ESCRITOR
terça-feira, 18 de setembro de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
PLACEBO
ETERNO COMO A VIDA
papel amarelo
-
Puta que pariu! Só me faltava essa!
Seu
João não estava de bom humor e a notícia de ter de ir à capital para refazer o
contrato com a gráfica não chegou a animar.
O
jornal não ia mal, tinha bastante tempo na praça e poderia ser dirigido pelos
meninos, melhor até do que por ele mesmo. Mas o mau humor não era por causa de qualquer
viagem forçada e sim porque Inês, sua mulher, vinha se tornando cada vez mais
insuportável.
Casamentos
de quarenta anos se baseiam em mentiras aceitas, bem ou mal contadas, ou não
chegam a isso.
Foi
oportuno para os dois. Ele era o marido promissor vindo da capital para a filha
bonita e burra do fazendeiro rico.
Nunca
deu certo, mesmo por quarenta arrastados anos e três filhos. Mas o que o
irritava de verdade era perceber que envelhecia e o jornal, um sonho de
adolescente, não o fazia sentir realizado. Amava os meninos, mas tinha uma
família de fachada, tudo era falso e sabia que Inês pensava o mesmo. Ela se havia
acomodado, quando se davam ao trabalho de discutir, ela fazia cara de nada e depois
saía para comprar qualquer besteira cara.
A
caminhonete velha vazava combustível. Havia mandado um dos garotos consertar,
mas não houve tempo. Poderia mandar um deles para a capital, mas ir ele mesmo tinha
suas vantagens. Exercitaria sua rabugice acusando o garoto de incompetência
mesmo sabendo que a caminhonete não foi para a oficina porque ele mesmo havia incumbido
o garoto de diagramar o próximo número. Indo sozinho ele poderia tomar alguns
uísques, fumar quantos charutos quisesse, de preferência numa casa suspeita,
longe do controle da família.
O
que ele não contou é que o dono da gráfica era um velho amigo com quem fez o
negócio de boca. Este havia morrido há pouco tempo e agora o herdeiro, o filho
debilóide, queria pôr tudo no papel.
São
o quê? 30 anos sem qualquer problema? Moleques!
Poderia
ir com seu outro carro, o de um deles ou de ônibus, mas sentia certo prazer em
aporrinhar, em sofrer e fazer sofrer àqueles que roubaram sua vida.
Saiu
aos trancos, acelerando para fazer fumaça, barulho e cheirar bastante.
Se
acalmou quando entrou na estrada.
Na gráfica
O
velho galpão estava reformado, com paredes de fórmica clara. Nem sinal das
velhas máquinas pesadas verdes, agora tudo era eletrônico, rápido, controlado
por computadores.
Uma
mocinha sorridente o aguardava atrás do balcão já com os papéis a assinar. O
rapaz, o debilóide, não se deu ao trabalho de descer do escritório.
Dane-se
se não fui no enterro! O cara era meu amigo e agora não vai no meu! Sinta-se
vingado!
Documento
pra cá, assina aqui, ali, rubrica acolá. E a mocinha olhando. Um sorriso
insistente, cheio, do tipo que enche o coração da gente. E familiar, muito
familiar.
-
Acho que conheço, talvez, sua mãe... ou
avó...
-
Ah, é? Então, como é o nome dela?
O
nome da pessoa que o fez absolutamente feliz por dois lindos e loucos anos numa
faculdade cheia de gente de opinião num tempo em que era perigoso se expressar.
Luna, uma maluquinha sempre metida entre livros com ilustrações medievais e
cozinhando porcarias fedorentas.
Luna
teve uma filha, claro, ou vários filhos. Teve, e porque não haveria de ter,
toda uma vida sem ele. A moça à sua frente era uma cópia exata dela, era como
estar de volta no tempo, a não ser pelas roupas modernas.
-
Luna. Você é filha dela?
Ela
fez uma expressão, um jeito de inclinar a cabeça e olhar que não deixava
qualquer dúvida.
-
Não, não sou filha e nem neta. Olhe bem para mim, Jó!
-
Sua mãe me chamava assim. Ela falou sobre mim, sobre o tempo em que namoramos?
-
Contou que você achava as pesquisas dela um monte de besteiras esotéricas
criadas pela mídia para desviar a atenção das massas do que realmente
interessava: o poder político e blá, blá, blá!
João
se calou. Passou por sua cabeça uma idéia louca, impossível. Era evidente que
essa menina sabia de muita coisa. Talvez sua mãe tivesse ficado com raiva
quando ele decidiu ir para o interior. Naquele momento era ser realista,
abandonar sonhos românticos e se dobrar diante do poder econômico ou ser para
sempre um Zé-ninguém.
Mas
que direito essa bunda-suja tem de jogar isso na minha cara?
Ela
continuava olhando, o sorriso cheio agora apenas se insinuava fazendo surgir
uma covinha no mesmo lugar de antes.
-
Quem é você?
-
Alquimia funciona, Jó.
-
É João e pára com a palhaçada! Sua mãe te contou essas coisas e tem raiva de
mim porque eu fui embora.
-
O mesmo babaca de sempre! Eu te mandei embora porque estava começando a
entender como a coisa funciona e o seu ceticismo cego estava me atrapalhando.
-
Ta bom! O que mais ela te contou? De que lado da cama eu durmo?
-
O direito, e ronca quando abraça o travesseiro. Tem uma pinta na sola do pé
esquerdo, medo de dentista...
-
Eu só passei a roncar por causa dessa porcaria de ponte... fixa.
Nunca
gostei de dentistas e muita gente tem medo, mas quem contaria sobre uma pinta
na sola do pé?
Calma
e conscientemente, a moça deu a volta no balcão, parou diante de João para
observar, divertida, a expressão confusa e o beijou terna e demoradamente.
Inicialmente
João pensou em resistir, mas eram lábios conhecidos, um corpo conhecido.
Admitiu
para si mesmo naquele momento que havia errado ao ir para o interior. Ninguém
além dele mesmo havia roubado sua vida. Ele, em nome de um sonho que excluía o
coração, se submeteu ao dinheiro de um fazendeiro caipira e passou quarenta e
tantos anos esperando por uma segunda chance.
Não
havia um balcão, uma gráfica, uma rua movimentada, barulhenta, só ela em seus
braços. Era a mesma Luna, com o mesmo humor e viço dos vinte e poucos anos. Já
ele estava velho, sem cabelos, sem dentes, cheio dos pequenos e grandes
problemas de saúde que a velhice trás.
-
Vem comigo!
Ela
pegou sua bolsa e gritou para alguém lá dentro que estava de saída. Puxou-o
pela mão até a calçada e, dali, praticamente o arrastou até um hotelzinho
vagabundo subindo as escadas ao lado de uma loja de sapatos.
créu
Uma
putinha nova e seu cliente, um velho libidinoso. Certamente foi isso que pensou
o sujeito que entregou as chaves.
