de real. Foi uma das primeiras a desembarcar e perder-se nas matas apesar do perigo de desconhecer plantas e animais. Com fome e cuidado, mordiscava os frutos exóticos que via os animais comerem. Acabou enriquecendo a culinária da região onde viveu seus primeiros anos.
Conheceu o Puro, pai de Rosa, a moça, num woodstock e juntos construíram a moradia primitiva no meio da mata onde foram viver. Eram um casal heterogêneo num momento em que ser rigorosamente humano era importante. Por isso ele foi e ela ficou com a menina.
Por dois anos Rosa, a moça, freqüentou a Escola. Foi classificada como Sensitiva vidente e, sendo filha de quem era, chamou a atenção dos políticos. Tinha raciocínio rápido e bom humor o que lhe garantia um futuro produtivo, mas a velha se arrependeu e levou-a consigo de volta para o casebre na mata.
Marus interveio convidando-a a morar com a menina no palácio onde poderia, ela mesma, agir como provocadora.
Sua higiene pessoal melhorou muito morando ali, o mesmo para a saúde de maneira geral, mas já não era a mesma jovem de outrora, sua pele e cabelos denunciavam isso.
Ao crescer entre exemplos tão extremos de simplicidade e sofisticação, a moça desenvolveu a própria visão de mundo, um lugar onde um monte de folhas pode ser tão confortável quanto o melhor sofá, dependendo da companhia ou do motivo de estar ali.

Os primeiros transportes foram muito concorridos. Todas as pessoas importantes queriam experimentar a novidade. Esta se mostrou decepcionante como aventura na medida em que era realmente instantânea.
Filas de pessoas esperavam as portas se abrirem nas estações. Dentro da bolha não havia assentos ou qualquer conforto, o único sentado era o garoto com seu aparelho brilhante e seus monitores. As portas se fechavam e tornavam a se abrir dando passagem à outra estação. Só isso.
Era decepcionante porque uma pessoa comum que morasse numa cidade onde não houvesse Portal, teria muito trabalho até chegar na estação e, de repente, já estaria no destino. Sem graça. Faria tudo isso para pegar uma nave convencional, um cruzador, mas ficaria dias ou meses em seu interior, desfrutando de todos os confortos e conhecendo os outros passageiros.
Arn tinha uma cabine transparente que o isolava dos passageiros e de onde controlava as portas além, é claro, do anel invertido.
Antes de começar a transportar passageiros, houve uma fase de testes. Inicialmente, ele não surgia com a bolha já engatada na estação, mas ha algumas dezenas de metros. Rebocadores fizeram alguns engates antes que ele percebesse que isso não era necessário. As órbitas das estações variam assim como suas velocidades, seria improvável, senão impossível conseguir um engate perfeito. Mas não para Arn.
Os engenheiros, clones Sensitivos especializados e bem pagos, simplesmente não entendiam como ele fazia. Não havia cálculo que explicasse. Para eles, Arn era uma variação de telecinético com as naturais dependências emocionais, no caso, um aparelho inútil, um imã comum.
De um jeito ou de outro, funcionava sempre e com incrível precisão. Tempo igual a zero todas as vezes, não importando a distância. O agravante era político, ele já era um herói para o povo, e não só de Ox.
O próprio Marus fez algumas viagens. Colocou-se ao lado da cabine e tentou saber que tipo de pessoa Arn era e se podia conquistá-lo.
A intenção inicial, desde a Corrida e o Anel-de-Tolo, era alcançar a CE que seguia para a Terra com Puros.


Conversa com Marus – todos no palácio

Rosa, a velha, sabia que ele era a chave para a resolução de vários problemas.
Em tempos de privacidade zero para os conectados, Marus viu alguns de seus momentos mais significativos da vida de Arn. Sabia da coleção de maquetes, de sua relação com seu provocador, Jon, e quem era esse Trabalhador. Soube, da decisão de ver as luas passando por cima da orientação dos engenheiros e sua primeira vez com as mulheres Soldado. Sabia também que ele não se interessava pelos Líderes ou o que eles decidiam. Bastaria perguntar ao Caderno quem pronunciou seu nome e teria uma lista de gravações. Arn não fez isso. Não estava embriagado com o sucesso apesar da ovação, dos passeios em carro aberto e das mulheres, apenas sentia-se feliz por poder fazer o que fazia. Era um garoto, um clone fazendo aquilo que foi criado para fazer. Para corrompê-lo seria preciso afastá-lo dessa função. Isso geraria sofrimento, um tipo de fome. O garoto concentrado em seu trabalho na cabine havia conquistado o povo dos três mundos e os Soldados de Ox. Precisava conhecer o destino para realizar seus saltos em T = 0 e não se sabia onde a CE poderia estar.

- Arn, você sabe quem eu sou?
- Claro, o senhor é Marus, o cara dos Soldados, Líder Supremo, clone do Arthur da CE e quem mandou que eu fosse feito.
- Isso não tem importância para você?
- Todos fazemos o que viemos fazer, seu Marus, com sorte, um pouquinho mais.
- E com azar?
- Com azar você cria um exército que não serve para nada, que bate nos seus amigos.
- O que você acha que eu deveria fazer? Matar todos?
- Acho que fez o que podia, criou as vilas e separou os Soldados de nós. Seria desumano dar armas melhores para um dos grupos e deixar que eles matassem os outros. No final, você teria de matá-los ou teria de criar uma casta de Super Soldados estéreis e de vida curta para fazer isso. De qualquer forma, é muito sangue nas próprias mãos. Quem seguiria um líder assim?
- Você sabe por que foi criado, Arn?
- Sei, para achar a CE. Não posso fazer isso agora, seu Marus. Sinto muito. Só posso ir aonde vejo ou lugares que conheço por já ter ido.
- Você disse que não pode fazer isso “agora”? Ou cometi dois erros, meu exército e você?
- Não tenho como responder isso. Sou conectado, tenho o implante e reparei numa coisa: em tempo zero, quando faço os transportes, escolho e ajeito o local do pouso. Faço correções. Não sei como, mas sei que não há registro. Não é uma idéia agradável ser comparado a um Soldado grosseiro. Se sou mais um erro, não é responsabilidade minha e sim de quem me criou.
- O que quero saber é se você será capaz de encontrar a CE um dia, Arn. Não quis te ofender te comparando com um Soldado grosseiro.
- De novo, seu Marus, não sei como responder. Não sei onde está a CE e não sei onde é a Terra. Sei onde estão Lasli, Ox e Teha. Cada uma de suas estações espaciais e onde devo engatar esta bolha. É isso o que reconheço como trabalho, assim como o senhor reconhece como seu trabalho comandar. Como Sensitivo, sei que caberá a mim muito mais, mas não sou vidente, não sei precisar exatamente o quê ou quando.
- Se existe alguém capaz de encontrá-la, Arn, esse alguém é você! Tenho absoluta confiança nisso. Quero que você conheça duas pessoas, na verdade, quero que você conviva com elas, as duas Rosas, mãe e filha. Aqui vai o convite oficial para constar nos registros: Você gostaria de morar no Palácio da Suprema Liderança em Lasli, Arn 6? Aceitaria este convite do atual Líder Supremo?


Arn X Rosa, a moça

Para que as pessoas se conheçam mais rapidamente, nas festas oficiais ou de negócios, o antigo minueto foi recriado. Ao participar de uma dança coletiva com passos simples e respeitosos, os presentes são levados a ver, tocar e cheirar uns aos outros, um “quebra-gelo” leve e divertido antes de futuras relações.
Assim, Arn, o homenageado da noite e novo morador do palácio, fez seu primeiro contato com Rosa, a moça. Feito isso, foram conversar, primeiro num balcão externo onde não seriam vistos do salão, local para encontros furtivos, não oficiais, depois, por alguns minutos, num interno.
- Como é ser capaz de amar tão profundamente a ponto de entregar quem se ama à outra pessoa?
- Não sei. Nunca pensei nisso. Porque saberia?
- É o que você fará, segundo a minha mãe.
- Sua matriz não é conectada, não dá para saber o que ela pensa assim como só dá para avaliar os resultados do que Marus faz. Nos dois casos, é tudo discutível e, sem querer ofender, suspeito. Porque você não se conectou?
- Tecnologia demais, Arn! Podemos nos cercar de máquinas, mas não deixar que elas nos invadam. Já não sabemos se somos humanos. Olhe para você! Uma ferramenta com um objetivo!
- Ao menos sei para que sirvo ao contrário dos Puros, inúteis, sempre procurando o que chamam de “missão”. Não seria isso uma utilidade clara?
- Humanos são filhos do acaso, nascem como plantas dentro da ordem natural, coisa que a nossa civilização sempre tentou esmagar. O que rege essa ordem aparentemente caótica é uma energia chamada Amor.
- Rosa! Ordem caótica? Um organismo vivo quer seguir existido por isso se alimenta de outros organismos vivos. Sabendo que também servirá de alimento, faz cópias de si mesmo e se espalha. Isso serve para plantas, animais e até mesmo esse seu ser humano tão especial. O que há de caótico nisso? E aonde entra essa energia Amor?
- Na sutileza da escolha do parceiro, Arn, nas pequenas coincidências que podemos perceber como o fato de você ter nascidos num mundo distante e estar aqui falando comigo e na visão de fatos que ainda não aconteceram. Droga! Me diga que não vou me apaixonar por um cego!
- Quer escolher seu parceiro? Posso me levantar agora e...
- Não se atreva a fazer isso! Vi você com as mulheres Soldado. Você está saciado e eu estou aqui com meus hormônios explodindo! Devia ter sido nós dois, Arn! Você sabe que é meu parceiro, que vai se apaixonar por mim, se é que já não está e vai me entregar para outro provavelmente porque é estéril. Agora não é hora de pensar nisso, então, cala a boca e me beija!
Passaram para o balcão interno para serem visto. Essa era a maneira de assumir publicamente uma relação e onde foram saudados. Em seguida, aos aposentos dele onde a moça iniciaria a parte sexualmente ativa de sua vida.


Outras viagens  -  tempo dentro do tempo

Os transportes passaram a ser a rotina de Arn.
Apesar do investimento reduzido, o preço de viajar com ele passou a ser muito alto até para proteger as outras agências da banca rota. Estas continuaram expondo os outros Pilotos a testes seguidos ao mesmo tempo em que transformaram os velhos cruzadores em complexos de laser.
Ao engatar a bolha numa estação, Arn fazia pequenas correções e nem por isso o tempo decorrido deixava de ser zero. As câmeras fora das estações mostravam sempre o engate perfeito e as de dentro da bolha o constante abrir e fechar das portas.
Mas havia mais. Essas correções não eram deslocamentos como o que havia feito com o veículo de manutenção. Não havia motores a ligar, o que ele fazia era mover-se como fazia entre as estações. Tempo zero dentro de tempo zero sendo que ele era o único consciente disso.
Reparou que, nesse “momento que não deveria existir”, nada era sólido. Olhou para os passageiros a sua volta e os viu como fantasmas congelados. Levantou-se, andou entre eles e foi acenar para a câmera se perguntando se isso seria registrado. Então olhou para a cabine e viu a si mesmo sentado, olhos fixos no monitor que lhe dava os mapas e as câmeras tendo uma das mãos sobre o botão que liga o anel invertido.
A surpresa o fez voltar à posição original com um solavanco. Esperou os passageiros saírem e foi até a lanchonete da estação para um café e um pouco de especulação silenciosa. Quando voltou para a bolha, já tinha um teste em mente.
Nada era realmente novidade, ele sabia instintivamente que esse tempo que não deveria existir era infinito, logo, poderia usá-lo como quisesse. Quando foi fazer o próximo ajuste para o engate, aproveitou para olhar um quarto planeta do sistema, uma pedra de atmosfera gelada e mares ácidos. Orbitou esse planeta e arriscou um rasante sobre o mar. No final, deixou-se cair no tempo normal para ver, de sua cabine, as portas abrirem.
Na estação, comparou o que viu em loco com as informações de telescópios e sondas na sua interface do implante, o Caderno. A suspeita era que, como tudo parecia translúcido, não fosse real. Era real, ele realmente esteve num outro planeta com seus passageiros. Tinha controle sobre o salto de um ponto ao outro e também o planeio. Ao voar como um fantasma, não era atingido por fatores externos como a acides dos gazes do planeta. Tudo dependia de sua vontade e, quando se distraísse ou assustasse, voltaria para o tempo normal com o mesmo solavanco.
Nada disso era registrado o que lhe causava uma estranha sensação, alguma coisa que unia liberdade e solidão, euforia e medo.
Foi pedir aos engenheiros um veículo individual e soube que já existia o projeto. Havia uma demanda crescente de passageiros e, com esse veículo, ele poderia saltar de uma para outra bolha ou usar propulsão.
A idéia de Arn era abandonar os passageiros congelados nas estações e fazer suas viagens sem se preocupar com inocentes arrastados em aventuras que desconheciam.



Sobre os mundos

Cada mundo tinha seu próprio movimento e, conseqüentemente, sua forma de dividir o ano. Diferentes horas para a luz do dia resultariam em confusão caso não fosse a adoção do padrão Terra que rege nossa fisiologia. Na CE as luzes eram apagadas a cada doze horas, nos mundos, onde o dia é curto, luzes artificiais, onde é longo, proteção para os olhos e cortinas pesadas. É claro que pessoas e plantas, com o passar do tempo, acabam se adaptando, mas quando tudo funciona o tempo todo e há facilidade de comunicação, o estresse se acumula e surgem problemas de saúde.


Saudade de Jon

Não há como desligar o implante, tudo é gravado o tempo todo. Arn gostaria de contar a Jon sobre suas descobertas, mas teria de fazer isso no tempo normal. Sabia que a idéia de viajar por mundos ácidos quando só o que os passageiros queriam era apenas ir de um ponto a outro, não soaria seguro ou agradável. Além disso, seria transgredir novamente as regras da agência.
Passou algum tempo sem ver seu ex-provocador. Muita coisa aconteceu e o desejo de fazê-lo sorrir ao contar crescia.
Trabalhadores envelhecem tão rápido quanto Puros, por isso é preciso aproveitar enquanto existem.
Arrependeu-se de ter pensado isso, fez a pressa para vê-lo tornar-se ansiedade e tristeza.
Finalmente de volta a Ox, percebeu que tudo havia mudado. Jon tinha outros provocados na Escola, a maioria filhos naturais de Trabalhadores. Não havia entre eles um que representasse um desafio como Arn foi. Sua aparência era a de um homem maduro e cansado. Feliz por vê-lo e por ter cumprido sua missão de educador e incentivador, mas ter atingido o objetivo trazia a sensação de inutilidade.
Onde estava Rosa com seu discurso sobre ordem caótica?
Contar sobre seus experimentos e deixar que ele opinasse lhe traria um novo fôlego e é isso o que Arn decidiu fazer, mas depois que sua cabine móvel ficasse pronta.


Entrevista com Amaury jr.

No palácio, havia um casal oficial, Arn e Rosa, a moça. Aos olhos do público, eram como príncipe e princesa num conto de fadas.
Na vida real, eram um ausente, fanático pelo trabalho e uma cadela no cio.
Sensitivos são hedonistas. É uma característica dessa casta. Usam tanto a mente que precisam de uma compensação: os prazeres da carne, os instintos primitivos que não exigem, ou antes, excluem o raciocínio. Ou um amor unilateral, idealizado, sagrado e muito palpável desde que não seja questionado. E o sagrado não deve ser questionado, ou nunca foi sagrado.
Arn estava certo de seu amor por Rosa, tanto que não precisava vê-la. Já ela, era uma adolescente que acabava de descobrir uma poderosa fonte de prazer.

