sábado, 3 de março de 2012

AVISO: não dá pra chamar este texto de leve

As duas Dorotéias e o coveiro voador

Cavar, é pra isso que eu sirvo, e assistir de longe as pessoas que choram ao redor do buraco que fiz. Retangular, com lados perfeitamente paralelos na terra dura.
Mortos. Entes queridos que se foram. Não sei ao certo o que é “ente”. Se é parente, cadê o par? (par-ente, sacou?). Mas é presunto mesmo, morto, cadáver, decujus… (essa é chique!). Parecem bonecos, pior, sabe aquele frango de televisão de cachorro? Pois é.
Nunca tive os tais entes queridos, talvez por isso não sinta o que eles sentem.
Quem me é valioso? A quem eu “prantearia caso fosse desta pra melhor”?
Eu sei essa. Prantear… só não sei se o presunto vai desta vidinha sem vergonha pra alguma coisa que seja menos mal.
Desde que me entendo por gente sou órfão, ou seja, é como se tivesse nascido da infiltração nas paredes do orfanato católico onde esperei ser adotado por muito tempo.
Nunca fui adotado. É como se ninguém me quisesse e quando é assim, é como se a pessoa não tivesse um lugar no mundo, como se vivesse entre a realidade e os mitos de céu e inferno de que as freiras falavam. O tempo todo vitima ou herói. Sem meios termos.
Uma pessoa sem raízes, sem os tais entes queridos, tem outra visão de mundo, outros valores.
Quando consegui o trabalho no cemitério, foi como me casar. De repente tinha mulheres, filhos, sogras, pais, mães, amigos. Todos frios, silenciosos, calmos, inertes.
Ali amei primas, sobrinhas, esposas, mães.
Cabia a mim enterrar. Fundo ou raso. Eu escolhia a profundidade conforme a minha conveniência, e a minha conveniência eram os belos.
Ah, discutir sobre o belo! Que delicia!
Foram muitas noites caminhando sozinho no cemitério, bebendo e falando sobre o que faz uma pessoa bonita ou feia. Isso sempre terminava com um momento de intimidade com um dos meus quietos amores.
Prantear… chorar… entes queridos que foram desta para melhor…
Ente é filho? Descendente? Um cunhado?
Seja o que for, dá tesão.
O mesmo otário que ontem atravessou o caminho de um ônibus, hoje pode ser o melhor cuzinho da área. E qual é a diferença de um cara desses e um vivo? Um babaca que reluta antes de ceder, de se doar. Inteiro. Tipo, “eu sou seu, meu macho!”
Bichas!
E quando se sai? O que se vê na rua?
Mauricinhos adolescentes cheios de testosterona em busca de putas por um lado e vagabundas que se orgulham dos muitos que formam uma enorme fila do outro.
Honras à rainha! Pelo menos até a primeira transada, quando voltam ao status de puta.
Status de puta: estado em que uma mulher não come se não faz sexo.
Melhor meus passeios noturnos na segurança do quintal da casa onde fui morar quando me empreguei. Lá encontrava moças e belos garotos, que precisavam ser reconduzidos aos seus caixões depois de uma bela fudida.
Mas do lado de fora tem as vivas. Não putas, só mulheres comuns, tipo (como posso dizer?) dadas.
Era raro sair de casa, um barraco num canto do cemitério, pra beber e relaxar. Mas fiz amizade com o jardineiro, ele me chamava pra jogar sinuca ou beber nos bares do lado de fora.
Houve uma noite em que conhecemos uma moça que aceitou o convite de irmos os três para casa. Ela ficou um pouco assustada, mas dava pra ver que o medo era parte de um jogo que ela fazia.
Medo, vinho, transgressão, volúpia…
A moça era uma dessas maluquinhas que se vestem de preto e não tem qualquer marca de sol, parecia uma vampira. Não pensou que seria ela a carne quente, a bola da vez. Pra mim era como lasanha depois de muito arroz com feijão.
Mas fazia muito barulho. Gritava e gemia achando que ali e àquela hora ninguém ouviria. Meus entes estavam ouvindo. Como alguém pode não respeitar os mortos?
A idéia de silenciá-la veio enquanto meu amigo a possuía sobre um túmulo. Uma troca de olhares foi suficiente pra decidirmos o que fazer.
A moça, enlouquecida, queria ver o próprio sangue. Corri até o barraco e peguei uma faca enquanto meu amigo diminuía o ritmo. Aproveitei a gozada para fazer pequenos cortes nos braços dela, em seguida deixamos que ela manchasse nossas roupas. Ela se excitava com isso, com a dor e com qualquer coisa que fizéssemos, de preferência de surpresa.
O que ela não percebia é que ficava mais fraca a cada golfada de sangue. Isso não a impedia de gozar seguidamente.
Não dava pra ver o sangue sobre o mármore preto, mas dava pra sentir o melado, o calor, o cheiro. Ela continuava gritando, mas cada vez mais baixo, até que parou.
Foi um alivio pra os ouvidos e certamente, pra mim, ela estaria melhor no dia seguinte.
O jardineiro, entre arrependido e enojado, foi para a casa dele. Eu ainda me diverti com ela depois do banho que lhe dei.
Ela ficou debaixo da minha cama por todo o dia seguinte enquanto eu lavava o túmulo e abria novas covas.
Deixei-a numa sala ao lado do ossuário. Era tão linda que não quis enterrar.
Essa foi só a primeira, até porque não teve qualquer conseqüência. A policia não procura mortos num cemitério, talvez porque seja obvio de mais. Primeiro vão aos hospitais, ao iml, esperam por pedidos de resgate, essas coisas que aparecem na televisão e chamam de rotina policial.
Mesmo assim, fiquei na minha. Não que tivesse tanto medo de ser preso, era outra coisa. Não foi tão bom quanto pensei que seria e acho que fiquei com vergonha a ponto de não querer responder perguntas sobre isso.
O calor e a voz de uma pessoa viva incomodam, os cheiros invadem o nariz como uma ameaça à saúde. Cheiros quentes, umidades estranhas e movimentos mais estranhos ainda. Era muita desvantagem junta. Achei melhor continuar com minhas mulheres quietas.
Já estava de volta a minha rotina quando conheci Dorotéia, a filha de alguém que passou a ocupar uma das minhas covas. Chorava de soluçar, tanto que ofereci um copo de água com açúcar. O resto dos parentes achou uma atitude bacana e se eu era um cara bacana, ela poderia ficar comigo.
Na verdade era uma menina problema, uma revoltada inútil que a família teria de carregar nas costas agora que o sujeito que a mantinha estava morto.
Ela contou tudo isso no barraco enquanto segurava o copo. Não amava o velho, seu padrasto, chorava porque tinha muita raiva dos outros, também porque temia por seu futuro.
Ouvi tudo como se estivesse interessado, enquanto imaginava como ela ficaria coberta de flores, consegui dizer uma ou duas coisas que fizeram sentido.
Na situação em que ela estava, seria muito bem-vindo um romance. Eu poderia ser um tipo de degrau pra alguém menos pobre e ignorante. O barraco não era meu, mas era um lugar pra morar, e se fui gentil uma vez, poderia ser sempre o mesmo tipo de otário.
Da água com açúcar, passamos pra o café, depois um gole de uma cachacinha que eu guardava, então ela passou a fazer cara de peixe morto e jogar cabelo.
Sabia que sentiria todos aqueles cheiros de novo, mas alguma coisa me impediu de mandá-la embora.
Um órfão tem os mesmo sonhos de qualquer um, mas alguns têm mais força.
Ter uma família, casar, dar pais a um filho. Por isso fui enfrente na palhaçada, e acho até que caí no laço dela. Acho não, caí mesmo!
Em nome de um futuro que eu sabia que não teria, voltamos a nos encontrar no outro fim-de-semana, e depois de um mês, lá estava ela com sua escova de dente e, numa trouxinha, seus panos-de-bunda.
Não era pra ser um namoro, ela me pediu socorro quando seus parentes a expulsaram e, afinal, era eu que tava comendo.
Durou pouco e terminou como tinha de ser: ela disse que arrumou um emprego e logo estava na cama do patrão. Mudou-se do mesmo jeito que veio, de repente, mas deixou um buraco no meu coração.
Talvez tentando diminuir a dor que via nos meus olhos, disse outra coisa: você não é nada pra mim e nem eu sou alguém pra você. Concordei, havia sido o otário por um tempo sonhando com uma vida diferente. Persegui um conto-de-fadas mesmo sabendo que estava longe de ser príncipe e aquela não era princesa. Deu a lógica.
Esse buraco foi aumentando com o tempo. Eu sabia que isso aconteceria antes de diminuir e fechar, só não contava com a esperteza do tal patrão que, depois de comer bastante, descartou o bagaço.
Voltou ela e os panos-de-bunda, mas desta vez, eu é que tinha o poder. Impus que ela ficaria só aquela noite e eu faria com ela o que quisesse.
Mais uma vez eu via aquela expressão de medo e tesão juntos quando a convidei pra ir até aquele mesmo túmulo. Ela não sabia, mas o jardineiro já estava lá.
Aceitou a brincadeira, deitou quietinha sobre o mármore frio e chorou sem soluçar, só se apavorou quando viu a faca. Expliquei com toda a calma que não ia doer muito, que ela poderia curtir a dor como a outra fez e que não sairia tanto sangue assim.
Desta vez não tinha vinho, ofereci a cachaça e ela tomou como se fosse água.
Foi melhor. Ela tombou em silencio. Dormiu antes de morrer. E foi esfriando aos poucos, como se esfriar fosse um tipo de carinho.
Agora já tinha duas lindas moças sentadas lado a lado. Eram lindas, cada uma e as duas juntas, como um par de vasos.
O cemitério era a minha casa e eu queria uma casa bonita. Se morasse numa galeria de arte, ia querer as pinturas e estatuas mais bonitas, se fosse uma igreja, os santos mais bem entalhados.
Se meus enfeites apodrecem como flores num vaso, isso quer dizer que precisam ser trocados de tempos em tempos.
Dorotéia apodrecia mais rápido, talvez por ter tomado mais sol durante a vida. A outra manteve seu ar vampiresco, uma coisa orgulhosa, mesmo que um verme tivesse saído do seu nariz justamente quando a admirava.
Ao lado do ossuário, que é subterrâneo, há uma pequena sala com uma porta que, de tão suja, parece parte da parede de pedra. Era lá que as mantinha. Essas áreas eram isoladas por causa do cheiro, eu mesmo não tinha qualquer interesse em ocultar essas duas que, pra mim, eram como obras de arte. Foi assim que passei a chamá-las, obras de arte.
Policia e punição eram coisas que não me passavam pela cabeça, infelizmente, também não fazia idéia de que poderia conservá-las em fotografia.
Para um assassino louco de filme policial, a sala secreta era um lugar oportuno, mas era improdutivo para um artista da vida real. Era no que eu estava me transformando, como me sentia.
Eu queria mesmo expor, cheguei a falar com o gerente do cemitério, um burocrata medroso que sequer desceu pra ver. Ele negou, mas disse que eu poderia usar qualquer espaço ocioso para, nas minhas horas vagas, pintar, esculpir, fosse o que fosse. Só não poderia trazer estranhos e muito menos vender minhas obras dentro do cemitério. Sugeriu que eu procurasse uma galeria, mas ponderou que não seria o mesmo se tirasse à obra de seu contexto.
Eu não entendi nada, ele imaginava uma coisa quando eu falava de outra. Do alto de sua cultura, ele via uma coisa ligada a vampiros e suas vidas sombrias. Negou, mesmo lamentando essa coisa de contexto, seja isso o que for.
De qualquer forma, as obras eram poucas. Ficavam durinhas encostadas na parede e seria melhor fazer um tipo de composição usando a sala toda.
Tentei matar os vermes, passar verniz, apliquei injeções de formol, mas nada funcionava nelas, nada parava o tempo.
O jardineiro surgiu com um novo componente. Desta vez foi ele a me chamar pra dar conta de alguém encima do túmulo, um viadinho.
Dorotéia estava certa quando disse que essa coisa preconceituosa contra bichas realmente não tem nada a ver. Nada como o entusiasmo de um ser humano, não importa o sexo, que quer dar prazer a outro! O rapaz se esforçou, mas quando sentiu a faca, achou que poderia fazer um de nos sangrar também. O jardineiro fez que gostou num primeiro momento, mas quando o rapaz menos esperava, segurou sua cabeça e bateu contra a quina do túmulo, forte, três vezes, até ouvir um croc. O rapaz desabou no chão e o que me ocorreu foi sentir o lento resfriar.
Meu amigo estava nervoso, pela primeira vez sentiu raiva e culpa, mas não pensei que fosse tanto. Enquanto eu me deliciava, ele ofendia o sujeito andando de um lado para o outro e gesticulando. No fundo, questionava a própria sexualidade.
Carreguei o cara para o barraco e lá vi o estrago. Havia um afundamento do lado da cabeça, não saberia dizer se isso estragaria a composição da obra na sala ao lado do ossuário. Decidi pensar nisso depois e o coloquei debaixo da cama.
No dia seguinte, meu amigo pediu demissão logo pela manhã e foi embora sem ter trabalhado.
À tarde, outra “biba” apareceu no cemitério procurando o primeiro. Era o marido, o dono do dinheiro do casal. Bem que tentou se segurar, mas visivelmente perturbado, chorou e explicou que tinham brigado e ele mandou o outro embora. Alguém viu e disse para ele que seu parceiro tinha saído do bar onde estavam com o jardineiro de um cemitério.
Coveiro e jardineiro podem ser amigos porque são colegas, expliquei, mas isso não significa que um saiba das aventuras noturnas do outro.
A noção geral é que trabalhadores de cemitério são como monges, todos graves, sérios e respeitáveis.
Gente que lida com a morte e a dor, é o que se pensa, têm um tipo de sabedoria que ninguém tem acesso. Trabalhando num cemitério aprende-se que o que ninguém quer admitir é que gente morre que nem galinha. A galinha parece saber que vai para a panela, se apavora e foge até que, exausta, se entrega. Quando recebe o golpe fatal, dá um último suspiro e estremece, esse é o fim. Com gente acontece o mesmo, como não há panela, depois do golpe fatal vem apenas o nada, a imobilidade e a lenta putrefação.
O sujeito deu meia-volta e foi para o próximo cemitério. O engraçado é que eu ainda tinha nas mãos o pano e o balde com água, sabão e o sangue de seu parceiro.
A vampira ficava melhor em primeiro plano, depois vinha o cara e só então Dorotéia. Era assim que compunha melhor. Mas a sala ainda era grande.
Gostei muito do que estava fazendo, mas era meu trabalho com a pá que, afinal de contas, punha feijão na minha panela.
Precisei de uma enxada nova e fui ao centro da cidade comprar. Acabei jogado no chão por um carro.
Juro que não vi de onde veio, apenas acordei no chão com uma dona pedindo socorro e puxando meu braço. Me ergui rapidamente e disse que estava bem, louco para sair daquela situação vexatória, mas cai novamente, poucos passos adiante.
Senti que era movido de um lado para o outro e que alguém me examinava, mas não consegui me manter consciente.
Acordei de novo dentro do mesmo carro, babando no banco cheiroso de couro.
