sábado, 31 de março de 2012


AYUASCA
segunda parte

A árvore da mulher


A mulher da árvore disse:
- Você baseia sua vida nessa bobagem de previsão. E se isso estiver errado?
Concepção me escolheu justo quando meu irmão declarou que a fonte havia secado. De quanto eu precisasse, dos 40 mil a zero de uma hora para outra.
Me senti perdido, mas foi o combinado.
Conversando e bebendo, eu e ela fechamos vários bares do Porto a Itapuã onde eu morava depois do Porto da Barra.
Ela estava deprimida por causa de algum problema de família e, por três ou quatro dias a mantive no meu apartamento, a base de sono, beiju, o melhor que existe, e sexo feito com carinho.
- Tá sem grana? Vem morar comigo!
Isso foi dito logo depois desses dias. Lídia já era a amiga que me havia emprestado uns móveis e tive de ser flexível para evitar o encontro das duas, situação em que eu passaria por leviano.
Me havia apaixonado por Lídia e estava sendo excluído por besteira. Concepção precisava de um tipo de apoio que incluia a sexualidade, era uma mãe e dona de casa que se sentia impotente porque não vinha sendo mulher. Precisava, enfim, de algum descanso e orgasmos para se por de pé.
Um ano e meio.
Tinha dois filhos, uma filha e um ex-marido médico, dono de terras e gado. Dinheiro não era problema.
Ela não lidava direito com os meninos, não tinha controle. Eles brigavam como qualquer adolescente e isso era o inferno para ela.
Nada que um ex-professor de história em quadrinhos não pudesse contornar e, ao mesmo tempo, alguém com algum conhecimento sobre psicologia poderia acalmar e dar esperança a ela.
Assumo minhas limitações. Sexo é brincadeira, beijo é perigoso, dizer que amo só com absoluta certeza.
Novamente estava com uma amiga ao invés de um amor. Ela queria beijos apaixonados, eu dava sexo divertido, mas nos demos bem por esses meses.
Se havia Salvador, havia também Barra Grande, uma casa em reforma onde poderiamos montar um restaurante já que eu não conseguia vender minhas telas e nem arrumar emprego.
- Vá na frente, termine a reforma da cozinha e a gente abre uma creperia para a temporada.
Cheguei de noite e apenas fui dormir, mesmo no dia seguinte, não percebi o que ela veio me contar dias depois.
- A reforma foi para ampliar uma casinha de pescador. Há trinta anos, o mar chegava até aqui e os pescadores amarravam os barcos nesse tamarineiro aí em frente. Você pode ver as marcas das cordas. Decidí comprar esta casa por causa da árvore e esse monte de águas do telhado é para ver a árvore de onde eu estiver dentro da casa!
- Peraí! Quando eu te falei que era a vez de surgir a mulher da árvore, segundo a vidente, você me disse que eu fazia mal em basear minha vida nessa bobagem. Agora eu te pergunto: quem é a mulher da árvore?
Ela pensou um pouco, mas não havia como escapar.
- Tá bom! Eu sou a mulher da árvore!
O restaurante, na verdade um fast food, sequer chegou a começar. Ter como adiar as coisas só porque se está com preguiça, poder beber e se divertir todos os dias é uma armadilha. Quando se percebe, o tempo passou rápido de mais. É a maldição do dinheiro fácil. Mas, enquanto se tem é bom pra caramba!
Nada nos unia, éramos amigos que transavam e tentavam se ajudar.
Fui embora quando meu pai morreu.