- Estamos aqui hoje com o casal do momento: Arn 6, o garoto que revolucionou o transporte espacial e Rosa d’Arthur 2. O que vimos foi um compacto com os melhores momentos deles sob o patrocínio da Agência Espacial de Teha. Vamos conversar um pouco com eles, mas antes, Arn tem um comentário sobre as agências. Arn?
- É só um lembrete: Sou funcionário da agência de Ox, como todos sabem, e faço o transporte instantâneo. Quem não tem pressa, aqueles que prezam a saúde e qualidade de vida, podem usar o transporte normal. A competição que existe entre as agências é para trazer um serviço cada vez melhor para todos, inclusive seus funcionários, gente capaz de transformar uma viagem num momento de prazer. Por isso, mesmo a trabalho, tire férias, viaje com a Agência de Teha ou de Lasli.
- Até porque os seus vôos estão muito concorridos, não é verdade?
- É sim. Entendo que o que faço é novidade e isso atrai a curiosidade, mas esperar muito mais tempo do que se fosse confortavelmente num cruzador não faz sentido. Tenho visto gente apostar que pode sentir quando o transporte é feito. É impossível. T igual a zero não é um segundo, não é um momento que se pode sentir. Não há sensação de aceleração. Vejo gente procurar onde se apoiar, pálidos de medo, e depois reclamar porque não sentiu nada, a maioria sequer acredita que estão em outra estação quando as portas se abrem!
- Temos uma seleção de expressões, as mais engraçadas! E aqui está essa moça tão bonita e que disse “cala a boca e beija” quando o Arn quis levantar da mesa. O que você estava pensando ali?
- Que ele ia mesmo levantar. Senti ansiedade. Sei que temos um futuro juntos e que ele estava fazendo um jogo, mas me pegou!
- Você é Sensitiva, filha natural da figura mais polêmica desde os tempos da CE e uma não conectada. Você pretende ser como sua matriz, sua mãe, como prefere?
- Vou começar pelo conceito. Mãe é um conjunto de coisas, não apenas a mulher que gera uma criança. A base dessas coisas é o sentimento que a natureza impõe, mas é também uma ligação mais sutil, bem conhecida dos Sensitivos videntes. Minha mãe é polêmica porque decidiu dar as costas para o mundo de aparências, de meios artificiais para atingir objetivos questionáveis. O que ela fez foi ser coerente. Se você nasce, tem um destino, uma função neste nível da existência. Se não se pode prever cada momento, pelo menos os fatos importantes que pontuam a vida podem ser antecipados. A vida vai te levar até esses momentos, logo, por que se preocupar com roupas ou comida?
- Sim, mas ela é polêmica também por outros motivos. É conhecida como a grande bruxa má!
 - Ela julgou mais importante saber como são as pessoas, o que há por baixo da beleza e asseio que servem para tornar mais fácil atingir os objetivos primários: valorizar o próprio ego e garantir a sobrevivência, basicamente sexo e comida. Entre os loucos e miseráveis das ruas, ela descobriu a essência do humano não contaminado pelos jogos de aparências e as energias dos seus símbolos. Se fez coisas questionáveis, foi para testar suas convicções entre os imersos nessas aparências, os que esqueceram a própria essência.
- Você quer ser como ela? Uma bruxa má do bosque?
- Eu sou como ela. Quanto a ser má, tenho um exemplo. Se você ajuda alguém a carregar um peso, você é uma pessoa boa. Ajude sempre e o outro enfraquece a ponto de não conseguir levantá-lo sozinho. Você será bom quando ajudar e mau quando não puder. Se não parar antes desse momento, você se torna o escravo de um viciado.
- Vamos deixar sua mãe para um outro programa. Minha equipe tem corrido atrás dela, mas é uma figura difícil. Certamente ela está nos vendo agora. Fica o convite no ar. Arn, há um novo aparelho que acaba de ser construído. O que é aquilo?
- Uma cabine móvel, um veículo independente da bolha onde ficam os passageiros. Com ela, vou poder fazer mais transportes.
- E existe também uma pesquisa relacionada. Sobre o que é?
- Uma coisa curiosa que me chamou a atenção logo nos primeiros transportes: para engatar a bolha na estação, eu fazia correções. Isso não é possível em tempo zero, logo, há um tempo dentro do tempo. Se é que isso faz sentido.
- Devo dizer aqui que, vindo de vocês dois, qualquer coisa faz sentido! Mas por que um veículo separado?
- Pelos passageiros. Eles podem não se sentir confortáveis com a idéia de viajar bem mais do que deveriam, mesmo que o tempo seja exatamente o mesmo.
- E o que os engenheiros dizem disso?
- Cada um tem uma teoria. Uns dizem que eu nunca viajei no espaço, apenas na luz que vem dos lugares onde entrego os passageiros, outros especulam que uso um “buraco de minhoca” dobrando o universo, outros falam de universos paralelos. Não há consenso, tudo é teoria até que eu traga provas.
- Existe algum perigo? Você não pode se perder nesse tempo dentro do tempo?
- Não e isso é outro fenômeno. Se estou investigando e me distraio, volto para o tempo normal automaticamente como se caísse.
- Caísse? De que altura?
- Acho que me expressei mal. É como acordar de repente.
- Menos mal! Mas como é que pessoas tão diferentes como vocês resolvem se unir?
O resto da entrevista foi sobre as futilidades picantes que as pessoas gostam de ouvir entre um anúncio comercial e outro.


Viagens paralelas e mapas

Liberdade e solidão, euforia e medo.
A bordo de sua cabine móvel, Arn misturava esses sentimentos ao ir para onde seu nariz apontasse e, mais do que ver, meter-se entre nuvens luminosas, atmosferas com gazes inusitados, gigantescos blocos de gelo que flutuam no nada.
Sempre voltando para onde havia deixado a bolha, normalmente já na estação de destino, pronta para o desembarque.
Eram horas nesses passeios, ainda que o relógio não funcionasse. Nada funcionava. Tudo na cabine era transparente, inclusive ele mesmo.
A cada transporte, os engenheiros sabiam que ele havia ido para algum lugar além da estação espacial seguinte. Relatos detalhados eram a única forma deles calcularem por onde Arn esteve. Sentiam-se cegos e passaram a exigir que ele completasse um mapa tridimensional periodicamente com o máximo de detalhes.
Quando não estava fazendo os transportes, estava com os engenheiros, lidando com mapas, em transito entre a estação e o palácio ou com Rosa que também exigia presença, carinho e sexo.
Era um momento novo e brilhante, de realização profissional, reconhecimento público, cercado de luxo e carinho. Mas faltava alguma coisa.

São raros os planetas onde a vida humana é possível, mas existem. Nesses planetas ou luas, a vida explodia nas formas mais exuberantes, coisas que Arn reconstruía ao descrever para a máquina.


Sábios demônios de Inferno

Num desses planetas encontrou um animal que lhe chamou a atenção. Eram alguma coisa entre inseto e lagarto, pele vermelha, seis membros, uns três metros de altura quando ficavam nas patas de trás e, na cabeça, um tipo de bico que lhes permitia devorar a caça a partir do interior.
Estavam no alto da cadeia alimentar, ou seja, eram caçadores cheios de estratégias que também comiam frutos e não tinham casas fixas.
 Arn não entendeu como isso poderia ser possível, mas esses animais paravam para olhar em sua direção quando ele não era mais que um fantasma. Isso o assustou. Na verdade não foi só isso, houve também uma comunicação telepática, um comando irresistível. Sua reação foi voltar para Ox, mas não no tempo normal e sim num tempo em que se sentia seguro.
De repente, estava nos gramados ao redor do prédio da Escola quando Jon se aproximava com a maquete da Voyager, um cubo central com desdobramentos que eram os painéis solares, a fonte de energia da época.
Arn queria o abraço de Jon como uma criança que pede colo. Esse foi o momento em que tudo começou e trazia sua carga emocional. Orgulho, esperança, segurança, mas nessa segunda visita à esse instante, havia a presença de monstros vermelhos que o observavam.
- Tio Jon!
Ele olhou para o vazio antes que um menino surgisse com o anel invertido, ansioso para ver um brinquedo grande e desajeitado que trazia o disco sulcado com a música Satisfaction dos Stones.
Eram imagens do passado. Luzes que se propagam pelo nada carregando eventos.
 “Vá ver seu pai antes que ele morra!”
Que ordem é essa? De onde vem e quem se julga com essa autoridade?
Ao seu redor, Arn ainda via a cabine, mas era incentivado a esticar as pernas e tocar a grama. Foi o que ele fez e, de repente, viu a si mesmo de pé ali, completamente materializado.
Só o que lhe ocorreu nesse momento foi um nome para o novo planeta: Inferno, lar dos Demônios vermelhos de seis membros que vêem fantasmas alienígenas e interagem com eles.
O menino que ele mesmo havia sido nem tanto tempo atrás, o viu antes de desaparecer e o efeito chicotada o devolveu para a estação no tempo normal.


A notícia se espalha

- Que loucura é essa, Arn?! Você estava rodeado de alienígenas que te incentivavam num tempo passado? Isso faz sentido? Entendi direito?
- Entendeu, tio Jon. Foi no dia em que você trouxe a réplica da Voyager.
- Não lembro de ter olhado para o vazio. Você lembra de ter visto a si mesmo antes de saltar de volta para dentro do prédio?
- Eu não vi nada. Só o que eu tinha na cabeça era ir para onde você estava levando a maquete.
- Alienígenas! Homenzinhos verdes! Que fantástico!
- Vermelhos, tio.
- Caçadores coletores... evolução humana. Foi você quem viu os caras. Especule!
- O que eu vi foi um bando de animais que podem vir a ser inteligentes. Andam nus, caçam de maneira organizada, mas com uma estratégia que pode não ser racional. Não os vi planejando. Não usam ferramentas e nenhum tipo de enfeite. Só que me viram. Não imagino que implicações isso pode ter, mas certamente tem.
- Uma raça de animais videntes?
- Mais do que isso. Me aconselharam a vir te ver antes que você...
- Antes que eu o que?  Antes que eu morra?
- É isso, tio. Essa foi a mensagem.
- E quando isso vai acontecer? São adivinhos também?
- Só disseram para vir e me acompanharam. A sensação de emergência pode ter sido coisa minha. Na verdade não sei se vim ou se fui trazido. Não pensei que era possível tomar parte de um evento passado. Foram várias novidades juntas. Acho que tive medo.
- Por que veio para cá?
- Não gosto de imaginar qualquer coisa ruim acontecendo com você, tio Jon. Acho que esse sentimento chamou a atenção deles.
- Imaginar? Você tem um lado vidente. Sente que eu corro algum risco?
- Sinto sim, tio Jon. É uma impressão difusa, mas existe. Outro Sensitivo, um melhor treinado, pode esclarecer.
- Isso seria bom! Não tenho pressa, mas sei que todo mundo morre um dia. Você é um clone especial, vai viver trezentos anos. Eu sou Trabalhador, vivo muito menos, isso se não acontecer um acidente qualquer. Vou perguntar a um dos meus provocados. Tenho uma menina excelente.
- Faça isso e procure se cuidar melhor.
- Você tentou repetir essa viagem ou o contato com esses bichos?
- Ainda não, tio, mas agora que sei que posso me materializar, estou pensando em fazer isso perto deles e ver como reagem.
- Mas se são caçadores, não há perigo deles te atacarem?
- É uma das reações possíveis, nesse caso, volto para o tempo normal.
- Eles te acompanharam até aqui. Não seria boa idéia ter um bicho de três metros numa estação espacial cheia de gente. Acha que existe esse risco?
Nesse momento soa o sinal de comunicação. Um dos engenheiros surge no monitor que Arn tira do bolso.
- Desculpe interromper e por estar bisbilhotando, Arn, mas não acho que essa seja uma decisão que você pode tomar sozinho.
- Sei que sempre tem alguém da agência comigo, não se preocupe. Eu ia mesmo falar com vocês. Espere que tem mais gente chamando. Oi, senhor Marus!
- Arn, você se superou de novo! Parabéns! Agora vamos cortar caminho. Você aí da agência, pode me passar para o chefe de projetos Nelson, por favor? A idéia é a seguinte, Arn: certamente você pode levar uma estação, em partes, é claro, para esse planeta, Inferno, como você batizou. Quando não se sabe se alguma coisa é perigosa, o melhor é não arriscar...
- Chefe de projetos, Nelson, aguardando, senhor Marus.
- Oi, Nelson, preciso de uma estação que possa ser transportada no veículo do Arn, em partes, e possa receber grupos que serão transmitidos para o planeta. Não sei se você estava ouvindo a conversa. Reveja a gravação. Serão cientistas e pelotões de Soldados que vão estabelecer colônias em Inferno. Quero um projeto disso o quanto antes. Diga qual é o tempo necessário.
- Temos alguns projetos prontos, senhor, um deles é uma base com módulos infláveis que pode servir. Talvez cinco dias, senhor.
- Não ocupe meu tempo com detalhes e faça na metade disso. É possível?
- Acredito que sim, senhor.
- Então vá trabalhar, Nelson! E dê um abraço meu em todos aí! Arn, sei que você vai fazer as suas experiências de qualquer forma e que o mapa está atrasado. Coloque esse planeta e esqueça o resto por enquanto, mas fundamentalmente, não corra riscos pessoais e nem traga esses demônios para cá. Peço isso em nome da Rosa e em meu próprio. Logo Inferno terá uma nova raça no topo da cadeia alimentar. Agora volte a falar com seu provocador, dê um abraço nele por mim e, quando voltar, ergueremos um brinde. Até logo!
- Não há como não me orgulhar de você, Arn! O engraçado é que parece que eu já disse isso antes.
- Talvez tenha dito, de qualquer forma é o efeito para uma causa que te inclui, tio Jon.
- Bom... E como vai o romance com Rosa, a moça?
A conversa seguiu por caminhos amenos daí para frente e por toda tarde, entediando fãs, observadores da agência e jornalistas. Arn preferiu não falar de sua relação pessoal e Jon mudou de assunto. Nada que pudesse gerar conversa surgiu, mas aqueles que buscam as emoções privadas, só teriam de esperar até que ele chegasse ao palácio.


Gratidão de Marus

Lá todos já se haviam recolhido, apenas Marus fez o brinde como havia prometido.
Haveria uma festa, a ocasião merecia, mas esta teria de esperar até que os convidados fossem avisados.
Aos poucos, Marus se tornou mais um amigo, longe da imagem do Líder Supremo a quem tratar com respeito o tempo todo ou o pai, como ele mesmo sugeriu que o tratasse.
Líderes são atenciosos por natureza, se é que se pode dizer isso de clones modificados. Estão sempre observando pequenas reações, identificando desejos e criando estratégias para que todos tenham a impressão que estão conseguindo o que querem. Essas reações são parte de uma linguagem não verbal, para eles, mais confiável que as palavras podendo confirmar ou desmentir o que foi dito. Vivem como se a vida fosse uma peça teatral e sabem fazer o público entender uma mensagem mesmo sem palavras.
Em primeiro lugar, Marus estava alegre porque finalmente havia uma chance de dar aos Soldados um inimigo a altura, mas não deixaria de perguntar sobre a CE.
- Preciso de pontos de referência, Marus, vou a lugares que vejo ou que sei onde estão.
- Sei disso. Desculpe por perguntar. Mas você surpreende todo mundo o tempo todo! Não falo só da descoberta desse planeta, mas com o transporte em si, essa coisa de tempo dentro do tempo e agora com a possibilidade de se materializar. Você deixa os físicos e engenheiros malucos!
- Eu bem que gostaria de ter algumas respostas para eles.
- Bobagem! É o trabalho deles. Eles que estudem o que você faz e como faz! Aquela maçã da história não caiu da árvore com uma equação na casca! Tenho certeza que você vai encontrar a CE de algum modo. Agora vá dormir.


Putarias da Rosinha

 No quarto.

- Meu dia foi proveitoso. Minha mãe serviu o almoço e me contou histórias que ilustram arcanos da cabala. Mitos antigos da Terra que falam de escolhas, de trabalhos a serem realizados com inteligência e momentos em que é preciso não fazer nada. Também fiz sexo com dois caras ao mesmo tempo. O mais culto e bem humorado me fazia rir enquanto o mais bruto me ofendia e batia no meu rosto. Não sei por que, meu orgasmo veio com este último. Claro que as ofensas eram infundadas e não me atingiram, mas a maneira como ele falava me excitava. Acho que a violência é prova de capacidade para defender crias, não era alguma coisa contra mim, mas meu corpo reagiu me mostrando, com o orgasmo, quem seria um melhor pai para filhos meus, numa época qualquer, antes do começo da agricultura. Falo de quinze mil anos atrás. E o seu dia? Foi bom?
- Foi. Quer dizer, normal. Aconteceram algumas coisas, mas... vi o Jon.
- Você estava louco para falar com ele. Ele está bem?
- Está sim.
- Ah, Arn! É tão bom ter o calor do seu corpo na hora de dormir! Quando você quiser prazer sexual é só me dizer, ta?
- Você faria qualquer coisa por mim, não é?
- Qualquer coisa! Claro que não tenho um corpo como o daquelas suas mulheres Soldado, mas posso descobrir suas zonas erógenas e fazer um bom uso delas. Gosto de você, Arn, querido! Vou gostar sempre! Minha mãe está certa quando diz que as famílias devem voltar. Sinto que sou só sua!
- Seu coração é só meu?
- Só seu. E estou muito feliz ao seu lado. Acho que isso é o mundo que você me daria conforme a previsão. Um mundo de paz, segurança e esse calorzinho gostoso. Não preciso de mais nada além de saber que o seu coração também é meu!


Refazer visitas - monstros

Não havia um raciocínio por trás das viagens, o que Arn fazia era ir onde queria. Ter encontrado o planeta Inferno foi só coincidência, uma estrela visível perto de outra e perto desta, um planeta que lhe atraiu a atenção.
Tinha de memorizar caminhos e refazê-los cada vez que queria repetir um lugar. Os mapas ajudavam, mas eram uma prisão do mesmo tipo que o obrigava a realizar testes como tentar se materializar exatamente no mesmo local, o gramado em frente a Escola, mas não sabia se o momento era o mesmo. Não conseguiu.
Pensou em ir até Inferno e, de lá, refazer o caminho de volta. Novamente falhou. Permanecia um fantasma flutuando acima do gramado e então decidiu voltar ao planeta Inferno disposto a encontrar os demônios que, teve de admitir, o conduziram.
Sobrevoou o primeiro bando que encontrou e sentiu medo quando foi acompanhado com o girar das cabeças, mais medo ainda quando começou a descer sem controle e se materializar no meio deles.
Sentiu o chão contra seus pés e viu a cabine desaparecer, então respirou o ar daquele planeta pela primeira vez.
Um dos monstros, muito mais assustador quando visto de perto, aproximou-se apoiado nas quatro patas traseiras como um centauro. Sua atitude não era agressiva, pelo contrário, esforçava-se tentando algum tipo de comunicação.
A dificuldade estava na ausência de ego. Ele, na verdade eles todos, não concebia a idéia de indivíduo.
Houve comunicação. Um volume muito grande de informações foi passado, mas tudo ao mesmo tempo de forma que Arn precisaria de tempo para separar o que recebeu.
Num piscar de olhos, ele tinha não só a informação que foi buscar, mas todo o tempo de existência daquela raça.
Poucos segundos diante daquele enorme e horrível animal foram suficientes para que Arn se desmaterializasse e voltasse ao tempo normal. Já havia deixado a bolha engatada, mas não esperou que os passageiros saíssem.
Normalmente usava o motor da cabine para ir dali para sua porta privativa na parede externa da estação, desta vez resolveu saltar.
Ainda sentia os efeitos da adrenalina no sangue, afinal, seu corpo funcionava neste tempo e não naquele em que esteve a poucos centímetros de um monstro que facilmente poderia abrir seu peito e devorá-lo a partir de dentro. Mas já não havia motivos para ter medo, não só pela distância, mas por que eles, os demônios, não foram agressivos.
Ao sair da cabine para a estação, estava absolutamente confuso. Abrir as portas e sair foram atos feitos sem pensar, no automático.
Precisava de tempo para por as idéias em ordem e imaginou que poderia sentar-se no café e não falar com ninguém por alguns minutos, mas havia um grupo de fãs lá. Seu nome foi gritado e xícaras foram erguidas. Arn deu meia-volta e entrou no banheiro.
Escolhia um box vazio quando viu um demônio às suas costas. Com o coração novamente aos pulos, percebeu que era o espelho e este não refletia nada além de sua cara empalidecida pelo susto.
Sentado no vaso, finalmente sozinho, entendeu que os demônios não foram agressivos com ele por uma razão: identificação. Eram inteligências sem ego e sem tempo. Talvez uma coisa seja conseqüência da outra, mas por que se identificariam com ele? De qualquer forma, a falta de agressividade foi exclusivamente com ele em função dessa identificação. São, pelo menos neste momento da evolução, predadores ferozes e espertos. Ao mesmo tempo, ou num outro tempo, são sábios e sofisticados. Como isso pode fazer sentido? Por que parece tão natural?
Um dos fãs o procurou no banheiro, chegou a chamá-lo, mas desistiu. Arn já sabia com quem falar e como faria para que a conversa não constasse nos arquivos. Mais alguns minutos e surgia em frente à Escola, horas antes de sua última visita a Jon no tempo real.