- O médico disse que você não tem nada, - disse ela do banco da frente. - O que você quer para não me processar?
Eu só queria descansar um pouco e foi isso o que pedi antes de apagar mais uma vez.
Acordei numa cama enorme, num quarto cheio de esculturas douradas, tapetes, cortinas. Sei lá se tinha fome, sei que avancei uma cesta de frutas que tinha ao lado da cama. Minhas roupas tinham sumido, o que vestia era um pijama de um pano liso e fino como água. Tinha uma sacada de onde vi o carro que me atropelou, um importado grande, estacionado entre as flores de um jardim melhor do que o do cemitério.
Abri a porta e coloquei a cabeça para fora. Havia um corredor proporcional ao quarto e tão luxuoso quanto, onde moças uniformizadas passavam apressadas falando uma língua que eu n entendia.
Uma delas parou e fez um barulho assim: rai, ueriu from? olhando para mim com cara de quem pergunta. Pensei no cemitério e respondi com a única palavra estrangeira que conhecia e que tinha a ver com minha profissão: “calavera”, com uma das mãos espalmada no peito.
- Ah! Uelcam, mister Cavalera! Depari tunaitis inior onur aifinc. Its eitocloc. bateiquiortaime. Ifiu nidi sanfem, calme, aimolivia. Olivia oquei? Bai!
De onde é essa gente? Que porra eu faço aqui e cadê minha roupa? Não perguntei nada, só fiquei olhando a moça ir embora, então voltei para o quarto.
O nada, um lugar estranho, cheio de detalhes dourados e panos finos pendurados.
Eu havia dito calavera, caveira em argentino, e a mulher repetiu cavalera. Trocou tudo.
Senti tontura e deitei de novo. Não percebi o sono me pegar. Dormi até que alguém entrou.
- Señor Cavalera, perdoname pero tienes que hablar con los invitados.
- Porra, cara, sei lá o que você ta falando. Eu não sou esse tal de Cavalera. Eu disse “calavera” para a moça que tava no corredor, calavera!
- Ah! É um erro compreensível, desculpe. De qualquer forma, a recepção já começou. Levante, por favor, eu vou ajudar o senhor a se vestir. E se precisar de um aditivo, posso arranjar também.
- Mas só tô aqui porque a mulher passou por cima de mim, me atropelou!
- Sim, madame Madeleine Silva já esta no púlpito, mas todos terão sua vez de falar. Não se preocupe.
O cara não tava entendendo nada, com uma agilidade que eu nunca vi, pegava roupas boas, não as minhas, num dos armários e me vestia como se eu fosse um inútil. Depois me empurrou porta afora até uma escada.
Ao descer, me surpreendi com um sistema de som que me identificava como senhor Henrique Cavalera, um importante líder sindical de um país vizinho. Alguns ergueram suas taças, outros aplaudiram.
Assim que pisei no carpete um garçom me deu uma taça de vinho e, em seguida, outro surgiu com uma bandeja com pãezinhos com um creme sei lá de quê.
Que ser humano deixaria de aproveitar um momento de paparicarão quando só ele sabe a verdade? Nadei de braçada! Fui tomando tudo e falando com todos os importantes como se fossem colegas lá do cemitério.
De repente, estava diante da dona Madaleine Silva que me puxou de lado para dizer:
- Mil perdões, senhor Cavalera, nunca pensei que atropelaria um dos meus convidados! Mas o importante é que no final deu tudo certo, não concorda?
- Calavera, dona Madalene. Ca-la-vera.
A pobre mulher estava com a cabeça cheia com os detalhes da festa, todos urgentes. Um de seus convidados era esse tal de Cavalera, eu era o Calavera, um penetra sortudo, criativo na melhor das hipóteses.
Sei lá o que me deu de apagar varias vezes naquele dia. Bati a cabeça, só pode ser isso, mas não sentia nada, só a bebedeira normal enquanto falava besteiras para os bacanas.
Teve aquele momento em que ouvi: Porra, mas quem é você afinal? Sou um artista, foi minha resposta.
Gente que quer ter um quadro que combina com o vestido da esposa e o sofá não ia mesmo querer ver uma obra feita por um coveiro nas catacumbas de um cemitério. Mas isso não deixa de ser desafiador.
O tal Cavalera chegou e fez seu discurso, de repente, eu era só o Calavera, o artista e coveiro. Nessa ordem.
No final, dona Madeleine Silva, já meio bêbada, acreditava que tinha nas mãos um grande artista. Mais do que isso, achava que teria um grande amante. Se instalou no quarto onde fiquei, cheia de delicadezas, mas nós dois sabíamos que o que ela queria era cobrar o aluguel.
Bem melhor do que o barraco no cemitério era essa casa enorme e freqüentada por políticos daqui e dos países vizinhos. E trepar é trepar, tanto faz o estado etílico do parceiro ou seu nível social.
Dona Madeleine Silva lidava com valores. Antiguidades, moedas, selos, obras de arte, relíquias, investimentos em moeda estrangeira e coisas mais complicadas das quais nem sei falar.
Véia gostosa! Tiazinha cheia de “reniu” na cara e silicone nos peitos. Cinqüenta e vários com cabeça de vinte e alguns. Ela dizia “alma jovem”, eu pensava “retardada”. Não falei nada, só pensei, claro, afinal, da merda que sempre foi minha vida, agora tava com tudo. Vou reclamar? Nem a pau!
No outro dia, tivemos uma longa conversa, eu e dona Madeleine, sobre meu lado artista, isso depois dela rir com toda a confusão que se criou. Falei do que vinha fazendo no cemitério omitindo, é claro, como conseguia os corpos. Deixei que ela pensasse que eram apenas ossos velhos empilhados.
Ela teve uma idéia, conhecia alguém numa instituição para doentes mentais e me queria como o artista dos loucos. Era uma mentira que, segundo ela, poderia vir a ser lucrativa se eu aceitasse estudar com um outro amigo dela, um senhor que dominava tanto técnicas quanto a historia da arte.
Foram seis meses usando a suíte depois da piscina como estúdio e dormindo com madame, no atelier, no quarto de hóspedes ou no quarto dela.
Trabalhava normalmente no cemitério e depois ia para a casa do seu Ênio, um italiano refinado que não só me ensinou a trabalhar com fibra de vidro e tinta automotiva como me deu noção de mitologia grega e filosofia.
Com base no que aprendi, pude fixar a beleza de Dorotéia, minha vampira e o garoto.
Molde em gesso, fibra de vidro e tinta, esse era o segredo da beleza eterna.
Foi um período em que nem pensei em me masturbar. Fui para três ou quatro países vizinhos para trocar dinheiro e voltei como artista reconhecido, mesmo sem mostrar nada.
Mais alguns meses e eu teria a chance de mostrar o que fazia para os mesmos bacanas que já me conheciam como Calavera, o artista.
Preparei alguns anjos da morte, uma réplica do corpo semi decomposto de Dorotéia, minha versão para Afrodite, a vampira e o garoto. E fiz outros, uma Celene, a deusa da lua, sem cabeça e algumas outras que, ocas, só precisavam de um espírito.
Não sei por que cismei com isso.
Na noite da vernissage com coquetel, eu estava muito nervoso. Queria mostrar tudo o que tinha, levar tudo para a sala, mas Madeleine, a Madê, me pediu calma. Queria fazer segredo, por isso me pediu para deixar algumas peças no estúdio.
Tudo era festa, as pessoas estavam ocupadas em confraternizar umas com as outras num primeiro momento, só depois é que pensariam no motivo de estarem ali, que era ver obras que só estariam acabadas com a ajuda delas e que serviriam para alimentar malucos de uma instituição qualquer.
Eu era o artista maluco que simbolizava todos os malucos de amarrar da tal instituição.
Minha obra, toda a beleza que eu via e reproduzia, era o que um doido de pedra, um interno de um hospício poderia realizar.
Honestidade era o que seu Ênio pedia que eu pusesse em qualquer obra. E em nome dessa honestidade, eu não julgava as peças prontas.
Fiquei naquele quarto de hóspedes, esperando que alguma das meninas me chamasse quando madame julgasse o momento dramaticamente correto. Eu mostraria e comentaria as peças e ela negociaria na biblioteca.
- Señor Calavera, los invitados aguardante abajo.
- Ah, vá te ferrar, piranha!
O que ela disse foi como o soar da trombeta de anjos! Logo estaria mostrando minha criação para gente importante. Isso vale mais que dinheiro! Só chamei a menina de piranha porque ela falava minha língua e ficava com frescura.
Desci a escada como eu mesmo, não como o cara que tinha um nome parecido com o de outro e fui aplaudido como o outro.
Um fotógrafo tinha ido ao cemitério e tinha painéis grandes pelas salas. A decoração estava ao gosto da vampira, tudo era meio lúgubre com panos pretos esvoaçantes, velas davam o clima no salão principal e archotes mostravam a entrada.
Parecia uma festa a fantasia e caberia a mim mostrar, a quem se interessasse, um original.
Me vestiram como a um palhaço, só faltou o nariz vermelho, “eu deveria parecer um artista e não só ser isso” segundo Madê, e me empurraram para o salão sem me dizer se eu deveria aceitar as pipocas se jogassem para mim.
Mas a cerveja estava bem gelada e o uísque tinha 12 anos. O que mais um pé-rapado como eu poderia querer? Sabe o quê? Conteúdos, almas para meus corpos.
Uma senhora muito simpática foi a primeira que se meteu no estúdio. Gostou do que viu e voltou para o salão cheia de elogios. Isso trouxe uma outra, invejosa do tipo que qualquer coisa que a primeira achasse bom, ela compraria.
Escolheu justo a Afrodite sem cabeça e fez questão de preencher o cheque na minha frente, com o numero que madame Madeleine disse. Zeros demais para mim.
Assim que Madeleine saiu, a mulher começou a se insinuar, fazer voz de comercial de motel e mexer nos peitos. Chegou a pôr a bunda no meu pau com a desculpa de ver alguma coisa do pé da obra. Parecia uma cadela no cio.
Nos beijamos e houve um momento de erotismo, mas eu queria aproximar a imagem que fiz da Dorotéia original, da essência da idéia que me levou a criar a peça.
Em meio ao calor daquele momento, um inocente cabo de um pincel foi penetrando por entre as carnes decadentes e os ossos frágeis até atingir o coração agitado. Os olhos, entre a surpresa e a descrença, se fixaram no meu rosto até perder o brilho. Foi um movimento rápido, decidido, mas não acho que tenha sido esse o motivo da ausência do grito que fatalmente viria, acho que foi a surpresa. Não houve tempo para o terror.
A peça oca finalmente teria conteúdo. Eu tinha tudo preparado para fazer as adaptações rapidamente. Cortar pés ou partes que fossem além do espaço previsto. A alma deve caber perfeitamente no corpo. Mas eu tinha de trabalhar rápido ou não aproveitaria a festa que, afinal de contas, era para mim.
Trabalho feito, voltei ao salão.
Madeleine Silva me aguardava com um casal de colunáveis. Vi nos olhos dela que foi legal ter demorado, tê-los feito esperar. O sujeito percebia a manobra, só não sabia se eu participava. Isso estava na cara.
No estúdio, ele perguntou se eu havia retocado alguma obra. Respondi que sim, só então ele me falou da tinta vermelha nos meus sapatos. Não era tinta. Claro que poderia ser usado como tal, mas não era o caso.
Eu teria dito exatamente isso se dona Madeleine não estivesse ansiosa para fechar outro negócio. Passou direto pela Afrodite dizendo “Esta obra já esta vendida, a senhora Sampaio pagou uma bagatela, mas meu artista achou que tinha de ser dela, o que posso fazer? Passemos para a próxima”.
Excelente marchand!
O dono do talão de cheques não gostou de nada, parecia sentir medo do que via. Chegou a comentar que se qualquer das peças fosse parar em sua casa, manteria as luzes acessas todo o tempo. Mas a perua se encantou com um busto inspirado na vampira.
Percebi que seria dela, como madame disse, mas para preenchê-la eu só usaria a parte superior de seu corpo. O que faria com o resto?
Voltamos todos para a sala e a mulher não desgrudou do marido até irem embora.
Com tanto vinho, cerveja e uísque, passei do ponto e não falei com mais ninguém. Madame fez outras varias vendas e me desobrigou de terminar todas. Não que ela tivesse idéia do que eu queria dizer, já alto, sobre terminar.
O busto ainda seria preenchido, prometi isso para mim mesmo, mas não naquela noite.
Dormi sozinho ali mesmo no atelier, bêbado e feliz, mas na manhã seguinte estaria de volta ao meu posto no cemitério.
As peças em fibra, espuma e tinta tinham a vantagem de não deteriorar e tinham, por outro lado, a “desvantagem” de não deteriorar. Eram outra mentira.
Depois de muito tempo voltei à sala ao lado do ossuário e percebi a superioridade da coisa em si sobre a cópia.
Com olhos mais críticos, graças ao curso do senhor Ênio, me pareceu uma obra tosca, coisa primária, mas o que não tinha de técnica, tinha de original e instigante.
Me ocorreu que a riqueza com a qual madame Madeleine Silva havia me envolvido me afastou da pureza linda e descamisada que gerou uma Dorotéia, por exemplo, e impedia que surgisse outra.
Apesar da insistência de Madeleine para que eu voltasse, fiquei no barraco naquela noite. Tinha baratas lá, mas fiquei mesmo assim para poder pensar no que faria em seguida.
Acordei com uma idéia na cabeça: era hora de matar a galinha dos ovos de ouro.
Na casa atrás da piscina ia uma moça limpar dia sim, dia não, mas ela não mexia em nada.
Não tive tempo de vedar a cabeça da Afrodite por isso o cheiro não era dos melhores.
Dei bronca e a expulsei de lá quando o que eu precisava era de mais tempo para pensar.
Optei pelo jeito mais simples: madame Madeleine Silva desapareceria sem deixar vestígios. Não haveria pedido de resgate e não havendo um “madamo” Silva, não haveria interesse envolvido. Não haveria nem motivo e nem cadáver. Sem cadáver não há crime, assim eu voltaria para minha velha e produtiva vida.
Não foi difícil, dona Madeleine queria comemorar o sucesso de vendas e achou que estava na hora de conhecer mais de perto minha vida, o que não impedia que tivéssemos, mesmo no meu ambiente, um jantar a luz de velas.
Levando as velas e dois belos candelabros, passamos num supermercado para comprar vinho e comida pronta.
Depois de um bom jantar e algumas taças de vinho, coisa que o barraco nunca havia visto, foi por vontade dela que tentamos reproduzir o que aconteceu com a vampira, com uma diferença: além da faca, eu tinha um belo candelabro.
O mesmo velho túmulo de mármore preto, o mesmo prazer que se misturava com dor e medo, o mesmo sangue e novamente eu tinha que lidar com uma mulher morta debaixo da cama.
Isto pode soar desumano, mas é preciso dizer que essas mulheres trocariam, como fizeram, a vida toda por um momento de paixão desses. É claro que a paixão era delas, era o que estava o tempo todo dentro delas e o que elas só conseguiram vivenciar no limite, quando a vida já não era possível.