No
quarto, eles se livraram das roupas como teriam feito naqueles tempos, mas
havia o peso da idade, o inacreditável da situação e a emoção do reencontro.
Nem Viagra daria jeito!
João
repetia não é possível tentando encontrar uma desculpa para si mesmo, mas Luna
ardia de desejo apesar de compreender o que ele sentia. Foi quando decidiu
fazer um teste. Pegou em sua bolsa um vidrinho como de perfume.
-
Beba isto. Todo o vidro. Não me pergunte o que é.
João
primeiro bebeu, depois ficou curioso. Em sua cabeça ela ainda era uma menina, a
maluquinha que fumava maconha e tinha vontade de experimentar o que viesse.
-
É e não é droga ao mesmo tempo, Jó. Não deve funcionar em você já que depende
da aceitação de alguns conceitos, por isso dizem que só funciona com quem
fabrica. Mas não custa tentar.
-
É isso o que te mantém jovem?
-
É. Pode fazer a pessoa se manter com a mesma aparência ou, dependendo da
quantidade, voltar ao que era na infância. Você bebeu o que chamam de elixir da
vida eterna, uma das minhas besteiras mágicas, lembra?
-
Quem diz? Quem são essas pessoas?
-
Eu não sou a única que conseguiu isso, tem um monte de gente vivendo há séculos.
-
Quantos?
-
Uns 600, acho, espalhados pelo mundo.
-
E como isso funciona? Dá para explicar em poucas palavras?
-
Dá. É uma questão de modificar a estrutura de moléculas. Você já ouviu dizer
que a existência de um observador muda o fato observado?
-
Já. É a parte da física que lida com ondas e coisas pequenas. Átomos. Li em algum
lugar.
-
O observador pode controlar a mudança usando a vontade. Basicamente é assim que
funciona.
-
E o que vai mudar em mim?
-
Não faço a menor idéia. Depende da sua vontade. Você é o observador agora. O
que você deseja de verdade?
João
baixou os olhos como se buscasse a resposta nas próprias profundezas.
-
Desejo acreditar que isto está realmente acontecendo. Desejo te comer como
fazia há sei lá quantos anos. Desejo a segunda chance que venho esperando,
desfazer todos os erros que cometi e viver eternamente ao lado da mulher que eu
nunca deveria ter deixado!
Ele
tinha lágrimas nos olhos ao falar e, diante disso, Luna literalmente saltou
sobre ele.
Por
causa do tal do elixir ou porque deixou de colocar a atenção no próprio pinto,
funcionou perfeitamente a tarde toda.
acidente
Ao
voltar para casa, de noite, João não reclamou da caminhonete. Esperou até que mulher
e filhos estivessem na mesa para jantar e foi gentil com todos.
Maria
Inês sabia o que fazia com que ele agisse assim, mas se calou. Dormiam em
quartos separados desde que a filha se casou há 2 anos e, há muito mais do que
isso, não tinham qualquer intimidade.
Depois
dos dez anos de casados, quando João teve um caso que quase os separou, o pai dela
surgiu com a idéia de um tipo de acordo: cada um resolveria seus desejos sem
cobranças desde que fossem discretos.
Políticos
não podem dar munição a rivais, é o que o velho caipira dizia.
As
pretensões políticas dele definiram qual de suas filhas deveria se casar, a abertura
do jornal, o número de filhos que eles deveriam ter quando nasceu a menina, que
João poderia trair porque é aceitável aos olhos do povo e que, quando isso
acontecesse, ela se manteria calada.
Os
meninos são ótimos. Honestos, inteligentes, esforçados. Podem tocar o jornal e
ainda garantir a velhice da mãe.
Maria
Inês também não é má pessoa. Trepa com um peão da fazenda do pai há anos,
discretamente, como filha obediente. Ultimamente é que vem tendo ataques de
raiva, talvez porque o sujeito não esteja mais dando no couro ou algum problema
relacionado com a tal da menopausa.
Ela
sabia que ele tinha transado, o que não poderia imaginar é com quem e o que
eles teriam conversado durante a tarde.
Por
duas semanas ele ficou assim, tranqüilo, procurando formas de deixar as
decisões nas mãos dos garotos, sem pressionar.
Foi
estranho descobrir que era ele quem criava desarmonia ou poderia, facilmente,
devolver a paz à família.
Mas
um telefonema o fez lembrar que havia um plano a executar.
Manter
os meninos ocupados serviu como desculpa para ir, ele mesmo, à cidade vizinha
consertar a caminhonete. Lá foi direto ao cemitério local, subornou o coveiro e
levou um cadáver enrolado num plástico. Passou num posto e encheu dois galões
de gasolina. Na estrada de chão, na volta, escolheu uma curva fechada e fez o
carro derrapar, colocou o cadáver no lugar do motorista, uma pedra no acelerador
e deixou que o carro invadisse a mata. Quebrou os dentes do cadáver com a chave
de rodas, espalhou a gasolina e tocou fogo em tudo.
O
próximo carro que passou na estradinha o levou a um para um sítio com uma pista
e um avião bimotor. Depois de cerca de duas horas foi deixado em outra pista
aberta a facão. Dalí pegou um ônibus do tipo que carrega trabalhadores rurais e
foi deixado na porteira de uma fazenda, sendo orientado pelo motorista a
caminhar até encontrar uma casinha onde deveria ficar até que alguém o
procurasse.
Nunca
imaginou que poderia agir com tal frieza. Não tinha medo de fantasmas, mas
comprar um cadáver, andar com ele no banco do carona e quebrar-lhe os dentes é
coisa que nunca imaginou fazer e nunca mais faria.
Durante
toda essa nervosa operação, coisa de agente secreto, repetia para si mesmo que
era por uma boa causa enquanto tentava manter a imagem de Luna na mente.
Quando
se deitou na cama antiga com colchão de palha no casebre pôde perceber que
havia feito um esforço muito grande para um homem de sua idade. Sentia-se
cansado quando deveria estar exausto e nem a fome o incomodava tanto.
Antes
de adormecer imaginou o volume de dinheiro gasto na simulação de sua morte. Quem
pagou?
Morra,
foi só o que Luna disse quando ele perguntou o que poderia fazer para ficar com
ela. Depois, quando já se despediam, veio a possibilidade dessa simulação.
Inicialmente
pareceu uma coisa absurda, mas tudo ali era absurdo a começar por uma mulher de
sessenta anos que aparentava vinte.
O
acidente com a caminhonete foi idéia dele, ele também saiba que conseguiria o
cadáver. A parte dela era encontrar lugar onde ele poderia ficar e estudar para
produzir seu próprio elixir.
Quando
ela ligou, disse apenas que já tinha o apoio do seu grupo e em que estrada
deveria acontecer o “acidente”.
-
Ou você faz amanhã ou nunca mais me verá!
Ela
não era tão firme assim antes, mas era ela. A vida dele era uma merda e
escapava por entre seus dedos. Seria uma aventura simular a própria morte e não
havia certeza de que iniciaria uma nova, mas em nome do que sentia por ela, estava
pronto para arriscar.