Desabafo com a imagem de Jon

Era estranho estar ali, surpreendente a facilidade com que desceu depois de um planeio e sentiu o chão livrando-se da cabine. Caminhou até a sala onde viu seu ex-provocador sentado no chão com crianças.
- Jon?
- Oi, Arn! Eu só te esperava mais tarde, mas que bom que você está aqui! Estes são meus novos provocados e, molecada, este é Arn 6, o garoto do transporte instantâneo. Digam oi pra ele!
- Oi, Arn 6!
- Oi, pessoal! Tio Jon, se você tiver, acho que menos de um segundo, eu gostaria de ouvir sua opinião sobre um assunto.
- Menos de um segundo? Acho que sei de que se trata! Meninos, eu já volto. Continuem a discussão.
Passaram dos corredores para o jardim.
- Não sei como começar, tio Jon, nem sei exatamente como fiz para estar aqui. Encontrei uma raça de animais alienígenas e falei com eles.
- Isso eu sei. Você relatou sobre o planeta Inferno com os demônios.
- Sim. O que acontece é que eles me ensinaram a voltar no tempo e aqui estou, no passado, logo depois de uma conversa com um deles que não é um deles, mas todos eles. Eles não têm ego, um é todos e, de alguma forma, eu sou um deles, ou serei, já que eles também não tem tempo.
- Espere, espere, espere! Você parece drogado! Que viagem é essa? Se quer que eu entenda, fale a minha língua! Você está no passado? E eu? Como você conversa com um deles e com todos? Não entendi nada!
- Tio, você não é você, é só sua imagem. Sabe quando você gira uma brasa no escuro, que fica um rastro de luz? Eu estou num ponto qualquer desse rastro, não na brasa onde seria o presente. Isto é passado! Sua essência está aqui, por isso posso falar com você. Mas vou desaparecer e você estará lá com seus provocados até a noite quando vim no seu tempo de agora, que também é passado. Mas isso não interessa. Acabo de falar com esses monstros e preciso pensar...
- Não Arn! Não precisa e, aliás, não deve! Não entendo porra nenhuma do que você está falando, mas por boa parte da vida, trabalhei com crianças estranhas, meninos e meninas que vêem coisas, que fazem cálculos, que prevêem fatos que se concretizam. Nunca sei do que falam, nunca entendo, mas tenho um sistema, quando tudo está confuso, pare, pense em outra coisa, distraia. No momento certo a solução vem por si. O ócio é fundamental. Quando se está envolvido com alguma questão que gera essa ansiedade, relaxe, adie! O que quer que seja que está na sua cabeça não vai sair, pode se misturar com outras coisas e é a soma dessas coisas que vai trazer a solução do problema. Isso acontece naturalmente, sem esforço. Por isso, relaxe! Apenas relaxe!
- Tio Jon, acho que entendo o que você quer dizer. Não esperava menos do que isso. Até já me sinto melhor. Mas quero aproveitar e colocar algumas coisas que recebi dos demônios em ordem. Por exemplo, percebo que o lado emocional da nossa relação é importante. Talvez sejamos um. Talvez eu seja um com Rosa, com Marus, com Rosa, a velha, com meus irmãos Sensitivos Pilotos. Os demônios de Inferno são assim, nascem e são amados por todos, são um com todos. Eu realmente acho que você é só um reflexo do Jon real. Este momento vai desaparecer, por isso vou dizer uma coisa do fundo do meu coração e sumir de volta ao tempo normal, covardemente, para onde abro e fecho portas: eu amo você, seu filho da mãe generoso, justo, companheiro, equilibrado e sei lá que outros elogios eu poderia fazer. Você foi o pai que eu não tive. Eu odeio você de tanto amar, seu prepotente, dono-da-verdade, estúpido!
- Arn.
- Cala a boca que eu não terminei! Não gosto da atitude da Rosa. Vagabunda filha da puta! Amo e odeio aquela vaca! Odeio a mim mesmo por não dar um basta nas aventuras dela. Mas quem sou eu para fazer isso? O coração dela é meu, mas orgasmo ela tem com quem quer. Sou inteiro? Ou sou só um fantasma, um coração, um cadáver quente na cama na hora de dormir? Jon, amor é prisão? É gaiola de ouro?
- Arn, você está surtando?
- Tio Jon, você é um babaca! Trabalhador estúpido, nascido só para povoar. A porra da sua vida não tem qualquer valor! Eu te sustento, pago a comida que você come e o lugar onde você dorme. Pago tudo! Até os meus irmãos Pilotos nos três mundos vivem ás minhas custas! E para que eu preciso de dinheiro? Para nada! Não existe dinheiro, só prestígio! Trabalhador imundo, eu tenho isso, tenho crédito e fãs, e tenho tudo isso por sua causa, seu filho da mãe!
- E mora no palácio da Suprema Liderança, e dorme com a mulher mais gostosa dos três mundos e pode absolutamente tudo, seu branco azedo!
- Por que você me chama assim? Eu sou um mestiço claro, você sabe disso.
- É só uma expressão, bwana! Alguém foi arrogante aqui. Esse alguém tem nobreza suficiente para pedir desculpas?
- Me desculpar por falar a verdade?
- Não sou sujo, estúpido ou babaca. Meus proventos vêm de trabalhos feitos por anos com honestidade e carinho. Ou você acha realmente que o que você disse é verdade?
- Não, senhor “imagem animada do tio Jon”! Nem sujo, nem estúpido e nem babaca. O que eu quero é abraçar esse safado até que ele sufoque de tão grato que sou! Foda-se se você não entende e se ofende. Eu amo aquele velho safado que tornou possível o que tem acontecido, não pelo que tem acontecido, mas por ele mesmo, pelo simples fato dele existir e ter feito parte da minha vida. Você fez muito bem o papel dele, mas não é ele. Não no tempo certo.
- Você ama mesmo o filho da puta, né?
- Mais do que eu mesmo imaginava.
- Posso estar no tempo errado, mas vou dizer uma coisa: ele também te ama e se orgulha de você, seu bostinha! Agora, se era só isso o que você queria dizer, podemos voltar para nossas atividades do seu e do meu tempo normal? Tenho uma sala com meninos ansiosos por informação e não lido muito bem com emoções deste tipo.


Como funciona – planeta Rosa

Arn não tinha certeza do que aconteceria quando reassumisse seu lugar na cabine de onde, do ponto de vista do tempo normal, aquele em que as imagens são captadas e arquivadas, nunca havia saído.
O que sabia era experiência de outros, de monstros vermelhos alienígenas que não mereciam outro nome senão demônios. Através deles, tinha a convicção de que não estava no passado, mas num rastro de luz. É como um surfista numa onda, só que essa onda é feita da luz que banhou um ponto qualquer do universo num momento qualquer. Deveriam ser só imagens, mas ondas tão complexas têm a capacidade de reagir a novos estímulos.
Sua conversa com essa imagem de seu ex-provocador foi um desabafo, coisa que ele gostaria de dizer ao Jon real, mas não tinha coragem.
Voltar à estação foi questão de deixar-se cair no momento presente, como se houvesse um tipo de gravidade envolvida.
Certamente os engenheiros transformariam isso tudo em equações que serviriam de base para uma máquina, mesmo que o ponto inicial fosse um clone com genética alterada. Um cérebro como o seu poderia ser desenvolvido como as partes de animais que crescem ligadas a máquinas, as árvores de vacas de plástico.
A conversa não contemplou os demônios e suas informações misturadas, o desabafo era mais urgente. Por isso sentia-se melhor a ponto de adiar aquilo que sabia que viria de qualquer forma.
Mapas detalhados. Onde, o quê, como, especulações.
Portas abertas, portas fechadas, portas abertas de novo e lá vinha o garoto tomar café. Pensativo, meio tonto, às vezes triste, às vezes eufórico. Abria seu Caderno e completava o mapa. Uma estrela ao lado de outra com planetas, com determinadas características, com animais e plantas ou só gases, mares e pedras.
Os mundos que Arn visitava eram os visíveis e as informações que ele trazia, confirmáveis através de telescópios.
O Planeta Rosa, batizado por ele, era um exemplo de perfeição, um verdadeiro jardim com duas luas, sendo que uma delas com anéis. Mares salgados e grandes lagos de água doce, selvas, geleiras, desertos. Cada continente parecendo colocado propositadamente em lugares estratégicos para produzir um tipo de ambiente. Este era o presente para Rosa, a moça, o mundo previsto.


Terra

Por que esse filho da mãe não vai para a Terra? Se perguntavam os engenheiros. Ele já tinha ido.
Vênus, Marte, Terra, Europa. Mundos da estela Sol, lar dos Puros.
Aqui se luta contra condições adversas com armas pesadas. Grandes escavadeiras trabalham no subsolo marciano criando áreas de plantio enquanto o cinturão de asteróides é explorado como uma gigantesca mina flutuante. O escaldante Venus produz a energia que é consumida na Terra, o violento, poluído e super povoado berço da espécie humana.
Ele não perderia a chance de sobrevoar como um discreto fantasma algumas cidades.
Nesse planeta as etnias ainda se mantém apartadas e julgam isso natural. A maioria tem pele escura, se espalham por todos os continentes e vivem em condições modestas em contraste com ilhas de abundância onde vivem os de pele mais clara.
Ao relatar o encontro, ouviu dos engenheiros da agência a sugestão de fracionar a distância deixando bóias pelo caminho. Estas poderiam encontrar a CE e seriam pontos conhecidos a visitar periodicamente.
Encontrar a CE era a idéia original, mas uma vez que a Terra estava ao alcance, seria a vez dos Líderes entrarem em ação e agirem diplomaticamente antes da chegada das notícias questionáveis das quais a nave era portadora.


  Agentes secretos - reunião

- Essa é a situação, senhores. Quero sugestões sobre o que fazer, se fazer e quando fazer. Falem livremente. Vamos especular! Diga, Nelson.
- Sr. Marus e senhores da equipe. A agência ainda questiona o tempo no processo do transporte. Existe, na nossa opinião, um atraso que se torna significativo em distâncias maiores. Arn não vai para os destinos que vem descrevendo nos mapas, mas harmoniza-se com a luz que vem desses destinos a ponto de senti-los como sólidos. O problema é que não há como ele saber a diferença. Isso implica em transferir pessoas e equipamentos para um lugar que não existe a não ser como onda luminosa.
- Você pode explicar isso, Arn?
- Posso tentar. Fiz alguns testes que ainda não relatei. É a primeira vez que estou desconectado e não resisti. Espero que o pessoal da agência compreenda. Indo ao ponto, sabe-se em teoria que matéria é energia condensada. Esse ponto de condensação coincide com o momento presente para onde sempre volto, as vezes involuntariamente.  Posso me harmonizar com outros momentos e ser virtual num universo virtual o que dá a sensação de solidez. Isso é diferente de estar em outro lugar no presente.
- Desculpe, senhor Arn. Meu nome é Bao e, como representante do governo de Ox e possível membro da expedição à Terra, gostaria de saber se o que o senhor faz é ou não é viagem no tempo e, no caso de ser, o que há no futuro?
- Esqueça o “senhor” Bao. Não é viagem no tempo, logo, não vi o futuro. Sei que é um conceito novo e difícil. Talvez um dos Sensitivos engenheiros especialistas seja capaz de traduzir para Líderes e o povo em geral.
- Ainda não, Arn. Só o que temos são teorias baseadas em devaneios e futilidades. Se ao menos os mapas estivessem em dia e com os comentários, isso poderia virar uma equação.
- Senhores. Os mapas estão sendo completados neste exato momento em que conversamos. Bao, o Arn é Sensitivo, não Líder, e tem dezessete anos. Ou ele diz o que pensa ou se preocupa com formalidades. E, Arn, não cutuque a agência. Sei que é chato dar detalhes e é a primeira vez na vida que você se sente tão livre, mas “vá na boa!”
- Sei disso, só queria mostrar respeito, Marus.
- Sei o que você queria, Bao. Mas vamos voltar ao objetivo inicial. Temos mais um membro da expedição, a Sensitiva Vta, telepata e boa com estratégia.
- Senhores. Precisamos de mais informação. Não sabemos em que direção a Terra caminhou nestes quase trezentos anos e o que Arn trouxe é muito pouco. Falo de linguagem, religião e cultura geral, quem são e quais as características pessoais dos principais líderes deles e dos que os rodeiam. Minha sugestão é usar observadores infiltrados antes de um contato direto.
- Agentes secretos? Me parece uma boa idéia!
- O termo que o senhor preferir, senhor Marus. Mas precisamos de imagens dos habitantes para que os nossos sejam confundidos com os nativos.
- E como o Arn poderia fazer isso sem se materializar? Tem alguma idéia, Nelson?
- Interceptando sinais de satélites de comunicação. Podemos preparar equipamento para isso em algumas horas, só precisamos saber que tipo de onda eles estão usando agora. Também nesse caso, não há problema.
- Quantos e como descer com eles até a superfície?
- O número depende de onde. Quanto mais próximos dos centros de poder, menos são necessários.
- Posso levar uma bolha com pessoal e equipamento, achar um lugar deserto e deixá-los lá até que estejam prontos para voltar.
- Bom. Acho que essa seria uma boa primeira etapa. Estão todos de acordo com o método dos agentes secretos? Então, assim que soubermos mais sobre a estrutura de poder na Terra, seus líderes e como pegá-los, volto a me reunir com vocês. Bao, esse é o seu pessoal, você coordena. Arn, é com você. Como sempre, quero soluções e resultados e vocês são os melhores. Até logo.
- Agradeço o encargo e o incentivo, Marus, sei que seremos uma boa equipe, mas quero perguntar mais uma coisa ao Arn.
- Diga, Bao.
- Durante um desses sobrevôos seus como um fantasma, se eu for com você, vou poder ver a paisagem?
- Infelizmente não. Em menos de um piscar de olhos, saindo da estação, você estará no destino. Verá as portas se fecharem e se abrirem imediatamente para mostrar outra paisagem, o corredor da estação seguinte. Já vi vários clips engraçados de pessoas confusas que não acreditam que chegaram.
- Se me permitem, percebo que nosso líder, por ter passado por um período estressante, tem medo de altura. Como incentivo, digo que conduzirá o planejamento da ação de modo a evitar riscos para os infiltrados. Isso fatalmente resulta em sucesso.
- Você é vidente também, Vta?
- Não, o que faço é perceber inclinações, algumas vezes motivadas pelo medo. Uma vez com isso em movimento, calculo os resultados. Não é vidência, é estatística intuitiva. Também tenho uma pergunta para o Arn, se ele não se importar.
- Claro que não. Fale.
- Você tem uma imagem fixa na cabeça. É educado e pacífico, mas o que você traz é primitivo, brutal, meio grotesco. Quem são os demônios? São “seus” demônios?
- Demônio é a raça alienígena natural do planeta que chamei de Inferno e que consta no mapa que venho tecendo para a agência, Vta. Se existe alguma coisa que eu posso chamar de assustador, é ficar diante de um deles, frente a frente. São predadores enormes que caçam em grupo e têm a cabeça em forma de machado para abrir a caça com um golpe e devorá-la de dentro para fora. Isso é repulsivo e animalesco, mas são também inteligentes de uma forma estranha. O contato com um é o contato com todos. Não espero que você entenda, mas um é todos e todos sabem de onde vieram e como e quando vão acabar como raça.
- Não são uma parte de você? Não existe um simbolismo envolvido? Pergunto por que só podemos nos basear no que você relata e algumas vezes esses relatos parecem a descrição de sonhos.
- Vta, você esta convidada a entrar na minha cabeça e pescar o que quiser. Você tem dúvidas quanto ao que digo por que parecem sonhos, mas quem sabe o que é a realidade? Talvez os demônios não sejam tão feios. Todo mundo projeta, não sou exceção. O transporte é e não é o que se vê. Meus humores mudam por que vou além do observável. Há um universo entre o fechar e o abrir daquelas portas. Todos imaginam que vão sentir a aceleração ou ver um túnel de luz quando entram na bolha. Nelson e Bao também gostariam disso, mas não dá. T igual a zero é o que é: nada. Para mim, ai cabe um infinito. Cabe ver novos mundos, monstros ou pessoas do meu passado. Tudo é banhado por luz. Se não por fótons, então pelas ondas que eles produzem.
- Não foi minha intenção invadir, Arn, desculpe.
- Não me sinto invadido, você só me ajuda a trabalhar no mapa. Sei lá onde a máquina vai enfiar o que estou dizendo, mas tudo vai parar lá. Depois tenho de ir numa sala escura e lembrar onde estavam as estrelas para que a máquina faça as comparações e medições. Essa é a parte chata. Leva horas! Vamos relaxar? De onde você está falando agora?
- De Teha. E você?
- Eu sou de Ox, mas estou em Lasli, no palácio da suprema liderança. O Nelson é do meu mundo, o cara da agência. E você Bao?
- Sou de Ox também, Arn, mas eu sou pé-grande.
- Do sul ou do norte?
- Do sul.
- Pé-grande do sul? Segunda linha?
- Segunda linha é aquele monte de palavrões que você esta acostumado a ouvir quando diz isso a qualquer um de nós! Ser pé-grande do sul é coisa séria! De onde você é em Ox?
- Do trópico, bwana!
- Bwana é sua madre, aquela máquina onde você nasceu grudado feito um pedaço de carne sem vida, seu meio-gente de gênero duvidoso!
- Você está me xingando, bwana?
- Respeite minha idade, fedelho, criatura sem alma, amontoado de células! Arn, você é fundamental para a missão, não me force a ser indelicado!
- Arn. Você não está exagerando?
- O caipira se ofende com um nome! Dá para respeitar uma vaca brava dessas? Você quer ou não quer liderar a missão, bwana?
- Quero com a ajuda e o respeito de vocês, se não tiver isso, desisto agora!
- Precisamos de um líder, Arn! Que confusão você está armando?
- Você acha que esse cara é bom o suficiente, Nelson?
- Acho que sim, e acho que ele está de palhaçada como você.
- E você, Vta? É um pé-grande de segunda linha. Você mudou de idéia a respeito dele?
- Não, Arn, ele é equilibrado, percebe que você está provocando e embarcou na brincadeira. É um sujeito idealista, confiável e bem humorado. Os medos dele são a proteção que os agentes precisam. Voto nele como líder.
- Penso o mesmo. Desculpe Bao, mas Marus sugeriu que eu testasse seu humor antes de trabalharmos juntos. Bem-vindo à liderança, bwana!