Madame Madeleine nunca havia olhado para mim realmente. No começo eu era alvo de desconfiança e depois um ingênuo útil e um “desentupidor”, um brinquedo sexual.
Madame tinha outro amante mais ou menos fixo. Um cara bem mais moço que ela que, de vez em quando aparecia na casa e se trancava no quarto com ela o dia todo. Era menos freqüente do que eu, mas mais perigoso.
Porque usar apenas os serviços sexuais de um coveiro maluco metido a artista, um coitado que tinha tudo a perder, quando poderia variar?
- Coitado é a puta que o pariu, seu guarda!
- Vai, doido, volta pro seu buraco, seu bosta! E agradece a Deus que não vai pra cadeia por desacato!
A policia não é muito gentil, e nem inteligente. Eu disse que dona Madeleine estava comigo, no cemitério, lá embaixo. Isso foi dois meses depois da nossa festinha.
O cara achou que era piada. O outro (até esse momento eu não sabia que existia eu, quanto mais um outro) tinha motivos para chantagear, para sentir ciúmes a ponto de cometer um crime. Eu era só o maluco que ela vinha explorando.
Porque diabos ninguém vai lá embaixo? E porque não me levam a sério?! Coisa irritante!
- Ta bom, a mulher sumiu. E o que vai ser das minhas obras que estão na casa dela?
Tinha resina, lã de vidro, arame, a Afrodite que quem comprou não foi pegar e a família não queria.
Acabei conseguindo que o motorista dela levasse tudo para o cemitério, mas tive de carregar lá para baixo sozinho.
O pior é que não compôs. Como misturar coisas tão naturais que se decompõe com fibra de vidro? Mentindo? Pintando e desgastando?
É compreensível que policiais estúpidos não queiram descer, mas e se vier alguém que entenda o que estou tentando fazer? Verá uma mentira, um engodo, um desrespeito à inteligência.
Num acesso de raiva destruí as partes de fibra e joguei fora. Novamente não havia como compor um conjunto porque umas estavam muito deterioradas e madame Madê estava intacta.
Inferno! Eu queria corpos bonitos que, em toda a glória de sua nudez, compusessem um grupo harmônico, mesmo que recostados na parede suja da sala ao lado do ossuário.
A decomposição não rouba a beleza, aliás, seria uma beleza dinâmica, coisa que mudaria com o tempo, sem perder a magnificência. Até se tornar pó. Como tudo neste mundo.
Mas simplesmente não deu certo. As quatro obras deveriam compor um conjunto harmônico e não havia meios de realizar isso.
Entendi que aquele cemitério estava acabado para mim. Foi um teste válido, mas era preciso assumir que foi coisa de amador. Eu precisava mudar tudo, recomeçar do zero.
Mesmo sem um cadáver, prenderam o outro cara. Ele gastou uma grana preta com advogados mas, depois de seis meses na cadeia, não salvou o próprio cuzinho. Quanto à outra mulher, ninguém reclamou, não teve qualquer conseqüência como se ela nunca tivesse existido.
Quando se tem um propósito, algum desejo que venha do fundo do coração, o universo conspira em seu favor. Eu já cumpria o aviso prévio no cemitério e não encontrava outra coisa para fazer quando o pessoal daquela instituição me encontrou.
Era um manicômio que tinha malucos com parentes importantes e que conseguiu publicidade grátis exibindo a produção artística dos internos. Essa publicidade rendeu contribuições, mas eles ganharam dinheiro mesmo foi com as obras que madame Madeleine Silva vendeu.
Claro que tudo foi um engodo, fui mostrado como um dos internos quando não era, agora o representante dessa instituição me queria de volta para continuar a mentira.
- E o que é que eu ganho com isso?
Sou meio de escancarar mesmo. Se ele imaginava estar convidando um testa de ferro estúpido, então que pagasse meu preço.
- A instituição dispõe de um terreno contíguo ao prédio principal onde existe um chalé. É um quarto e sala equipado com geladeira, fogão e os outros móveis necessários. Está pronto para morar. Tem também uma cozinha bem equipada, lavanderia industrial e funcionários. Cozinheiros, copeiras, faxineiras, toda a infra-estrutura de um hotel, mais médicos e enfermeiras. Todo esse pessoal ficaria a sua disposição no chalé onde você pode trabalhar tranqüilamente com o material que eu mesmo fornecerei. Posso oferecer também um salário fixo mais participação na venda das obras. Isso é tudo o que posso oferecer e, cá entre nós, não acredito que uma pessoa precise de mais do que isso para viver bem.
Não pude evitar que minha boca se esticasse para os lados enquanto o sujeito de terno e cabelo lambido, seu Robson, falava.
Resumindo: Eu teria onde morar, trabalhar e comer, minha roupa seria lavada, ganharia um salário e receberia parte da grana da venda das obras além de ter um monte de gente me servindo. Reclamar de quê?
Para mim tava bom. Fechamos negocio.
Todo mundo sabe que não se faz negocio sem olhar o que se esta comprando, mas na hora, ouvindo o que ouvi, nem pensei nisso.
O tal chalé não era tão mau apesar de ser de madeira e ter chão de cimento. Tinha fogão, geladeira, mesa e umas cadeiras velhas do tipo de tem palha trancada no assento. O problema é que ficava na área onde os doidos tomavam sol. A comida, feita realmente numa cozinha cheia de aparelhos, era a mesma lavagem que era servida no refeitório, a roupa era lavada junto com a dos pacientes e muitos faziam suas necessidades nos lençóis, o salário trouxe os descontos por esses serviços e, finalmente, passado o primeiro mês, não produzi nada, logo não tive parte de nada.
Tinha toda a liberdade de sair quando quisesse, mas a cidade mais próxima ficava a 10 km seguindo por uma estradinha de terra, sem luz.
O máximo que os doidos faziam era meter a cabeça pela janela para olhar, assim que se acostumaram com minha presença, nem isso.
Eu já tinha comido coisa pior e não tinha tanta roupa, nada que não pudesse acompanhar na lavanderia ou lavar ali mesmo no chalé.
Nos primeiros 15 dias desse primeiro mês procurei apenas me adaptar ao novo local, segundo seu Ênio, a obra surgiria por si. Minha intenção era trabalhar apenas com fibra e produzir alguma coisa menos sombria.
Já que o sujeito que me colocou ali tinha dito para pedir o que quisesse, fiz uma relação, mas o seu Robson viajou e não deixou instruções sobre quem eu era e o que fazia ali.
Eu precisava de lã de vidro e ganhei crayon, pedi resina, tinta automotiva e aerógrafo e recebi cartolina, gouache e pinceis vagabundos. Em resumo: tomei na tarraqueta!
Mas ainda não cheguei no pior. Logo no começo do segundo mês, uma enfermeira feia como o capeta virado do avesso veio com uma conversa mole sobre tomar os remédios que os internos tomavam. Eu disse a ela que não era um dos malucos, mas ela foi falando que mesmo as enfermeiras tomavam e mais um monte de lorotas. Me enrolou e, até por curiosidade, acabei tomando.
O tal remédio que até os enfermeiros tomavam era um calmante fortíssimo, uma bomba que me deixou como um morto vivo por três meses até o cara voltar e me devolver para este mundo.
Durante esse tempo, não que me lembrasse claramente o que tinha acontecido, sei que aconteceram absurdos e abusos. Levei porrada, cagaram na minha cabeça e consegui me esconder quando achei que um enfermeiro fortão ia comer meu rabo.
Quando saí daquele estado, saí com muita raiva.
Seu Robson, que era um tipo de administrador, reuniu médicos e enfermeiros, me pediu desculpas e deu bronca em meio mundo na minha frente. Me deu um dinheiro para compensar o mal entendido e todo o material que eu tinha colocado na relação.
Ficou horas falando comigo, mas quanto mais ele falava, mais raiva eu sentia. De repente, eu não estava mais interessado em ser artista e nem queria mais morar lá. Não falei sobre meu desejo de ir embora, muito menos sobre aguardar o momento certo para ter uma conversa séria com algumas pessoas dali. Calado e às vezes sorrindo, elaborei minha vingança.
Em dois dias fiz um pinto grande, não tão grande que não pudesse ser usado, mas “graaande”.
A enfermeira feia virou um tipo de empregada exclusiva minha, conseguiu comida decente, talheres de metal (o que era proibido lá), biscoitos, refri, um laxante bem forte e uma seringa, mesmo sem agulha, para eu usar com tinta. Ou seja, bastava pedir que ela arranjava qualquer coisa sem fazer perguntas.
O fortão gostava de fumar maconha, disso eu tinha certeza.
A ordem dos fatos, quando eram claros, se misturavam na minha cabeça, por isso lembrava vagamente do cheiro da fumaça enquanto ele ria e mandava um dos loucos me sacanear.
Esse enfermeiro também tinha levado bronca, por isso estava meio arredio na sala de televisão quando tentei puxar conversa. Ali, assim que tive chance, emendei que não me lembrava de nada do que tinha acontecido. Deu para ver ele relaxar.
A conversa ganhou um ritmo mais agradável e fácil. Eu era um artista e, na cabeça dele, todo artista usa algum tipo de droga. Quando disse que tinha um baseado no chalé ele assumiu que era tudo o que ele precisava para relaxar antes de ir para casa.
Tinha também um pedaço de pau que o deixou quase a ponto de desmaiar assim que passou pela porta. Também tinha separado pedaços de fio para amarrar aquele corpo enorme numa das cadeiras, uma que tinha perdido a palha do acento.
Enquanto ele estava tonto e fraco, deu tempo para enfiar uma batata na sua boca, encher a seringa com o laxante e esguichar direto na garganta dele forçando a batata para baixo.
Um fio de sangue corria pela nuca dele, mas não parecia um ferimento assim tão grave. Por fim, tapei a boca dele com filme plástico e me sentei à sua frente, onde esperei até que ele melhorasse.
Quando se deu conta do quanto estava ferrado, o cara começou a pular e grunhir até cair de cara no chão, ainda com as mãos bem presas dos lados.
Me fez um favor, não fosse isso, eu mesmo ia ter de empurrar. Deixei que ele se cansasse um pouco. Virou varias vezes de um lado para o outro tentando quebrar a cadeira, mas ela sequer estalou. São ótimas essas cadeiras antigas!
Quando ele parou, estava de lado. A bunda dele era um fofo círculo branco rente ao chão. Com a faca mais afiada que tinha, comecei a cortar sua calça repetindo o mesmo desenho do fundo da cadeira.
- Olha, moço, eu não costumo mentir, mas não tenho baseado aqui não. Mentir é pecado. Eu, você, todo mundo é pecador. Quer saber de outra mentira? Eu esqueci algumas coisas sim, sei lá que porra de remédio me deram, mas não esqueci tudo.
Nesse momento, o enfermeiro recomeçou com os pulos e grunhidos. O coveiro levantou e, calmamente deu a volta para ver a cara dele. Estava chorando.
- Chorando? Eu só lembro de você rindo. Rindo, fumando maconha, mandando naquele maluquinho… e o cara fazia o que você mandava, né?! Ah, se fazia!
O intestino do enfermeiro já começava a responder ao laxante, ao menos com ruídos. O ex-coveiro ou ex-artista ou apenas o sádico conhecido ali como Calavera, voltou a sua posição inicial e terminou o corte da calca.
- Pô, você não usa cueca? Que bom! Eu disse que não esqueci tudo, mas também não lembro de tudo. Não sei se você comeu meu rabo. Acho que não. Lembro de ter fugido. Mas não tenho certeza. Isso é o que me mata.
O rapaz gritava “não”, isso dava para entender.
- É claro que você vai dizer que não, olha só a sua situação. Mas eu não te trouxe aqui para perguntar nada, não quero saber, aliás, eu quero é te agradecer, não por ter comido ou não meu rabo, mas por ter me dado essa raiva.
Foi até um canto da sala com chão de cimento, pegou o pênis de fibra e mostrou para o sujeito.
- Sabe o que é isso aqui? Um pau feito de fibra? Um caralho pintado de azul? Não! Isto aqui é arte! E é sua chance também. Vamos imaginar que não aconteceu nada, que você é inocente. Agora mesmo tem uma coisa que vai expulsar o que tiver dentro de você, o laxante que meti na sua guela agora há pouco. Enquanto isso, eu vou enfiar este caralho de fibra de vidro no seu cu. Agora, presta atenção. Se você conseguir expulsar esta coisa com a pressão que vem de dentro, eu deixo você viver, entendeu? Eu poderia fazer isso sem o laxante, mas resolvi te dar essa forca. Mesmo que você seja inocente, sei que teve a intenção de sacanear, que faz malvadeza com todos os doentes daqui.
Enquanto falava começou a procurar com os dedos o alvo. O enfermeiro deu um novo pulo. O coveiro parou.
- Você pode preferir morrer sem passar por essa humilhação, esse sofrimento. Eu entendo. Você não é doente como esses caras que tomam essa porcaria de remédio, esses que você sacaneia. Mas não acho justo que você morra sem sofrer.
Novamente deu a volta para ficar de frente.
- Não vou te matar rápido, posso cortar uma veia do seu pescoço e deixar você sangrar até morrer feito uma galinha. Você já sabe por que esta aqui. Tô te oferecendo uma chance, aceite este treco na bunda e faça forca para ele sair. Se conseguir, eu sumo e alguém te tira daqui. A mulher que me trás o café vai bater na porta às sete e meia. Depois do que aconteceu e do que esta acontecendo, vou embora de qualquer jeito e levo minha obra de arte em forma de caralho. Pense bem, pode ser que ninguém nunca fique sabendo o que aconteceu aqui.
O enfermeiro tinha os olhos arregalados.
- Acene com a cabeça se entendeu.
O rapaz acenou um sim.
- Posso colocar?
Novo sim. E uma lagrima rolou.
- Então eu vou te colocar com a bunda para cima, não fique se sacudindo. Vou até por um pouco de óleo de cozinha para facilitar, ta?
O enfermeiro obedeceu, com a bunda para cima, sentiu a peça fria forçar a entrada e tentou facilitar, relaxar mesmo quando sentia aquilo lhe rasgar as entranhas. Melhor que morrer, pensou. Mas o louco homicida não usou o óleo, o que umedecia o cilindro era seu próprio sangue.
Quando a coisa parecia estar na altura de seu umbigo, o coveiro foi sentar-se na outra cadeira de onde se contentou em apenas observar.
O enfermeiro sentia cólicas terríveis e forçava os músculos do ventre para expulsar o objeto estranho. Soltava gazes, seu intestino rugia. A merda queria sair. Calor, umidade, um cheiro horrível. Seu corpo queria explodir.
Ao menos viveria, repetia para si mesmo. Ao menos viveria.
Medo de infecção era o menor de seus problemas, assim como o monstro sentado logo ali, observando.
Defecou. Liquido, pelos lados daquilo que era uma verdadeira rolha, mas sentiu o treco recuar. Ficou feliz. Tonto e eufórico. Viu tudo escurecer, mas se esforçou para ficar acordado. A peça havia recuado, estava funcionando! Teve um rápido desmaio, coisa de alguns segundos talvez. Foi como se o coveiro, de pernas cruzadas tivesse dado um pulo invertendo as pernas rapidamente.
