PLACEBO
ETERNO COMO A VIDA
papel amarelo
-
Puta que pariu! Só me faltava essa!
Seu
João não estava de bom humor e a notícia de ter de ir à capital para refazer o
contrato com a gráfica não chegou a animar.
O
jornal não ia mal, tinha bastante tempo na praça e poderia ser dirigido pelos
meninos, melhor até do que por ele mesmo. Mas o mau humor não era por causa de qualquer
viagem forçada e sim porque Inês, sua mulher, vinha se tornando cada vez mais
insuportável.
Casamentos
de quarenta anos se baseiam em mentiras aceitas, bem ou mal contadas, ou não
chegam a isso.
Foi
oportuno para os dois. Ele era o marido promissor vindo da capital para a filha
bonita e burra do fazendeiro rico.
Nunca
deu certo, mesmo por quarenta arrastados anos e três filhos. Mas o que o
irritava de verdade era perceber que envelhecia e o jornal, um sonho de
adolescente, não o fazia sentir realizado. Amava os meninos, mas tinha uma
família de fachada, tudo era falso e sabia que Inês pensava o mesmo. Ela se havia
acomodado, quando se davam ao trabalho de discutir, ela fazia cara de nada e depois
saía para comprar qualquer besteira cara.
A
caminhonete velha vazava combustível. Havia mandado um dos garotos consertar,
mas não houve tempo. Poderia mandar um deles para a capital, mas ir ele mesmo tinha
suas vantagens. Exercitaria sua rabugice acusando o garoto de incompetência
mesmo sabendo que a caminhonete não foi para a oficina porque ele mesmo havia incumbido
o garoto de diagramar o próximo número. Indo sozinho ele poderia tomar alguns
uísques, fumar quantos charutos quisesse, de preferência numa casa suspeita,
longe do controle da família.
O
que ele não contou é que o dono da gráfica era um velho amigo com quem fez o
negócio de boca. Este havia morrido há pouco tempo e agora o herdeiro, o filho
debilóide, queria pôr tudo no papel.
São
o quê? 30 anos sem qualquer problema? Moleques!
Poderia
ir com seu outro carro, o de um deles ou de ônibus, mas sentia certo prazer em
aporrinhar, em sofrer e fazer sofrer àqueles que roubaram sua vida.
Saiu
aos trancos, acelerando para fazer fumaça, barulho e cheirar bastante.
Se
acalmou quando entrou na estrada.
Na gráfica
O
velho galpão estava reformado, com paredes de fórmica clara. Nem sinal das
velhas máquinas pesadas verdes, agora tudo era eletrônico, rápido, controlado
por computadores.
Uma
mocinha sorridente o aguardava atrás do balcão já com os papéis a assinar. O
rapaz, o debilóide, não se deu ao trabalho de descer do escritório.
Dane-se
se não fui no enterro! O cara era meu amigo e agora não vai no meu! Sinta-se
vingado!
Documento
pra cá, assina aqui, ali, rubrica acolá. E a mocinha olhando. Um sorriso
insistente, cheio, do tipo que enche o coração da gente. E familiar, muito
familiar.
-
Acho que conheço, talvez, sua mãe... ou
avó...
-
Ah, é? Então, como é o nome dela?
O
nome da pessoa que o fez absolutamente feliz por dois lindos e loucos anos numa
faculdade cheia de gente de opinião num tempo em que era perigoso se expressar.
Luna, uma maluquinha sempre metida entre livros com ilustrações medievais e
cozinhando porcarias fedorentas.
Luna
teve uma filha, claro, ou vários filhos. Teve, e porque não haveria de ter,
toda uma vida sem ele. A moça à sua frente era uma cópia exata dela, era como
estar de volta no tempo, a não ser pelas roupas modernas.
-
Luna. Você é filha dela?
Ela
fez uma expressão, um jeito de inclinar a cabeça e olhar que não deixava
qualquer dúvida.
-
Não, não sou filha e nem neta. Olhe bem para mim, Jó!
-
Sua mãe me chamava assim. Ela falou sobre mim, sobre o tempo em que namoramos?