No dia seguinte, um homem da agência aguardava por Arn na estação. Ele lhe mostraria o equipamento para gravar a comunicação da Terra e quinze bóias infláveis que emitiam pulsos de laser invisíveis a não ser para um receptor que passaria a fazer parte da cabine. O gravador foi deixado junto a um satélite indicado pelo próprio equipamento. Ao voltar, Arn calculou onde seria a metade do caminho, ali deixou a primeira bóia, depois metade entre a bóia e a Terra e assim sucessivamente, deixando uma linha de bóias.
Os quatro agentes secretos escolhidos, Sensitivos telepatas, logo tiveram suas informações. Seus chips subcutâneos tiveram de ser adaptados para que tivessem um passado na Terra e algum dinheiro, aprenderam as línguas locais e tudo para que passassem por estrangeiros comuns em qualquer lugar onde fossem deixados.
Nas entrelinhas do que era divulgado, entendia-se que a Terra era um mundo de conflitos, mas também de esperança. As pessoas viviam mais do que quando a CE, na época chamada Esperança, partiu. Cento e cinqüenta anos com saúde monitorada pela versão deles do chip. Ao contrário dos mundos da nova estrela, ali a privacidade era valorizada, o indivíduo recebia o implante ao nascer, mas poderia desligá-lo quando quisesse. A base da sociedade ainda era a família e a maioria professava uma das religiões vigentes. Pela ordem de número de seguidores: evangélicos, budistas e muçulmanos. Exceção para os do bloco europeu que eram ateus e por isso, vistos com desconfiança pelo resto do planeta.
Quando o Líder Supremo teve acesso à transcrição das gravações, fez um comentário indicando a existência do que chamou um “poder invisível” decidindo os caminhos das massas.

- Nós somos transparentes. Aprendemos isso com Arthur que era um líder para poucas pessoas num ambiente fechado. Ali, o melhor que se poderia fazer foi o que ele fez, incitou as pessoas a pôr suas paixões de lado e pensar visando o bem comum. O povo da Terra nunca passou por isso, eles sempre tiveram espaço de sobra para afastar um inimigo ou cometer um crime, bastando mudar-se para fugir à punição. Tendo um horizonte, é fácil viver a ilusão de que é além dele que está a felicidade. Nossa tecnologia é melhor que a deles e vocês, agentes, são melhores do que eles. Lá, as pessoas realmente poderosas não estão em destaque, não aparecem nos noticiários. É um lugar onde as perguntas têm mais de um sentido e as respostas devem ser lidas nas entrelinhas.
Todos estariam em contato uns com os outros e, em caso de necessidade, Arn poderia resgatá-los. Assim, um foi deixado num subúrbio de uma das antigas cidades européias, de onde, segundo Marus, o verdadeiro poder emanava, outro numa cidade da China e os outros dois em continentes escolhidos aleatoriamente.
Se Rosa, a moça, já não tinha o suficiente de Arn quando se uniram, agora tinha menos ainda.
Coube a ele, enquanto os agentes estivessem lá, visitar a Terra de doze em doze horas, levar as partes de uma futura estação espacial para a órbita de Inferno, verificar as bóias que diriam onde está a CE, isso tudo sem deixar de lado o transporte regular entre os mundos. Chegou também a levar alguns equipamentos para o planeta Rosa. Sua intenção ali era construir uma casa, mas adiou o projeto em função das outras ocupações.


Encontrada a CE – agentes em ação

Entre as bóias cinco e seis estavam as duas bolas de pedra unidas ao disco de metal. Finalmente a CE havia sido encontrada!
Mas, “duas” bolas?
Nunca foi uma prioridade reencontrar o cometa que Marus havia usado em seu abandono da CE, era só uma pedra que ressurgiria em cinqüenta ou sessenta anos, mas lá estava ela, fragilmente ligada ao conjunto, em si, de aparência insegura.
A não ser que o Líder Supremo tivesse outra idéia, o próximo passo repetiria o que foi feito na Terra. Seria preciso saber quem eram os líderes e como pensavam, só então se partiria para o contato.
Os motivos para comemoração se acumulavam, mas haviam os agentes a serem acompanhados atentamente e com certa tensão.
Os “meninos” que estavam nas cidades conseguiram se instalar com certo conforto, já os outros, em lugares mais pobres, assim que chegaram, percebiam cobiça e desconfiança nas pessoas. Poucos eram aqueles que confiavam no primeiro contato. Acabaram se hospedando em lugares sem conforto e nem por isso mais baratos. A maneira de confraternizar envolvia o consumo de substâncias entorpecentes ou a visita a templos. Cada um escolheu um caminho. O que optou pelo bar conseguiu reunir impressões dos nativos sobre os líderes, nunca os locais e, de maneira geral, o conceito era negativo. Os políticos eram sempre suspeitos de corrupção ou invejados pela riqueza. O que optou pelo templo teve de assimilar rapidamente regras de conduta muito rígidas. Detalhes eram observados, desde asseio e roupas a postura durante o ritual. O sentido deste era levar o fiel a um tipo de transe hipnótico, uma sensação que eles chamavam de “estado de graça” pelo qual tinham de pagar.

Apenas turistas circulavam pelas ruas seculares, limpas e bem conservadas. O agente na China havia apenas saído para dar um passeio, um pouco entediado com o insucesso após dois meses de estadia. De repente alguém se meteu em sua mente.
A possibilidade de existir telepatas na Terra foi examinada durante a série de instruções que antecederam a viagem. A comunicação interceptada dava conta de que isso não seria bem visto pelas religiões, logo, seria uma transgressão com fins questionáveis como roubo de informações ou algum tipo de arma. Por outro lado, quem estaria por trás de um telepata da Terra seriam industriais ou militares, dois tipos interessantes dentre os poderes invisíveis. Mesmo que o contato fosse agressivo, valeria a pena se aproximar de sua fonte.
Rapidamente, o ladrão sugou o que queria saber. Como defesa, para que não houvesse a troca de informações, repassava uma lista de mantimentos, certamente como parte de um treinamento militar. Pessoalmente, ela tinha medo ou estava muito surpresa com o que descobriu.
O agente ainda tentou saudá-la, mas só teve acesso á lista de compras.
Era mulher, militar, idade entre vinte e trinta e cinco anos. Iniciou o contato porque ele estava em seu campo de visão. Estaria se afastando ou mostraria no corpo essa necessidade, talvez encurvando a coluna ou dando-lhe as costas.
Olhando em volta, o agente viu quatro mulheres adultas de costas, a única de uniforme estava atrás do balcão de um quiosque de informações turísticas e não poderia estar mais encurvada. Era negra e estava acima do peso. Sua expressão de susto ao vê-lo frente a frente provocou risos em quem viu a gravação.
Mesmo que tenha pensado em ser agressiva num primeiro momento, a curiosidade por estar diante de um legítimo alienígena foi maior.
Através dela foi possível falar com os militares e através deles, marcar data e local em que diplomatas dos dois sistemas planetários poderiam se encontrar.

Não havia clones na Terra. A tecnologia existia, mas havia tomado outro rumo. As pessoas preferiam substituir partes defeituosas delas mesmas ou de descendentes a manipular os genes de forma a acabar definitivamente com o problema em sua causa. Contornar um problema é mais natural do que eliminá-lo. Mais natural, mais aceitável às divindades e mantém o dinheiro em movimento.
Os clones humanos completos, as vezes com deformidades para que se adaptem melhor às máquinas que controlam, ou com as quais dialogam, são idiotas programáveis que só existem na lua de Júpter ou em Marte.

Houve festa em todos os mundos, mas havia um detalhe que passou despercebido das massas que comemorava o reencontro histórico, mas não dos líderes. 


Impressões da CE/Brasil

Arn vacilou no primeiro instante diante de uma pedra escura. Mas era um fantasma, porque não poderia penetrá-la para ver o que tem dentro?
Arriscou.
“O sol brilha aqui!” Foi a primeira coisa que pensou ao ver as casa entremeadas de árvores nas paredes. De onde estava, flutuando entre a luz central e o chão, o que via era uma grande superfície côncava, o interior de uma esfera. O sol era um fogo amarelo no centro, o alvo de um canhão de luz lá embaixo.
Certamente, esse falso astro sempre a pino, perde sua luz no decorrer do dia e, quando é noite, torna-se uma lua. Nova, crescente, cheia e minguante. Ou cerca-se de nuvens. Que excelente idéia! Que lugar maravilhoso os Puros fizeram!






Workaholic poeta

De volta aos mundos, Arn se viu envolto pela rotina. Tudo parecia se repetir. Agência, mapa, Bao, reunião, agentes secretos, desta vez apenas dois, um deles o que conheceu a negra gorda da Terra, encontro marcado, festa. A conseqüência era a ressaca, a desconfiança e o comércio. Depois veio o turismo e, com ele, mais trabalho.
Ir e vir. Líderes, Sensitivos e Trabalhadores entre os novos mundos, Puros da CE para a Terra e vice-versa. Puros da Terra e da CE para os mundos e vice-versa. Clones para a Terra e CE e vice-versa. Saber onde tudo está e ir em tempo zero ocupava toda sua memória, mas era preciso fazer o que se esperava dele. O dever.
Partes da estação espacial de Inferno, inauguração, festa.
“Rosa, por favor, me perdoa pela ausência! Quantas vezes te vi como holograma sólido, um momento antes do agora? E quanto prazer não desfrutamos nesse universo? Mas não era você.”
A Rosa verdadeira estaria com outro em poucos minutos, antes ou depois. O momento não existiu. Só ondas alteradas que seguem seu caminho. Novamente na ausência de alguém que desaparece simplesmente.
“Você é dezenas de Rosas que ficam perplexas, todas, porque num minuto amam e no momento seguinte perdem.”
Só ondas de luz que seguem para o infinito.
Poesias ditas para o nada numa sala escura quando se está cercado de pontos luminosos. Fui nesta direção e vi, ao redor desta estrela, tal e tal coisa.
A máquina entende e registra. Ignora o som de uma flatulência involuntária porque não faz parte do contexto, por mais sonora que seja.







Rosa em Rosa

- Arn. Começou!
Esta era a filha da Rosa, a velha, falando.
- O que começou?
- O fim, Arn. Os Sensitivos sabem. Os que negam, fazem isso porque sentem medo, mas todos sabem.
- Que fim? Fim de que? Sou Sensitivo também e não sinto nem sei de nada.
- Você não sente o fim?
- Sinto que deveria estar mais por aqui, que deveria passar mais tempo com você. Sei que sou negligente, um péssimo companheiro! Por favor, me perdoe, Rosa!
- Arn, você é muito estranho! Eu não sei o que sou porque sou filha natural. Minha mãe é Sensitiva, deveria ser estéril e não é. Você é fruto de um nível de manipulação genética que deveria ser criminosa! Se Marus e minha mãe são exemplos de exagero, você é o cúmulo, o limite do possível! Por isso faz o que faz. Você seria visto como uma divindade em muitas culturas. Eu vejo o que as pessoas do seu fã clube gravam, elas não têm amor por você, você não é símbolo sexual, elas têm adoração por você.
- Rosa, eu não to nem aí para isso!
- Mais um gesto de generosidade, de desapego, de humildade. O que quer que você faça, soa como o certo e exemplo a ser seguido! Mas eu estou aqui e sou a vagabunda amante do santo. Você está acima da sexualidade, enquanto eu estou imersa nele! Eu não quero viver sem prazer, Arn! Principalmente quando pressinto o fim!
- Eu não estou acima da sexualidade, Rosa, eu só não tenho tido tempo pra te pegar de jeito!
- Ah! E é maravilhoso quando pega! Principalmente porque não é carne, ou melhor, não é “só” carne! Você me ama Arn, faz amor comigo. E quando fala comigo, não importa a distância, eu me contorço de prazer. Sua voz, áspera ou carinhosa, me traz seu cheiro e logo tenho uma sensação tátil de você. Não vivo sem isso. Vivo, mas seria como uma morte sem parar de funcionar.
- Amanhã quero que você venha comigo para a estação. Quero te mostrar uma coisa.
- Uma surpresa?
- É, e não se atreva a ler meus pensamentos!

No dia seguinte, Arn sentou entre as pernas de Rosa na cabine feita para uma só pessoa e usou o motor para que ela sentisse, extasiada, um pouco mais a falta de gravidade.
A bolha levaria os passageiros de costume e três técnicos para a recém-inaugurada estação sobre Inferno, onde instalariam um dos pontos do Portal. O outro ficaria na superfície.
Esta seria a primeira vez que as portas se abririam e fechariam duas vezes seguidas na mesma estação. A impressão que o pessoal da fila teve foi que os técnicos desapareceram num passe de mágica. Rosa não percebeu o transporte, mas teria um choque ao ver uma nebulosa surgir como se explodisse do lado de fora.
Ela até que gostaria de fazer algum comentário, mas não conseguiu. Arn estava preocupado com o momento de torná-la sólida e avisou que ela poderia cair. Dali fez outra parada sobre o planeta e, em seguida estava de pé na frente dela numa mata. Para ela, o banco desapareceu de repente a menos de um metro do chão, mas não chegou a cair.
- Este é o mundo que sua mãe previu que eu te daria. O nome dele é Rosa. É seu agora!


Recepção – o povo da CE - mar

Na data marcada para o encontro dos líderes na CE, Arn fez questão de estar presente, tal foi seu encanto ao ver o interior da nave.
Sobre tecnologia, segundo os agentes, apesar das distâncias relativamente pequenas, eles haviam desenvolvido bastante o Portal. Essa foi a forma escolhida para entrar, já recebendo as homenagens do povo.
Este povo se via como uma nação independente dos mundos ou da Terra e assim continuaria. Esse foi um dos primeiros acordos.
Ali, mais humano era o mais misturado. Buscavam, como um tipo de moda, parceiros que fossem diferentes, seja na etnia ou nos costumes. Tinham um ou dois filhos por casal chamado “estável”, ou seja, ao mesmo tempo em que mantinham sob controle o crescimento demográfico, assumiam um compromisso na tentativa de retomar a família, mas não primavam pela fidelidade.
Os muitos pequenos conflitos familiares resultavam numa sociedade hipócrita, confusa e, apesar disso, alegre.
Foi colocado um Portal numa bolha e esta fixada ao corpo da nave. Arn foi transmitido para o interior da CE, agora chamada Brasil, como parte da comitiva.
O novo apelido da nave homenageia um país da Terra com características parecidas. Um tipo de piada como já havia acontecido antes. Cidade Errante, CE, alguma coisa sem rota definida, que simplesmente segue adiante. Outra piada.
Aparentemente não havia qualquer rancor com relação aos mundos ou o que motivou a partida há quase vinte anos, pelo contrário, a comitiva foi bem acolhida pelo fato de ser composta de pessoas diferentes. Dos mundos lembravam dos woodstocks como ponto positivo e da CPU subcutânea, coisa que não tinham, como negativo. Tiveram muito pouco contato com os Soldados, por isso questionavam sua existência como se não passassem de um mito assustador.
No passeio oficial pela nave, viram a velha Esperança, o disco original que partiu de Terra. Era o pólo produtor de alimento e industria. A grande pedra com o sol artificial era moradia e comércio e a segunda pedra , o cometa de Marus, misturava tudo e ainda reservava uma surpresa. Era chamada de Praia porque ali estava o “mar interno”, uma gigantesca massa esférica de água que se equilibrava sobre os prédios nas paredes. Ao olhar para cima, era possível ver gente nadando, ilhas e barcos.
Tudo era um pouco claustrofóbico e a visão do “mar” causou vertigem como se fosse preciso se acostumar com a idéia. A praia era também o centro de laser com música e drogas. “Você não sabe com quem está lidando a não ser depois que bebe com ele” foi uma frase usada por três dos representantes deles. Ali a delegação dos mundos praticamente foi obrigada a pôr de lado as formalidades e se divertir.








Quase atraso – morte na estação

Entre música, dança, bebidas e flertes com nativas, Arn perdeu a noção do tempo. Acordou ao lado de uma nativa, horas depois dos primeiros transportes a serem feitos entre os mundos.
Havia uma equipe responsável pela segurança que dependia de ordens superiores para permitir que ele pudesse usar o portal e voltar para a bolha. Isso consumiu ainda mais tempo.
Quando finalmente entrou na cabine, imaginou uma forma de remediar a situação. Transportou a imagem dos passageiros que estavam nas estações nos tempos certos quando ele deveria estar lá.
Foi alguma coisa como “forçar” a harmonização quando essas imagens se tornam sólidas. Alguma coisa que sabia que funcionaria apesar do improvável porque um monstro de três metros havia dito que funcionaria.
Depois de colocar o trabalho em dia, ficou atento ao Caderno para saber o que os passageiros estavam dizendo. Não ouviu nada de anormal.
Teria de ir também até a estação de Inferno buscar os técnicos. Isso estava no horário.
Ao se materializar lá, sentiu que alguma coisa estava errada, só não imaginava a proporção desse erro.
Ao redor do portal, quase completamente instalado, havia uma sopa vermelha com pedaços de carne crua. Arn não entendeu imediatamente, ou não quis acreditar no que via, até reconhecer um pé humano.
Por um instante achou que cairia dentro da cabine, a ponto de engatá-la numa estação qualquer. Isso não aconteceu. Era real. Acontecia no tempo normal e as imagens do que via estariam disponíveis assim que ele retornasse aos mundos.
O que é isso? É mesmo sangue? O que aconteceu aqui? Se são corpos, onde esta o resto? Devorados!
Todas as respostas estavam na mente de Arn, mas ali não era o lugar para pensar, por isso se afastou.
Fácil! No momento em que testavam o equipamento, um demônio estava perto do quiosque da superfície e subiu por acidente. Ao encontrar os homens, agiu como o animal selvagem que é.
Não era assim. Por trás do animal assassino havia o ser inteligente com um propósito e meios para chegar até ele. Uma criatura sofisticada que repetia em sua mente rebelde: “Aqui começa a guerra. Traga mais comida, Arn!”