Alguma coisa se rompe lá por dentro e um calor estranho se espalha. Ele estava cansado de mais para continuar forçando. Sentia umidade descer por suas pernas. Um cheiro horrível, doce e nauseante.
O cheiro atraia moscas. O coveiro tinha suas poucas coisas arrumadas, era só pegar e sair. Sentia o cheiro, mas não se incomodava. Era diferente do cheiro que estava acostumado, cheiro de morte, putrefação, mas na morte também tem merda.
Olhava com um certo encantamento.
No fundo, via naquela cena uma nova possibilidade, alguma coisa que poderia desenvolver.
Levantou-se quando a primeira mosca pousou na bolinha preta do olho arregalado. Pegou sua frasqueira e, calmamente, cruzou o pátio em direção ao portão.
Caminhou os dez km até a cidade e, no primeiro posto, conheceu o caminhoneiro que o levou até o porto onde, juntos descarregariam os sacos de farinha da carroceria. Trabalho feito, foi com seu novo amigo até o bordel local, um local tradicional que figura no livro de alguém.
Tomava pacificamente sua segunda cerveja enquanto o caminhoneiro contava mais uma de uma serie de piadas quando uns idiotas começaram a trocar tapas, garrafadas e cadeiradas. Estava bom de mais para ser verdade.
Quando os dois se esgueiravam em direção à porta, meia dúzia de policiais entraram no botequim, armas na mão, cheios de “mão-pa-cabeça” e as outras frases do tipo.
Era evidente que os dois só queriam sair da confusão e os próprios guardas entenderam isso, tanto que foram (quase) gentis até que o caminhoneiro, já meio tonto e ainda embalado pela sessão de piadas, fez um comentário comparando os policiais com porteiros que trabalham onde os outros se divertem.
Ninguém achou graça.
Isso nos valeu um passeio até a delegacia onde o coveiro recebeu a voz de prisão pela morte do enfermeiro. Era suspeito de outros homicídios, mas como não havia cadáver, não seria possível provar os crimes.
As notícias correm depressa dentro da cadeia. Desde que eu entrei, todos pareciam ter a mesma idéia: que eu era um assassino louco e impiedoso, alguém para manter distancia.
Um jornal vagabundo publicou a foto do rapaz amarrado na cadeira, com a cara no chão, todo cagado e com o pinto de fibra enfiado a bunda. Como ele era grande, meus novos colegas calcularam que eu deveria ser forte, louco ou os dois. O “vulgo” Calavera, como eles chamam apelido, também contribuía.
O atenuante, e isso também foi publicado, foi que eu estaria me vingando por ter sofrido abuso sexual no hospício.
Sobre as outras mortes ou desaparecimentos, eu poderia ser só um inocente que estava no lugar errado, na hora errada.
Quanto aos desaparecidos, talvez o coveiro que me substituiu tenha mexido nos ossos novos do ossuário, aqueles que eu espalhei quando sai.
Eu realmente não sabia e bastou repetir varias vezes, quantas vezes perguntassem que não sabia. Simplesmente.
Peguei seis anos e sai com três… meses.
Algumas cadeias já contam com túneis feitos para fuga, basta saber onde é a entrada e armar com carcereiros e guardas corruptos algum tipo de pagamento. Alguns são obrigados a roubar e dividir o lucro com os corruptos, outros matam em nome de alguém que pagou.
- Você foi pego por pura coincidência, cara! Boteco de puteiro… putz! Que vacilo! Você fez uma coisa que qualquer um que tenha culhões faria. Acho que nem queria passar o cara. Não fosse a hemorragia… Mas já pensou? Alguém te droga e quer comer seu cu? Ta louco! Por mim você pode sair quando quiser!
O sujeito gordo e de cabelos ensebados respirou fundo antes de finalizar.
- Mas, ôh inocente, já que você é artista e tá na mídia, vai me prometer que vai levar uma coisa qualquer sua num endereço que eu vou te dar. É para um amigo. Esse é o preço da liberdade. E, olha, uma dica: para não voltar para cá, fica longe de encrenca. Evita a polícia, essas situações de ter que dar os documentos, sabe? Nada de boteco, puteiro, quando tiver blits numa rua, vê se sai fora, mas discretamente, nunca corra.
Foram três meses numa cadeia mal cheirosa onde dividia a cela, feita para quatro, com nove caras. O aperto era tanto que a gente se revezava para dormir e usar a privada. Tudo terminou assim, com uma promessa e um aperto de mão.
Saí, eu e mais quatro, pelo buraco que atravessava a rua e dava num terreno baldio. Sacudimos a poeira e fomos cada um para o seu lado.
Aprendi alguma coisa ali com os prisioneiros, guardas e carcereiros: Se o mundo é mau, é por causa dos políticos que são os caras que fazem as leis. O capeta é cercado de demoninhos, esses são os advogados, caras pagos para torcer leis que já nascem suspeitas.
As cadeias estão cheias de malucos pobres que roubaram ou mataram tentando cortar caminho da miséria para uma condição melhor ou só sair de um sufoco.
Quando o cara tá fazendo merda na rua, chega o meganha e ganha o figura. Claro que enche o sujeito de porrada, mas é só para relaxar. Vem o advogado e, depois de saber se o meliante é capaz de roubar ou matar para ele, livra o cara ou não conversando fora do tribunal direto com o juiz se este for um amigo. Isso quando não é apenas outro corrupto.
Poucos gostam de matar, os que dizem que gostam, na maioria estão entre os guardas, mas há os que não ligam. As tendências do cara e a natureza do crime cometido podem definir o futuro do caboclo. Se for um bom ladrão ou matador, pode ser liberado para fazer um serviço se isso for do interesse de corruptos ou internos ricos.
Os internos ricos são os traficantes e, dentro de toda a corrupção desde os fazedores de leis até os guardas, são tão úteis quanto o diabo é para as Igrejas.
Não me arrisco a falar sobre a Igreja, mas aprendi que os altos muros da prisão, no fundo, não são mais que um símbolo. Uma ameaça para quem imagina o mundo dividido entre o bem e o mal, um tipo de inferno mais palpável do que a ameaça dos padres.
Na cadeia se sabe que ninguém é só bom ou só mau, então o capeta não esta lá. Não é o traficante nem o bicheiro.
Cada um pensa uma coisa, mas os ricos, não só os que estão presos, têm uma coisa em comum: querem fugir de impostos. A coincidência é que o imposto, um nome feio por si só e sempre desviado, é o que alimenta a corrupção. Começa no governo, com salários que não se ganha em lugar nenhum e se espalha até chegar no pobre que é quem paga a conta, mesmo quando não ganha o suficiente para fazer imposto de renda.
Foi o Peixinho, um traficante preso que falou: - Se o que eu vendo fosse vendido na farmácia, não existiria guerra entre traficantes no Rio. Todo mundo, pelo menos numa fase da vida, gosta de puta e droga, tanto faz pinga, cerveja ou cocaína, tudo é droga. Mas na hora de votar, o povo escolhe sempre o mais hipócrita, um filho da puta que não quer que ninguém sinta prazer, mas que dá o rabo escondido para soldados em Brasília!
Esse cara me chamou de amigo e me deu um endereço para o caso de eu não ter dinheiro quando estivesse na rua.
Da quantia que entreguei quando entrei sobrou muito pouco, mesmo assim o carcereiro fez parecer um favor me devolver só parte do que era meu.
Eu não era procurado porque, para todos os efeitos, ainda estava preso, mas não era essa a minha preocupação. A grana acabou e eu estava desempregado numa cidade estranha. O jeito foi ir até o tal endereço.
Era num bairro distante, entre um galpão abandonado e um terreno baldio, um lugar meio ermo. A casa ficava encima de uma garagem grande, um lugar para comércio com aquelas portas de alumínio que se enrolam no alto. Tudo por terminar. Pedaços de madeira no chão, paredes com chapisco mal feito, ferros a vista e marcas de umidade. A moça que abriu a porta me levou por uma escada, longa e sombria, até a casa acima. Ali tinha massa fina nas paredes e desenhos coloridos como os que se vê nos viadutos de cidades grandes. Não tinha móveis a não ser uma mesa com banquinhos na cozinha suja. No chão da sala, um grupinho fumava crac no meio de outras porcarias do tipo. A moça, a dona da casa, também usava essas coisas, por isso tinha um jeito esquisito.
Os garotos se olhavam desconfiados até que falei o nome do “trafica” que me deu o endereço. De repente era como se eu fosse um parente que não aparecia há muito tempo.
- Pô, cara, se você é broder do Peixinho, é mano nosso também! Bem-vindo! Sentaí e se serve do que você quiser!
Tentei falar sobre a minha condição, eu precisava de um lugar para ficar até arranjar trabalho. Mas eles estavam doidões, não entendiam porra nenhuma do que eu falava.
Entendendo ou não, para mim era ficar ali ou na rua. Se não tivesse onde tomar um banho, não conseguiria emprego, ai eu seria mais um mendigo morando num banco da praça.
No dia seguinte sairia bem cedo por isso peguei a chave e saí para fazer uma copia. Não roubei, fui falando o que ia fazer, se ela não tinha condições de entender, eu também não tinha como esperar até alguém ficar sóbrio.
Grato por ter onde dormir, comprei leite e pão para o café da manhã. Quando voltei, eles estavam nas mesmas posições.
Quer saber? Danem-se!
Ajeitei um cafofo onde dormir, um colchão atrás de uma parede e tentei mais uma vez conversar com alguém.
Fora maconha e crac que é de fumar e cocaína que é um pozinho de cheirar, eu não tinha ouvido falar de outras drogas, não sabia que tinha coisa de aplicar que nem injeção. Tem que ser doido para fazer isso! Mas os caras faziam e se jogavam de costas no chão revirando os olhinhos. Tomei um pouco do uísque para relaxar e fui dormir.
No outro dia, mesmo não vendo ninguém na sala, tomei café com leite, comi o pão e deixei tudo à vista para que comessem também.
O que eu sabia fazer era enterrar gente, mas também poderia mexer com fibra. Fui nos dois cemitérios daquela cidade e nenhum deles precisava dos meus serviços. Então entrei num lugar onde vi buggys e carros esportivos antigos, tipo Puma.
Dei sorte. Encontrei o dono e fiquei um tempão falando com ele sobre o curso que fiz e como poderia moldar qualquer coisa. Ele, seu João, era mesmo um fanático por esses carrinhos, o único restaurador dali. Me disse que, como ninguém mais faz nada em fibra a não ser caixa d’água, não existia mão de obra qualificada, por isso eu seria muito bem-vindo para trabalhar com ele. Começaria no dia seguinte.
O nome da moça da casa era Vanda. Levou um susto quando me ouviu abrir a porta, mas logo lembrou quem eu era. Estava de ressaca, olhos fundos e descabelada, mas sorriu, agradeceu pelo pão e escutou sobre meu novo trabalho.
Era o tipo de mulher com problemas que se tem vontade de pôr no colo e sair resolvendo tudo para ela. Alguém como Dorotéia, um erro que eu não estava disposto a repetir.
Ela fez feijão e, apesar de acender seu cachimbinho de vez em quando, conversava como se aquilo não fosse mais que um cigarro. No domingo fomos juntos até um parque ali perto.
Na manhã da segunda-feira, fui ver os carros que estavam sendo restaurados. Tinha um Jeep da segunda guerra para fazer inteiro e dois pára-lamas de Land Rover, coisa que eu faria com prazer e que me renderia uma grana.
A primeira semana voou por causa do trabalho legal e também por ser recebido todas as noites por uma moça bonita. Cheguei a esquecer que isso era por causa do Peixinho, o verdadeiro dono da casa.
O que ela fazia era receber a droga, que às vezes chegava de madrugada, guardar e passar para o barbudinho que distribuía para os vendedores. Todos recebiam dinheiro e ficavam com a parte que consumiam.
Apesar do cachimbinho aceso a cada duas horas e mesmo sem ninguém dizer nada, começamos um tipo de relacionamento distante. Passei a ser como um marido mesmo sem sexo.
Fiz alguns consertos na casa e expulsava os drogados sem ela ver, por isso as visitas estranhas rarearam. Mas não tinha como enxotar o barbudinho e, se ele trouxesse amigos, tinha que agüentar.
Um mês depois voltou a esquadrilha da fumaça e recomeçou toda aquela fumaceira, cheiração e aplicação. Cheguei da oficina e dei de cara com o grupinho, tomei uns goles de uísque e fui dormir.
Lá pelas tantas, fui acordado por ruído fácil de reconhecer, alguém estava trepando na sala.
Vanda estava doidona, encostada na parede, enquanto um garoto, deitado ao lado dela, falava segurando o pinto dentro das calcas. Foi a primeira coisa que vi. Do outro lado da sala, uma moça fazia um boquete para um enquanto o barbudinho tentava se encaixar por baixo. A moça que sobrava olhava a cena e mexia nos próprios peitos.
Levantei calmamente e sentei entre Vanda e o carinha. Tentei falar com ela, mas ela só enrolou a língua. Então virei para o cara e, mostrando o meu dedo do meio, falei baixo:
- Ta vendo este dedo? Tenho a manha de enfiar ele até aqui no seu cu se você não sair andando agora!
Acho que exagerei no agora. Sei que o cara levantou, deu um tchau geral e desapareceu porta afora imediatamente.
Os dois caras estavam de pau mole, buscavam ou pareciam buscar um tipo de prazer que era mais exibição do que sexo.
Já a moça sentia uma coisa diferente. Irritou-se quando o barbudinho desistiu e por não conseguir uma ereção completa do outro.
Olhou primeiro para Vanda, em seguida veio de quatro na minha direção e, sem cerimônia, mordeu meu pau por cima da cueca. Enquanto ela brincava com os outros caras, cheguei a ficar excitado, mas agora, do lado da Vanda… Bom, ela não estava nem vendo mesmo!
Pus para fora e ela começou o boquete, mas tinha outra coisa na cabeça. Assim que viu bem duro, virou-se ainda de quatro e aproximou os ombros do chão, deixando a bunda bem alta.
Fiquei de joelhos e meti a mão na xota molhada indicando o objetivo. Foi quando ela disse:
- Aí não, meu bem, quero atrás, bem forte! Na frente da sua namorada.
Fiz o que ela pediu, mas tive o cuidado de umedecer o novo alvo com a secreção do primeiro. Mesmo assim ela repetia “mais forte” quando não se ocupava de lamber a perna de Vanda.
Ela gostava de misturar o barato da droga com dor e essa brincadeira de sacanear a mulher dos outros. Mas legal mesmo era não poder sentar no dia seguinte.
É engraçado pensar que se uma pessoa tivesse um tipo determinado de doença poderia ser mais feliz. No caso dela seria uma bela hemorróida.
Essa idéia poderia virar livro de auto-ajuda, o título seria “A cura pela doença”. Já pensou?
Vivemos num mundo muito louco, mesmo!
Um dos caras estava dormindo ou num outro planeta qualquer, o barbudinho e as mulheres olhavam e sorriam, mas não pareciam estar entendendo o que acontecia.
- Você quer sentir dor? Quer se lembrar disto depois?
A mulher também estava chapada, mas deixou claro que eu poderia fazer o que quisesse.