Takano
-
Bom dia!
Por
um momento João achou que estava na própria casa, que nada daquilo havia
acontecido, então atinou que o oriental ao pé da cama devia ser alguém do grupo
de Luna, alguém em quem confiar.
-
Bom dia. Desculpe estar aqui, mas...
-
Eu sabe, Takano conhece história toda. Você amor adolescente de Vitória, né?
-
Vitória? Quem é Vitória?
-
Luna. Nome dela agora Vitória, antes Luna. Café da manhã para amor de Luna.
Muito trabalho espera. E muito estudo também. Você Joao agora, depois escolhe
nome novo. Eu, Takano, instruir Joao tudo que Joao precisa saber para não
morrer e evitar mortes.
O
sujeito com aparência de quarenta anos não poderia ser mais japonês, desde a
roupa até o sotaque. Enquanto falava mostrava uma mesinha onde havia café, leite,
pão e frutas.
João
levantou estendendo-lhe a mão.
-
Obrigado, Takano. É um prazer. Mas gostaria que você entendesse que tudo isso é
novidade para mim. Na verdade estou um pouco confuso, sem saber no que
acreditar apesar de ter feito o que fiz. Você é um deles, um tomador de elixir
que vive há muito tempo?
O
homem pensou por um momento e, de repente já não tinha o sotaque.
-
Você foi corajoso ontem, provou o que sente e isso pode salvar algumas vidas. É
melhor que entenda de uma vez o que está em jogo aqui. Respondendo, sim, venho
tomando o elixir há mais de quatrocentos anos. Sou um entre as poucas centenas,
talvez por não ser dos mais velhos, que insiste em continuar vivendo. Muitos de
nós estão deixando de tomar e, com isso, morrem.
-
Luna falou sobre isso, o que não entendo é porque alguém que descobre a fonte
da juventude, que pode viver eternamente e com saúde, de repente decide morrer.
-
João, é simples. Me diga o que te fez viver até hoje.
A
primeira coisa que lhe veio à mente foi Luna, em seguida os meninos, o jornal e
alguns momentos alegres.
-
Não sei dizer. Talvez objetivos e amor?
O
homem abriu os braços.
-
Tudo o que você vê é o objetivo conquistado de alguém. Esta casa, esta fazenda
inteira, tudo foi feito por amor a alguém, para dar segurança e um futuro. O
primeiro dono morreu e outras pessoas ficaram com ela, outros amantes. Tudo
morre e perde o sentido, inclusive o amor. Pessoas vivas há muito tempo vêem
esse ciclo várias vezes, passam a preferir se relacionar com seus iguais,
outros imortais, mas o que sentem também se esgota. Fazem novas tentativas até
que todos tenham se relacionado entre si. Quando isso acontece, não resta nada.
Todos os objetivos foram conseguidos e todas as pessoas amadas.
-
O que sinto por Luna não vai acabar!
-
É o que nosso grupo acredita. Você manteve o que sentia oculto por bastante
tempo e agora isso ressurge com tanta força que o elixir dela funcionou em
você. O que vamos fazer é te dar uma dose maior e ver quanto tempo passa até se
esgotar o efeito. O problema é que isso cotraria os interesses de alguns. Todos
nós achamos que você deveria desenvolver seu elixir sem ajuda, mas até ter tomado
com ela, você não fazia idéia da existência disso e seu corpo não duraria tempo
suficiente para entender os conceitos e preparar o seu. Por isso, nós os amigos
de Luna, decidimos interceder e te dar essa chance.
-
Por isso estou escondido aqui?
-
Exato. E como somos criminosos, seremos perseguidos e punidos.
-
E o que acontece comigo?
-
Você seria eliminado sumariamente. A maneira de evitar isso é você desenvolver
o seu elixir o quanto antes e aprender a se defender. Mas não se preocupe,
temos como defendê-lo enquanto você estiver aqui. Por ora, tome seu café. Aí
fora tem um carrinho de mão com livros e amanhã chega o elixir de Vitória ou
Luna, como preferir. Volto mais tarde com seu almoço.
Ele
já ia saindo quando João o deteve.
-
O que houve com o seu sotaque?
-
Primeiro ensinamento, né? Sinhoro Joao
aprende que aparência importante. Takano japonês, com jeito japonês. Ninguém
faz pergunta. Notícia não chega no inimigo.
No
carrinho de mão estavam os mesmos livros que Luna lia na faculdade e mais
alguns. João conhecia o conteúdo, coisas que para ele não tinham sentido e que
agora teriam de ter.
Era
excitante estar ali, mas ele não se reconhecia como ele mesmo. Não era mais o
velho dono de jornal, um sujeito que jamais faria o que ele fez no dia anterior.
Não
sabia o que imaginar. Aquilo que estava no vidrinho pode ter sido uma droga qualquer.
Seria tudo uma alucinação? E que droga o faria sentir mais jovem, com forças
para desafiar o desconhecido?
Melhor
ler já que sua vida depende disso e não pensar.
Luna
viria, foi o que pensou. Por isso passou todo o dia sozinho, lendo e tentando
entender. Takano apenas deixou um prato de comida e se foi. Outro quando caiu a
noite e só o que disse foi onde estava um lampião de gás.
Pela
manhã, lá estava o japonês com uma garrafa de refrigerante de dois litros, uma
caneca e um despertador.
-
Tome agora. Não sei como é o gosto, mas tem de ser a caneca toda. Vou regular
este relógio e toda vez que tocar, você toma uma. Acho que você vai perder a
noção do tempo, talvez fique confuso, mas não deixe de tomar.
-
Luna não veio?
-
Ela não pode vir. Está sendo vigiada. Nossos rivais não são estúpidos. Sabem
que vocês se encontraram e vão estranhar que você tenha morrido logo depois. O
coveiro mudou de emprego e de cidade, mas eles vão encontrá-lo. Mais algum
tempo e virão até aqui.
-
Sei que é urgente, mas eu não consigo entender nada do que esses livros dizem!
-
Não tente entender com a razão, são símbolos, leia como se fossem poemas.
Quando estiver pronto, naquele baú tem um fogareiro e tudo o que você vai
precisar.
-
Mas o que é ovo cósmico?
-
Poesia, João, poesia!
O
gosto não chegava a ser ruim, uma água densa, doce e um pouco enjoativa. De
alguma forma, talvez por saber que era dela, o gosto ou o cheiro lembrava Luna.
Seguiu
lendo assim que Takano saiu, poucas páginas depois começou a sentir torpor. Em
seguida as letras se embaralharam e as ilustrações pareciam se mexer.
O
despertador tocou fazendo-o perceber que havia dormido. Encheu outra caneca e
tomou sem pensar. Os ponteiros moviam-se rapidamente. Novo toque e mais uma
caneca era esvaziada. Era um relógio antigo. Quem dava corda?