Assustado – Marus feliz

Marus fez um discurso emocionado. Precipitado.
Os técnicos tinham de instalar o portal da estação, mas caberia a Arn descer levando os homens para preparar o receptor de terra, a não ser que eles tivessem um veículo capaz de fazer isso, coisa que não tinham.
Como o demônio subiu?
Essa foi uma pergunta que o povo não fez. Todos estavam entusiasmados com a descoberta de um inimigo legítimo, um agressor não provocado e bárbaro. A resposta deveria ser a altura e rápida. Assim era a opinião da maioria dos cidadãos dos três mundos e, pela primeira vez, agradeciam pelos Soldados existirem.
Como final de um dia estranho, vinho espumante com Marus, com direito a abraço de boa noite e, em seguida, Rosa, desta vez decidida a seduzi-lo.
Nessa noite fizeram sexo rasgado, coisa que o pessoal do fã clube colocaria em destaque no álbum de recordações.
Na verdade foi um momento em que Arn ainda tinha o cheiro do sangue muito claro na memória.
A relação entre sexo e violência é estatística, quanto mais violento o ambiente, mais sexo se faz. É um comando natural que visa a preservação da espécie. E Arn estava apavorado.

“A guerra começa aqui. Traga mais comida, Arn!”



Soldados atacados

Nas vilas, cinco vezes maiores do que quando foram criadas, os Soldados queriam vingar os técnicos “bundas-moles”, como chamavam qualquer um de qualquer casta que não a deles.
Clones, humanos Puros ou mamíferos superiores fazem sexo quando expostos a violência continuada. Uma vez com medo, um Soldado luta mais ainda.
Mas é preciso deixar que a ansiedade se acumule e Marus sabia disso.
Arn levou o pessoal para a limpeza da estação e outros técnicos que instalaram o receptor de terra já com uma escolta pequena.
Os Soldados ficariam acampados na superfície, mas armavam as barracas quando foram atacados.
Agora sim havia motivação. Estes se tornaram mártires mortos em combate, não bundas-moles das cidades a serem defendidos de inimigos virtuais, mas Soldados de verdade que enfrentaram uma ameaça real.


Rosa na CE

De membro da comitiva, Arn se tornou um turista freqüente na Brasil.
Rosa, a moça, parecia muito preocupada com alguma coisa que sua mãe faria com Marus antes do fim.
Teve uma noite com ela ali, mas sentia-se tão livre que não fez questão de parecer o dono. Ela acabou dormindo com outro, um interessante nativo da Brasil que tinha idéias diferentes sobre a história da CE e Arthur, além de um bom jogo de quadris.
Arn já não se preocupava com a hora de acordar e, aos poucos, adotava as idéias de sua Rosa. Se ela podia dormir com alguém só por um orgasmo, ele também podia.
Sabia que qualquer passageiro exposto ao transporte, chegaria no horário marcado com a ajuda de fenômenos desconhecidos da luz e dos demônios fornecedores de informações ininteligíveis, estripadores de Trabalhadores técnicos e de Soldados desavisados.


Soldados machos nas cidades

Reagir era questão de honra para os Soldados. Estes invadiam as estações em formação cerrada e cara de mau, assustando os passageiros regulares.
Arn os transportava para a estação Inferno de onde desciam para a superfície e ajudavam na construção de uma fortaleza.
Se o comum era achar que Soldados eram estúpidos, ali ficou claro que tinham um considerável conhecimento de estratégia e fabrico de armas com o que a natureza oferecia.
Os demônios são criaturas nômades, mas a consciência coletiva lhes dá a capacidade de fustigar ininterruptamente um inimigo, em grupos sucessivos, ate sua completa extinção.
Homens de dois metros treinados e motivados se equilibram com monstros de três metros, carapaças naturais e sofisticados instintos caçadores.
A briga prometia ser boa!
Para os demônios, a fortaleza ao redor do portal não era nada além de um armário de comida. Essa idéia não chega a desmotivar um Soldado ciente de que deve defender o portal e seu entorno. Ele fará isso a qualquer custo, usará as armas que traz, o que puder conseguir ao redor, os próprios punhos ou os dentes.
Algumas frases podem definir como um Soldado pensa:
”Ou é vítima ou é Soldado.”;
“Justiça é mais hematomas no agressor do que no agredido.”
“O fraco corajoso deve ser treinado, o fraco covarde deve ser encorajado, o fraco e covarde incorrigível, esse é um alvo.”
“Quando quiser um bom amigo, tente surrar alguém maior que você.”
“Inimigos são necessários, na falta de um a sua altura, case-se.”
Uma outra frase é:
“A morte não é um problema, é o fim de qualquer problema.”
Já que eles estavam a ponto de deixar seus problemas, receberam autorização para divertirem-se nas cidades, devidamente acompanhados pela polícia deles.
Num primeiro momento, pareceu justo a alguns políticos locais oferecer alguma coisa como uma festa de despedida. Mas não se pode obrigar os comerciantes a abrir seus estabelecimentos. A falta de reconhecimento pelo heroísmo de homens que iriam para a guerra para defendê-los irritou os Soldados.
Se já eram vândalos quando fugiam das vilas em grupos pequenos, batalhões inteiros transformaram as cidades em campos de batalha.
Como resposta, reduziram os grupos e criaram bares “seguros” apenas para os Soldados.


Solução para atraso

Depois de seu contato com os demônios, as habilidades de Arn melhoraram significativamente e isso tinha estranhas implicações. O que chamou de “forçar” a harmonização num momento passado, pelo menos no caso de passageiros que esperavam numa fila para serem transportados, mudou o momento seguinte.
Numa realidade, o tempo normal, enquanto Arn dormia num hotel da nave Brasil, os passageiros esperavam, começaram a comentar e depois, irritados, foram falar com o pessoal da agência. Por ter forçado sua presença, no momento programado, as portas da bolha se abriram e as pessoas seguiram viagem. O que aconteceu com os passageiros irritados que reclamaram com funcionários?
Houve um momento em que ele estava dormindo num hotel qualquer da nave e operando o anel invertido ao mesmo tempo, o que é teoricamente impossível.
De qualquer forma, não era mais necessário preocupar-se com horários, os transportes eram feitos com infalível regularidade.
Decorre disso que Arn não é mais de uma pessoa, mas pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.


Morte de Jon

As imagens de conectados fora do alcance, em Inferno, na Terra ou na Brasil são carregadas com atraso, mas finalmente, o povo dos mundos podia ver como eram os lugares. A grande surpresa veio, através dos olhos de um engenheiro construtor a beira de um colapso nervoso, um demônio se esgueirando em meio a vegetação, imediatamente atacado pelos Soldados sentinelas.
Assim que souberam que havia imagens de um monstro, os Soldados nos mundos foram à loucura. Invadiram as cidades para ver as imagens, usando o Caderno de qualquer bunda-mole que encontrassem.
Jon voltava para casa quando ocorria um tumulto numa das ruas. Policiais Soldado enfrentavam um grupo que cantava hinos marciais enquanto destruíam tudo o que viam pela frente. Naquele momento tentavam escapar dos cassetetes jogando pedras para todos os lados. Uma delas encontrou a cabeça do ex-provocador de Arn, uma pesada o suficiente para romper uma veia importante.
Arn sentiu.
Almoçava com um novo amigo, um nativo da Brasil que era casado e se dividia entre várias profissões. Parou quando levava à boca uma garfada. Sabia o quê e com quem. Pediu desculpas e saiu.
Não estava sozinho na cabine em tempo zero, com ele havia um vulto vermelho.
Planou sobre a casa e seguiu pelo caminho para o prédio da Escola até uma rua onde pedras se espalhavam pelo chão. Como um fantasma, viu a baderna, os policiais chegarem com seus cassetetes, a tentativa de fuga e o transeunte sendo atingido.
Jon dobrava uma esquina quando deu de cara com Arn.
- Oi, Arn! O que faz por aqui?
- Salvando você, Jon! Não vá por aqui. Há um distúrbio. Você foi... Você “seria” atingido.
- Fui ou seria? Arn, acho que você está com problemas! Por que toda essa afobação? Se por aí não dá, vamos dar a volta. Simples! Enquanto andamos, você explica o que está acontecendo.
- Tio Jon, em primeiro lugar, quero um abraço e dizer que estou muito feliz!
- Pelo jeito, alguma coisa deu muito certo! O que foi? É a Rosa?
Arn o abraçou e começou a falar sobre o que descobriu com relação a forçar sua presença num momento anterior ao real e assim nunca atrasar um transporte. Dobraram outra esquina e começaram a ouvir cantos e ruído de coisas quebrando. Soldados passaram por eles correndo, saídos de um beco e, de repente, estavam no meio de uma batalha.
Bombas de gás e pedras voavam de um lado para o outro forçando os dois a se separarem. Novamente Jon era atingido e morria ali no chão, aos pés de um fantasma vermelho.

- Oi, Arn! O que faz aqui? Por que essa cara? Aconteceu alguma coisa?
- Tio Jon! Não faça perguntas. Aquela coisa ali é a cabine que eu uso para fazer os transportes. Entre lá e se afunde no banco que vou sentar entre suas pernas. Rápido!
A cabine não foi feita para ficar de pé onde existe gravidade, é uma caixa de vidro com o fundo em ponta que teve de ficar escorada numa parede. Ao tentar entrar, Jon a derrubou no chão. Tentavam levantá-la quando a turba se aproximou.

- Oi, Arn! O que faz aqui? Que cara é essa?
- Tio Jon, hoje você não vai para a Escola!
- Mas que diabos! E por que não?
- Porque se for vai morrer! Por favor, tio Jon! Por favor!
- Mas, Arn, é meu trabalho!
- Dane-se o seu trabalho! Você não escutou o que eu disse? Quer morrer?
- Essa coisa de transporte instantâneo é viagem no tempo afinal de contas, não é?
- Eu não sei, tio Jon. Neste momento acho que é um pesadelo! Já tentei evitar várias vezes. Se não é numa rua é noutra. Tudo dá errado. Você é atingido por uma pedra, por um estilhaço de vidro, por uma flecha. Uma flecha, tio! De onde esses filhos da puta foram arranjar uma flecha? Já não sei o que fazer!
- Você veio do momento onde a luz é mais densa. Agora para você é passado, certo? Onde você está agora?
- Como assim, tio?
- A essa hora você estava em algum lugar. Onde foi?
- Coloquei em dia alguns transportes de noite e de manhã fui para a CE, digo, a Brasil.
- E está fazendo o que?
- Dormi algumas horas. Por quê?
- Sabe o que eu gostaria de fazer se soubesse que hoje é meu último dia? Gostaria de ver tudo o que não vi. E acho que estou falando com a pessoa certa para realizar esse meu sonho. Você faria isso por mim?
- Tio, você está desistindo? Está se entregando?
- Você está dizendo que tentou me salvar várias vezes sem conseguir, logo, é meu último dia. Uma fatalidade. Ao longo da vida, acho que fiz o que tinha de fazer. Se tenho a chance de ver a Terra, a CE e sei lá mais o que antes de acontecer, quero aproveitar.
- Em Rosa você quebra o pescoço ao cair num rio, na Brasil é atropelado e na Terra...
- Você tentou tudo mesmo, não foi? Saímos um pouco antes de cada evento, mas vamos combinar outra coisa também, quero ver meus provocados e não quero estar tenso por saber o que vai acontecer. Você pode me devolver antes deste momento? Pode não vir aqui para termos esta conversa?
- Mas, tio, assim você não vai lembrar.
- Mas terei ido! Isso vai ficar gravado na luz!
Arn pediu que Jon fosse para a estação onde roubaram uma bolha. De repente, ele era aplaudido junto com o pessoal da delegação na primeira vez que clones estiveram na Brasil. Acamparam em Rosa, alimentaram pombos numa praça da Terra, viram as máquinas que escavam Marte e, quando Jon se sentiu satisfeito, voltaram para um momento antes dele mesmo acordar naquele dia.
- Foi um dia e tanto, Arn! Eu bem que gostaria de entender melhor como isso tudo funciona, aliás, gostaria que fosse simples para que uma mente primitiva como a minha pudesse alcançar.
- O engraçado é que foi um monstro primitivo quem enfiou tudo na minha cabeça. Um não, todos.
- Nesse caso, gostaria de cumprimentá-lo.
- Um não-indivíduo deles nos acompanhou o tempo todo.
- Invisível?
- É.
- Onde ele está agora?
- A sua direita.
- Muito obrigado pelo dia excelente, senhor! Ele ouviu?
- Se inclinou, tio. Não pensei que faria isso!
 - Legal! Agora vá embora que eu não gosto de estranhos na minha casa quando acordo! Como ficamos?
- Como ficamos? Ah sim! Não tentei te salvar, não estive aqui, não houve o roubo da bolha, não estivemos em lugar nenhum a não ser na luz que se expande em direção ao infinito.
- E?
- E hoje a tarde você morre, tio, e eu toco a minha vida.
- Os dois felizes e gratos por termos convivido o quanto pudemos. Não sofra, seu bostinha! Como você está?
- To bem.
- Não existe infinito para corpos que se desgastam, Arn. Eu bem que gostaria de morrer de velho, mas se é hoje o dia, ao menos não vou passar pela decadência de ossos e tecidos cansados. Você vai poder criar essa coisa de luz e me visitar quando quiser. Acho que sou sincero o suficiente para repetir sempre a mesma mensagem: toque a sua vida, faça o que te parecer certo, o que, no final das contas, é divertido. Se fizer isso, vai acertar mesmo no erro. É fácil justificar um erro bem-intencionado, principal e basicamente para você mesmo. O resto não é importante. Para onde você vai daqui?
- Volto para a Brasil no tempo normal. Larguei um almoço no prato. To com fome. Acho que vou procurar onde comer um sanduíche, de preferência na praia.
Arn fez exatamente isso e voltou ao hotel. Também ele estava cansado depois de toda a aventura física e emocional com seu ex-provocador.





Pé-de-vento

Era noite alta quando foi acordado por seu amigo nativo, um sujeito que tinha três nomes, um próprio, um da mãe e um do pai, mas que era conhecido por um apelido, Pé-de-vento, ou simplesmente, Pé.
Conheceram-se na sede do governo. Os dois perambulavam enquanto os líderes das três localidades, Terra, Novos Mundos e Brasil faziam seus acordos. Depois de se encontrarem algumas vezes, decidiram conversar. Pé se apresentou recitando seus três nomes e Arn retrucou com um nome e um número o que soou estranho ao nativo.
Depois do longo discurso elucidativo, foi a vez dele, mas não havia muito a esclarecer.
- Arn não quer dizer nada. É a abreviação de Arnaldo que também não sei o que quer dizer. O povo dos mundos adotou nomes de três letras para os bebês por questão de economia. O número significa que usaram seis doadores de material genético.
- Como assim? Meu filho têm um só doador de material genético, eu! Você é fruto de inseminação artificial?
- Sou. Muita gente nos mundos é.
- Então o que contam é verdade? Você é um clone, um cyborg com super poderes?
- Sou o que você está vendo. Faço uma coisa que ninguém mais faz, mas cyborg é outra coisa.
- Você parece só um meninão comum para mim. O que você faz de especial?
- O transporte instantâneo.
- Só isso? Não tem super força? Não lê pensamentos?
- As vezes leio, mas não tenho “super” nada.
- E seus pais? Seus doadores de material genético?
- Não temos famílias nos mundos, senhor Pé, só os Puros insistem em relações monogâmicas heterossexuais estáveis produtivas.
- Caramba! Relações monogâmicas hétero... Isso parece fórmula de remédio! Traduzindo para a nossa língua, você é um órfão, não tem nem pai nem mãe e eu, por ter isso, sou um Puro. Entendi direito?
- Entendeu.
- Mas você parece tão normal, cara! A minha mulher vai te adorar! Preciso mostrar você para ela! Almoce com a gente daqui a pouco! Aviso que, na nossa cultura, é uma indelicadeza muito grande recusar.
- Nesse caso, aceito o convite. Mas não sei como me locomover aqui e nem onde vocês almoçam.
- Eu te levo, cara!
O que o senhor Pé-de-vento não contou nesse primeiro momento e o que tornaria o almoço mais divertido é que seu apelido não homenageava sua agilidade e nem se relacionava com o deus grego do comércio com asas nas sandálias. Pé, melhor esquecer o “senhor”, ganhou esse apelido quando tentava amenizar o mau-cheiro que vinha de seus pés assoprando e sacudindo as meias quando foi flagrado. Daí, pé-de-vento.