Pensei num monte de coisa, principalmente no velho túmulo de mármore preto. Mas não foi uma boa lembrança. A carne quente tinha seus encantos, eu não sabia exatamente qual era, mas a vida finalmente tinha algum valor.
Foi para comemorar esse valor que derrubei-a de lado, puxei suas pernas até encaixá-las nos meus ombros e levantei. Começamos assim um meia-nove de pé. Se ela queria brincar de putaria na frente dos outros, agora tinha a chance de se sentir num circo.
Ela gostou de ficar de cabeça para baixo e chicotear minhas pernas com os cabelos. Eu bebia, mais do que chupava o que vinha daquela taça em que se transformou a xota dela. Foi por prazer e para realizar o desejo dela que mordi. Não foi tão forte, escolhi um ponto com pele mais fina e fiz um corte pequeno. Ela cravou as unhas nas minhas costas ao mesmo tempo em que enchi sua boca de porra. O gozo foi tão forte que amoleceu as minhas pernas. Em seguida, ela também estremeceu e soltou um grito comprido acompanhado por tremor e espasmos.
Eu queria agüentar seu peso. Tentei trazer o corpo dela mais para cima, mas estava fraco e ela suada, escorregadia. Não vi a escada. Ela caiu de cabeça na quina do primeiro degrau e rolou lá para baixo, no escuro.
Olhei em volta e ninguém se mexeu. Apenas o barbudinho trocou o sorriso abobalhado por uma expressão de estranheza. Desci a escada e, mais acostumado com a escuridão, vi seu ultimo tremor.
Já não havia o que fazer além de lamentar. Aquela foi a primeira vez que uma mulher me deixou de perna bamba e, justamente com ela, tinha que acontecer um acidente desse! Que pena!
Arrastei a mulher para debaixo da escada, um lugar onde Vanda não a encontraria e subi para saber o que os malucos tinham visto.
- Cadê a Elisa? Já foi embora?
O barbudinho perguntou já me dando a resposta.
- Foi. Ela levou um tombo aqui, vocês não viram?
Olhei para cada um. A moça que mexia nos peitos antes, agora só me olhava, já Vanda parecia entender, talvez da mesma forma que eu mesmo quando estava no hospício. Segui com a mentira.
- Quando desci para ajudar, ela disse que se machucou e queria ir para casa. Onde ela mora?
Ninguém soube responder. Mais dez minutos e já falavam coisas sem sentido como se conversassem.
Foi uma semana um pouco tensa, mesmo que Vanda não parecesse lembrar de nada. Eu sabia que ela tinha visto alguma coisa porque ficou um pouco mais distante, como se tivesse medo.
Antes que começasse a feder, na tarde do segundo dia depois do fato, desci com ela para mostrar. Não é justo uma pessoa não saber o que acontece na própria casa.
- Foi você quem fez isso?!
- Foi um acidente, ela caiu.
- Puta que pariu! Isso vai dar a maior merda! Quem é essa mulher?
- Você não sabe?
- Não, ela chegou com um dos meninos. Nunca vi essa aí na minha vida. Puta merda, o que o Peixinho vai dizer?
Eu tinha uma sugestão, mas era uma coisa que contrariava meus instintos.
- Posso enterrar ela no terreno aí do lado. Ninguém vai saber.
Enquanto falava, peguei as pernas da moça e puxei para a luz. Sua saia subiu deixando a vista a xoxota. Vanda ficou imóvel, eu gostaria de saber o que ela estava pensando, mas sabia que não era o horror ou o nojo de alguém a ponto de gritar.
- Era uma moça tão bonita. Que pena!
Deu para ver para onde ela olhava.
- É a mulher mais gostosa que eu já comi. Foi na frente de todo mundo, mas acho que você não viu.
- Claro que vi. Eu tava louca, mas não sou cega!
Qualquer desculpa é boa para ela acender seu cachimbinho. Dava poucas tragadas, era rápido, mas não conseguia se distanciar daquela coisa feita com caneta bic, durepox e papel de alumínio. A parte lenta era dissolver a pedra com liquido de tirar esmalte de unha. Subiu a escada e eu sabia quanto tempo demoraria. Era o suficiente para lavar o sangue, ajeitar no cabelo e limpar o pó de cimento usado.
Descobri um ferimento na cabeça, mas era o pescoço que fazia um movimento incomum. Ela pode ter demorado para morrer, quem quebra o pescoço, morre aos poucos, sufocado. O que vi e julguei ser o ultimo fôlego, pode ter sido uma tentativa desesperada de respirar em meio a dores terríveis. Foi só pentear e o ferimento estava disfarçado.
Quando Vanda voltou, eu já tinha colocado a moça sobre uma pilha de madeiras que sobraram da construção. Sua posição era de alguém que dorme seminua sem se incomodar com a decência.
Já havia dito que era coveiro, que cabia a mim alguns cuidados com os mortos e que já havia tomado certas liberdades, logo, era de se esperar que eu me desse ao trabalho de limpar roupas e pentear.
Vanda olhou os belos peitos, maiores do que os dela e teve o impulso de tocar. Ao desistir, preferiu dar as costas para a moça. Tinha um copo de uísque na mão, deu um gole e passou para mim.
- Vamos decidir o que fazer com calma, ta? Acho que essa menina é uma piranha qualquer, uma puta de rua. Duvido que tenha família ou qualquer um que de pela falta. Acho que foi uma boa idéia a sua. É só enterrar e tchau.
- Então, problema resolvido?
- Acho que sim.
- Então é melhor queimar as roupas.
- Queimar? Por quê?
- O tecido sintético demora a apodrecer. Se ela for pelada e num lugar úmido, rapidinho ela desaparece.
Coloquei a blusa de lado e pedi ajuda para tirar a saia. Levantei as pernas, mas não muito, queria que Vanda demorasse a tirar, que sentisse a textura da pele, que visse surgir aos poucos os pelinhos.
Ela curtiu. Pediu para levantar mais as pernas, mas não tirou a saia mais rápido por causa disso. Estava de costas para mim e foi se aproximando, quando sentiu meu pau duro, criou coragem, deu uma reboladinha e fez um longo carinho nos seios da morta.
- As pessoas têm fantasias estranhas às vezes.
Vanda disse isso como quem fala dormindo e passou a acariciar o meu corpo enquanto olhava a moça com ar de encantamento. Terminei de tirar a saia e dobrei as pernas da moça para que ela pudesse ver melhor. Agora já não tinha motivo para pudores. Ela meteu a mão na xota da moça enquanto eu a encoxava com uma mão nos peitos e outra na perereca.
Quando ela se inclinou para beijar o peito macio, abaixei sua calcinha e me encaixei.
- Ela queria que você visse. Quer que ela veja?
- Não, minha fantasia é mais real. Quero ver como você fazia com elas, no cemitério.
- Quer me ver transar com ela?
Ela queria. Era minha chance de comparar. Sai dela e comecei a colocar a outra de quatro. Vanda se masturbava lentamente. Deu para ver como ela vibrou quando enfiei o pau na moça morta, exatamente como fazia antes. Quando estava quase gozando, ela ficou na mesma posição e pediu que eu fosse com ela. Bastou um vem cá.
A primeira vez com a dona da casa e esposa sem sexo estava sendo surpreendente. A mulher era uma pervertida. Que tipo de doida quer ficar na mesma posição de uma puta morta? Que deliciosa fantasia ela tinha!
De repente, miou como uma gata e tremeu. Teve aqueles espasmos e foi escorregando até deitar no chão sujo.
Eu não. E agora não dava mais tempo. Na verdade, acho que fiquei tentando comparar uma e outra e acabei perdendo o interesse pelas duas. Fiquei na saudade.
- Ai, meu Deus, ai meu deus, (sei lá quantas vezes ela repetiu isso). - Sabe há quanto tempo eu não dou uma gozada dessa?! Porque eu não te comi antes? Se eu soubesse que você era tão gostoso…
Fez mais um monte de elogios, coisa de deixar qualquer um orgulhoso. Por algum motivo, eu não estava orgulhoso, nem sentia qualquer outra coisa. Não sei nem se deveria sentir alguma coisa.
Vanda, sem se preocupar com ter um cadáver ali, me levou pela mão lá para cima, tomamos banho juntos e ela fez comida. Se já me tratava bem, passaria a fazer o que eu quisesse.
Enterrei a moça no dia seguinte com todo o profissionalismo como disse que faria. Ela me acompanhou levando um guarda-sol e limonada como se isso fosse um tipo de piquenique.
As trepadas seguintes não foram tão boas para ela, mas não importava. Na cabeça dela, daquele dia em diante eu passei a ser “o cara” e pronto.
A bajulação não me fazia feliz e me irritava ter um pau que era como a última coca do deserto. Pensei em juntar dinheiro e ir embora, mas passou um mês, dois e nunca saía, preso pelo conforto, pela vida mansa.
O barbudinho não trazia mais amigos drogados. Chegava sóbrio, pegava os pacotes, falava alguma coisa e saía.
Do meu lado, a oficina virou meu maior prazer e eu tocava a vida meio anestesiado por esse mesmo conforto de ter casa, algum dinheiro que nunca era suficiente como nunca é para ninguém e uma mulher que fazia questão de se dizer louca por mim.
Ninguém fez qualquer pergunta sobre a moça. É espantoso como tanta gente morre ou desaparece sem fazer falta para ninguém!
Seu João virou um amigo, me convidou para um churrasco na casa dele e me apresentou os amigos. Ficava orgulhoso pela minha historia, a parte que contei para ele, de um coveiro que virou artista e agora era um funcionário que propunha soluções criativas, coisas que ninguém mais tinha pensado. Seus amigos, outros comerciantes da cidade, tinham os carros e mais amigos que preferiam o peso e as rachaduras da fibra a lidar com ferrugem.
Por outro lado, era meio complicado ser amigo do patrão. O bando de mecânico ignorante da oficina ficava com ciúme, me chamavam de puxa-saco e diziam que o velho tava me explorando. Mas que culpa eu tenho de saber os nomes dos pintores e filósofos famosos?
Fui comprando coisas para a casa até virar um lugarzinho gostoso de morar. A Vanda diminuiu a fumação pela falta de companhia, imagino, e deixou de vestir uniforme de maconheira que são aquelas roupas largas e de cores que não combinam, uma mistura de relaxo com rebeldia.
Quem visse a coisa toda de fora, ficaria admirado com o sucesso de um cara que passou bem perto de dormir na praça e venceu pela forca de vontade. Eu via o mesmo e pensava: “por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”.
Vanda começou a concordar comigo, mas não falou nada. De noite eu dava aquelas comidinhas de casado. Resolvia meu problema e dormia em seguida sem me preocupar se ela tinha gozado ou não. Tinha a impressão de que ela se ofenderia se eu falasse, mas seria melhor simplesmente me masturbar.
Belo dia, chego em casa e dou de cara com uma mulher que poderia ser irmã gêmea daquela que descansa no terreno ao lado.
- Oi, querido, essa é a Nice, ela faz programa.
Ela faz o que, rapaz?! É puta? Você trouxe uma puta pra dentro de casa?! Você é doida?
- Ahm! Prazer, Nice…
Bela bunda e belos peitos… Ôh, mulher gostosa, cara!
- Não entendi o que ela faz, Van. Ela é colega sua, querida?
- Não, que-ri-do, mas talvez ela vire freguesa sua. Ou nossa, se você quiser.
Havia um pedido aqui, uma tentativa quase desesperada de reaver alguma coisa perdida. Mas eu estava na defensiva.
- Freguesa? Que carro ela tem? Um Miura? Tem mais cara de dona de MP Lafer.
- A Vanda falou sobre o seu trabalho. Não tenho um carro antigo, estou aqui por causa do aniversário de vocês. Conforme o anúncio, sou liberal e discreta. Sei que era para ser uma surpresa, mas preciso evitar que vocês troquem essas farpas para me sentir segura. Você entende, não é Vanda? Eu vivo disso.
É, ela realmente trouxe uma puta para dentro de casa. Uma mulher bonita e muito profissional.
O tal aniversário era uma mentira. Ninguém agüenta deixar de mentir para uma puta por mais honesto se seja.
A proposta era uma noite de diversão a três. O que me impressionava é que Vanda havia gostado tanto da aventura com a morta que já não fazia diferença entre pessoas mortas ou vivas.
Quando ela foi preparar seu cachimbinho na cozinha, pedi licença para a moça e fui perguntar, do jeito mais baixo e sutil possível, se a moça tinha família. Não foi dessa forma que falei, mas o que eu queria saber poderia ser resumido assim: e então, ela tem quem procure por ela ou podemos matá-la sem conseqüências?
- Ela tem um filho que esta com os avós paternos noutra cidade, é bissexual, bebe socialmente apesar de ter uma história com cocaína e tem um certo tesão em transar casais. O preço dela é cenzinho. Eu banco se você não quiser. Disse para ela que estamos completando três anos de casados. Ela me parece honesta e não ta nem aí com os vícios dos clientes. Vou te falar uma coisa, seu Calavera: eu vou chupar aquela buceta e queria que você visse. Não agüento mais essa nossa relação norma, tipo burguesa. Você pode falar para o seu patrão que eu peguei uma puta, foda-se, o que eu quero é meu macho de volta e minha vida de volta! Se você não quiser, cara, sai andando agora! E volte depois, só para eu poder meter a mão na sua cara! Mas se você quiser, e espero que queira, vamos parar de bobagem e curtir, ta?
Que vontade que ir embora! E, ao mesmo tempo, que vontade de ficar e ter a vida que Vanda queria.
A gente já tinha um conjunto de sala de jantar com mesa, quatro cadeiras, um carpete peludo e um uisquinho de sei lá quantos anos.
Como Vanda foi direto para o chão, fomos os três encostar na parede, como quando não havia nada.
Depois desse monólogo, lá estava a puta, recostada preferindo a cerveja ao uísque para não ficar bêbada rápido de mais. Tudo calculado.
Ela estava confiante a ponto de escorregar para frente e deixar à mostra a calcinha branca, espremida contra a xoxota.
Fiz que não vi. Mas não deixou de me impressionar o fato de que, para qualquer lado que eu olhasse, havia sempre uma arapuca. Que vida perigosa!
Ao trazer a cerveja, fiquei de joelhos e meti a mão naquele fundo de calcinha. Belo buraco de bordas fofas e peludas. Com um dedo, é fácil pôr de fora a xereca de uma mulher oferecida.
Levanto em seguida e tiro toda a roupa para desfilar meu orgulhoso pinto mole como quem diz: babem, mulheres frustradas! Mas não pensem que sou a realização da fantasia de uma zinha seca e nem vou justificar a profissão de outra. Sou coveiro sim, mas minha vida não é só buracos!
Caralho! Onde esta o sentimento? Que porra eu tô fazendo com mulheres incapazes de alguma coisa ao menos parecida com aquilo que chamamos de emoção e vida?
Vanda colocou um cd do Barry White que eu tive de garimpar. Coisa antiga, mas extremamente sensual.
As duas tiraram as roupas e começaram alguma coisa que dava até para chamar de dança, mas que estava mais para ritual de acasalamento de sapatão.