Ao
olhar pela janela, via a luz do sol e logo a escuridão da noite. Saltava de um
ponto a outro do casebre sem se lembrar de ter caminhado ou para quê. Dormia e
acordava sem perceber. Sentia dor e prazer alternados, tossia, cuspiu alguma
coisa que o incomodava. O relógio tocava e ele tomava uma caneca
automaticamente, completamente sem noção de tempo.
-
João! Acorde!
A
voz parecia vir de muito longe. Takano o sacudia. Antes mesmo de abrir os olhos
sentiu o cheiro forte, acre. Sem se levantar, olhou ao redor. O casebre estava
uma bagunça, havia poças de vômito e fezes pelo chão.
-
Putz! Eu fiz isso?
-
Nada além do previsível. Mas podia ter usado o banheiro. Como se sente?
-
Como se tivesse sido atropelado por um trator. Estou fraco. Meus músculos estão
travados e to meio zonzo como se tivesse tomado o maior porre da minha vida!
Minha memória também pifou. Por quanto tempo fiquei aqui?
-
Oito dias agora e todo o elixir. Você comeu muito pouco, mas é melhor não
abusar. Lá fora tem uma jarra de caldo de cana e frutas. Também vassoura, um
balde e um esfregão.
Havia
alguma coisa diferente em sua boca que modificava sua voz. Buscou a ponte, os
dentes estavam lá, mas faltava o ferro. Suas mãos estavam diferentes, com a
pele mais hidratada e sem os pêlos brancos.
-
O que houve comigo?
Tentou
se levantar, mas sentiu o mundo girar e praticamente caiu no lugar onde estava.
-
Calma! Você vai ter muito tempo para se acostumar com as mudanças.
-
Um espelho! Me arranja um espelho!
Takano
foi até o banheiro e tirou da parede o pedaço fixado por pregos e arame. Quando
viu seu próprio rosto, num segundo a mente de João repassou tudo o que havia
acontecido até aquele ponto.
É
verdade! Aconteceu mesmo! A coisa funciona!
A
aparência era de um homem de, talvez 35 anos, mas não como ele era nessa idade.
Os cabelos brancos estavam no travesseiro, em chumaços e, embora estivesse
quase careca, o couro cabeludo estava cinzento, pronto para produzir fios
novos. Seus olhos pareciam maiores, o mesmo para a boca e, dentro dela havia
dentes novos.
-
Isso é absolutamente fantástico!
-
Mais do que você imagina. Isso não deveria acontecer. Nunca aconteceu antes.
-
Nunca?
-
É, você é o primeiro caso. Isso que você tomou, num laboratório comum de
análise, seria classificado como água suja. É temperado com símbolos, rezas e
esperanças. Que funcione para quem fabricou é compreensível, mas não para
alguém que não tem a mesma memória celular e os mesmos sonhos. Não funcionaria
nem com gêmeos idênticos.
Takano
parecia contrariado ao andar para a porta.
-
Limpe tudo isso e coma. Se você estiver bem, amanhã começaremos seu treino.
Aos
poucos João se levantou e logo se sentia muito bem. A fome era moderada para
quem não se lembrava da última refeição. Algumas frutas bastaram. O quarto
parecia uma área de desastre, mas como seria ele a dormir ali, o jeito foi
encarar o mal cheiro e pôr mãos a obra, com paradas para se ver ao espelho e
renovar a surpresa.
treinar
-
Acorda, sinhoro Joao! Vamos ver do que esses músculos renovados são capazes!
O
dia ainda não tinha nascido. Takano vestia um quimono e tinha outro para ele.
-
Mas ainda é noite, Takano!
-
Isso é porque sol não aparece, quando aparece é dia, né?! Café da manhã casa
Takano, Takano correr, Joao atrás. Se Joao alcança Takano, aprende luta do
jeito bom, se não alcança, aprende do jeito mau.
-
Por que o sotaque?
-
Esposa Takano pode acordar. Ela burasirera, Takano japonês. Os detalhes são
importantes, João.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
mais uma parte de Ayuasca
O grande fantasma
- Bunitinha, tó!
Um tiro só, debaixo para cima
entre o nariz e o olho esquerdo, a menos de quatro dedos de distância. Fez um
furinho ao entrar e um buracão ao sair por trás da cabeça, tingindo a parede.
Qualquer escritor é compulsivo,
é alguma coisa que vem antes dos diários, registros de pensamentos e poesias, e
principalmente nas más fases.
Em São Paulo, havia um vidro com
chumbinho, um veneno para ratos, proibido porque mata gatos, cachorros,
crianças e suicidas.
Ir para Porto Seguro foi
escapar do frio além de desistir de um diálogo perigoso com esse vidrinho. Foi
a primeira vez em que a idéia de encerrar alguma coisa que não vinha dando
certo me ocorreu.
Ainda não me lembro direito do
que aconteceu, mas só o que me mantinha vivo era um joguinho do meu celular e a
esperança de, um dia, poder ser o pai que minha filha acabou não tendo.
Luz e calor afastam a
depressão, mas quando não se pode escolher com quem andar, mesmo no deserto
mais quente, a coisa volta a declinar.
Velho bêbado, cheio de jogos
de manipulação. O importante para ele era exercitar o poder de convencer,
conduzir, dominar e assim afastar os próprios fantasmas, as culpas, as verdades
dolorosas.
Sob sua influência, beijei o
chão sujo tentando um acordo com a “urucubaca” que me mantinha como um pedinte
miserável. Vi o fantasma, a figura que escurecia tudo com sua presença, silenciosamente
se divertindo com minha dor.
Uma mulher gorda era um troféu
do velho. Ele a colocou no jornal como uma prova de que sua influência ia além
do tempo em que ficou distante de Teixeira de Freitas onde foi radialista e
marqueteiro de um dos grupos políticos que domina a cidade.
Ansioso para sair da galeria,
apesar de ter ouvido do velho que a mulher nutria uma fantasia romântica
qualquer, imaginei que seria questão de explicar minha posição e ela cairia na
realidade. Tivemos algumas conversas pela internet e, a convite, fui morar com
ela até que eu encontrasse algum trabalho, coisa que ela mesma poderia
facilitar por trabalhar com políticos em ano de eleição.
Fui bem recebido, mas já no
primeiro dia, ou melhor, noite, ficou evidente que havia um preço a pagar. Era
ser o que ela fantasiava ou ser tratado como invasor. Tentei explicar, aventei
a possibilidade de uma boa relação evoluir naturalmente, mas era um tipo de
criatura que vê apenas o que quer, preto ou branco. Uma psicopata estúpida que
colocou minhas coisas do lado de fora da casa porque eu não quis aplacar sua
libido doentia.
Preferi ir para a rua. Tinha
algum dinheiro para adiantar ao dono do quarto que aluguei e fui buscar
trabalho onde encontrasse.
Cheguei a ser garçom lá, mas a
rádio pirata me pareceu um bom degrau na direção de fazer alguma coisa melhor,
numa agência ou, por meu próprio mérito, na rádio ou num dos outros veículos do
tal grupo.