Conversa anterior com Pé

Meio atordoado e ainda ouvindo as batidas insistentes na porta, Arn se levantou e foi abri-la.
- Pé? O que faz aqui?
- Arn, sei lá o que você foi fazer quando deixou o prato na mesa e saiu. Você sabe o que aconteceu? Tem uma mulher do seu planeta te procurando com uma notícia ruim. Você disse que não existem famílias onde você vive, mas...  Acho melhor você sentar!
- Eu sei, Pé. O meu provocador morreu. Foi por isso que eu saí daquele jeito. Desculpe de novo.
- Cara, se você está aqui, quem pilotou a sua nave? Como ela chegou?
- É uma história complicada. Um dia eu te conto.
- O seu pessoal está doido atrás de você e você aqui dormindo!
- Está tudo certo, Pé. Obrigado pela preocupação.
- Eu não entendi nada da sua cultura, mas acho que esse tal provocador era importante para você. Foi isso o que percebi falando com ela.
- Era sim.
- E você diz isso com essa cara? Você não tinha uma relação de amor com ele?
- Tinha. Descobri meio tarde que levava esse nome. Mas resolvi.
- Como assim resolveu? O cara era como um pai para você! Você é maluco? O cara que viu você crescer, que te ensinou tudo! Porra! Quando meu pai morreu, eu pirei! Não gosto nem de falar! Você tem um coração no peito?
- Você não faz idéia, Pé! Eu tentei tudo o que podia, passei horas fazendo coisas que nem eu mesmo sabia que podia fazer, no final, ele quis morrer. Ele quis! Você não vai entender. Obrigado pela preocupação, mas foda-se você e suas limitações! Eu estive com ele o dia todo, até ele mesmo me convencer que, se era a hora dele, eu não deveria fazer nada para impedir.
- Você esteve com ele antes dele morrer?
- Estive. Falei muito com ele. A maneira como fiz isso tem haver com o transporte e com velocidade da luz. Nem os engenheiros entendem como funciona. Desculpe pelo foda-se.
- Pára de pedir desculpas, Arn! Não tenho o menor interesse na merda do seu transporte, mas sei o que é importante! Quando chega a hora de ir, a pessoa vai mesmo! Isso todo mundo sabe! Vão como se tivessem conversado com a gente. Uma conversa sem palavras que a gente vai lembrando aos poucos. Pode demorar anos para reconstruir a conversa inteira, e acho que isso só acontece quando chega a nossa vez de ir. Sem perceber, passamos a vida toda mexendo nesse quebra-cabeça. Eu sei muito bem o que é isso! Pode acreditar!
- Pé! Não sei como pode ser isso, mas você não imagina o quanto está certo!
- Sei que você é rico e faz coisas que ninguém mais faz, mas isso não te dá o direito de subestimar as pessoas, meu amigo. E não me peça desculpas de novo! Sabe o que fiz quando meu pai morreu? Saí para me divertir. Acabei tomando um porre, mas não é para isso que te convido. Hoje não tenho nada para fazer que não possa adiar. Quer sair?


Conversa com bêbados na CE

As pessoas na Brasil se deslocavam a pé, com bicicletas e carros de carga, mas basicamente, usavam os portais. Não eram distantes uns dos outros e nem tinham um quiosque só para eles como nos mundos, qualquer esquina poderia ter uma moldura para as quais as pessoas diziam o destino e atravessavam surgindo no ponto programado.
A tecnologia para o portal deles era evidentemente melhor. Isso fez Arn pensar sobre a diferença entre ter genes selecionados e não ter. Toda a agitação aparentemente caótica da nave, coisa que ele julgava primitiva atribuindo isso ao fato dos Puros não terem alterações, era um conceito que podia estar errado. Percebeu que realmente subestimava aquelas pessoas, via hierarquia onde só existiam diferenças, um erro que, historicamente, destruiu culturas e etnias inteiras.
Na medida em que visitavam lugares diferentes, basicamente bares e restaurantes, Pé ia encontrando amigos e apresentando a Arn. Claro que muitos estavam sob efeito de alguma substância que lhes acrescentava alegria, mesmo assim, eram pessoas comuns que tendiam a um hedonismo moderado. Qualquer pessoa dos mundos lhe pareceria sisuda.
“O que há com seu amigo?” era uma pergunta que faziam a Pé quando Arn estava distraído. ”O pai dele morreu, mas não toque no assunto.”
Outro assunto a não ser abordado era a profissão de Arn. Ao contrário dos mundos, ali ele era um desconhecido e queria continuar assim. Mas nem sempre isso é possível, principalmente numa mesa com bêbados.
- Ah! Então você é o cara famoso do Transporte Instantâneo? Você é o vocalista?
- Vocalista? Cara, como você é estúpido! Transporte instantâneo não é uma banda! Ele é piloto de nave espacial!
- E existe isso? Eu que sou estúpido? Você faz idéia das distâncias no espaço? Nave espacial não pode ter piloto, se não o cara pira! Mas quero ouvir o rapaz. O que você faz da vida, afinal, Arn?
- Eu conduzo passageiros entre planetas.
- Não falei? Otário!
- Cala a boca, Pé! E você fica segurando um leme?
- Não exatamente.
- Porque se fizesse isso ia pirar, certo?
- Acho que sim!
- Escutou essa, garoto esperto? Arn, meu amigo, imagino que isso seja como fazer qualquer tipo de transporte. Porque ser piloto te faz famoso?
- Deixa o cara, Barba! Vê se é hora de falar de trabalho!
- Pode deixar que eu respondo, Pé! Sou famoso lá onde moro porque ganhei uma corrida importante.
- Isso sim faz sentido! E me dou por satisfeito no meu interrogatório principalmente por que também acho um saco falar de trabalho quando a gente tem essa vista! Só mais uma coisa: você deve ser influente, do tipo que fala direto com o dono da empresa e fica sabendo de tudo. O que o seu pessoal pensa sobre o nosso acordo com a Terra a respeito do portal?
- Não sei que acordo é esse. Não tenho acompanhado as decisões.
- Porra, Barba! De trabalho para política? Isso é falta de sexo!
- Ta bom! Ta bom! Desculpem! Você tem razão, Pé! Mas quando você vai me apresentar aquela sua prima?
A vista que tinham era a superfície da água, perfeitamente plana refletindo as luzes da cidade de cabeça para baixo como se fossem estrelas.
Era a primeira vez que Arn visitava uma das ilhas flutuantes do mar interno a noite e estava extasiado. A nave era um ambiente fechado como não poderia deixar de ser, mas apesar de ser possível ver pessoas caminhando nas ruas acima, ali qualquer sensação claustrofóbica desaparece.
Por outro lado, quando Barba falou sobre o acordo entre a nave e a Terra, ele sentiu um desconforto estranho. Estava alto, tentava não pensar em Jon. Isso era decisão tomada, uma fatalidade como os transportes a fazer. Quando quisesse, moveria pessoas entre os mundos, Terra e CE/Brasil, inclusive alguém que veio para a Brasil em nome do palácio com uma má notícia.





Arn X Rosa, a velha

Luzes piscantes ao redor da estação de Lasli, letreiro luminoso. “Arn, comunique-se com a agência.” De que outra forma chamar a atenção de um não conectado?
Ele só desceu para Lasli depois de pôr em dia os transportes. Segundos numa seqüência de abrir e fechar de portas. Em seguida, deixou ali uma fila de passageiros perplexos e caminhou para o portal.
Chegando ao palácio, foi direto para o apartamento de Rosa, a velha, a única que poderia elucidar as dúvidas que o moviam.
- A porta está aberta, Arn. Entre!
Cabelos brancos com dreds e neles um monte de coisas penduradas, chaves, garfos torcidos, retalhos de roupa. A velha não cheirava bem, tinha péssimos hábitos de higiene. O apartamento era escuro, razoavelmente limpo, mas refletia os cabelos quanto às coisas inúteis que serviam de enfeites e recordações.
Assim que ele entrou, ela se levantou de uma cadeira e deu-lhe as costas, seguindo para outro cômodo. Ali havia assentos onde poderiam falar frente a frente.
- Dona Rosa, falamos poucas vezes e sempre cercados de pessoas com interesses...
- Pula o blablablá, Arn! Você é o cara que escolhi para minha filha e não foi sem motivo. Você veio aqui para termos uma conversa. Garanto que tem minha simpatia. Agora, vá ao ponto!
- Dona Rosa, não sei quem é a senhora e quero crer que seja uma boa pessoa apesar da fama de bruxa má. De qualquer forma, recentemente percebi que alguma coisa muito séria está para acontecer e vim na esperança de que a senhora me tranqüilize.
- Tem Esperança. Quer crer... O que você “sabe”, Arn? Não pense para falar, fale! Coragem!
- Não “sei” nada com segurança ou não estaria aqui. Não me impressiono com sua fama, com sua aparência, com este lugar escuro e nem com essa grosseria que a senhora pode chamar de ser direta. Não sou vidente, essa coisa me veio como um raio e me ocorreu que aqui eu encontraria a verdade, mesmo que esta esteja no silêncio da sua ignorância.
- De onde você tira essa arrogância, menino? Já disse que você tem a minha simpatia. Cuidado para que essa sua mentira sobre não se impressionar não me ofenda de novo!
- A intenção foi ser claro, não ofender. Peço desculpas.
- Ótimo! Pedi que você falasse sem pensar para vencermos esta etapa. É claro que não sou o que dizem e você tem agora a chance de formar a própria opinião. Podemos passar para o assunto que o trouxe aqui? Me dê mais detalhes sobre como as coisas caminham para o fim.
- Então é verdade? Caminhamos para um desastre? O fim?
- Por que essa cara de espanto? Conhece alguma coisa que não acaba? Claro que caminhamos para o fim, o que não tenho como saber ainda é de que maneira. Sabendo como, talvez eu possa calcular o tempo que nos resta. Comece me falando como foi esse momento do raio. Onde estava, com quem, o que estava fazendo...
- Há algumas horas eu estava com amigos, bebendo para relaxar depois da morte do meu ex-provocador.
- Achei que esse seria nosso assunto inicial, mas percebo que você esta se recuperando bem. Continue.
- O “raio” veio quando um desses amigos falou de um acordo entre a Terra e a Brasil para desenvolver o portal deles.
- O que é a Brasil?
- A CE. Agora tem esse nome. Alguns chamam de CE/Brasil.
- E que acordo é esse? E quem é o interessado?
- Não tenho acompanhado as discussões tão de perto. Há uma lista de acordos comerciais. As idéias principais já foram definidas, estão agora na fase dos detalhes e isso é muito chato! Um desses novos amigos trabalha com um negociador deles e disse que são militares da Terra os interessados.
- Militares?
- É. Depois de Marte eles têm um cinturão de asteróides de onde tiram minério. Eles têm problemas com pirataria lá.
- Onde deveriam ser todos iguais há uma elite que acumula riqueza, logo, ladrões de um lado e militares de outro. Natural. O que você faz na CE? Não está lá oficialmente, está?
- Não. Sou um observador convidado. Estou curioso com relação ao modo de vida dos Puros de lá, as famílias, a hipocrisia, a alegria. Você suspeita dos militares da Terra?
- Não suspeito mais! Nem precisaria ser a bruxa má para perceber de onde virá o golpe final. Eles não tiveram a chance de conviver na CE e resolver suas diferenças como nós. Não têm culpa de agirem dessa forma.
- Você está dizendo que eles não são culpados por planejar nos matar a todos?
- Esse é o fato, Arn. Se fizeram o acordo agora e a tecnologia deles é um pouco inferior à nossa, imagino que em pouco mais de um ano a situação estará definida. De qualquer forma, daqui para frente é com Marus e seus agentes secretos. Mas não se preocupe, você sobrevive.
- Eu sobrevivo e todos morrem? É isso?
- É. Você esta com algum problema para ouvir?
- O que eu não estou conseguindo é acreditar que estamos falando sobre a mesma coisa!
- Estamos falando sobre a morte repentina de milhares de pessoas, quase todos nos três mundos. Restarão alguns Soldados que não foram para Inferno. Eles tentarão se organizar numa resistência, mas serão esmagados. Os clones que estarão na Terra serão perseguidos e mortos, os da CE, ou Brasil, como queira, terão melhor sorte. Você sobrevive e leva para algum lugar seguro minha filha e um outro que você não precisa saber quem é agora.
- E o que Marus vai fazer com os agentes? Certamente tentar evitar que a situação chegue nesse ponto.
- Claro que vai tentar de todas as formas que puder imaginar. Seu instinto de auto-preservação vai dar um pulo assim que ele souber.
- Então é possível que consiga?
- É perfeitamente possível.
- Ah! Isso sim me tranqüiliza!
- Que bom!
- Que ótimo! Tenho ouvido que vários Sensitivos estão prevendo coisa parecida. É um alívio saber de você que eles estão errados!
- Não foi isso o que eu disse. Mas vamos falar de outra coisa. Gostaria que fosse mais agradável, mas lá vai: Porque você não atendeu ao aviso colocado do lado de fora da estação? Como o mensageiro pode ter ido até a CE numa bolha se você estava lá, dormindo? Os engenheiros acham que você automatizou o processo, só não sabem como ou quando. Pode explicar?
- Posso. Falei alguma coisa na Brasil com o Pé, ele é um dos novos amigos de lá e não me deixou falar muito porque envolve a morte do Jon. As informações já estão disponíveis, mas deve haver alguma coisa que o computador ainda não colocou no mapa.
- Aqueles que tiveram ancestrais que enfrentaram a neve tendem a buscar, acumular e defender coisas para um inverno mortal que só existe na memória celular.
- Não entendi a relação entre uma coisa e outra.
- Falo dessa elite da Terra. Eles agem de acordo com uma programação que não tiveram a chance de substituir. Por que o medo faz tremer? O frio, Arn! Olhos arregalados e tremor, essa é a imagem de alguém com medo. Quantos ancestrais humanos não passaram por situações em que tiveram de enfrentar animais noturnos em busca de cavernas onde se abrigar do frio? Por outro lado, quando expressamos alegria, sorrimos, mostramos nossas ferramentas para comer e observamos a chama com gratidão.
- Dona Rosa, a minha Rosa está em casa?
- Não. Ela é o mensageiro. Deve estar na CE a sua procura.
- Então, se não se importa, vou me despedir. Grato pela preocupação com relação ao Jon, mas já tive o bastante desse universo mágico pseudo-antropológico por um dia.
- Eu gostaria de olhar as suas mãos antes que você fosse, Arn.
- O que têm elas?
- Ahã... aqui... isso! Facilidade para ganhar dinheiro... pessoa inteligente... Do monte da lua, atravessando esta linha, aqui está a nossa Rosa seguida de uma ilha. Não sinta ciúmes dela, encare o que ela tem feito como masturbação! Isso passa! Ela é seu grande amor!
- Isso é uma bobagem!
- O que é bobagem? Leitura de mãos?
- A grande bruxa má da CE lendo frivolidades nas minhas mãos como uma cigana rural em feira de domingo!
- É assim que uma bruxa estende o próprio presente. Passado e futuro estão em cartas, moedas, xícaras e mãos, basta saber ler. Sua linha da vida tem uma estrela logo aqui... Me deixa continuar!
- Outro dia, dona Rosa. Preciso ir. Boa tarde!


Coronel Lúcio

Qualquer pessoa dos mundos, por mais alegre, pareceria sisuda se comparada a um nativo da Brasil. O domo Praia, o asteróide oco onde ficava o mar interno, se transformou num balneário para ricos dos mundos e da Terra. Ali eram realizadas festas que lembravam os woodstocks e foi o lugar que Arn escolheu como uma segunda casa depois do palácio. Como não poderia deixar de ser, conheceu seus vizinhos e fez amizade com alguns.
- Senhores, já que a agência espacial de Ox não se opôs, aceito o trabalho, mas é útil que alguns pontos sejam esclarecidos. Não é novidade para nenhum de nós que existe preconceito entre os nossos povos, somos chamados de máquinas de carne entre outros nomes e é exatamente isso o que eu sou, ou melhor, essa é a minha forma de trabalhar. Nos horários programados, abrirei as portas da bolha e farei os transportes. Não descerei para as estações, nem para café e muito menos para conversas. Não atendo emergências, não farei viagens não programadas. Minha cultura não me permite corrupção, sendo assim, serei indiferente a qualquer oferta fora dos termos do contrato.
- Porra! Você falou assim mesmo? Chamou os caras de corruptos?! E eles?
- Falei exatamente assim, e eles engoliram. Que mais poderiam fazer?
- Mas eram funcionários da empresa de mineração?
- Eram militares como você, coronel! Claro que não eram generais, mas...
- Me chame de Lúcio, Arn! Somos vizinhos e aqui, afinal de contas, é a Praia!
- Desculpe, é que não temos isso nos mundos, somos uma só nação, nossos militares deixaram de existir quando isto aqui chamava CE. Mas acho legal essa coisa de hierarquia, uniformes, exercícios forçados...
- E os seus Soldados não são militares?
- Por um lado sim, mas são como uma tribo primitiva. Na verdade são apenas brutamontes estúpidos! Por falar em estupidez, descobriu alguma coisa nos seus arquivos sobre aquele assunto?
- Assunto? Ah, sim! Quem surgiu com essa idéia?
- Minha sogra. Tem mais um monte de Sensitivos videntes que estão apavorados. Existe alguma coisa que pode ser ameaça?
- Não com relação à nave. O que esses videntes vêem?
- Basicamente gente caída pelo chão. Essa nave é assim tão rápida?
- O protótipo dobrou a velocidade da luz entre a Terra e Marte, mais rápido do que isso, só você mesmo! Tempo zero não dá para bater assim tão fácil! Mas a nave é só um veículo. Poderia levar uma bomba. Esse pessoal vê escombros?
- Não. Os prédios ficam intactos.
- Eles não cometem erros?
- Claro que cometem, são clones, mas clones de Puros!
- Não gostei da maneira como você falou “Puros”, e acho que os seus Sensitivos “macumbeiros” cometeram mais um erro. Não seria necessário, mas vou te contar uma coisa: havia um programa, no nosso banco central de dados, do tempo do lançamento da Esperança. Corremos atrás do autor e descobrimos um nome: Edgar, o pai do governador da CE, Arthur.
- Para que servia?
- Para nada. Ficou escondido e inativo por todos esses anos, quando fizemos contato, ele acordou, se reescreveu para se modernizar ao mesmo tempo em que se esgueirava dos sistemas de proteção. Coisa muito bem bolada para a época! Mas nós o pegamos e deletamos.
- Qual era o objetivo desse programa?
- Arn, a Terra espera que vocês dos mundos produzam alimento. Precisamos de terras e de pessoas que as cultive. Nossos clones são diferentes de vocês, eles sim são mais máquinas que gente! Eu não diria que você é um boneco... desculpe... não se ofenda!
- Boneco, máquina de carne, genético, genérico... Nada disso me afeta, coro... Lúcio, diga apenas qual é o objetivo do programa.
- Foi deletado, não existe mais! Era feito para encontrar uma forma de identificar e eliminar... o que chamou de... “artificialidade... genética”. Mas foi deletado, excluído. Não há mais perigo, posso garantir!
- Não, coronel! Posso sentir. Estão todos mortos agora! Preciso ir!