Enquanto se beijavam e esfregavam as pernas, me olhavam com cara de peixe morto como num filme pornô. Isso era para me excitar, mas parecia que eu tinha uma bigorna amarrada no pinto. A moça deitou encima da mesa e Vanda fez o que havia prometido: meteu a cara no meio daquelas pernas sem deixar de me olhar enquanto lambia. Parecia fazer questão que eu visse o fio de secreção em sua língua.
Com um pé numa das cadeiras, tentava me excitar, mas eu só conseguia pensar que a mesa podia quebrar. Senti raiva e ciúme pelas coisas. Será que elas não ouviam a mesa estalar por causa do peso delas? O som também era meu e o cd idem. Aliás, era um crime fazer essa putaria com um som que me fazia pensar em amor de verdade, em passeios de bicicleta a dois em tardes de sol.
- Faz aquilo com ela, amor.
Não era uma ordem, era mais um pedido. Vanda, louca de tesão, queria reviver nossa primeira transa, só não sabia até que ponto ela podia ir.
A puta também me olhava, Vânia deu uma última lambida e a fez entender com um toque na perna, que deveria virar para mim.
Ao ver o que me era oferecido, fiz o possível, mas meu pau não estava completamente duro. Como se diz por aí, “entrei de joelhos”.
Fiquei concentrado ali por um tempo, não vi o que Vanda estava fazendo. A moça tinha os olhos fechados, mesmo se estivessem abertos não veria Vanda atrás dela com a panela de pressão, a mais pesada da cozinha.
Foi um golpe seco, bem no meio da testa.
Eu nunca esperaria isso dela, esse sangue frio. Fiquei estático, surpreso enquanto sentia no pau, primeiro uma contração forte, depois um tremor que foi enfraquecendo até relaxar completamente.
Aquilo sim me excitou. O vaivém ficou frenético enquanto Vanda deu a volta na mesa e começou a se esfregar na minha perna. Estava tão excitada que não fixava os olhos em nada. Ficou de quatro no chão como havia feito na nossa primeira vez, se oferecendo com a bunda bem alta. Saltei de uma para outra. Não foi preciso muito, rapidamente ela estremeceu e gritou como da outra vez. E caiu de lado, ainda tremendo e tendo espasmos.
Sobre a mesa, a moça sangrava, não demais, só um pouco. Continuava bonita, mas ficou bem diferente com a testa afundada.
“Meu Deus, o que foi que eu fiz?!”
Repetiu isso muitas vezes, chorando, enquanto eu cavava, enquanto eu cobria de terra, durante o jantar, na cama. Chegou a falar em se entregar e repetia o meu Deus o que eu fiz quando eu tentava dizer o que achava. Dentro dela havia uma guerra como nunca vi em ninguém.
Morreu no dia seguinte, atropelada, provavelmente tentando chegar na delegacia do outro lado da estrada.
Se tivesse atravessado noutro ponto ou se tivesse prestado mais atenção isso não teria acontecido, mas devia estar repetindo o meu Deus o que foi que eu fiz enquanto olhava o vazio.
Só soube dois dias depois. Um policia a paisana foi na oficina e contou, primeiro para o seu João, o que tinha acontecido. Pensei que ia voltar para cadeia, quando ouvi o que ele era, mas não pediu meus documentos.
O Peixinho pagou a missa rezada na capela do cemitério mesmo depois que o corpo já estivesse debaixo da terra. Ali estava o seu João, a mulher dele e o barbudinho que foi quem correu atrás de padre e dos detalhes.
Não chorei, alias só fiquei calado por respeito aos que me deram os pêsames. O barbudinho tinha um recado. Eu deveria substituir a Vanda, teria de ficar o tempo todo em casa para receber o material. Isso não era um pedido. Disse também que o carcereiro estava cobrando a obra de arte que eu tinha prometido.
Eu gostava do meu trabalho, poderia fazer alguma coisa para o carcereiro, mas não queria abandonar a oficina para ficar o dia todo preso numa casa vazia.
- Você pode sair quando quiser, cara, mas o Peixinho vai mandar alguém te matar.
Era um bom argumento. Fim da discussão? Não comigo.
- Como você fala com ele?
- Pelo celular. Pode usar, é uma hora boa.
Liguei. Comecei dizendo que o barbudinho poderia ficar no meu lugar.
- Por que não ele?
- Em primeiro lugar porque cada um tem seu papel, ele é bom no que faz. E segundo, porque eu tô falando para você ficar ai, pô! Tô te oferecendo uma grana no mole, tempo e um lugar para trabalhar nas suas obras. Você não é artista? Qual é o problema?
- É bom isso tudo, Peixinho, mas eu não tô afim.
- Porra, cara, por causa de um empreguinho de merda numa oficina? Você é meu amigo, mas nesse ramo a gente tem que pensar muito no que os outros vão pensar. Se deixar você ir embora, vou mostrar que qualquer um pode fazer o que quiser. Você já viu os caras, sabe que maluco não tem freio. Eles precisam saber que podem morrer se não pagarem. No seu caso, como não é questão de divida, o que eu posso fazer é mandar alguém te dar um couro. De qualquer jeito, esse seu emprego ta dançado, você vai ter que sair da cidade e vai todo zuado, valeu?
E desligou.
Eu não sei por que falei aquilo de não estar afim, foi um impulso burro. Aquela era uma senhora encrenca, principalmente porque não existe isso de dar uma surra e tudo bem, o mínimo é tiro na bunda.
Eu precisava tomar uma atitude e rápido. Devolvi o celular com a situação ruim estampada no rosto.
- Ele te liberou?
- É, mas não vou sair ileso.
- De repente não acontece nada. Esquenta não!
Caminhou até a escada e quando virou para se despedir, levou um empurrão. Desceu tropeçando, caiu mas não se machucou. Caberia a ele organizar meu tiro na bunda ou dizer a qualquer vagabundo onde eu estava. Não dava para deixar ele sair. Pulei encima dele, mas ele se esquivou e começou a revidar. Na garagem debaixo da casa, o barbudinho mostrou que sabia alguma coisa de capoeira, chegou a girar uma perna no ar, mas sem a menor elegância. Era um drogado preguiçoso que confiava em armas, se alguma vez foi bom lutador, estava fora de forma.
Foi pensar isso e levar um chute no meio da cara, seguido de mais dois. Bati na parede e tive que apoiar o corpo com a mão no chão, mas não cai. Por coincidência, ali havia um pedaço de vergalhão de uns dois palmos de comprimento. Ele gingou, girou mirando minha mão armada, mas errou o chute. Parou assustado e recebeu o pedaço de ferro no olho esquerdo, desabando imediatamente. Continuei batendo até ter certeza que estava morto.
Enfiei numa frasqueira algumas roupas, tomei um banho e fui até a oficina. Precisava de todo o dinheiro que pudesse arranjar, só não sabia o que dizer para o seu João.
Ele não sabia quem era a verdadeira Vanda, não sabia que eu fui preso e todas as merdas da minha vida. Para ele eu era um cara legal, um órfão com uma historia de superação através da arte e do esforço.
Não havia tempo a perder, mas seria bom contar ao menos parte de verdade para que ele pudesse se defender no caso de alguém ir me procurar lá.
- Matei um traficante.
Seu João arregalou os olhos, mas ainda não tinha o que dizer. Segui explicando.
- A Vanda tinha um vicio e devia dinheiro a ele. O cara foi lá em casa para cobrar e saímos na porrada. Levei a pior, mas consegui pegar um pedaço de ferro e enfiei na cara dele. Esse tá lá no chão, não vai incomodar mais ninguém, mas esses caras não andam sozinhos. Preciso ir embora já.
Ele não falou nada. A confirmação da minha historia estava na minha cara esfolada e roxa. Chamou o ajudante que tinha menos trabalho e mandou no banco com um cheque. Fez a conta dos dias que eu tinha trabalhado e juntou o dinheiro da gaveta.
- Há uns anos, meu filho se meteu nisso e foi um pé no saco! Se eu não fosse na boca pagar a dívida, ele tava morto. Isso fora a grana que foi com clínica de reabilitação. Graças a Deus, hoje ele ta bem, mas é dependente químico e vive um dia por vez. Sei da vergonha que você sentia pela Vanda, notei que ela tinha alguma coisa errada. Isso explica a sua reação na missa, um misto de dor pela perda e alivio. A mãe do meu filho ainda não fala com ele direito, imagino o que você passou. Queria eu ter dado fim num filho da puta desses, mas tô estabelecido, não posso deixar meus funcionários na mão. Esses caras sabem tudo sobre os clientes que têm, mas se vierem aqui vão se decepcionar. Não quero saber para onde você vai, só desejo sorte.
Da conta que ele fez, faltava dinheiro, era isso o que esperava que o rapaz trouxesse. Olhou a pilha de cheques e ofereceu um para que eu pudesse sair mais rápido. Era um pouco mais do que o que ele me devia, mas aceitei e saí.
Gostaria de ter me despedido melhor.
Na rodoviária, olhava os destinos e pensava: seria o primeiro ônibus para qualquer lugar longe, e nada de cidades pequenas onde todo mundo se conhece. Nessa ordem.
O primeiro ia para Feira de Santana, de lá, com mais calma, seguiria para Salvador.
Tanto Vanda quanto o barbudinho seriam substituídos, isso significava uma despesa a mais para o Peixinho, mas nada que ele não resolvesse do conforto de sua cela. O carcereiro também sobreviveria sem sua obra de arte. Mas os dois têm uma coisa em comum: não deixam barato.
Tinha que assumir que estaria morto se fosse preso. Tanto o trafica quanto o gambé conhecem bem aquele universo de criminosos e foragidos e seriam informados imediatamente de qualquer vacilo meu.
Pela primeira vez na vida eu sentia medo, mas não da morte.
Não é confortável imaginar que se tem a cabeça a prêmio, que alguém pode estar vigiando ou que o conhecido de um conhecido pode fazer um comentário inocente, coisa que corre de boca em boca até trazer os matadores pagos, soltos da cadeia só para executar mais um trabalhinho.
Basta não ficar de bobeira em lugares suspeitos e não ser preso. Numa cidade grande, eu seria como uma agulha num palheiro.
Ao chegar, descolei um hotelzinho e fui atrás de trabalho. Em primeiro lugar nas oficinas, lugares onde se trabalha com fibra, mesmo sabendo que isso poderia chamar a atenção. Depois tentei os cemitérios. Sem vagas.
Saí do hotelzinho mais ou menos e me enfiei num pardieiro assumido. O trabalho não aparecia e a grana tava indo embora. Já estava vendo a hora em que teria de ir para a rua.
Foram duas semanas procurando trabalho e nada.
Conversando aqui e ali, conheci dois caras bacanas, gente que se virava vendendo bugigangas para turista no Pelourinho.
“Gringo compra qualquer coisa, se você fizer um pacote bonito, até merda você vende!” era o que eles diziam.
Naquela noite, tentando entender o ritmo da cidade, coisa diferente de tudo o que eu conhecia ainda segundo eles, gastei até meu ultimo centavo rindo e bebendo de bar em bar. Um por um foram se perdendo de mim, até que acabei bêbado, sozinho e duro.
Só no outro dia é que entendi que banquei o idiota pagando bebida para dois parasitas metidos a espertos.
Eu tava ferrado, mas como diziam as freiras do orfanato onde cresci, sempre que deus fecha uma porta, abre uma janela. Neste caso, abriu logo varias.
Primeiro encontrei emprego, me tornei garçom e ganhei um lugar para morar, um quarto no próprio restaurante. Dividia com dois outros, mas pelo menos era limpo. Depois, fui reconhecido por uma gringa, italiana, que tinha a solução para todos os meus problemas. Queria me levar para o país dela onde poderia voltar a ser artista.
O mundo é realmente muito pequeno. Paola era uma das convidadas para minha vernissage na casa de madame Madeleine. Viu as obras, mas conteve seu impulso de comprar porque sabia que eu estava morando lá. Ela calculou que seria fácil me encontrar depois que tivesse feito seus contatos para revender. Viajou e, na volta, não encontrou mais ninguém. Madame Madeleine Silva estava desaparecida.
Enfim, alem do policia e do traficante, tinha mais alguém atrás de mim e foi me encontrar por coincidência, onde eu pensava ser um esconderijo.
Seria perfeito ir para outro país, me livraria dos dois e voltaria a fazer o que eu gostava. Mas como tirar o passaporte sendo que oficialmente estava preso?
Claro que não durei no restaurante, ela alugou um apartamento pequeno no Rio Vermelho, trouxe material e me arranjou uma garagem onde trabalhar.
Era uma comerciante, não uma vagabunda rica que mistura trabalho e prazer. Não tinha nada de feia ou velha, só não nos interessamos um pelo outro nesse nível.
Não foi difícil visitar os ossuário dos vários cemitérios para trazer moldes. Fiz esboços e peças novas usando ainda o que tinha na memória sobre Dorotéia e a vampira, mas alguma coisa estava errada. Havia desenvolvido uma certa sensibilidade ao cheiro e a umidade nos subterrâneos, de repente, isso me incomodava. Era estranho, nunca tinha acontecido. Por outro lado, havia aprendido com os carros do seu João, minha técnica estava mais apurada, o resultado era até mais realista.
Aproveitei para mandar uma peça para o endereço que o carcereiro tinha me dado. Tive o cuidado de borrar o carimbo com o endereço da agencia de correio no pacote, mas esperava desfazer a impressão de mal-agradecido. Foi com uma carta onde eu pedia desculpas pela demora. Era o mínimo que poderia fazer.
Eu não era o único interesse de Paola no Brasil, ela ficava alguns dias e viajava em seguida. A idéia era levar vários artistas para alguma coisa que poderia se chamar Exceção, uma galeria inovadora ou uma grande mostra.
Por me sentir perseguido e por causa daqueles caras, fiquei mais atento a quem se aproximava nas raras vezes que saia para uma cerveja. Não é fácil ficar tanto tempo sozinho, eu precisava sair e ver outra coisa além de tintas e massas.
Menos de dois meses depois, um sujeito que conheci num dos bares ali do largo da Dinha me convenceu a acompanhá-lo até o Pelô.
O cara queria pegar um baseado, mas só me disse isso quando chegamos lá. Prometi voltar com ele e esperaria num bar onde vende cachaça temperada com cravo entre outras coisas. Dali pude ver os dois malandros, novamente acompanhando um terceiro que tinha roupas diferentes. A atitude era exatamente a mesma, era evidente que estavam se aproveitando do sujeito.
Vi sem ser visto e estava a ponto de partir para cima deles quando me lembrei do conselho do carcereiro sobre não me colocar em situação de ter que dar os documentos a um guarda. Em todo caso, fiquei por ali olhando de longe.
O sujeito que me levou até ali não voltou, sorte minha. Agora seria sorte deles se eu perdesse a pista, não estava disposto a deixar passar em branco a sacanagem que me fizeram.
Foram de bar em bar, aos poucos ficavam sabendo onde o outro guardava os valores. Mais cedo ou mais tarde, eles abandonariam o cara bêbado e iriam para onde ele estivesse hospedado. Eu ficaria sabendo onde era se me mantivesse por perto.