O projeto não lido do meu
programa era bom, mas foi a vontade do dono de contrariar um rival que me levou
a ocupar o horário e assim conseguir comida em restaurantes vagabundos a troco
de anúncios enquanto ia de porta em porta em busca de qualquer trabalho.
Nas noites, para manter a
sanidade, escrevia. Apenas segurava caneta e deixava vir qualquer coisa, muitas
vezes essas coisas não pareciam só minhas, eram conversas.
Numa noite surgiu uma idéia, o
programa trazia entrevista com gente com alguma relevância na cidade, mas
basicamente, tocava rock clássico. Os ouvintes evangélicos acabavam de ouvir a
pregação de algum pastor e lá vinha eu com o Parafuso, esse era o nome e tinha
um subtítulo: maluco é quem perde!
Meu lado comerciante
concordava com um amigo que me disse para deixar de remar contra a correnteza e
assumir o público que a rádio já tinha fazendo alguma coisa mais religiosa.
Mas, meu desejo era conquistar outro público, gente com melhor gosto e poder
aquisitivo para, em seguida, criar e vender anúncios.
Alguém surgiu nos meus
escritos para me aconselhar a seguir o conselho do amigo.
Me tornar mais um pastor ou
deixar de ser o rebelde do rock'n'roll seria trair os que já havia conquistado
e a mim mesmo.
Os papeis que usei guardam uma
discussão acirrada com um final estranho, na verdade um recomeço.
Passei a perguntar quem estava
falando comigo quando reconheci alguns termos, mas Cléo só se entregou depois
de alguma insistência.
Ela me havia feito alguma
coisa como o que eu mesmo fiz para trazer sofrimento para a minha ex-sogra.
Contou também o que aconteceu com ela depois de ir embora da minha casa.
Quando estávamos juntos, eu a
acompanhava a hospitais tentando encontrar quem fizesse as receitas para
comprar o remédio até que encontramos uma médica que decidiu combater o vício
diminuindo gradativamente a dose.
Tempos depois, vendo que não
funcionava, aventei com a doutora a possibilidade de substituir o
antidepressivo por maconha.
Era uma mulher jovem, generosa
e de mente aberta que conhecia o efeito calmante da canabis, por isso deixou
transparecer que talvez pudesse dar certo, mas não se responsabilizaria já que
falávamos de uma substância ilegal e, por isso, não seria ético da parte dela.
Para nós, seria uma
possibilidade melhor do que o continuado esforço de procurar farmácias com
problemas de caixa e pessoas mal intencionadas.
Depois que nos separamos, Cléo,
segundo seu próprio fantasma, acabou se envolvendo com um traficante e, como era
seu costume, foi flertar com alguém. Ao invés de discutir, brigar e mandá-la
embora, talvez por conhecer seu lado sedutor, com ou sem aviso, o sujeito deu-lhe
um tiro na cara.
Naquele momento em que eu
escrevia, seu fantasma desfazia o que havia feito contra mim e tentava ajudar, não
por ela, mas por causa de alguém que a mantinha prisioneira e era bastante
rígido.
Ela passou a me acompanhar e,
como eu não sentia raiva, tivemos alguns bons momentos como quando reuni
algumas músicas que eram do seu gosto e toquei em meu programa “em homenagem a
uma antiga companheira”.
Foram vários diálogos, num
deles perguntei se ela era um demônio. A resposta foi não, mas ela precisava
ficar sob os cuidados desse homem mau e ao mesmo tempo luminoso.
Eu mesmo era luminoso, foi
assim que ela havia me encontrado.
Desapareceu de repente, apenas
não estava mais nos meus escritos e, mesmo quando tentei encontrá-la através do
cachorro, ouvi um deixa ela pra lá!
A tentativa de suicídio foi
logo depois disso. Demônio ou não, era ela na minha noite de terror em Porto
Seguro e acredito que o ato de desfazer a barufa, implica em completar seu
ciclo, ou seja, ela poderia diminuir o impacto, mas ileso eu não sairia.
Cléo havia sido garota de
programa, termo que ela preferia a prostituta, estava viciada num
antidepressivo e, apesar de ter um filho, foi acusada de ser homossexual e, em
função disso, por determinação da justiça, perdeu a guarda do garoto.
Demônio ou não, ela não nasceu
viciada ou trocando sexo por dinheiro, tinha as mesmas fantasias românticas de
qualquer mulher, foi mãe porque apostou numa relação e, enquanto esteve comigo,
foi grata, fiel e apaixonada.
Como a maioria, tenho meus
preconceitos, mas basta identificá-los para tentar transformar preconceito em
conceito simplesmente para lidar com fatos e não com suposições.
Afinal, por menos que entenda
de astrologia, sou ariano e vou aonde meu coração mandar.
Um escritor e sua obra
Comecei a colecionar as notas
do que viria a ser este texto no Capão. O problema era imaginar um fim para a história de um suicida que não fosse
a morte ou o amor. O primeiro seria impossível, resultaria numa ridícula autobiografia
póstuma, a outra soaria piegas.
A meu ver, a história fala de
um curioso cético e desesperado que se perde num universo mágico absurdo e, por
isso mesmo, deveria trazer algum conteúdo enriquecedor.
A volta do mago poderoso, desta vez com a sabedoria necessária e a companheira
com quem ser feliz foi o que planejei como final. Um happy end. O problema é que não se trata de uma ficção, mas de uma
biografia escrita por quem vive uma história que não termina.
Autobiografia. Eu mesmo
escrevendo sobre a minha vida. Que arrogância!
O cachorro avisou que eu teria
revelado um último segredo ao rever tudo o que sei e vivi enquanto fazia alguma
coisa que nunca fiz.
Tudo o que fiz no Capão foi
pela primeira vez. Tomar daime, lavar pratos num restaurante, conversar com um
cachorro fantasma, cozinhar num fogão de lenha, morar numa barraca, ficar tanto
tempo sem sexo.
Para encerrar textos usa-se a
volta à normalidade ou o início de uma nova rotina, uma técnica de escritores.
Precisava de alguma coisa
importante, digna de um encerramento, mas seria preciso que o universo
trouxesse esse fato. Enquanto isso especulava.
A vibração feliz seria um tipo
de meditação que deve ser acompanhada por um som ao redor de 7 Hrz que é uma
vibração de fundo, coisa percebida dentro da atmosfera, entre o chão e a
ionosfera, demonstrada por Schumann, o cientista que dá nome ao fenômeno.
O cérebro produz uma vibração que
se espalha em ondas pela atmosfera e pode ser captada. Tem possibilidades
infinitas já que ali está o pensamento de muita gente. Talvez fosse um bom
final acessar essa onda e trazer alguma informação relevante. O teste mostrou
que não é fácil, não ouvindo um ruído irritante.
Mais rascunhos:
O mago poderoso, aos 50 anos, não
consegue enriquecer ou se tornar respeitado, talvez porque não acredite nisso.