-
Contou que você achava as pesquisas dela um monte de besteiras esotéricas
criadas pela mídia para desviar a atenção das massas do que realmente
interessava: o poder político e blá, blá, blá!
João
se calou. Passou por sua cabeça uma idéia louca, impossível. Era evidente que
essa menina sabia de muita coisa. Talvez sua mãe tivesse ficado com raiva
quando ele decidiu ir para o interior. Naquele momento era ser realista,
abandonar sonhos românticos e se dobrar diante do poder econômico ou ser para
sempre um Zé-ninguém.
Mas
que direito essa bunda-suja tem de jogar isso na minha cara?
Ela
continuava olhando, o sorriso cheio agora apenas se insinuava fazendo surgir
uma covinha no mesmo lugar de antes.
-
Quem é você?
-
Alquimia funciona, Jó.
-
É João e pára com a palhaçada! Sua mãe te contou essas coisas e tem raiva de
mim porque eu fui embora.
-
O mesmo babaca de sempre! Eu te mandei embora porque estava começando a
entender como a coisa funciona e o seu ceticismo cego estava me atrapalhando.
-
Ta bom! O que mais ela te contou? De que lado da cama eu durmo?
-
O direito, e ronca quando abraça o travesseiro. Tem uma pinta na sola do pé
esquerdo, medo de dentista...
-
Eu só passei a roncar por causa dessa porcaria de ponte... fixa.
Nunca
gostei de dentistas e muita gente tem medo, mas quem contaria sobre uma pinta
na sola do pé?
Calma
e conscientemente, a moça deu a volta no balcão, parou diante de João para
observar, divertida, a expressão confusa e o beijou terna e demoradamente.
Inicialmente
João pensou em resistir, mas eram lábios conhecidos, um corpo conhecido.
Admitiu
para si mesmo naquele momento que havia errado ao ir para o interior. Ninguém
além dele mesmo havia roubado sua vida. Ele, em nome de um sonho que excluía o
coração, se submeteu ao dinheiro de um fazendeiro caipira e passou quarenta e
tantos anos esperando por uma segunda chance.
Não
havia um balcão, uma gráfica, uma rua movimentada, barulhenta, só ela em seus
braços. Era a mesma Luna, com o mesmo humor e viço dos vinte e poucos anos. Já
ele estava velho, sem cabelos, sem dentes, cheio dos pequenos e grandes
problemas de saúde que a velhice trás.
-
Vem comigo!
Ela
pegou sua bolsa e gritou para alguém lá dentro que estava de saída. Puxou-o
pela mão até a calçada e, dali, praticamente o arrastou até um hotelzinho
vagabundo subindo as escadas ao lado de uma loja de sapatos.
créu
Uma
putinha nova e seu cliente, um velho libidinoso. Certamente foi isso que pensou
o sujeito que entregou as chaves.
No
quarto, eles se livraram das roupas como teriam feito naqueles tempos, mas
havia o peso da idade, o inacreditável da situação e a emoção do reencontro.
Nem Viagra daria jeito!
João
repetia não é possível tentando encontrar uma desculpa para si mesmo, mas Luna
ardia de desejo apesar de compreender o que ele sentia. Foi quando decidiu
fazer um teste. Pegou em sua bolsa um vidrinho como de perfume.
-
Beba isto. Todo o vidro. Não me pergunte o que é.
João
primeiro bebeu, depois ficou curioso. Em sua cabeça ela ainda era uma menina, a
maluquinha que fumava maconha e tinha vontade de experimentar o que viesse.
-
É e não é droga ao mesmo tempo, Jó. Não deve funcionar em você já que depende
da aceitação de alguns conceitos, por isso dizem que só funciona com quem
fabrica. Mas não custa tentar.
-
É isso o que te mantém jovem?
-
É. Pode fazer a pessoa se manter com a mesma aparência ou, dependendo da
quantidade, voltar ao que era na infância. Você bebeu o que chamam de elixir da
vida eterna, uma das minhas besteiras mágicas, lembra?
-
Quem diz? Quem são essas pessoas?
-
Eu não sou a única que conseguiu isso, tem um monte de gente vivendo há séculos.
-
Quantos?
-
Uns 600, acho, espalhados pelo mundo.