Lá pelas tantas, eles largaram o cara e entraram num ônibus. Entrei também e sentei na parte de trás. Eles riam alto e pareciam dividir ou dinheiro ou qualquer coisa pequena. Ladrões!
Quando desceram, banquei o bêbado, deixei o ônibus começar a andar e então pedi ao motorista que parasse um pouco adiante.
Favelão da porra! Mas cadê os caras? Senti que não era seguro ficar ali, mas sem saber para que lado ir, fui para o ponto mais escuro da rua de onde poderia ver sem ser visto. Ficaria ali por algum tempo, até me sentir melhor, mas fui surpreendido pelos dois.
- Você ta seguindo a gente, cara?
O bafo de bebida tava bravo, normalmente isso quer dizer que os reflexos estavam lentos. Sorte minha. O que estava mais atrás tinha uma garrafa na mão. Com um único movimento, peguei a garrafa e bati com ela na cabeça do que estava mais perto. Não quebrou a não ser quando bateu na parede atrás de mim, foi ai que enfiei no pescoço do de trás. O outro, meio tonto, olhou sem acreditar. Um estava batido, não respirava direito apesar de manter a mão na ferida tentando segurar o sangue que jorrava. O outro poderia fugir ou reagir, isso eu não queria. Tentei acertar o pescoço como o outro, mas ele protegeu com o braço e começou a gritar. Os gritos me assustaram e poderiam chamar a atenção, por isso dei vários golpes. O outro andou alguns poucos metros e caiu. Este não queria ceder. A garrafa ensangüentada escorregava, já não era uma boa ferramenta. Seus gritos não paravam e já tinha gente espreitando pelos vãos das janelas. Encontrei uma pedra do tamanho da minha mão e fui batendo de preferência na cabeça. Quando ele parou de gritar, corri o mais que pude.
Alguém gritou: pega ladrão! mas eu já estava perto de uma avenida larga. Logo estava num táxi a caminho do meu apê.
O dia já começava a raiar, mas o motorista não viu minha roupa manchada de sangue a não ser depois que desci, por segurança, na esquina acima.
Deu no jornal. Foi engraçado reconhecer os corpos na foto. No texto, o jornalista especulava que, sendo golpistas conhecidos, poderiam ter levado a pior numa briga de gangues. Entrevistou um aposentado que disse que chegou a gritar quando ouviu alguém passar correndo, imaginou que era um deles e que encontraria uma pessoa de bem no chão. Ficou feliz em ver os dois pilantras.
Morreram ali mesmo, um com a traquéia cortada e o outro com traumatismo craniano. A polícia encontrou a garrafa, mas não tinha como tirar as impressões digitais. Seria outro crime que ficaria impune.
De repente me sentia melhor nas ruas. Nada como a sensação de estar vingado!
O mundo parecia sorrir para mim. Havia o problema do passaporte, mas eu tinha dinheiro, reconhecimento e perspectivas. Se não conseguisse viajar, poderia mandar as peças pelo correio como fiz com o carcereiro. Mas se conseguisse…
Sei lá como é a Itália a não ser pelo lado artístico e histórico que o seu Ênio me falou. O berço o classicismo e depois, no renascimento, do neoclássico. Lá eu seria “o não representante do Brasil”, a exceção. No lugar de alegres baianas e casarios em telas, a morte em esculturas grandes de fibra de vidro.
Eu teria de saber falar sobre minha obra, Paola insistia nisso. Nessas horas, só o que me ocorria era uma música antiga que dizia que “as flores de plástico não morrem”.
Essas coisas, flores de plástico, vendem porque parecem saudáveis indefinidamente, quem compraria flores de plástico murchas?
Soube, através dela, que minha técnica é hiperrealista porque minhas esculturas têm pentelhos e carne podre convincente, já o tema é fantástico justamente por causa da minha fixação pela morte.
Ela nunca viu os três juntos, o bichinha, a vampira e Dorotéia. Ali na sala secreta ao lado do ossuário de um cemitério do sertão é que havia uma obra de arte.
Os egípcios antigos tinham essa fixação, não com a morte exatamente, mas com a eternidade. As pirâmides e outras obras faraônicas destruíram a economia e, em conseqüência, a própria civilização deles. Seus sacerdotes imaginavam que o espírito do rei morto poderia voltar para o mesmo corpo. Erraram. Assim como erram as freiras lá do orfanato quando defendem que chegará um dia em que os mortos reviverão para serem julgados. Não levantarão e nem serão julgados, nunca.
Também erraram ao dar esperanças a um garoto mestiço e crescido que nunca seria adotado, mas quando eu falei sobre isso, a freira levantou seu dedo magro e disse: “É esse quem promete”. O indicado era o sujeito na cruz, um cara que parecia ter sido atropelado por um caminhão antes de ser pendurado ali.
Pensando bem, o que faço tem alguma coisa em comum com isso.
A dona desse dedo magro tinha uns 35 anos e costumava pedir coisas que eu deveria levar em seu quarto ou em lugares onde me via sozinho com ela. Um sanduíche e um chá para a pobre freira tão dedicada a oração e que não mede esforços por todos os capetinhas do orfanato.
Uma noite, assim que coloquei a bandeja na mesinha do quarto dela, ela me olhou com uma expressão diferente e me fez um carinho, estranho, vacilante. Então, mesmo sentada, apertou a cabeça no meu peito num abraço. Não disse nada, com a mão no meu ombro, me colocou de joelhos, abriu a camisa e me convidou a lamber seus peitos enquanto metia a mão por dentro da saia e mexia com força. Eu era inocente a ponto de achar que era alguma coceira. Quando estava quase para gozar, agarrou minha cabeça, ergueu a saia e me fez beber aquele liquido que não tinha nada a ver com o cheiro de xixi que havia ali.
Em seguida, ficou furiosa, beliscou forte minha orelha enquanto exigia, de dentes serrados, que eu guardasse segredo ou me arrependeria. Por fim, tomou o chá de um gole só e me enxotou de lá aos berros.
Claro que guardei segredo, por um tempo tive medo dela, até o dia em que tive de voltar lá.
Ela tinha papeis sobre a mesa e não falou nada enquanto eu colocava a bandeja num canto. Perguntei se podia ir embora e ela negou com a cabeça.
- Fique até eu terminar de comer, não quero você de volta aqui hoje.
Escreveu alguma coisa, largou o lápis e me deu uma boa olhada. Era noite, hora de dormir, por isso eu já estava de pijama. Meteu a mão por entre os botões e alisou meu peito até achar meu mamilo.
- Você não contou para ninguém. Isso é bom!
Ficou em silêncio por um tempo, mas não tirou os olhos do meu rosto. Apesar do medo, sentia alguma coisa boa. A mão quente fez meu mamilo crescer, e não era só isso que crescia em mim.
- Esta gostando?
Acenei um sim. A outra mão pousou um pouco acima do meu joelho e foi subindo.
- Acho que você é capaz de continuar mantendo segredo.
Deu um suspiro antes de completar.
- Nesse caso, vou te fazer um carinho.
Um puxão no barbante da cintura e a calça do pijama foi até o chão. Com muito carinho, ela primeiro massageou meu pintinho, depois colocou a boca. Brincou com a língua e foi chupando até ficar bem duro. Quando sentiu que eu ia gozar, se aproximou mais ainda para que eu soltasse meu liquido direto em sua garganta.
Imaginei que ela ia querer o mesmo, mas apenas virou-se para a bandeja e comeu em silencio, me olhando de vez em quando. Ao terminar, me deu a bandeja e, baixinho, repetiu que eu mantivesse o segredo.
Eu via naquilo um tipo de carinho e, num orfanato, isso faz muita falta.
No começo me senti mal, mas acabei me acostumando a ser ignorado ou levar bronca quando estávamos com outras pessoas. Quanto mais ela gritava na bronca na frente das outras irmãs, mais gostoso era o nosso namoro. Apesar da pouca idade, acho que tinha uns dez, fui namorado, alias amante já que ela era casada com o nosso senhor.
Era uma mulher que havia desistido da vida mundana, mas que usava uma criança para, secretamente, dar vazão aos seus hormônios. Desistiu? Basta dizer que foi ela que me ensinou a bater punheta, numa tarde, no meu beliche.
Fizemos isso muitas vezes, mas precisava sempre jurar silencio, ou esse mesmo Jesus se zangaria comigo.
Jesus, o cara todo fudido na cruz, mesmo quieto na parede, tinha muitas lições a ensinar. Medo, punição, vingança, as coisas gostosas que só se pode fazer escondido, segredo, traição, culpa e amor. É, amor. Ou você acha que uma criança não é capaz de amar?
Alguém pode até dizer que isso foi abuso sexual. Não foi! Sexo é outra coisa.
Nem me lembro do nome da irmã, na minha cabeça era Dorotéia, como a outra. Irmã Dorotéia, alguém que simplesmente sumiu. Deve ter sido descoberta e expulsa a julgar pela reação da madre e pelo silêncio das outras.
Não me lembro direito dessa parte, mas não era ela a vítima de um atropelamento que teve na época. Ela não morreu!
Mas deixa isso pra lá, a gente tem que lembrar só das coisas boas.
Tem muita festa de graça em Salvador, quase todo fim-de-semana tem música, teatro ou exposição em algum lugar.
Foi num show de jazz, na barraca de cerveja, que conheci Marry. Branquinha, magrinha, um sorriso bonito e, junto, uma moça morena, menos simpática e que não saiu de perto dela a noite toda.
Marry estava reclamando com a moça do balcão, não sei sobre o quê, mas apoiei, assim começamos a conversar.
Ela carregava duas bolsas, uma normal e outra quadrada, dentro gelo num isopor, isso chamou a atenção porque poderia caber duas latinhas. Ela não quis dizer o que tinha, mas não era cerveja. Não era tão importante, só especulei por brincadeira e fui dar uma volta. Nesses lugares é bom circular para conhecer mais gente. Falei com outras moças, mas era ela que sempre parecia disponível. Então, quando a cerveja começou a dar sono, peguei seu telefone a marquei de reencontrar.
Éramos vizinhos de bairro, isso facilitou tudo. Quando cheguei no boteco combinado, lá estava ela e a amiga morena. Esta parou de falar e assumiu um ar de tédio assim que sentei, foi ao banheiro duas vezes e, por fim, me fez o enorme favor de ir embora.
Marry continuou com seu interesse pelas minhas obras e técnicas. Era artista também, fotografa e sabia mexer em computador, coisa que eu não sabia nem o básico.
Às vezes acontece de pessoas estranhas simplesmente se darem bem. O que estava acontecendo ali é que buscávamos qualquer coisa só para continuar falando. Se quando a conheci não era assim, naquele boteco já não tinha qualquer intenção não declarada, era gostoso conversar com ela e ponto final.
Quando esgotamos o assunto profissão, perguntei sobre a morena e ouvi que era um tipo de namorada, mesmo que ela não se assumisse gay. Explicou que gostava dos dois sexos e que, com a morena, o que ela queria era companhia. Já a outra era sapatão mesmo, só gostava de mulher e começava a sentir ciúme do jeito que ela, Marry, olhava para mim.
Enquanto ela falava, me ocorreu que eu fazia amigos eventuais nessas festas, conversava qualquer coisa, ria um pouco, mas nada fixo, eu era solitário. Nunca tive problemas com ficar sozinho, mas a coisa estava mudando, às vezes me pegava pensando em conviver com alguém, em ter uma Vanda que não fosse tão louca.
Assumir que a namorada estava com ciúme era um jeito de confirmar não só a simpatia mútua, mas talvez a possibilidade de alguma coisa a mais.
Como seria possível existir uma relação entre ela, uma sapata (ou bissexual) com namorada, e alguém como eu? O que me passou pela cabeça foi coisa de irmão, com carinho, sem cobrança e sem sexo. Isso poderia ser até mais estável do que com uma hétero que se apaixona e fica exigente.
Confesso que não entendi direito qual era a dela, mas se estava acenando com uma possibilidade, seria um caso a se estudar. Isso significava que eu estava inclinado a tentar, fosse o que fosse.
Então ela olhou o relógio, pegou a bolsa quadrada com o isopor e avisou que ia ao banheiro. Na volta não deu para não perguntar.
- É um remédio que eu tomo nesse horário e tem que ficar gelado.
- Remédio gelado? Que doença você tem?
Foi uma pergunta ingênua, eu nunca tinha ouvido falar disso. Ela colocou a bolsa na cadeira onde estava antes e suspirou.
- Eu sou soropositiva.
Falou e cravou os olhos na minha cara esperando a expressão de susto. Já tinha visto reportagens sobre aids, mas não entendi imediatamente. Reparando nisso, ela completou:
- Esse é o coquetel que se toma quando se tem aids.
Eu não tinha preconceito contra viado, nunca transei com um que estivesse vivo e não achava que ter comido o cu de caras mortos me transformava num boiola. Mas se um sujeito quer dar o rabo, que arrume quem queira comer e seja feliz! O mesmo também se aplica a mulheres que querem colar velcro.
O que eu penso dá para resumir assim: Prazer é prazer, pinto, cu e buceta não têm olhos. Ponto.
Aids já foi bicho papão, uma epidemia que matou um monte de gente famosa. Não sei se só parou de aparecer na tv ou se estabilizou, de qualquer modo, é um treco que mata como câncer.
Eu tinha pensado numa relação sem sexo antes dela dizer isso. A minha idéia de “sem” quando falo de sexo é “pouco” e não nenhum. No caso dela, se quisesse me manter vivo, seria nenhum, nada, nem uma triscadinha.
Com os olhos ainda em mim, ela me desafiava. Mostre o homem que há em você, era como se dissesse. Mas virei criança.
- Dói ter isso?
Ela sorriu, pode até ter sido um sorriso que me chamava de bobo, mas quebrou a tensão do assunto.
- Não, não dói ter o vírus, o complicado são os efeitos colaterais do remédio.
- Que efeitos?
- O cabelo fica fraco, meio seco, de repente dá uma febre que você não sabe de onde vem, você cansa fácil… mas ruim mesmo é uma tal de lipodisplasia.
- E o que é isso?
- A gordura do corpo desce, se junta num ponto e deixa os ossos aparecendo no outro.
Imaginei ela derretendo, acho que é mais ou menos esse o resultado.
- E como morre? Não é uma doença que mata?
- Mata, não tem cura, mas se você toma o remédio direito e cuida bem de você, sabe, se evita tomar chuva quando não tem como se secar ou passar nervoso à-toa, dá para ir levando. Até onde não se sabe e nem dá para saber já que todo ano aparece uma mistura nova no coquetel.
- Então que tanto medo que o povo tem?
- Ignorância… preconceito… essas coisas. Mas ninguém quer pegar isso. Tem que se prevenir. Usar camisinha.
- Por via das duvidas, mete logo duas!
- Nada disso. Uma é mais seguro que duas, é só colocar direito. Se você coloca duas, uma forca a outra e as duas rasgam. Não da certo.
- Qual é a diferença de uma vida normal? Além de tomar remédio e trepar de camisinha, claro.
Ela inclinou a cabeça como um cachorro faz quando estranha.
- Oxente, rei, é um saco parar o negócio para botar camisinha justo quando tá esquentando, pior é ter de usar sempre.
- É por isso que você prefere mulher?