Meus heróis, as pessoas que
imagino dar algum sentido à existência e algum orgulho à raça, entre outros são
Gandhi e Tesla. O primeiro disse: ..."todo aquele que tem mais do que
precisa, rouba.", ou seja, uma coisa é você realizar toda sua capacidade,
outra é colocar isso a serviço do dinheiro e da fama. O segundo, apesar de ser
o visionário inventor da corrente alternada, um melhoramento da corrente
contínua que tornou possível iluminar cidades, viveu e morreu num apartamento
em Nova Iorque sem se preocupar com glória ou luxo.
Isso não é cultuar a pobreza ou
a humildade, é entender que uma pessoa prova seu valor pelos atos que pratica e
se realiza fazendo o que faz por gosto. Posses são máscaras que escondem essências
e ostentar só mostra o desequilíbrio entre o interior e o exterior o que é
Não ha sentido numa existência
finita e sofrida. Com fome se come uma fruta estragada. Quem dá a fruta não
merece agradecimento, menos ainda se essa mesma pessoa foi quem criou tanto a
fruta como a fome.
Deus, pelo menos como é
cultuado, é um entediado que se mostra também vaidoso na medida em que exige honras
e aplausos constantemente.
Traduzindo o que me disse
Dioniso, o deus grego, por definição, um deus não pode ter necessidades ou não
é um deus.
Para quem tanta gente vem
rezando há tanto tempo?
Hoje é comum ouvir que Deus é o
criador, o ser superior e o amor, por isso devemos ser gratos pela vida e a
expressão disso é rezar ou orar. A verdade é que a idéia de deus único nasce
com um tirano egípcio, foi adotada por uma etnia árabe e imposta ao mundo por
uma civilização guerreira. Esta emprestou sua hierarquia militar à instituição
que hoje nos diz o que é moral ou imoral, bom ou mau.
A viagem até além do universo
onde o cachorro me levou mostra que não há sentido na existência a não ser o
simples existir. A matéria é uma invasora do nada e paga, como aluguel, ser
finita e periódica.
Temos em média 90 anos para
viver nossos egos, esse é nosso período. Somos formigas a bordo de folhas indo para
uma cachoeira de onde nenhuma delas volta. Visto de longe, não há formigas, mas
uma massa meio viva e meio morta o tempo todo no rio. Não faz qualquer
diferença quem rouba, quem se acidenta, quem ganha na loteria ou quem se mata.
Como o rio, as formigas apenas existem e isso é só o que podem fazer. Cabe a
nós ocupar nossas folhas da melhor maneira possível.
Pode ser que depois da
cachoeira exista alguma coisa, ondas produzidas por um cérebro que já não
existe, mas mesmo lá, haverá uma hierarquia, um nascimento e uma morte sem
sentido, um passo num processo de evolução que terá um fim por acontecer dentro
de um universo finito.
Pra que tudo isso? Por um
sorriso, diz o cachorro.
O sorriso dos budas é morte, é
observar a existência a partir da inexistência, os idiotas que se julgam vivos
fazendo suas besteiras vaidosas porque não gostam do que vêem no espelho e
querem ser mais do que são. Daí a injustiça, a miséria, a doença.
Experiências transformam
crianças em adultos, mas também o próprio corpo amadurece e declina. Isso é o
que conhecemos como evolução. Como raça, independente da nossa tecnologia, há
pelo menos dez mil anos não evoluímos em rigorosamente nada.
Um buda é um sujeito idiotizado
pela idéia de estar acima dos conflitos naturais de estar vivo, alguém que tem
um momento iluminado e faz qualquer coisa que se torna memorável. Continua
comendo, fazendo xixi e cocô, mas surge quem acredite que até isso se torna
sagrado porque ele é um buda, o mesmo para santos.
Transformar é o que norteia o
pensamento dos alquimistas. Chumbo pode virar ouro mesmo que Deus não tenha feito
a matéria sólida para mudar de idéia em seguida.
Colocando Deus de lado, como o
universo ainda está explodindo, é possível encontrar falhas e usar as
descontinuidades da física. Se isso resulta em “sementes de ouro”, alguma coisa
que transforma um metal menos nobre em ouro puro, não sei dizer, mas acredito
que alguém tenha conseguido.
Alguns físicos vão estranhar
essa afirmação, mas se o Big Bang já foi, os astros deveriam se afastar em
velocidade constante, não com aceleração.
Desde os anos 80 se sabe que o
fato de haver um observador, muda o fato observado. É a brecha por onde acredito
ser possível me meter.
Poder mágico, o conhecimento e
uso dessas brechas dentro do natural, é um objetivo egoísta, voltar a fazer os
velhos milagres e ter, nesta vida, todo o prazer que meu corpo for capaz de
assimilar.
O uso é questão de conceber um
método e segui-lo. A mente deve se adaptar a uma realidade diferente da comum da
mesma forma que um louco se convence de suas fantasias.
Posso não conseguir, mas não
serei hipócrita a ponto de dizer que não vale a pena tentar, que na miséria ou
no outro mundo é que estão a verdadeira riqueza e felicidade. Deve-se partir da
premissa de que não há outro mundo após a morte, nem Deus, e ainda tomar muito
cuidado com fantasias supersticiosas.
Estamos vivos agora, somos
parte do que existe e a alternativa, o não existir, é uma impossibilidade uma
vez que se tenha existido.
Existir ou viver, em última análise,
é uma prisão. Não se morre nem antes e nem depois da hora predeterminada, mas é
possível negociar com o carcereiro. Este não é um negociador, mas alguém
autorizado a ceder quando a aposta é alta o suficiente, um ponto antes disso, é
um tirano e um enganador.
No fundo, estes escritos são
uma tentativa de jogar minhas sementes para trás, contra a corrente que dá na
cachoeira e assim existir, se não para sempre então pelo maior tempo possível. Um
exemplo do tipo de engano promovido por esse carcereiro para quem o existir é a
competição e seu prêmio ao mesmo tempo, a matéria, o corpo.
Somos todos vencedores e
partes de uma só alma. Passamos a existir a partir do nada absoluto quando isso
é impossível. Se o movimento é uma característica do que existe, entediados no
alto do pódio, criamos passatempos.
Não sei se a Cléo me mandou a
barufa ou se morreu realmente, muito menos se seu espírito está sob a guarda de
uma entidade disposta a meter juízo naquela cabeça oca pela força.
Segundo o cachorro, é ela a
puta na mão de quem eu acabaria. Aos olhos dele, eu realmente deveria ter me
matado e sou um herói por não ter feito isso. É por esse motivo que, o mesmo
terrível Dioniso de antes, o cara que cria coincidências, escurece o dia e
manda raios volta agora como um grande, dócil e protetor cachorro.
Das previsões que me foram
feitas, algumas falharam, gostaria de dizer que a mulher da árvore tinha razão
ao me dizer que eu não deveria acreditar nessas coisas, mas ela mesma é a prova
viva.