Descida ao Inferno


Derramei, contadas, três lágrimas.
Meu pai nunca foi o que gostaria de ter sido. Canceriano, não que eu tenha estudado astrologia, foi uma mãe estepe quando a grande maluca foi embora deixando filhos adolescentes.
No meu primeiro livro, Deus Encaixotado, há uma frase: “Agradeço a meu pai por ter sido como uma mãe para mim. Pura verdade.
Tinha seus defeitos, mas mais vale o que ele tentou ser do que o que realmente foi.
Certamente ele gostaria de ter sido mais amigo, mais respeitador, mais amante e defensor da família, mas havia segredos que ele não revelava, coisas que depois, com a ajuda de um vaidoso filho de médico de polícia, eu acabaria deduzindo.
De qualquer forma, é ai que começa minha descida ao inferno.
Havia uma greve de controladores de vôo, justamente a posição do meu pai quando era militar da ativa. Em função disso, tive de ir a São Paulo antes de chegar ao Rio onde o corpo do meu pai, congelado na esteira do forno, me esperava parecendo um frango de padaria.
Esse comentário ofendeu profundamente meu irmão antiputas.
No crematório ele e minha mãe, sem que eu soubesse ou fosse consultado, tinham planos para o meu futuro.
No hotel tive uma boa conversa com ela, coisa que não acontecia desde que ela foi embora quando eu tinha, talvez 13 anos.
Não éramos bons com ela, nem entre nós e nem com ninguém. Isso pode ser fruto da educação que eles mesmos, os pais, nos deram, mas o fato é que éramos cruéis, superficiais, oportunistas, falsos, arrogantes.
Me afastei dela mesmo antes dela ir.
Caberia a ela, a esposa e mãe, a manutenção da harmonia dentro de casa e era ela a primeira a jogar um irmão contra o outro.
Carinho, toque, coisa fundamental a qualquer animal mamífero, aprendi na academia de kung-fu. Porrada com respeito é muito melhor do que os raros e falsos afagos feitos apenas diante de quem ela queria se mostrar cumpridora dos deveres familiares.
Na intimidade, não importa o que eu fizesse, era vagabundo. Assim como meus irmãos também tinham apelidos “carinhosos”: ladrão, puta e bicha.
Mesmo assim assumi minha crueldade e, de joelhos, pedi perdão pelos momentos em que quis levar vantagem, me vingar, em que a humilhei.
Me ajoelhei aos pés da minha mãe e pedi perdão.
Foram alguns dias de paz, mas ela oscilava, tendia ao erro como uma viciada.
Pouco tempo de convívio, nem dois dias, e ela me devolveu ao tempo de adolescente, ao inferno de estar preso a uma louca que se diz sofredora, remoe rancores e acusa impiedosamente das piores sujeiras que consebe em sua mente doentia.
O meu futuro, segundo eles, era morar com a megera, seguir pintando em sua casa podendo vender nas galerias de São Paulo, melhores que qualquer uma de Porto Seguro, enquanto cuidava da pobre velhinha.
Eu seria capaz de matar aquele monstro, a única e verdadeira destruidora da minha família e de cada um já que ninguém permaneceu casado ou pode se dizer feliz.