mortos

Não existia uma urgência a não ser nos olhos marejados e no coração apertado, mas o corpo não reconhece a morte a não ser como uma dor mais forte, por isso se apressa.
Fez os transportes atrasados até que não havia mais passageiros. Nesse momento decidiu manter-se como um fantasma.
Do lado de fora da estação sobre Lasli, o letreiro luminoso dizia: “Arn, livre-se do implante. Os não conectados estão bem.”
As lágrimas só brotaram quando viu, ao sobrevoar a cidade onde fica o palácio, pessoas caídas pelas ruas. Retrocedeu um pouco mais para ver como havia acontecido. Elas simplesmente caíam. Algumas levavam a mão à cabeça como se sentissem dor, outras viravam o rosto parecendo enjoadas, mas nada explicava a morte repentina, antes mesmo de baterem no chão.
Esperava encontrar as duas Rosas e Marus no palácio. Apenas a velha agitava os braços segurando uma faca entre corpos de funcionários no salão principal.
- Arn, não se materialize! Se você está aqui, me leve para algum lugar fora de alcance e eu tiro o seu implante! Se estiver aqui, me dê um sinal!
- Não posso fazer isso sem me materializar! Você precisa ir para a estação!
Ela repetiu suas frases, não podia ouvir. Também ele não tinha como dar sinais, era um fantasma flutuando na luz que ela refletiu uma fração de segundo depois do que realmente fazia.
Poderia, muito rapidamente, golpear um vaso, mas quanto tempo o implante precisaria para matá-lo? E o que ela entenderia com um vaso caindo ou explodindo? Na estação, bastaria que ela entrasse na bolha e ele faria o transporte sem se materializar. Como fazê-la entender?
De repente, como que saindo de seu peito, um demônio de Inferno se materializa diante de uma mulher enlouquecida, paralisada ainda com os braços acima da cabeça. O que Arn deduz é que houve um breve diálogo telepático encerrado com o monstro indicando a saída e a mulher caminhando para lá mecanicamente como que hipnotizada.
Antes de desaparecer como fumaça, o monstro ainda voltou a horrenda cabeça para ele. Não houve medo, talvez estranheza
A outra Rosa estava na estação acompanhada por um desconhecido de sua idade, mas muito familiar. Os dois estavam bem, por isso Arn foi para sua posição junto à bolha e aguardou.
Mesmo que sacuda um pouco de vez em quando, o lugar mais defendido do corpo é a região do púbis. Em algum lugar por ali estaria o implante. Dentro da cabine, Arn olhava para essa área e pensava: aqui está o inimigo!
Quando a velha entrou na bolha, bateu na parede de metal com o cabo da faca e gritou que haveria risco de contaminação, a operação deveria ser em algum lugar isolado.
 Arn usava uma entrada separada nas estações, feita para entrar e sair da cabine. Uma outra bolha havia sido fixada ao corpo da Brasil para que servisse como salão para partidas e chegadas, tendo sua saída particular.
Ao abrir as portas, a velha assustou os passageiros. Gritava para que ninguém entrasse, mas era uma velha suja, com dreds nos cabelos grisalhos, agitando os braços enquanto segurava uma faca. Em seguida Arn explicou resumidamente o que ela faria. Por sorte havia um médico ali com ferramentas adequadas.
O implante, além de manter as pessoas em contato e informar sobre crédito entre outras coisas, é um mini laboratório que fabrica vacinas. Para isso acumula, numa bolsa, tudo o que invadiu o corpo por toda a vida, de fungos a vírus, passando por todo o tipo de toxinas.
Foi essa a maneira que o programa de Edgar encontrou para eliminar a “artificialidade genética” em milhares de pessoas pelos mundos, liberando de uma vez tudo isso na corrente sanguínea.  Um programa como esse saberia fingir ter sido excluído.
A intervenção foi quase indolor, mas mesmo que a completa recuperação demorasse, Arn não esperaria para ir buscar Rosa.







Marus II

Na estação sobre Lasli, o rapaz organizava a remoção dos corpos. Rosa o abraçou terna, mas cuidadosamente ao ver o curativo. Já ele o saudou sem parar de incentivar os sobreviventes. Em seguida viria ao seu encontro.
- Quem é esse cara?
- Marus.
- Como assim? Ele é um garoto!
- Eu e minha mãe fizemos um ritual. Esse é o Marus com um novo corpo.
- E isso é possível?
- Você vai ver!
- Arn! Que bom que você está bem! Precisamos de toda ajuda possível aqui. As estações precisam ficar livres de contaminação. Qualquer sobrevivente de bom-senso vai subir. E precisamos avisar o pessoal da CE. Tivemos duas epidemias lá, é só dizer que existe o risco e eles vão saber o que fazer.
- Você é mesmo o Marus?
- Claro que sou! Ah! Meu corpo! Essa aí e a bruxona velha fizeram um abracadabra qualquer e o resultado é este! Mas sou eu mesmo! Arn, depois a gente conversa sobre isso. Precisamos ir para as outras estações. Cadáveres pelo chão podem infectar as pessoas pelo ar. Temos turistas da CE e da Terra nos mundos. Vamos salvar essa gente!
- Seja quem for, o que você diz faz sentido.
- Ótimo! Vamos deixar a Rosa na CE, ela avisa o pessoal, se é que minha irmã já não avisou. Tem um grupo que ficou amontoando os corpos lá embaixo, eles devem ser levados primeiro porque estão mais expostos.
Marus foi falando e conduzindo o casal na direção da bolha, quando Arn abriu as portas na estação da Brasil, a bolha fixa já havia sido esvaziada. Ao descer, Rosa viu apenas gente instalando equipamento médico e alguns jornalistas.
Pessoas desesperadas tentaram invadir a bolha, mas deram com um rapaz que sabia usar a voz de forma a acalmar e chamar ao bom-senso. Logo havia grupos organizados na execução de tarefas específicas e uma hierarquia de líderes. O mesmo na estação seguinte.
Quando os primeiros sobreviventes desembarcaram na Brasil, a bolha fixa já havia sido transformada num hospital e todos puderam ser atendidos imediatamente.

- Arn! Arn, acorde! Sou eu, Marus!
- Ah! Você! Vá dormir, a quarentena não acabou!
- Fomos liberados, Arn! Não tivemos contato com os corpos, não estamos contaminados. A Terra ainda não sabe de nada e os Soldados ainda estão lá nas vilas. Temos trabalho a fazer!
- Estão todos mortos mesmo? Aconteceu realmente?
- Infelizmente sim. Mas é hora de nos ocupar com os vivos. Estão montando robôs para queimar os corpos...
- Os Soldados não têm implante, eles estão bem e a Terra pode esperar. Aproveito para te perguntar uma coisa: onde está o Marus antigo?
- Ficou no palácio, morto.
- Ele não tinha implante e estava saudável. Como morreu?
- Não sei dizer, Arn. Isso é pergunta para as duas bruxas. Mas não estou pensando só nos Soldados, pode haver turistas que não conseguiram subir para as estações.
- Onde estão as Rosas?
- Se já não saíram, estão se preparando para isso. Entendo que você esteja desconfiado. Se não fosse essa situação, eu mesmo ficaria confuso. Acho que vou ficar assim que tiver tempo para me olhar no espelho, mas sou um Líder num momento de catástrofe. Você não imagina o volume de adrenalina que tenho no sangue! Preciso agir, Arn! Me ajude a ajudar essa gente, por favor!







vingador

- Porra, Arn! Eu não tinha idéia... sinto muito mesmo!
- Pára de se desculpar, Lúcio! Você não tem culpa de nada!
- Mas se eu tivesse te avisado assim que descobriram o programa desse filho da puta... mas quem ia dizer que um programinha de trezentos anos ia fazer esse estrago?
- Começo da inteligência de máquina. Tudo que é inventado é perfeito no começo, depois é que avacalham. Chamam o programa de Cronos agora. O que é isso?
- Um deus mitológico, um monstro que comia os próprios filhos. Esse tal de Edgar é esse monstro, é assim que vai para a história. O programa nos enganou, achamos mesmo que tinha sido excluído. Quando você falou da nave, cheguei a pensar que seria ela a levar alguma coisa. Uma bomba, sei lá! Mas não faria sentido. Mesmo com todo preconceito, precisávamos de vocês!
- Já terminaram a construção da grande?
- “Das grandes”. São três e quanto maior a distância, mais rápidas! Acho que você está prestes a perder o emprego, amigo! Imagine uma onda de rádio que multiplica a própria velocidade em progressão geométrica! Você é bom, mas não carrega um centésimo do volume delas!
- Bom para vocês!
- Não fique tão apático, Arn! Sabe alguma coisa sobre Marus?
- Desde que ficou em Lasli, não tive mais notícias. Por quê?
- Você não acredita nele, não é?
- É um Líder, está com os Soldados que sobraram...  O que há para acreditar?
- Ele vai tomar aquela lua!
- O Marus original era um bom político, mas esse clone dele está sozinho. Os Soldados são guerreiros românticos, não passam de índios! Estão desarmados...
- Estavam!
- Como estavam? Você está contrabandeando armas na minha bolha?
- Tem gente aqui e na Terra que acredita nele, Arn! Gente poderosa! A Terra pode ficar com os outros dois planetas. Deixar Lasli para ele seria um tipo de compensação depois de Edgar e seu Cronos, não concorda? Quanto às armas, não são para serem usadas, basta que existam. De qualquer forma, você seria uma boa aquisição se achar a causa justa. Afinal de contas, você é um clone!
- Lúcio... “coronel” Lúcio, você disse que existem pessoas poderosas envolvidas. Por acaso, entre eles existem fabricantes ou comerciantes de armas?
- Claro, não há outra forma de conseguí-las!
- Isso significa que uns vão ficar mais ricos enquanto outros morrem, certo?
- Bom, se você é mais pacifista do que tem amor pelo solo onde você nasceu e que te viu crescer, acho que perdi meu tempo.
- Perdeu sim. Foram milhares, mas sei que foram apenas porque era hora deles irem e, pode acreditar, essa é uma convicção baseada em experiência. Devolver uma ofensa é aceitável, as vezes até necessário, vingar “uma” morte que seja, é um total absurdo!

Crise conjugal

Os mundos já tinham novos colonos Puros, termo já em desuso, e com as novas naves em operação, Arn passou a conviver mais com seus amigos nativos da Brasil. Com isso acabou por adotar alguns dos seus costumes. Vivia uma união estável e exclusiva, um casamento comum. Rosa se mantinha fiel e parecia satisfeita, já ele não se via obrigado a isso, não comentava para que ela “não tivesse idéias” e mentia quando perguntado. Nos mundos, ele mesmo classificaria essa atitude como “machismo hipócrita”. Imaginava que ela agia da mesma forma o que teria certas implicações. Ela era mais discreta do que ele, o que é bom e, na total ausência de indícios, melhor mentirosa, o que não é. Entre a culpa, a dúvida e a rotina, sobra pouco espaço para sentimentos.
A solução nessa cultura eram conversas periódicas, normalmente emocionais, que passavam por um momento em que era dito qualquer coisa do tipo: “Eu fiz e você também! O que nos resta?”
No caso de Pé e sua parceira, não restou nada, nem raiva sentiam um do outro. Eram um casal amigo e, separadamente, continuaram a visitá-los. Mas deu-se o que seria previsível, o carente Pé se apaixonou por Rosa e ela pareceu feliz com isso.
Quando soube, Arn riu, depois ficou furioso.
- Logo ele?! Um mentiroso, um hipócrita, um traidor!
- Arn, de quem você está falando? Dele ou de você mesmo? Esquece que sou telepata?
Sem os Sensitivos engenheiros da agência espacial pressionando, ficou fácil para ele esquecer os “super poderosos” clones dos mundos, como se ele não fosse um telecinético geneticamente alterado com esse fim. Atribuía o transporte instantâneo ao anel invertido como sempre fez e via a si mesmo como um trabalhador normal.
De qualquer forma, aquele era um bom momento para conter suas emoções e mudar de assunto.


Visita a Lasli – Velha morrendo

A vida seguia num ritmo sem graça, mesmo com as rápidas aventuras sexuais dele, sempre seguidas de mentiras que, agora ele tinha certeza, não convenciam.
De repente, num dia qualquer, depois do almoço, ela pára com olhar perdido.
- Minha mãe... Ela está morrendo.
A velha Rosa havia desaparecido há meses, desde que saiu da quarentena. Havia voltado a viver nas ruas e dormir nas plantações como fazia quando moça. Se estava morrendo, certamente estaria no lugar onde dorme o que limita a busca a uma área circular de dois quilômetros de diâmetro, servida por doze portais. Rosa, a moça, sairia sozinha, certa de que a encontraria rapidamente e foi o que acabou acontecendo depois de um único erro que serviu para que outros mendigos informassem com mais precisão onde a velha dormia.
No andar abaixo da cidade antiga estavam as plantações e as estradas, agora abandonadas por causa dos portais. Ali se acumulava poeira e todo o tipo de coisas velhas e quebradas. O cheiro era de mofo e urina. Ao menos a velha não gostava de visinhos e com razão, as pessoas que moravam ali tinham problemas psicológicos ou eram viciados ou deprimidos ou tudo isso junto.
Para encontrá-la foi preciso invadir uma fazenda atravessando um alambrado rompido e andar alguns metros até encontrar uma casa feita de panos e caixas, cercada de coisas que poderiam ou não ser úteis um dia. Dentro, a velha aguardava deitada sobre embalagens usadas ao lado de panelas velhas com restos de comida. Estava magra, suja e tinha as pernas cobertas de feridas.
- Mãe! O que você fez? Isto não é a mata! Porque não nos procurou?
- Oi, filha! A CE não é mais o que era! Oi, Arn! Desculpe por não me levantar.
- Dona Rosa, vamos sair daqui? Limpar essas feridas e começar uma vida nova conosco lá na Praia?
- Não há tempo, estão aqui porque sabem disso. Então vamos ao que interessa. Só me ajudem a ficar mais ereta. Filha, errei com você, eu não devia ter falado sobre o rapaz maravilhoso que te daria um mundo, lembra? Lembra de tudo?
- Claro que lembro, mãe. É um planeta inteiro e se chama Rosa como nós!
- Arn, você mudou muito! Está mais maduro e mais amargo também. As mortes nos mundos te afetaram bem além do que você admite, mas houve uma especialmente difícil de digerir.
- Marus.
- Você não voltou lá para ver por respeito a nós, suspeita de quem ama, mas não insistiu em perguntar por que sabe que não poderia impedir. Preferiu negar tudo, todo o passado, passou a pensar e agir como um nativo da Brasil, torturado por dúvidas que acha melhor não esclarecer. Você não é um “mestiço”, muito menos um Puro, é um clone especializado que pode voltar lá e ver. Faça isso. Mas antes quero te perguntar outra coisa: você sabe onde está o monstro que surgiu para me fazer subir para a estação?
- Não voltei a Inferno nestes últimos meses, não tive mais visões. Ele simplesmente sumiu.
- Rosa, pegue aquele espelho, por favor. Dê para ele. O que você vê. Arn?
- Meu rosto.
- Não é o monstro?
- Não.
- Éh... essas coisas nem sempre funcionam. Vá até o palácio, Rosa fica comigo enquanto isso. Vai fazer bem para todos nós.
 - Volto em poucos minutos.
Arn correu para o portal. Não queria que Rosa ficasse sozinha com uma velha moribunda num lugar como aquele.
A estação fixa tinha os dias contados, as naves grandes da Terra precisavam de portais maiores para cargas em quantidade. Tudo estava em reforma, a espera de tempos de fartura.
Não era fácil para ele voltar até aquele momento e ver pessoas que já não existiam despreocupadas, como se nada pudesse acontecer Como um fantasma, atravessou as paredes do palácio até encontrar uma sala onde quatro pessoas se reuniam a luz de velas, as duas Rosas, o velho Marus e o rapaz.
Lembrou-se de como a velha estava sensível naquele dia. Para não ser descoberto e não alterar assim a seqüência dos eventos, estabilizou-se num momento um pouco mais distante e com isso não ouvia o que era dito.
O rapaz entrou na sala amparado entre as duas e foi colocado na cadeira de frente para aquela onde estava Marus. O primeiro parecia drogado, um melhor termo seria “vazio”, já o velho meditava ou foi hipnotizado. Seguiu-se uma série de rezas e gestos enquanto a moça se colocava entre os dois com uma mão em cada peito como se tentasse ser uma ponte. Ao som do que quer que ela dizia, o que parecia vazio se encheu e o mais ereto foi tombando.
Houve uma conversa sobre isso com Rosa, a moça, na Brasil.
- Ele simplesmente morreu.
- Como assim ”simplesmente”, Rosa? Estava tão saudável quanto sempre foi!
- Um corpo não vive sem a alma, Arn.
- E o que diabos você chama de alma? Não é a “assinatura de onda”?
- Não, isso está mais ligado ao ego e a fantasmas. Alma é essência, uma parte nossa que é imaterial e nos liga ao todo. Sem alma o cérebro desiste de pensar e o coração pára de bater. O clone recebeu a alma de Marus quando já tinha sua assinatura, passou anos sonhando com o que ele fazia num coma induzido numa sala secreta que o próprio Marus construiu. O terrível foi a coincidência!
- Rosa!... Parte imaterial?... Me diga que foi um acidente!
Terminado o ritual, o rapaz levantou para comemorar e sentir cada músculo esfregando o próprio corpo, enquanto isso, o outro deixava a cabeça cair para frente ao dar seu último suspiro.
Impressionada, Rosa, a moça, sai da sala para retornar em seguida mais assustada ainda. Esse novo Marus falava com a velha justamente sobre como descartar seu antigo corpo quando a moça dá a notícia das mortes.
- Me senti culpada, Arn! Era como se o velho Marus, ao morrer, tivesse levado toda a população com ele! E fui eu quem serviu de ponte! Minha mão em seu peito foi a última coisa que aquele corpo sentiu!
O velho foi deixado onde estava enquanto o novo corria os cômodos a procura de sobreviventes até deixar-se cair de joelhos no salão depois de olhar a rua. Ali as duas Rosas se abraçavam, a velha tentando consolar a nova.  Quando se ergueu, o rapaz já tinha uma direção a seguir. Arn deduzia a partir dos gestos que sua intenção era que as duas subissem para a estação. Em meio à discussão, foram olhar um dos corpos e, certamente nesse momento, perceberam que eram os conectados as vítimas. A velha pegou uma faca, mas foi impedida de cortar o cadáver, então decidiu ficar e insistiu que os dois usassem o portal do hall de entrada do palácio.
Isso foi o suficiente. A velha estava morrendo na Brasil e deixaria a sua Rosa sozinha entre mendigos imprevisíveis.