Por me ver como parte do que
existe, para que se dê o justo valor aos conflitos de vencedores sobre o nada, gostaria
de trazer um bom motivo para seguir vivendo. Infelizmente o mundo é mesmo essa
coisa chatinha, uma pedra indiferente. Sinto muito!
Felizes são os ignorantes porque,
uma vez que se saiba qualquer coisa, não se pode esquecer e nem transferir ao comunicar.
Eu não suportaria outro
dissabor. Provavelmente, outro réveillon ou aniversário sozinho teria sido o
ponto final.
O universo, o carcereiro, o
sentido de autopreservação do meu corpo ou uma série estatisticamente
improvável de coincidências preparou uma saída e me levou até o Capão.
Ninguém sabe ao certo o que é
ser um animal racional, simplesmente por não haver com que comparar.
Há o caso da gorila que
manipulava um teclado adaptado de computador e foi colocada na rede para que
falasse com internautas. Um filhote seu havia morrido há pouco tempo e, ao
receber os pêsames, respondeu que seu filhote não havia morrido, apenas seu
corpo.
Uma abstração filosófica vinda
de uma gorila? Ela sabe o que há depois da morte? Ou esperar que haja qualquer
coisa é um desejo tão primitivo que compartilhamos com animais?
Assumir interiormente que é
hora de comer, lutar, dormir, de passar por uma má fase ou de morrer muda a
fisiologia. O medo talvez seja a antessala do se entregar. Quando sente raiva, qualquer
animal tira o sangue da superfície do corpo para evitar hemorragia, o medo tem
o efeito contrário, qualquer corte e o sangue se esvai, se entrega como em
sacrifício.
Filhotes e crianças sabem quando
seus pais estão em perigo, independente da distância, conhecem o resultado e se
preparam. Alguns adolescentes, o que é objeto de pesquisa de parapsicólogos, quando
contrariados incendeiam colchões e quebram vidros sem tocá-los.
Nada disso deixa de ser
rigorosamente natural e, apesar da nossa civilização com cidades e indústrias, não
estamos tão distantes da natureza a ponto de ter perdido tais poderes, melhor
ainda, temos métodos para simplificar, desenvolver e ensinar isso.
Via áspera
- To morando em duas cidades,
você pode vir para qualquer uma delas quando quiser e ficar o tempo que quiser!
Isso não foi dito, mas escrito
e enviado pelo MSN. Foi o que aconteceu no dia seguinte ao meu passeio até o
local das nuvens vermelhas. Logo eu estava na porta do apartamento onde vivi
com Concepção e ela mesma me convidava a entrar.
Quando se passa por alguma experiência
muito forte, as seguintes parecem fracas.
Três ou quatro anos depois de
namorar, não havia mais possibilidade de volta. Interesse sim, da filha que tramou
para nos reunir porque, quando estivemos juntos, as relações eram melhores.
Não há muito que contar.
Quando ouvi que o ex-marido passaria uns tempos lá sendo que ela se meteu na
casa do irmão por dias, peguei minhas coisas e sai.
Concepção tinha poucas amigas,
minha impressão é que eram alguma coisa entre rivais e companheiras de farra.
Isto em si é mais uma das maldições do dinheiro fácil.
Dentre elas havia uma dupla que
passei a chamar de anãs colecionáveis do Quinderovo. Eram baixinhas gays que
amavam se odiar e sofrer. Uma morena abstêmia certinha e a outra loira bêbada
doidona. O que não conseguiam é manter distância uma da outra.
Uma delas consentiu que eu dormisse
em sua casa enquanto defendia o almoço no Pelourinho. Quando saí de Salvador
pela última vez, deixei algumas telas lá e nem a Lídia nem a Concepção
conseguiram encontrar porque o lugar que era uma lan house perdeu os
computadores, virou um cyber café sem internet e sem café. Nilda agora vendia
tortas e bolos, eram deliciosos, mas ela não tinha a menor idéia de como ganhar
dinheiro com isso.
Com minha rápida passagem pela
publicidade, poderia ajudá-la, desde que ela escolhesse um produto que eu
pudesse chamar de carro-chefe. Era uma delicatessen ou um centro de terapias
alternativas? Ela não sabia.
Fã do Capão, queria curar o
mundo com massagens e comida vegetariana. Esse era o foco, o produto, mas mesmo
num bem decorado espaço para consultas, não via isso como forma de ganhar
dinheiro.
Seu ponto era um lugar luminoso
na escuridão do Pelourinho e assim deveria continuar, independente de dar ou não
lucro.
Era na rua acima de onde funcionou
meu atelier, o prédio que queimou e desabou para que minha amiga fantasma
saísse. Fui visitar o local, claro, percebi que a rua perdeu com o incêndio e a
diminuição do numero de bares, mas minha amiga não estava mais lá, apenas as
nuvens negras que a prendiam. Fico feliz por ela!
Por dois dias tive de dormir
por ali, no hostel onde conheci Josi.
Não sei por que, não me senti
atraído a não ser para acompanhá-la, talvez proteger. Foi um passeio e uma
conversa de poucas horas e ela me convidou para morar com ela em Seabra.
A Nilda tem amigos terapeutas
e xamanistas, o final do ano se aproximava e ela tinha planos para ir ao Capão
para um ritual de jurema com índios.
Jurema é outra planta de poder
capaz de promover uma conexão com o astral, ou seja, dá barato.
Não sei qual era a outra
atividade de Nilda, mas sei que se o dinheiro não entra por um lado, entra por
outro. Dessa forma, outros afazeres a ocupava a ponto dela nunca ter certeza se
ou quando poderia viajar.
Minha anfitriã era a loira
doidona e novamente eu convivia com alguém que tinha problemas com álcool quando
minha paciência estava diminuída. Não suportei a anã colecionável doidona que não
parava de falar e tinha momentos de irritação e, por já ter visto esse filme, simplesmente
saí.
De alguma forma eu acabaria no
Capão, se não com o pessoal de Nilda, então com outra pessoa, Josi.
Foi uma passagem relativamente
rápida por Salvador, mas tive tempo para contatar as agências onde deixei
currículo, os artistas conhecidos do Pelô e os amigos. A Concepção se desculpou
por não ter ficado em casa e não culpo a filha ela por ter tentado nos reunir.
Não deixei arestas a aparar.
Demorei a lembrar disso e
mesmo assim nem tudo está claro, é como ter saltado de Teixeira para o Capão
achando que tinha tomado o veneno. De forma surpreendente e admirável, assim
que meu corpo percebeu que eu levaria adiante a ideia de sair da existência,
apagou a memória e começou a gerar coincidências e alternativas. Meu destino
era um lugar que eu nunca tinha sequer ouvido falar e, de repente, uma entre
duas pessoas me levaria para lá.
Igreja do Daime, ayuasca, a
convicção de estar morto, o cachorro, a proximidade com a natureza, as trocas
de trabalho por comida, os estranhos “alternativos” com suas roupas e costumes,
os artistas circenses moradores de rua, todo um universo completamente
diferente de tudo que eu havia vivido me esperava ali.