Nesse momento minha irmã, pela internet, me pediu para ir para Bagé, quase Uruguai, e cuidar dela.
Nunca havia convivido realmente com ela. Houve um momento em que a recebi no apartamento em que moreu com nulher e filha depois que me separei, mas ao receber um ultimatum depois de uma série de discussões com a mãe da minha filha, preferi sair do apartamento alugado em nome de uma tia dela.
Minha irmã que vinha pagando algumas contas e por isso se via no direito de opinar, ficou depois de entrarem em acordo.
Anos mais tarde, essa irmã surgiu no Arraial e teria se metido na casa com os filhos não fosse a territorial Aline.
Em Bagé conheci Ada, com quem namorei enquanto estive lá.
O problema foi descobrir ou confirmar que minha irmã também puxou à mamãe, uma maluca anti-social e, por isso, arrogante, depressiva, doente.
A idéia era ficar na casa dela até que o dinheiro do nosso pai que havia ficado preso numa conta fosse liberado.
Estudaríamos culinária, faríamos arte e nos conheceríamos melhor já que ela cresceu lá com nossa avó, por isso não convivemos.
Este foi um dos erros que meu pai carregava com grande dor, ter abandonado uma filha.
Seria bom se eu não tivesse já uma namorada.
Minha irmã tinha dois problemas, odiava a cidade e todos que moravam nela e, a natural contrapartida era ser ignorada por quem vivesse ali a não ser quando havia algum interesse já que ela estava aposentada pelo Banco do Brasil.
Foi insuportável para ela me ver acompanhado.
Um cara simpático que arranja amigos rapidamente não seria um bom enfermeiro da chata doente.
Assim que possível, e isso foi um golpe de sorte aparentemente patrocinado por uma divindade obscura, encontrei trabalho numa agência de publicidade, a maior das três que havia ali.
A divindade havia sido indicada por uma pessoa de São Paulo e não era exatamente boa o que não chega a ser problema para um taoísta da velha escola.
Na Roma antiga, essa divindade era representada como tendo quatro faces que são as da lua e um cachorro monstruoso como o Cérbero. É uma entidade que gosta de sangue como uma vampira e possibilita a fortuna para as bruxas que lhe prestam homenagem.
Um passarinho morreu ao bater contra um carro numa esquina perto da agência quando fui falar sobre trabalho. Um sinal, pensei, mas o bichinho morreu nas minhas mãos quando tentei fazer alguma coisa. Sinal de quê?
Empregado, usei toda a criatividade em textos para rádio, outdoors e filmes. As promessas de melhor salário me enchiam de esperança e gratidão,
Saí da casa da minha irmã sem falar nada depois de algumas humilhações como, além de não poder levar ninguém, não usar a porta da frente. Aluguei um apartamentinho.
Tudo parecia bem quando veio o pé na bunda depois de um desafio que ganhei quando deveria ter perdido.
Quem me contratou era o dono e ele pretendia se aposentar assim que encontrasse alguém que o substituísse.
O desafio era um filme para uma lavanderia e o meu ficou muito melhor que o dele.
Estava ali o substituto, alguém que poderia rapidamente, mandá-lo para casa vestir seu pijama.
Casa, pijama, cuidar de plantas, solidão e gemada? Ainda não! Melhor não deixar que esse cara que faz coisas boas e rápidas tenha outra chance de mostrar como estou ultrapassado.
Pé na bunda.
Fiz alguns outros trabalhos para as outras agências, mas não deu para ficar lá. Uma coisa é não ter nada, outra é ter dívidas.