-
E como isso funciona? Dá para explicar em poucas palavras?
-
Dá. É uma questão de modificar a estrutura de moléculas. Você já ouviu dizer
que a existência de um observador muda o fato observado?
-
Já. É a parte da física que lida com ondas e coisas pequenas. Átomos. Li em algum
lugar.
-
O observador pode controlar a mudança usando a vontade. Basicamente é assim que
funciona.
-
E o que vai mudar em mim?
-
Não faço a menor idéia. Depende da sua vontade. Você é o observador agora. O
que você deseja de verdade?
João
baixou os olhos como se buscasse a resposta nas próprias profundezas.
-
Desejo acreditar que isto está realmente acontecendo. Desejo te comer como
fazia há sei lá quantos anos. Desejo a segunda chance que venho esperando,
desfazer todos os erros que cometi e viver eternamente ao lado da mulher que eu
nunca deveria ter deixado!
Ele
tinha lágrimas nos olhos ao falar e, diante disso, Luna literalmente saltou
sobre ele.
Por
causa do tal do elixir ou porque deixou de colocar a atenção no próprio pinto,
funcionou perfeitamente a tarde toda.
acidente
Ao
voltar para casa, de noite, João não reclamou da caminhonete. Esperou até que mulher
e filhos estivessem na mesa para jantar e foi gentil com todos.
Maria
Inês sabia o que fazia com que ele agisse assim, mas se calou. Dormiam em
quartos separados desde que a filha se casou há 2 anos e, há muito mais do que
isso, não tinham qualquer intimidade.
Depois
dos dez anos de casados, quando João teve um caso que quase os separou, o pai dela
surgiu com a idéia de um tipo de acordo: cada um resolveria seus desejos sem
cobranças desde que fossem discretos.
Políticos
não podem dar munição a rivais, é o que o velho caipira dizia.
As
pretensões políticas dele definiram qual de suas filhas deveria se casar, a abertura
do jornal, o número de filhos que eles deveriam ter quando nasceu a menina, que
João poderia trair porque é aceitável aos olhos do povo e que, quando isso
acontecesse, ela se manteria calada.
Os
meninos são ótimos. Honestos, inteligentes, esforçados. Podem tocar o jornal e
ainda garantir a velhice da mãe.
Maria
Inês também não é má pessoa. Trepa com um peão da fazenda do pai há anos,
discretamente, como filha obediente. Ultimamente é que vem tendo ataques de
raiva, talvez porque o sujeito não esteja mais dando no couro ou algum problema
relacionado com a tal da menopausa.
Ela
sabia que ele tinha transado, o que não poderia imaginar é com quem e o que
eles teriam conversado durante a tarde.
Por
duas semanas ele ficou assim, tranqüilo, procurando formas de deixar as
decisões nas mãos dos garotos, sem pressionar.
Foi
estranho descobrir que era ele quem criava desarmonia ou poderia, facilmente,
devolver a paz à família.
Mas
um telefonema o fez lembrar que havia um plano a executar.
Manter
os meninos ocupados serviu como desculpa para ir, ele mesmo, à cidade vizinha
consertar a caminhonete. Lá foi direto ao cemitério local, subornou o coveiro e
levou um cadáver enrolado num plástico. Passou num posto e encheu dois galões
de gasolina. Na estrada de chão, na volta, escolheu uma curva fechada e fez o
carro derrapar, colocou o cadáver no lugar do motorista, uma pedra no acelerador
e deixou que o carro invadisse a mata. Quebrou os dentes do cadáver com a chave
de rodas, espalhou a gasolina e tocou fogo em tudo.
O
próximo carro que passou na estradinha o levou a um para um sítio com uma pista
e um avião bimotor. Depois de cerca de duas horas foi deixado em outra pista
aberta a facão. Dalí pegou um ônibus do tipo que carrega trabalhadores rurais e
foi deixado na porteira de uma fazenda, sendo orientado pelo motorista a
caminhar até encontrar uma casinha onde deveria ficar até que alguém o
procurasse.
Nunca
imaginou que poderia agir com tal frieza. Não tinha medo de fantasmas, mas
comprar um cadáver, andar com ele no banco do carona e quebrar-lhe os dentes é
coisa que nunca imaginou fazer e nunca mais faria.