Morre a Velha

Arn desceu da cabine e correu para o portal. Bastaria dizer Esperança, andar inferior e um número entre um e doze. Mas qual era mesmo o número? Ele sabia, ou achava que sabia qual “não” era, restando metade das possibilidades, começou a arriscar. Disse o primeiro numero e atravessou. Deu num ponto onde as luzes sequer funcionavam e o lixo se acumulava logo adiante. Voltou. Tentou o segundo numero em sua lista mental. Mais um erro. O terceiro e novo erro. Viu surgir um trabalhador com uma caixa e ar de afobado. Ao atravessar pela quarta vez, um mendigo enlouquecido o agarrou pelas costas e o chamou de ladrão. O sujeito fedia a urina e suor, foi só o que sentiu antes de jogá-lo no chão com um golpe de judô, coisa que havia aprendido na infância e, até ali, nunca usou.
“Essa velha horrível não quer que eu a veja morrer!” Foi o que pensou, cheio de adrenalina, de volta à estação.
Conseguiu na tentativa seguinte, mas a moça já chorava sobre o corpo sem vida da velha. Pouco atrás das duas, quase visível, um monstro vermelho o olhava com uma mensagem simples e irresistível: era hora de partir.
Seria um golpe muito forte perder a mãe e o marido num só momento, por isso Arn a acompanhou até o apartamento na Praia. Caminharam abraçados e silenciosos, cada um lembrando fatos diferentes, mas com pontos em comum.
- O que você acha do que ela disse sobre nós?
- Sei o que você esta pensando, Arn, e agradeço pela gentileza. Você olhou o vazio e isso mudou alguma coisa dentro de você, nasceu um desejo irresistível de partir. O que você viu?
- Um demônio de Inferno. Ele trouxe esse desejo.
- Eu deveria saber.
- Como você fica? O que ela te falou?
- Que vou ter uma vida comum ao lado de alguém que me trata bem, que terei dois filhos normais... enfim, uma vida vulgar, sem novidades, estúpida! Mas disse também que não devo ficar triste e contou a parte filosófica que sempre segue um conselho desses.
- Bom, normalmente faz sentido. Quer me contar?
- Da última vez que ela explicou essas coisas, foi porque morreram todos dos mundos. Desta vez ela repetiu que o sentido da vida é o óbvio, do nascimento até a morte e entre uma coisa e outra, nada além de viver. Fez uma relação confusa com o “alguma coisa” ter saído do “nada” e que, por isso, o nada deixa de ser nada e, como esse “alguma coisa” tem muito nada, deixa de ser “alguma coisa”.
- Ela estava alucinando? O que você entendeu de tudo isso?
- Para variar vou ter de pensar a respeito, mas nunca mais vou ver o símbolo do yin yang da mesma forma! Mas tem haver com esperança e eternidade.
- Ela morreu bem?
- Apenas suspirou depois de beijar minha mão. Foi em paz.









Desvio – Pé de Rosa – guerra de Marus

- Senhores, acho que não sou mais necessário. Vocês têm o protótipo para transportar pessoas rapidamente e ganham em liberdade podendo usá-lo quando quiserem. Não vejo em que posso ser útil, logo, aceitem minha demissão. É isso o que vou dizer.
- Bom, se você quer assim... A Terra pode passar sem você. Claro que vão lamentar a perda do transporte instantâneo, mas eles sobrevivem. Me diga uma coisa: há boatos de que a Brasil quer se desviar do curso para a Terra. É verdade?
- Porque você não pergunta isso para o Pé? Ele é quem anda com os políticos.
- Arn, você era importante nos mundos e continua sendo aqui. Sei que os empresários querem você e certamente você fica sabendo como eles pensam.
- Lúcio, meu amigo militar e agente secreto da Terra, vou te dizer uma coisa: É sim, os políticos têm falado disso há algum tempo, é a vontade do povo e o comércio suportaria segundo os empresários.
- Fora o fato de se verem livres do preconceito contra os “mestiços” da Brasil.
- Não tenho a menor dúvida de que isso conta! A Brasil é uma nação! Isto é como uma arca de Noé, aqui está o “humano” por excelência! Somos brancos, negros, asiáticos, índios e alguns clones, quanto maiores as diferenças, mais felizes ficamos, maior é a festa! Por causa disso somos o cartão de visita do que é ser um ser humano. Há civilizações por aí e queremos conhecê-las. Admitimos nossos defeitos, fizemos escolhas erradas ao longo da história porque temos um ego a valorizar, mas isso não significa que alguns de nós vão prevalecer sobre os outros e chamá-los de inferiores. Somos uma raça só. Voltar para a Terra, pensando assim, é dar um passo atrás.
- Percebo que você concorda, mas vai mesmo acontecer? O que a Rosa diz?
- O Pé é um puta ciumento, desde que ficaram juntos não falei mais com ela, mas é questão de alguns meses para o desvio. Estão com meu implante e acham que podem recuperar parte dos mapas.
- A Rosa está com o Pé? Porra! Como isso aconteceu?
- Do jeito normal! Ele se apaixonou por ela, eu vou para Inferno, ele é um cara legal... Que fiquem juntos!
- Bom... se você está tranqüilo... Mas não deixa de ser uma surpresa. Achei que você a amava.
- E amo.
- Ama e entregou assim, de bandeja?
- Não posso ter filhos, Lúcio, e quando for para Inferno, não volto mais.
- Cara, você é muito civilizado! Porque não leva ela com você?
- Por que ela não duraria meia hora lá.
- Você fala dos monstros ou dos Soldados?
- No fundo, falo de mim mesmo. Mas é assunto encerrado. Como vai a guerra de Marus?
- Não vai bem. Ele é conciliador, tende a ceder esperando gratidão e os políticos da Terra não têm memória. Ele tem perdido apoio lá e mesmo os Soldados não o respeitam como ao velho.
- Da outra vez que conversamos você parecia entusiasmado com a “causa”. Mudou de idéia?
- Não há como vencer! Lasli seria a lua dos clones, mas quem são eles agora? Você, Marus, Rosa e mais alguns poucos, a maioria são Soldados, gente difícil de conviver, ignorantes, grosseiros. O objetivo de Marus é a Terra, Lasli é apenas um meio de ganhar publicidade. Matam ele antes disso!
- Conhecendo Marus, aposto que ele sabe disso e, demore o tempo que for, enquanto estiver vivo, ele vai tentar até conseguir.

Magia Sexual e retorno

Rosa o olhava direto nos olhos, estava dentro dele e, ao mesmo tempo, fazia movimentos ondulantes com o canal da vagina. Tinha absoluto controle sobre o que ele sentia, com isso o mantinha a um passo do orgasmo. Arn ia enlouquecendo aos poucos, perigosamente perto do desespero. Tentou retomar o vaivém e assim terminar com o melhor sofrimento pelo qual alguém pode passar, mas ela tinha os calcanhares logo acima da parte de trás de seus joelhos e as mãos em suas nádegas. Estava preso, enlaçado por pernas e mãos implacáveis.
Já não pensava, alucinado, via cores e formas inexistentes. Perdia-se nas variações de tom do castanho de olhos que já não eram os dela, ele mesmo não estava ali. A cama foi substituída pela areia fria de uma praia em Rosa. Por um segundo ele se distraiu, quis olhar em volta, mas ela não deixou. Empurrou-o para o lado e, ao rolar junto, se colocou por cima sem se desencaixar, recomeçando imediatamente os mesmos movimentos agora com os pés no chão, ao lado de seu quadril.
Num momento era areia, em seguida terra e folhas.
Estavam no centro de um círculo de demônios que, em posição de centauro, guardavam um silêncio reverente. Se não participavam, ao menos conheciam as sensações ao se meterem em sua mente.
Sentiu que morria. Se não gritasse, seu coração ia explodir. Rugiu, soltou qualquer coisa sonora, um ruído que não saberia dizer se foi alto ou baixo.
Exatos, três movimentos do ventre dela, coisa pouco menos sutil do que aquilo que vinha fazendo e tudo se tornou dolorosamente luminoso.
Arn teve espasmos tão violentos que jogou Rosa para o lado na cama.
O carinho instintivo o fez rolar para junto dela antes mesmo de se dar conta do que havia nesse momento de luz cegante, agora reduzido a pontos luminosos, como estrelinhas.
Quis falar, saber se ela também havia gozado, mas teve a boca tapada por dedos delicados. Ficaram imóveis por alguns minutos, o tempo necessário para que o quarto e a cama voltassem a ser reais.
O clarão durante o orgasmo trouxe alguma informação importante, mas que precisaria ser capturada pela mente ou se perderia. Alguma coisa sobre três mulheres de alguma mitologia. Uma fia, outra tece e a última corta. Símbolos para fenômenos que podem ser compreendidos, mas não através de palavras.
Quando finalmente pôde se mover, percebeu que tinha areia e folhas nos lençóis e grudadas no suor de suas costas.
- O que você fez? Não foi alucinação! Nós estivemos lá e você não parou. Saltamos juntos sem o anel invertido! Isso nunca aconteceu! Você percebeu, não foi? Claro que sim, e não parou. O que você pretendia?
- Porque a agitação, Arn? Além de dar prazer a quem amo, quero ser uma lembrança mais forte do que algumas mulheres Soldado... Mentira, crueldade minha! Não é isso. Minha mãe surgiu em sonho e me disse para te torturar dessa forma, para que você se libertasse.
- Torturar?!
- Uma mulher que faz isso com freqüência, só por diversão, escraviza o parceiro, se decide deixá-lo, destrói sua vida sexual.
- Não duvido!
- Ela também deixou claro que eu não deveria parar porque poderíamos não voltar.
- Sem a cabine ficaria difícil. Não pensei que seria capaz de me transportar sem ela.
- Desejei ficar em Rosa e tive medo em Inferno. Foi um orgasmo em cada lugar, outro aqui, junto com o seu. Sobre as mulheres que vieram à sua mente, são as Moiras. Não sei quanto ao contexto, mas até os deuses são submissos a elas. Elas são as senhoras do destino.
- Por falar em destino... o que o Pé vai achar disto?
- Fizemos um acordo. Ele projeta em mim uma coisa que não sou, como você. Para evitar ser chamada de mentirosa mais uma vez, o que fiz foi propor uma relação de fidelidade diante dos amigos, mas com liberdade e discrição nos “dias de folga” como hoje. Melhor que uma amiga, hoje sou “o cara que divide a casa com ele”. Amanhã vou escutar suas aventuras e contar parte das minhas, as menos picantes.
- Você acha que isso dura?
- Ele aceitou bem a idéia. Somos um casal e temos liberdade ao mesmo tempo. Hipócritas como todo mundo aqui, mas somos honestos um com o outro.
- E você...? Até quando pode seguir com isso?
- Você ia me perguntar se eu estava “feliz” e reformulou porque sabe como penso. Não espero conviver com um palhaço que me faz rir o tempo todo, bom humor é fundamental, mas o mais próximo que se pode chegar dessa abstração, a felicidade, é um ponto acima de um equilíbrio emocional perfeito, coisa que só a própria pessoa pode conseguir. Vai durar porque não sou propriedade dele e deixo isso claro. Mas me sentiria completa com alguém que tem medo de me matar.


O destino dos Soldados

Havia mais alguns transportes a fazer para empresários da Brasil com interesse nos mundos, coisa que um deles chamou de “batalha perdida” e expôs as razões. Por melhores que fossem os portais feitos na Brasil, os colonos prefeririam os da Terra, como fariam com qualquer produto, por uma questão de amor à própria origem.
Na verdade, Marus estava conseguindo o efeito contrário ao esperado com sua “luta por uma Lasli para os clones”. Lúcio estava certo quando disse que não havia mais clones, não os interessantes. Soldados só servem para combater, não são bons guias turísticos, não gostam de trabalhos repetitivos, podem caçar, mas não acompanhados por bundas-moles da Terra.
Não havia como levantar a economia a não ser reabrindo os woodstocks e usando as mulheres Soldado como prostitutas.
Dessa forma, na opinião desse empresário, Marus passou de Líder Supremo com a ridícula pretensão de governar até a Terra, a gigolô e tirano de uma lua falida.
Os woodstocks funcionaram bem inicialmente, mas isso gerou corrupção e violência.
Era por ser um Líder que ele dominava os Soldados, diferente de antes quando era visto como uma divindade inquestionável.
Em meio a uma história que mistura paixão e corrupção, Marus morre alvejado por uma das armas que comprou nas mãos de um homem da casta que criou.
A partir daí, Soldados sem comando formam gangues e matam indiscriminadamente tanto seus próprios membros como turistas. A Terra reage enviando tropas que não viam os clones a não ser como um tipo qualquer de infestação, eliminando o maior número com o menor custo.
Penalizado, Arn sobrevoa as áreas povoadas até encontrar uma vila onde havia mais Soldados.
Mesmo que sua bolha não fosse feita para pousar no chão, acomoda o melhor que pode a estrutura ovalada numa praça e salta da cabine para seu interior de onde abre as portas. À primeira criança que vê, grita quem é e que levará quantos puder para Inferno onde ao menos terão uma chance de sobreviver. Logo havia filas bem organizadas, basicamente de mulheres e crianças.
Sabia que não estava fazendo um salvamento. Se aqui eram alvos, lá seriam comida, mas poderiam contar com a proteção de homens adultos na área fortificada ao redor do portal.
A bolha estava cheia quando a engatou na estação espacial sobre Inferno. Saltou da cabine para dentro sem a ajuda do anel e sentiu alguma coisa de divertido nisso. Antes de abrir as portas, deu uma olhada no lugar. Havia marcas de sangue, mas se isso o incomodou um dia, agora só parecia o que realmente era, um prato de comida usado.
O portal não funcionava, então saltou para a área fortificada ao redor da outra moldura na superfície, tendo o cuidado de não se materializar completamente.
As pessoas estavam usando peitorais de metal como parte do uniforme, havia um muro alto ao redor da vila com guaritas e homens armados. Além das casas brancas, uma horta e um pomar. Mais adiante, a praça onde seria possível pousar a bolha.
Sentia-se feliz por ajudar, na verdade, estava eufórico e não sabia ao certo o motivo.
Entre os assustados passageiros que desceram quando as portas foram abertas, notou uma mulher que era amparada enquanto gritava, chorava e batia no próprio peito. Faria ainda dois transportes antes que ela viesse tentar agredi-lo.
Onde está meu filho? É o que ela repetia aos berros, segura pelos outros passageiros. Como ele não sabia o que estava acontecendo, outra mulher disse que as portas se abriram na estação e assim que o menino saiu, se fecharam novamente.
Seria um defeito perigoso e que nunca aconteceu, mas se o menino havia saído na estação deveria está lá ainda. Bastava ir buscá-lo.
Chocados, a mãe, a outra mulher e um homem viram a criança despedaçada.
A estação era composta por apenas quatro compartimentos mais um banheiro, num deles poderia estar um demônio. Voltaram para a bolha e quando desceram na praça a mãe estava descontrolada. Na cabine, Arn verificou seu equipamento a procura de algum defeito que pode ter aberto as portas, não encontrou apesar de confirmar a abertura no monitor. Enquanto isso, o homem dava a notícia de um monstro na estação e reunia um grupo armado.
A estação foi vasculhada, só o que encontraram foi manchas de sangue no banheiro. Assim que ouviu isso, um dos Soldados agarrou Arn pelos pulsos e o esbofeteou depois de olhar suas mãos.
Meio tonto e ouvindo um sino, ele saltou para a cabine onde pôde ver, debaixo de algumas unhas, marcas de sangue.
Os homens conversavam enfurecidos ao redor do portal enquanto um deles tentava ligá-lo.
Incrédulo, Arn recuou no tempo para ver o que havia acontecido. Como fantasma, estabilizou-se diante das portas e viu o garoto sair. Em seguida ele mesmo surgiu e ergueu o menino de quatro ou cinco anos pelas axilas. Não parecia disposto a fazer mal a ele, mas uma cabeça monstruosa surgiu de seu peito e, com um só golpe, praticamente cortou o menino em dois. Então, seguro por um dos bracinhos, o menino teve o coração arrancado e comido enquanto ainda pulsava.
De volta à cabine, Arn se afunda no banco tremendo de nervoso. Ele havia feito aquilo. Estava descontrolado e era perigoso. Precisava fazer a coisa certa, ir para junto dos demônios e ficar com eles. Ficou ali até se sentir melhor.

- Senhores, vão para a bolha. Vou levar vocês de volta.
- Seu Arn, o rapaz que te deu o tapa, ele...
- Deixa pra lá! Apenas vão enquanto posso me controlar.
- Ele não quis fazer aquilo! É um idiota e vai pedir desculpas. O senhor não consegue se controlar? Podemos ajudar?
- Ninguém pode me ajudar. Só quero ter uma última atitude humana. Agora entrem na maldita bolha antes que seja tarde!
- Não confio nele! É o monstro que matou o moleque! Vi o sangue nas mãos dele antes dele sumir como um demônio!
- Cala a boca, estúpido! Não tem outro jeito de sair daqui!

A bolha surgiu na praça, mas as portas não se abriram. Foram abertas pelos Soldados e não havia ninguém dentro.
Arn nunca mais foi visto nem os que foram com ele para a estação.
Mulheres Soldado são muito férteis, o comum é que nasçam gêmeos, mas é preciso atacar a fortaleza de tempos em tempos para que o medo as faça produzir mais filhos.
Nos mapas salvos do implante, um caminho estava claro e foi a opção quando o desvio da Brasil foi decidido. Dentro de trezentos anos, Inferno seria novamente visitado por humanos.