Se pudesse ficar um tempo em São Paulo com meu irmão, poderia arranjar trabalho numa agência melhor, mas ele estava com um bebê e, por isso, vendo ou não a relação entre uma coisa e outra, lá eu não poderia ficar.
Pé na bunda.
Um amigo me socorreu, mas com o passar dos dias que viraram semanas e meses, eu que queria ajudar servindo as mesas do seu bar e colocando a sua disposição o que eu havia aprendido com a sorveteria, logo tinha a obrigação de fazer isso.
Várias vezes pedi socoro ao meu irmão antiputas. Disse a ele que estava sendo escravisado e que não conseguia pensar sob tanta pressão. Ele havia arquitetado a forma de me tornar um artista de sucesso, poderia agora imaginar qualquer coisa que me tirasse do sufoco.
Era como se eu tivesse sido injusto por toda a vida ao aceitar o dinheiro do nosso pai e agora ele tinha a chance de se vingar. Tentei um acordo com o outro irmão, mas sequer fui ouvido.
Quando vendi uma pintura paga com um cheque só também para a conta do bar, tive o dinheiro roubado por esse mesmo falso amigo.
Ali fui vender pinturas nas ruas e livros de mão em mão. Dormia num sótão ou entre as motos no chão do bar.
Dentre os velhos companheiros de viagem de moto havia uma mulher, uma maluca que andava na frente mesmo com uma moto menor. Ela havia me emprestado uma caixa para que eu levasse uma cachorra para a Bahia e não gostou das condições em que devolvi. A caixa tomou sol, desbotou um pouco, mas trata-se de uma neurótica que meteu a mão na minha bunda quando eu encoxava Aline numa casa noturna.
Agora ela acordava com um copo de conhaque, ouviu sobre minha situação, mas preferia fazer de conta que nada estava acontecendo. Não ajudava em nada, pelo contrário, depressiva, acordava no meio da noite e queria ir ao hospital comigo na garupa da moto dela, uma forma de exercer um poder que lhe havia sido negado por ser mulher entre machistas.
Como o hospital era há apenas algumas quadras, eu prefria subir a pé a me sentar na garupa de uma alcoólatra que não ouviu o enfermeiro dizer que o problema dela era psiquiátrico, não físico.
Ela tinha vários gatos, um deles tão doente que sequer se alimentava, mas eram suas companhias. Bissexual e do tipo explosiva, bêbada e iracunda, sofreu um acidente e não foi visitada no hospital, nem pelos amigos motociclistas e nem pela própria família. Mais motivo para revolta.
Não foi fácil convencê-la de que o tal gato estava morto em pé e forçar a sobrevida com aplicações de soro apenas prolongava um sofrimento inútil. Fui com ela ao veterinário e dei meu ombro para que chorasse.
Mesmo com dinheiro, eu não saberia o que fazer. Precisava de um tipo de calma que havia perdido. Lutava para me reequilibrar e nada funcionava. Fui em cada agência com meu currículo e sequer fui recebido. Quando decidi tornar-me moto-boy, mesmo que o dono da empresa tivesse me emprestado dinheiro para renovar minha carteira, surgiu uma restrição que só poderia ser resolvida na Bahia.
Era como se o mundo estivesse fechado para mim.
O lado curioso disso é que eu não tinha dinheiro e mesmo assim ajudava as pessoas. Dessas duas, o sujeito era um ladrão que fazia inimigos na medida em que vendia motos com defeito ou cobrava mais caro conforme os clientes do bar se embriagavam. A outra era uma egoísta, neurótica, solitária e presa ao vício.
Não importa o quanto se tem ou não se tem, dinheiro é alguma coisa a dividir, não apenas por generosidade, mas para que ele tenha valor.