Apoio ao chegar de novo
Tempos depois houve essa
escapada para Salvador atrás do buda Maytreia em que me vi como um mendigo sem
ter onde dormir e, poucas horas depois, com dinheiro e sem saber para onde ir.
Voltar ao Capão era a única
coisa que eu poderia fazer. Claro que não seria aceito novamente na igreja, fui
defendido pelo zelador enquanto estive lá por ser sua única companhia, mas não
tinha a admiração da dona do terreno.
O que aconteceu foi que assim
que a conheci me referi a ela como ”a moça grisalha que acompanha o Léo”. Moça
grisalha é velha e ela não acompanha, é a esposa! Duas ofensas numa frase só. Completo
desastre!
Ao chegar, o dono do
restaurante em que trabalhei me emprestou barraca, terreno onde montar e abriu
a cozinha para que eu cozinhasse, mas aos 60 anos, tem lapsos de memória e
manias. As galinhas da vizinha invadem e ele corre atrás ao invés de resolver o
problema definitivamente consertando a cerca. Por ter sido meu chefe ou por ter
me acolhido, achava que eu deveria fazer isso.
Surgiu outro lugar, mas eu
perderia a barraca. Veio quem emprestasse outra e, em pouco tempo, Ivan me
presenteou uma.
Meio enlouquecido pelo
desespero e ayuasca nos primeiros meses, mesmo apesar do desconforto de me
assumir suicida, contava a quem quisesse ouvir minhas idéias sobre ser dono da
própria existência a ponto de abrir mão quando é uma sequencia de desprazeres.
Todo mundo tem dissabores,
muitos chegam a pensar mais seriamente no assunto, alguns planejam e esquecem,
outros agem como se pedissem socorro, fazem escândalo, se drogam, viram
mendigos, são internados como loucos ou sofrem acidentes fatais nesse processo.
Não pedi socorro. Pensei o
mais friamente possível, avaliei retrospectivamente e tomei uma decisão.
Pai ausente, fracasso
profissional, velho de mais para ser empregado, solitário e tendendo a repetir
erros de relacionamento que sempre trouxeram dor. Só o que posso esperar para a
velhice é miséria e solidão, isso depois de uma infância nas mãos de um casal
de malucos, uma adolescência sem rédeas, dois casamentos desfeitos, amores
desrespeitados, desperdiçados, amigos superficiais, irmãos traidores e nenhuma
posse ou segurança financeira.
Quando se compra qualquer
coisa, espera-se que essa coisa seja útil, se não é, se o treco só serve para
dar dor de cabeça, o mais rapidamente possível, elimina-se seja o que for.
Há até bem pouco tempo,
suicidas não eram enterrados nos cemitérios porque a vida pertence a Deus.
Acabar com ela é desafiar o criador, é recusar a cruz e ser um covarde.
Na prática, é escapar ao
controle imposto pelo medo, é deixar de ser ovelha nos rebanhos de ricas
instituições sem fins lucrativos e um terrível mau exemplo.
Historicamente, aqueles que
agem como os únicos ministros da moral e da bondade, promoveram um Jihad, uma
guerra santa chamada Cruzada, criaram a Santa Inquisição, apoiaram a escravidão
dos negros, cruzaram os braços enquanto seis milhões de judeus eram mortos porque
mataram Jesus e hoje seus representantes são acusados de pedofilia.
Que tipo de Paraíso estaria à
espera de quem segue as orientações de uma instituição assim?
Ao menos não se pode acusar a
Igreja de ter queimado suicidas nas fogueiras, não porque não tivessem tentado,
talvez não tenha dado tempo.
Abrir mão da própria vida é
preferir o desconhecido ao sabidamente mau e, por isso, prova definitiva de
liberdade.
Natural que isso não interesse
a nenhuma instituição que explore a servil obediência mesmo em condições
subumanas.
Mesmo assim não há ateus,
apenas revoltados. Já que a religiosidade é parte da fisiologia, se não for
possível caminhar sozinhos, é bom ter isto em mente: não é possível reunir
pessoas sem que surja um líder. Há um ditado que diz que quem parte e reparte,
fica sempre com a melhor parte. Daí a fatal corrupção.
Fenômenos estranhos acontecem
com ou sem um líder que os traduza atrelado a um conceito, grupo ou divindade.
Pode haver espíritos sem que haja a necessidade de um Deus.
Essas idéias serviram para que
Ivan, um ateu “de carteirinha” me quisesse por perto. Não é um hippie sem
grana, é um cara da “Babilônia”, um urbano, que teve muita grana, sofreu, se
desiludiu e chutou tudo para cima para viver com menos estresse.
Assim, fui morar na barraca
sob sua varanda e desfrutar da amizade enquanto sua pousada era construída.
Como sinal de que os tempos
ruins estavam por terminar, parte do dinheiro dos meus pais saiu justamente
quando não sabia o que fazer com ele, tão adaptado que estava a não ter nada.
Desde que voltei, melhorou aos
poucos depois de piorar. Do restaurante, com uma barraca emprestada, fiquei no
terreno onde morava um completo idiota que mudava de idéia a cada palavra. A idéia
desta história já estava pronta e o combinado era usar o computador e a
tradução dele, um chileno, e depois dividir possíveis lucros. O cara acabou
cobrando um aluguel, um valor simbólico também de sua estupidez, inveja e
preguiça.
Mudar para a varanda do Ivan
foi me livrar de um Don Juan que queria duas mulheres quando havia sido
abandonado por uma, um sujeito que queria aprender a se alimentar de luz para
não ter que trabalhar e ganhar o dinheiro que gastaria no mercado, um ex-gordo
que vivia ao redor de um fogão de lenha onde fazia chapati, um pão feito só com
farinha e água.
Durante o mês em que estive
ali, deu tempo de imaginar e testar essa bobagem sobre a vibração feliz, mas
não pude escrever, conforme combinado, porque ele tinha outras coisas a fazer
no computador.
Ivan nunca foi alternativo,
não conhecia e nem via vantagem em estados alterados de consciência seja
através de meditação ou drogas. O fato dele não ser um alternativo me devolvia
um pouco ao meu mundo inicial onde comia carne e falava de outras coisas além
da espiritualidade. Seu prazer era comida sofisticada, música de qualidade,
vinho, boa conversa e o bom e velho sexo feito com uma dentre várias namoradas
e em especial uma menina que viria a ter certa importância. De qualquer forma, ali
passei a dormir bem, comer bem e me sentir entre amigos.
Definindo os animais
Qual seria o animal do oeste
permaneceu como uma dúvida desde que o cachorro o mostrou. Um gato, um coelho
ou um porco?
Bicho pequeno, arredondado com
pelos compridos brancos e um nariz pelado, rosado.
Seria importante descobrir já que, dentro do conceito
mais primitivo de mundo, vivemos sobre uma enorme mesa com quatro torres nos
pontos cardeais. Além de segurar a abóbada celeste,
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