Durante
toda essa nervosa operação, coisa de agente secreto, repetia para si mesmo que
era por uma boa causa enquanto tentava manter a imagem de Luna na mente.
Quando
se deitou na cama antiga com colchão de palha no casebre pôde perceber que
havia feito um esforço muito grande para um homem de sua idade. Sentia-se
cansado quando deveria estar exausto e nem a fome o incomodava tanto.
Antes
de adormecer imaginou o volume de dinheiro gasto na simulação de sua morte. Quem
pagou?
Morra,
foi só o que Luna disse quando ele perguntou o que poderia fazer para ficar com
ela. Depois, quando já se despediam, veio a possibilidade dessa simulação.
Inicialmente
pareceu uma coisa absurda, mas tudo ali era absurdo a começar por uma mulher de
sessenta anos que aparentava vinte.
O
acidente com a caminhonete foi idéia dele, ele também saiba que conseguiria o
cadáver. A parte dela era encontrar lugar onde ele poderia ficar e estudar para
produzir seu próprio elixir.
Quando
ela ligou, disse apenas que já tinha o apoio do seu grupo e em que estrada
deveria acontecer o “acidente”.
-
Ou você faz amanhã ou nunca mais me verá!
Ela
não era tão firme assim antes, mas era ela. A vida dele era uma merda e
escapava por entre seus dedos. Seria uma aventura simular a própria morte e não
havia certeza de que iniciaria uma nova, mas em nome do que sentia por ela, estava
pronto para arriscar.
Takano
-
Bom dia!
Por
um momento João achou que estava na própria casa, que nada daquilo havia
acontecido, então atinou que o oriental ao pé da cama devia ser alguém do grupo
de Luna, alguém em quem confiar.
-
Bom dia. Desculpe estar aqui, mas...
-
Eu sabe, Takano conhece história toda. Você amor adolescente de Vitória, né?
-
Vitória? Quem é Vitória?
-
Luna. Nome dela agora Vitória, antes Luna. Café da manhã para amor de Luna.
Muito trabalho espera. E muito estudo também. Você Joao agora, depois escolhe
nome novo. Eu, Takano, instruir Joao tudo que Joao precisa saber para não
morrer e evitar mortes.
O
sujeito com aparência de quarenta anos não poderia ser mais japonês, desde a
roupa até o sotaque. Enquanto falava mostrava uma mesinha onde havia café, leite,
pão e frutas.
João
levantou estendendo-lhe a mão.
-
Obrigado, Takano. É um prazer. Mas gostaria que você entendesse que tudo isso é
novidade para mim. Na verdade estou um pouco confuso, sem saber no que
acreditar apesar de ter feito o que fiz. Você é um deles, um tomador de elixir
que vive há muito tempo?
O
homem pensou por um momento e, de repente já não tinha o sotaque.
-
Você foi corajoso ontem, provou o que sente e isso pode salvar algumas vidas. É
melhor que entenda de uma vez o que está em jogo aqui. Respondendo, sim, venho
tomando o elixir há mais de quatrocentos anos. Sou um entre as poucas centenas,
talvez por não ser dos mais velhos, que insiste em continuar vivendo. Muitos de
nós estão deixando de tomar e, com isso, morrem.
-
Luna falou sobre isso, o que não entendo é porque alguém que descobre a fonte
da juventude, que pode viver eternamente e com saúde, de repente decide morrer.
-
João, é simples. Me diga o que te fez viver até hoje.
A
primeira coisa que lhe veio à mente foi Luna, em seguida os meninos, o jornal e
alguns momentos alegres.
-
Não sei dizer. Talvez objetivos e amor?
O
homem abriu os braços.
-
Tudo o que você vê é o objetivo conquistado de alguém. Esta casa, esta fazenda
inteira, tudo foi feito por amor a alguém, para dar segurança e um futuro. O
primeiro dono morreu e outras pessoas ficaram com ela, outros amantes. Tudo
morre e perde o sentido, inclusive o amor. Pessoas vivas há muito tempo vêem
esse ciclo várias vezes, passam a preferir se relacionar com seus iguais,
outros imortais, mas o que sentem também se esgota. Fazem novas tentativas até
que todos tenham se relacionado entre si. Quando isso acontece, não resta nada.