Anjos do paleativo


Por ter feito alguma coisa certa quando estive com a Deise, ela ajudou bastante, mesmo estando para casar.
Foi ela quem possibilitou alguma dignidade e me emprestou dinheiro para ir de volta a Porto Seguro.
De qualquer forma, essa descida da Bahia rumo ao sul serviu para mostrar algumas verdades sobre amigos e família. Eu não tenho.
Cada um dos irmãos teve sua oportunidade de mostrar o que é ser filho dos meus pais.
Dos amigos, mesmo os que antes me admiravam, agora, na melhor das hipóteses, me ignoravam.
Na verdade, por ter tido a educação que tive, não sei valorizar ou mesmo reconhecer amigos verdadeiros acabando com os da minha laia, os maus, impiedosos, mesquinhos.
Dei sorte de encontrar uma Deise, o amor verdadeiro que pedi antes de deixar de mexer com magia, mas deixei que escapasse.
Houve uma moça, uma massagista e macumbeira que morava encima do bar e se esforçou para me ajudar como pôde. Pode parecer estranho, mas não havia nenhum interesse não declarado, era apenas uma estranha generosa de quem não lembro o nome.
Também recebi apoio de dois dos motociclistas, Márião, Fritas e do dono da empresa de moto-boys. Pessoas boas por quem sinto gratidão, mas o incêndio estava muito alto para ser apagado a cuspidas.
A urgência era encontrar um lugar melhor onde me instalar e, perto dali morava Ju.
Não seria justo deixar de incluir a pé-de-cana entre os socorristas. Apesar do jeito explosivo, Ju era uma boa pessoa. Alguém disposta a lutar pelo que acha certo ou lhe dá prazer, para quem homens e mulheres têm atrativos desfrutáveis. Se isso é reprovável, dâne-se quem reprova!
Quase dez anos depois, vê-la me fez lembrar a noite em que ela apalpou minha bunda. Isso me excitava e não escondi mesmo que ela estivesse inclinada a resistir. Resistir sim, mas mesmo havendo, não me mostrou outro lugar para dormir a não ser a cama dela onde não foi possível dormir sem tentar qualquer coisa. Ela se recusou, não quis ser tocada, mas permitiu que eu me masturbasse ali mesmo. Feliz com o resultado, no dia seguinte quis ver, bem de perto, como eu havia feito.
O que nasceu ali não merece ser chamado de amisade ou namoro, talvez diversão já que ela não se via obrigada a nada mesmo sabendo que eu pedia socorro. Essa era sua bandeira, não queria, mas queria. Podia ajudar, mas era a mulher que tinha uma aposentadoria e sonhava com uma relação entre iguais, logo, não abriria sua casa para para qualquer um.
Como ela não dava segurança alguma, tive de preservar com trabalho grátis o forro onde dormia no bar enquanto bancava o namorado da maluca que discutia sem razão e arrumava encrenca onde quer que fosse.
Em alguns dias ela já imaginava que eu era “o cara”, mas admitia não ter condições de vencer o alcoolismo e levar adiante a relação que talvez tenha esperado pela vida toda.
Ela não dividia nada além da cama, não me daria segurança emocional ou paz para procurar trabalho, não poderia dormir simplesmente sem ter de levantar de madrugada para ir com ela ao hospital. Dormir como um rato no forro sujo do bar ainda era dormir e eu acordava refeito para ir pintar na rua de dia e servir as mesas de noite ao mesmo tempo em que vendia livros aos freqüentadores.
Foram dias em que o sol não iluminava por mais brilhante, que amigos não queriam ou não podiam ajudar, dias de absoluta mizéria e solidão.
Porque eu tenho que te dar dinheiro?
Eu fico pensando o que eu faria no seu lugar, meu irmão.
O que eu havia feito quando ele se separou? O que eu fiz quando ele exigia silêncio da mesma vagabunda que o aconselhou a ir atrás da mulher que ele amava?
A irmã já tinha o salário do velho morto, todos receberíamos dinheiro dessa mesma fonte, o que eu queria era um pouco, o suficiente para me reerguer e talvez algum apoio. Mas cada um a seu modo, preferiu dar as costas.
Ratos e baratas eram os visitantes noturnos do bar, por isso ali havia um vidrinho com o veneno proibido. A idéia de morrer surgiu quando minha filha foi desatenciosa por algum motivo. Era ela quem me fazia suportar e ter esperanças.
Algum dia vou conviver com ela e repor a ausência que ela sentiu por boa parte da vida, era o que eu pensava, o que me dava forças. Mas nesse momento, numa lanhouse, ela mostrou que talvez eu não fosse tão importante.

Foi ali, no noticiário da noite, que vi o prédio do Pelourinho onde foi meu atelier, incendiado. O que pensei foi: “Puta que pariu! Ela conseguiu sair!”

Deise surgiu com dinheiro quando eu estava pronto para agredir o falso amigo e ladrão.
Claro que ele não estava de todo errado, a casa era dele assim como os segredos, as espertezas e os fracassos, também a vaidade de ser por vinte anos dono de um buteco horrível. Um negro complexado que só tem amigos brancos, um ignorante que podia ter usado minha esperiência com comércio e publicidade.
Queria expulsar, tinha esse direito, mas passou bem perto de levar um murro ao humilhar.




Porto Seguro, o retorno.



Porto Seguro, o lugar que chamei de minha casa um dia, agora me esperava com os punhos fechados.
Não tinha a quem recorrer a não ser o cacique de Aldeia Velha que prometeu me acomodar quando eu quisesse mas, por coincidência, ao passar em frente à galeria onde meus quadros eram vendidos. encontrei o dono, Cláudio Moura.
Expliquei o que vinha passando e ouvi um agradável “passe pra dentro!”
Trazia alguns livros da editora de São Paulo e achei que poderia ficar lá e me manter razoavelmente independente, mas mal sabia eu o que viria a passar ali.
Claro que, visto de longe, tudo é engraçado e acrescenta riqueza à vida. CM estava com 70 anos e é o sujeito mais vaidoso que conheci.
A troco de comida restaurei alguns quadros, mas fui impedido de pintar quando ele descobriu sobre meu livro e quis, por força, que eu escrevesse sua biografia.
Vida interessante. Sempre foi rico e conheceu políticos e artistas do Brasil todo a começar pelo Rio Grande do Sul. Seu pai e avô eram os donos de metade de Porto Alegre, mas todas as suas aventuras começam e terminam com seu pai intervindo, sempre para pagar as contas.
A coisa termina quando assumi que seria muito mais interessante escrever sobre a vida do pai dele.
Mas era também a pessoa de maior vitalidade que conheci, outro deprimido que não via a riqueza de morar ali e do que fazia.
A galeria estava viva apesar dele e do seu alcoolismo.
Quando cheguei, lá vivia também outro artista, um francês que cozinhava maravilhosamente.
CM estava cansado dele e vim a calhar como substituto.
Dentro da maldição do dinheiro fácil, o principal problema é o vício. Isso faz a pessoa tomar decisões erradas e seguir batendo no peito, dizendo que fez porque quis. Outra noite de embriagues e o tempo passa mais rápido, os erros ficam esquecidos e as soluções adiadas.
O francês tinha um caso interessante, uma ex-mulher, professora e maluca patológica que transou com uma sala de aula inteira durante seu horário de trabalho.
Por ali circulava também um argentino que dizia ter conhecido Carlos Castañeda.
Já que me ocupava da biografia do CM, poderia escrever outras, principalmente uma que levasse o nome de Castañeda, alguém que, nos anos 70 e 80 vendeu como pão quente.
Esse sujeito serviu para mostrar o quão distantes estamos da elevação espiritual que imaginamos. Era um evangélico que defendia algumas das bizarrices índias americanas a começar pela morte.
O principal problema da morte é que ninguém a aceita. A vida pode ser rigorosamente miserável como era o caso desse ex-drogado cuja família possibilitou seus estudos nos Estados Unidos durante os anos 70. Sua vida então era procurar shows de rock e novas drogas. Ele jura que era o próprio Don Juan, o mestre de Castaneda, quem o encontrou num bar no deserto de Mojave.
Ele me fez esperar por dois dias antes de contar sobre o que eles conversaram.
Houve realmente um encontro com o autor de A erva do Diabo, mas foi na Argentina, no começo dos anos 60 e eles não chegaram a conversar.
No deserto, o índio entra no bar e pergunta: Você já pensou em se drogar menos?
Isso mudou sua vida. Ele passou a se drogar menos com drogas mais fortes e mais com as mais fracas. Ou teria sido o contrário?
De qualquer forma, afirma ter visto um monstro de dez metros de altura, um enorme cacto, o Mescalito e, já em Porto Seguro, além de discos voadores, disse ter visto uma águia com asas em forma de pirâmide...
Não há como defender o velho em muitas questões, tínhamos um forte laço de amizade até que cansei de carregá-lo bêbado para casa, de ouvir as bravatas gaúchas, as idéias de superioridade racial, sua guerra entre Vega e Orion, a diversão de jogar um artista contra o outro, de fazer medo, de discutir.
- Vou pôr um computador aqui e você escreve, a troco de comida, exatamente o que eu ditar. Eu sou um vendedor, o que eu disser é o que vai vender!
Nem computador e nem ditados que não fossem repetitivos, lentos, desinteressantes.
Com pinturas vendidas e livros de mão em mão, em outros lugares como, surpreendentemente Trancoso, comprava o que comia, mesmo que nem sempre fosse suficiente.
Havia as visitas importantes, o ex-prefeito, o senador, o pessoal da rádio. Falastrões. Mas houve uma mulher que poderia ser útil, uma maluca a quem acompanhava por cortesia até o lugar que ela tinha alugado e que poderia me arrumar trabalho em outra cidade, desde que eu realizasse sua fantasia de namorado.