Todos os objetivos foram conseguidos e todas as pessoas amadas.
-
O que sinto por Luna não vai acabar!
-
É o que nosso grupo acredita. Você manteve o que sentia oculto por bastante
tempo e agora isso ressurge com tanta força que o elixir dela funcionou em
você. O que vamos fazer é te dar uma dose maior e ver quanto tempo passa até se
esgotar o efeito. O problema é que isso cotraria os interesses de alguns. Todos
nós achamos que você deveria desenvolver seu elixir sem ajuda, mas até ter tomado
com ela, você não fazia idéia da existência disso e seu corpo não duraria tempo
suficiente para entender os conceitos e preparar o seu. Por isso, nós os amigos
de Luna, decidimos interceder e te dar essa chance.
-
Por isso estou escondido aqui?
-
Exato. E como somos criminosos, seremos perseguidos e punidos.
-
E o que acontece comigo?
-
Você seria eliminado sumariamente. A maneira de evitar isso é você desenvolver
o seu elixir o quanto antes e aprender a se defender. Mas não se preocupe,
temos como defendê-lo enquanto você estiver aqui. Por ora, tome seu café. Aí
fora tem um carrinho de mão com livros e amanhã chega o elixir de Vitória ou
Luna, como preferir. Volto mais tarde com seu almoço.
Ele
já ia saindo quando João o deteve.
-
O que houve com o seu sotaque?
-
Primeiro ensinamento, né? Sinhoro Joao
aprende que aparência importante. Takano japonês, com jeito japonês. Ninguém
faz pergunta. Notícia não chega no inimigo.
No
carrinho de mão estavam os mesmos livros que Luna lia na faculdade e mais
alguns. João conhecia o conteúdo, coisas que para ele não tinham sentido e que
agora teriam de ter.
Era
excitante estar ali, mas ele não se reconhecia como ele mesmo. Não era mais o
velho dono de jornal, um sujeito que jamais faria o que ele fez no dia anterior.
Não
sabia o que imaginar. Aquilo que estava no vidrinho pode ter sido uma droga qualquer.
Seria tudo uma alucinação? E que droga o faria sentir mais jovem, com forças
para desafiar o desconhecido?
Melhor
ler já que sua vida depende disso e não pensar.
Luna
viria, foi o que pensou. Por isso passou todo o dia sozinho, lendo e tentando
entender. Takano apenas deixou um prato de comida e se foi. Outro quando caiu a
noite e só o que disse foi onde estava um lampião de gás.
Pela
manhã, lá estava o japonês com uma garrafa de refrigerante de dois litros, uma
caneca e um despertador.
-
Tome agora. Não sei como é o gosto, mas tem de ser a caneca toda. Vou regular
este relógio e toda vez que tocar, você toma uma. Acho que você vai perder a
noção do tempo, talvez fique confuso, mas não deixe de tomar.
-
Luna não veio?
-
Ela não pode vir. Está sendo vigiada. Nossos rivais não são estúpidos. Sabem
que vocês se encontraram e vão estranhar que você tenha morrido logo depois. O
coveiro mudou de emprego e de cidade, mas eles vão encontrá-lo. Mais algum
tempo e virão até aqui.
-
Sei que é urgente, mas eu não consigo entender nada do que esses livros dizem!
-
Não tente entender com a razão, são símbolos, leia como se fossem poemas.
Quando estiver pronto, naquele baú tem um fogareiro e tudo o que você vai
precisar.
-
Mas o que é ovo cósmico?
-
Poesia, João, poesia!
O
gosto não chegava a ser ruim, uma água densa, doce e um pouco enjoativa. De
alguma forma, talvez por saber que era dela, o gosto ou o cheiro lembrava Luna.
Seguiu
lendo assim que Takano saiu, poucas páginas depois começou a sentir torpor. Em
seguida as letras se embaralharam e as ilustrações pareciam se mexer.