Não existe mulher feia quando tem um interior bonito. Já quando os dois são feios é melhor deixar pra lá!
Um ano é tempo suficiente para aprender qualquer lição, é um princípio meu.
Não fui escravizado como em São Paulo e tinha uma relação de cortesia, mas que nem sempre era construtiva. Foram muitas noites de conversa e cerveja, primeiro em bares depois na varanda da casa/galeria para que não passássemos vergonha na rua.
Bêbados arrumam encrenca e caem. Não importa se têm ou não dinheiro, os desentendimentos precisam ser contornados e o pé-de-cana deve ser levado para casa. Coube a mim fazer isso.
Talvez eu aparentasse calma, fiz alguns amigos, fiquei conhecido como artista e escritor, dei entrevista nas rádios locais, ganhei admiradores, mas por dentro eu me mantinha tão desesperado quanto antes.
Houve uma noite em que procurei ver o que vinha tornando minha vida tão insuportável. Pensei em esvaziar a mente e esquadrinhar tudo ao meu redor até encontrar, talvez um demônio e então fazer algum tipo de acordo como o que fiz com a mulher da igrejinha do Arraial.
Foi uma noite de terror. Juntei sal, água, uma pena, acendi uma vela, cada um em seu ponto cardeal correspondente. Abri o círculo e meditei. No canto mais escuro da sala, havia uma sombra, uma presença que escurecia a sala onde eu armava minha cama. A intenção era fazer um acordo qualquer, beijei o chão para me mostrar submisso e assim iniciar a negociação, mas não foi possível. A figura simplesmente se escondia, calada, tão cheia de ódio que riu de prazer ao me ver no chão.
Antes da mulher que me fez mudar de cidade, ainda em Trancoso, tive uma namorada. Era a mulher madura de corpo mais bonito que já vi e, na época, falhei mizeravelmente com ela. Na época, tive um problema qualquer, estar novamente separado, ter dinheiro e a responsabilidade de vender telas foi demais para o meu pinto. Pelo menos, ele não funcionava com quem deveria.
Agora eu não estava só funcional como faminto, mas para vê-la eu andava talvez vinte quilômetros. Esta também, como a bêbada, via em mim o ideal, não o real. Eu era um sem teto que mal me alimentava e andava quilômetros para transar enquanto ela era cortejada por um artista brilhante. Quando percebi isso, parei de andar.
Na galeria, houve uma noite em que o velho fez outro de seus jogos e me deixou do lado de fora durante o carnaval. Feliz ou infelizmente, era carnaval e surgiu uma nativa disposta a dividir sua esteira dentro de uma casa em construção.
Houve uma prostituta viciada que me fazia bons descontos e chegou a perguntar se eu me apaixonaria por uma piranha, outra mulher madura, inteligente e desesperada a quem tentei ajudar com massagem quando o que ela queria era outra coisa e a moça que vendia os quadros e provocava o velho. Essa não toquei, assim como não me aproximei de uma amiga dela que também deu mole.
Eu não me via como alguém capaz de atrair mulheres fortes e nem era atraído por elas. Havia pintado nas ruas de São Paulo onde fui o invasor de um bar, já era um mendigo em Porto Seguro e só me harminizaria com pessoas de vibração semelhante.
As entrevistas nas rádios, ser artista, escritor e saber falar, acrescentavam um falso glagour numa vida mizerável, como se fosse opção minha não ter o que comer.
Um dos colegas do velho, um maqueteiro bem humorado que também não ia lá muito bem das finanças, não teve dinheiro para comprar um livro, mas me pareceu alguém capaz de valorizar o trabalho podendo divulgá-lo ou fazer uma critica construtiva.
Na verdade, mesmo em meio a necessidade, dei livros a quem pudesse divulgá-lo, me deu algum prazer pelo interesse ou pela simples companhia.
A galeria se tornou palco de uma rivalidade cortês. Já não havia o que ser conversado quando eu não poderia pintar, já não havia telas a serem restauradas e eu, com um bom argumento, me recusava a escrever o que ele ditasse.
Haveria mais pressão e a moça com sonhos românticos estava numa casa grande em outra cidade. Ela poderia me receber e arranjar um trabalho enquanto o convívio mostraria a possibilidade ou não de uma relação.
A próxima parada seria Teixeira de Freitas, a cidade onde desisti de viver.






Teixeira Texas city


Vim de 750 com a Aline, demos um passeio pelas avenidas principais e parei em frente ao shopping para tomar um sorvete.
A impressão foi a de um lugarzinho poeirento com mania de grandeza, de gente provinciana que diante de quem é de fora ou rico se curva ao mesmo tempo em que humilha o próprio visinho.
Dá para chamar de aviso quando se pára num lugar e se sente alguma coisa desagradável apesar de ver um jardim bem cuidado.
Seria nossa última parada da viagem e se Porto Seguro não tinha cinema era bom saber que tinha um ali.




O grande fantasma


- Bunitinha, tó!
Um tiro só, debaixo para cima entre o nariz e o olho esquerdo, a menos de quatro dedos de distância. Fez um furinho ao entrar e um buracão ao sair por trás da cabeça, tingindo a parede.
Qualquer escritor é compulsivo, é alguma coisa que vem antes dos diários, registros de pensamentos e poesias, e principalmente nas más fases.