O
despertador tocou fazendo-o perceber que havia dormido. Encheu outra caneca e
tomou sem pensar. Os ponteiros moviam-se rapidamente. Novo toque e mais uma
caneca era esvaziada. Era um relógio antigo. Quem dava corda?
Ao
olhar pela janela, via a luz do sol e logo a escuridão da noite. Saltava de um
ponto a outro do casebre sem se lembrar de ter caminhado ou para quê. Dormia e
acordava sem perceber. Sentia dor e prazer alternados, tossia, cuspiu alguma
coisa que o incomodava. O relógio tocava e ele tomava uma caneca
automaticamente, completamente sem noção de tempo.
-
João! Acorde!
A
voz parecia vir de muito longe. Takano o sacudia. Antes mesmo de abrir os olhos
sentiu o cheiro forte, acre. Sem se levantar, olhou ao redor. O casebre estava
uma bagunça, havia poças de vômito e fezes pelo chão.
-
Putz! Eu fiz isso?
-
Nada além do previsível. Mas podia ter usado o banheiro. Como se sente?
-
Como se tivesse sido atropelado por um trator. Estou fraco. Meus músculos estão
travados e to meio zonzo como se tivesse tomado o maior porre da minha vida!
Minha memória também pifou. Por quanto tempo fiquei aqui?
-
Oito dias agora e todo o elixir. Você comeu muito pouco, mas é melhor não
abusar. Lá fora tem uma jarra de caldo de cana e frutas. Também vassoura, um
balde e um esfregão.
Havia
alguma coisa diferente em sua boca que modificava sua voz. Buscou a ponte, os
dentes estavam lá, mas faltava o ferro. Suas mãos estavam diferentes, com a
pele mais hidratada e sem os pêlos brancos.
-
O que houve comigo?
Tentou
se levantar, mas sentiu o mundo girar e praticamente caiu no lugar onde estava.
-
Calma! Você vai ter muito tempo para se acostumar com as mudanças.
-
Um espelho! Me arranja um espelho!
Takano
foi até o banheiro e tirou da parede o pedaço fixado por pregos e arame. Quando
viu seu próprio rosto, num segundo a mente de João repassou tudo o que havia
acontecido até aquele ponto.
É
verdade! Aconteceu mesmo! A coisa funciona!
A
aparência era de um homem de, talvez 35 anos, mas não como ele era nessa idade.
Os cabelos brancos estavam no travesseiro, em chumaços e, embora estivesse
quase careca, o couro cabeludo estava cinzento, pronto para produzir fios
novos. Seus olhos pareciam maiores, o mesmo para a boca e, dentro dela havia
dentes novos.
-
Isso é absolutamente fantástico!
-
Mais do que você imagina. Isso não deveria acontecer. Nunca aconteceu antes.
-
Nunca?
-
É, você é o primeiro caso. Isso que você tomou, num laboratório comum de
análise, seria classificado como água suja. É temperado com símbolos, rezas e
esperanças. Que funcione para quem fabricou é compreensível, mas não para
alguém que não tem a mesma memória celular e os mesmos sonhos. Não funcionaria
nem com gêmeos idênticos.
Takano
parecia contrariado ao andar para a porta.
-
Limpe tudo isso e coma. Se você estiver bem, amanhã começaremos seu treino.
Aos
poucos João se levantou e logo se sentia muito bem. A fome era moderada para
quem não se lembrava da última refeição. Algumas frutas bastaram. O quarto
parecia uma área de desastre, mas como seria ele a dormir ali, o jeito foi
encarar o mal cheiro e pôr mãos a obra, com paradas para se ver ao espelho e
renovar a surpresa.
treinar
-
Acorda, sinhoro Joao! Vamos ver do que esses músculos renovados são capazes!
O
dia ainda não tinha nascido. Takano vestia um quimono e tinha outro para ele.
-
Mas ainda é noite, Takano!
-
Isso é porque sol não aparece, quando aparece é dia, né?! Café da manhã casa
Takano, Takano correr, Joao atrás. Se Joao alcança Takano, aprende luta do
jeito bom, se não alcança, aprende do jeito mau.
-
Por que o sotaque?
-
Esposa Takano pode acordar. Ela burasirera, Takano japonês. Os detalhes são
importantes, João.
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