- Eu não prefiro nada, estou com uma hoje, posso não estar amanhã. Mas mulher tem suas vantagens.
Em seguida, embalado pela cervejinha, abri tudo o que eu tinha pensado. Essa coisa de relação sem sexo. Mas enquanto falava, eu mesmo percebi que era bobagem. Então voltei aos pode-não-pode. Abraçar, beijar na boca (desde que não tenha nenhum problema dentário que envolva sangue), uma chupadinha enquanto não lubrifica e se um tal de cd4 está legal, alias, esse cd4 é a chave de tudo.
Quando já falava mole e pensava em partir para cima, ela juntou suas bolsas, levantou e disse:
- Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente, enquanto isso a gente vai se conhecendo melhor. Não tô certa?
Se despediu o mais suavemente que pôde e, sem terminar o copo, foi embora.
Nessa noite não fiz nem pensei em nada, apenas terminei a garrafa e fui dormir.
No outro dia procurei fazer só o que não exigia muita concentração. Tinha o pensamento longe, nela, e sentia uma coisa muito boa, que me aquecia o peito.
De tarde deu angustia. Se alguma vez senti coisa parecida por alguém, foi para levar um tombo em seguida. Por outro lado, Marry tinha muito a ver comigo. Como eu, de um modo diferente, ela também carregava a morte dentro dela.
Mulheres são cheias de jogos e esses jogos tem regras. Quando você quer uma, precisa fazer ela pensar que não quer, por isso, é fundamental não ligar no dia seguinte, uma semana depois é um bom tempo para ela não ficar convencida, achando que você está correndo atrás. No caso foi menos, nos encontramos numa terça-feira e voltei a ligar na sexta para marca um encontro para o sábado.
Ninguém gosta de babão, por isso o inverso também vale. Uma mulher não deve procurar o cara antes que ele estabeleça um vínculo.
Acontece que, na sexta, ela estava ali, no mesmo boteco. Não custava nada ir até lá, mesmo que ela estivesse com a morena xarope. Desta vez ela estava mais simpática e de saída, carregando um monte de latinhas. Era festa na casa delas, aniversário da chatinha. Dei os parabéns de pé e deixei que ela fosse.
Marry me olhava com um meio sorriso enquanto eu me ajeitava na cadeira.
- Pois é, pelo jeito você não vai querer sair amanhã.
- Eu ia ligar para te convidar, mas fiquei com medo de você me achar atirada.
Não fui eu quem inventou essas regras, mas quando a vitima mostra que sabe jogar o mesmo jogo, torna-se um pouco mais perigosa.
- Quer dizer que estou convidado?
- Claro. Vai ser um prazer ter você lá em casa.
Nunca fui convidado para coisa nenhuma, por isso foi bom ouvir isso, mesmo que o convite viesse de alguém com quem eu queria ficar sozinho.
Quando um oponente conhece as regras, o melhor que se faz é jogar aberto. Comecei a falar de uma peça nova e carreguei no entusiasmo, por fim, a convidei para olhar antes que os convidados dela cheguem. Aceitou imediatamente e ligou para a morena para avisar que ia demorar um pouco.
Mal entramos no atelier e nos atracamos aos beijos, como famintos. Ela não quis saber de obra nenhuma.
Eu tinha um colchão lá, mas foi ela quem se deitou primeiro, assim que o coloquei no chão. Deitou, trouxe a bolsa mais para perto (a comum, não a quadrada), e começou a tirar a blusa. Tirei minha roupa toda, ajudei a tirar sua calça e voltamos aos beijos, agora nus e deitados.
Muito bom, mas muito rápido. Ainda não era medo o que eu sentia, mas alguma coisa estava errada. Quem estava comendo quem ali? Quem era a vítima?
Quando ela percebeu meu pau duro, puxou a bolsa e tirou uma fita amarela com pelo menos seis camisinhas enfileiradas, uma coisa que foi se desdobrando como se fosse infinita. Destacou uma, me entregou e jogou-se de costas com as pernas abertas.
Perdi metade do desejo entre a perfeita colocação do meu equipamento salva-vidas e a lembrança, em câmera lenta, dela tirando aquela coisa amarela e enorme da bolsa. Ela ainda ergueu a cabeça para perguntar se eu havia tirado o ar da ponta.
Não é educado deixar uma moça esperando, por isso entrei, mesmo que de joelhos. Ela também tinha esfriado um pouco, mas sabia que era uma questão de retomar os beijos, e tudo daria certo. Realmente voltei a me animar, mas contava as bombadas procurando sentir se a borracha estava agüentando o atrito.
Ela estava bem, gemia e mordia os lábios como qualquer mulher saudável.
Quando estava quase lá, meteu a mão na base do bimbo e me empurrou para trás. Desencaixou só para reencaixar, em seguida, no cuzinho. Enquanto eu escorregava lá para dentro com todo o cuidado, ela começou a se masturbar.
Era uma moça bonita, com um belo sorriso e muito envolvente. Era também uma tarada que sabia o que queria e como conseguir.
Gozamos juntos. Coisa rara e, por isso mesmo, de se respeitar. Voltamos aos beijos, mas veio aquela preguiça boa. Paramos e ficamos uns 15 minutos calados, apenas trocando carícias. Foi quando reparei que seu celular vibrava dentro da bolsa. Ela não atendeu e não foi essa a primeira vez que alguém, provavelmente a morena, tentava falar com ela. Marry simplesmente ignorava sem o menor peso na consciência.
Com essa transada, estava criado o vínculo, se ainda não éramos namorados, estávamos oficialmente juntos. Agora eu poderia ir com ela a tal festa.
Tomei um banho rápido e saímos.
A caminho, Marry ligou para a morena, mas não foi para pedir desculpas pelo atraso, ao contrario, fez voz de brava e exigiu uma explicação por ela não ter ligado a tempo de receberem juntas os convidados. Desligou como se tivesse razão, antes de ouvir da pobre aniversariante que tinha tentado varias vezes fazer o que estava combinado, ela é que não atendeu.
Em seguida me abraçou como se fosse outra pessoa. Num passe de mágica, voltou a ser minha provável futura namorada.
Tinha uns mauricinhos na festa, um bando de viado e sapatão. A morena se esforçava para atender a todos sozinha, já que Marry precisava tomar banho.
As fotos no momento de cortar o bolo eram provas da humilhação que a morena sofria ali. Era uma serviçal de cabeça baixa ao lado da jovem senhora de cabelos molhados.
O apartamento era pequeno e limpo como não poderia deixar de ser o lugar onde vivem duas mulheres. Nas paredes, fotos e mais fotos de mendigos risonhos, baianas, multidões de carnavalescos e partes de corpos femininos como se fossem vales e montanhas.
Depois do bolo, devorado em segundos, acabou a cerveja, então vieram as manifestações artísticas dos poetas regadas a uísque, vinho e cachaça e defumadas com maconha. Musica triste e em alto volume era o pano de fundo para declamações de gosto duvidoso feitas em voz gritada.
A morena bocejava enquanto Marry, agarrada a mim, parecia gostar. Só parecia, na verdade era mais um joguinho.
Os amigos eram dela. Por piedade, ela havia apresentado esses malucos. Agora tinha que agüentar.
Uma coisa que acontece com quem abaixa a cabeça é que sempre vem outro para pisar encima. Se para corno todo o castigo é pouco, como se diz, o humilde, aquele que aceita humilhação, da raiva e tem mais é que se fuder mesmo.
A morena desistiu e foi dormir. A festa foi esvaziando até sobrar só eu, Marry e um casal de bibas. Eu teria comido ela ali mesmo, na frente dos caras. Já não tava nem ai para parar e por camisinha, mas era ela quem decidia. Gostava de provocar, mas não ia em frente. Queria ver meu pau duro, mas dentro das calcas. Cheguei a ficar com dor, coisa de adolescente.
Quando os caras se levantaram para ir embora, levantei também. Chega uma hora que não dá mais, ou trepa ou sai de cima!
Dormi com o sol raiando, bêbado, mas sozinho e numa cama que era minha.
Não quis ver Marry no dia seguinte, nem no outro.
A mulher que parecia tão doce num primeiro momento, se revelou um tipo de monstro, uma criatura que sacaneia por prazer e mantém a vitima viva para continuar se alimentando do seu sofrimento.
Achei que ia ser fácil esquecer e esqueci, mas ela não.
No terceiro dia ela apareceu de repente no atelier e deu de cara com a italiana.
Eu travei porque não esperava, Paola porque não a conhecia e Marry porque se achou traída. Deu meia-volta e saiu por onde entrou. Pedi licença e fui atrás dela.
Andando ao seu lado, disse que estaria no apê dela de noite e repeti algumas vezes que não era o que ela estava pensando.
Nem sei por que falei isso. Poderia ter dito o contrario para ela desencanar de vez, mas Paola estava criticando as obras, dizia que eu tinha perdido a selvageria, a pureza.
Minha esperança de uma vida melhor estava em risco. Mas como merda nunca vem sozinha, a Marry tinha que aparecer e fazer essa presepada.
Ficou que eu deveria retomar a antiga vitalidade, rever o que eu havia feito e buscar, dentro de mim, o princípio que gerou obras como as que estavam na casa de madame Madeleine Silva.
As pessoas gostam de ver coisas que aliviam suas raivas. Isso é o que chamam catarse, mais ou menos como um cidadão medieval que vai à praça ver um enforcamento, ou hoje mesmo, quem lê jornal policial ou assiste aos programas sobre crimes e fugitivos. Só que com mais classe.
Claro que Marry estava em casa, e estava sozinha. Abriu a porta e correu para sentar de braços cruzados no sofá como uma criança birrenta. O palco estava pronto para a farsa, ali eu sentiria pena e culpa até fazer o que ela quisesse.
- Quem era aquela mulher?
Respondi.
- Eu não acredito!
- Foda-se.
- Como assim foda-se? Ah! Entendi! Já matou a curiosidade? Já sabe como é comer uma aidética? Agora vai me descartar como o lixo que eu sou, não é?
Ela escondeu o rosto nas mãos.
- Qual é o problema? Você é maluca? Eu só disse que…
- Você não é o primeiro que me trata assim. Pode ir. Mas fique sabendo que eu não sou um lixo!
Minha vontade foi ir mesmo. Ela realmente era doida. Mas eu não tinha ido até lá para sair em seguida, além disso, ela começou a sacudir os ombros como se estivesse chorando e homem nenhum, nas condições em que eu me encontrava agüenta choro de mulher.
- Marry, eu não te chamei de lixo. Você também não tem motivo nenhum para esse ciúme.
- Então porque não ligou para mim? Eu queria que você dormisse aqui comigo e, de repente você some! Aí eu vou lá, no lugar onde a gente transou pela primeira vez e te pego com essa marchand italiana bonitona. O que você quer que eu pense?
Fez sentido. E me passou pela cabeça que mais do que uma simples trepada, talvez eu fosse para ela a esperança dela voltar a viver bem com homens. Talvez ela tenha sentido o mesmo calor no peito que eu senti ao pensar nela. Por pensar assim naquele momento, o fato de não ter qualquer umidade em seu rosto quando voltou a me encarar passou quase despercebido.
Logo estávamos nos beijando e acabamos transando ali mesmo, no tapete do apartamento dela.
Agora estávamos oficialmente namorando, por isso consegui algum sossego para me concentrar no trabalho.
Fiz o que Paola pediu, iniciei uma peça que era uma repetição aperfeiçoada dos três do cemitério, uma citação das três principais divindades hindus e com uma novidade: a metade de trás era chata para que ficasse encaixada na parede. Isso economizaria espaço e criaria uma nova possibilidade de iluminação.
Minha relação com Paola era agradável, porém distante como já disse. Ela era uma executiva e não estava ali atrás de outra coisa além de exercitar o velho principio capitalista de comprar barato e vender caro. Já havia vendido algumas peças minhas em seu país e ansiava pelo momento de me expor às ruínas da Europa, sejam romanas ou góticas. Pensava também em cinema, monstros e mortos vivos para efeitos especiais, essas coisas de americano, mas seus contatos eram europeus. Isso poderia esperar enquanto a idéia amadurecia.
Ela era tão direta que uma conversa de quinze minutos ali mesmo no atelier equivalia a horas de pate-papo num boteco. Sair para beber era perder tempo em devaneios improdutivos, já um bom restaurante, um lugar com decoração agradável, música suave, cheiros e sabores surpreendentes, poderia ser palco para idéias que brotam em meio à excitação de todos os sentidos ao mesmo tempo. O prazer que nasce disso pode ser comemorado com uma taça ou duas de um bom vinho, não mais.
Nada de multidão, gritaria, sujeira, correria, porre e, no outro dia, ressaca.
Do ponto de vista dela, ouvir alguma coisa do tipo: “vamos até ali na esquina tomar uma cerveja”, era como ser convocada para ir para a guerra!
Fizemos como ela queria, depois de uma passada num shopping, fomos ao Solar do Unhão, onde fui envolvido em puro prazer desde o momento em que cheguei, exatamente como ela havia dito.
Até essa noite, não havia um interesse pessoal entre nós. Eu era o artista e ela a marchand, só isso. Mas também nunca houve uma provocação, nada que lembrasse que eu era um homem e ela uma mulher.
Paola perguntou sobre Marry, mas não deixou claro se foi por interesse profissional. Um romance poderia amenizar meus sentimentos e isso transpareceria na obra. De qualquer forma, ela não diria nada polêmico ali para não correr o risco de estragar a noite, mas também não perderia a oportunidade de lembrar que eu estava jantando com uma mulher, uma que era tão madura quanto linda. E, naquela noite ela estava, não tem outro nome, estonteante.
A vista, o ambiente e a comida foram perfeitos, o vinho, um merlot da casa Valduga, veio dar o toque final.
Foi difícil sair dali, mas Paola sorriu e jogou o cabelo. Faltava ainda um sentido a ser levado às portas do paraíso.
Nos abraçamos, nos acariciamos no banco de trás do táxi, mas ela me deu boa noite na porta do meu apartamento, sem descer.
Me vi sozinho no apartamento escuro, mas não quis me masturbar. Estava em êxtase e, por estranho que isso me parecesse, não tinha nada a ver com sexo.
Sorri para o teto até adormecer, e tive sonhos lindos.
Assim que cheguei no apê de Marry soube que ela tinha feito as pazes com a morena. Eu ainda era o estranho no ninho, mas seria tolerado dali para frente desde que respeitasse o que elas haviam combinado. Para começar, nada de beijos ou atitudes que pudessem gerar ciúmes, pelo menos na frente dela. Claro que a morena entendia a nova relação, mas nem por isso seria exposta a humilhação de ver a ex-namorada agarrada com outro.
Me pareceu uma atitude muito civilizada que contradizia a impressão inicial de que a morena era só um capacho idiota.
Achei justo e fiquei curioso para ver o que ia acontecer. Pensei que talvez nos déssemos bem a ponto de rolar um sexo a três. Isso estava longe de acontecer, mas sou paciente. Seria mais difícil para Marry que se mostrava mais afoita por ser mais inclinada a esse tipo de variação. Se ela agüentava respeitar a morena a esse ponto, eu também agüentaria.
Foi uma tranqüila noite com filme e pipocas em que Marry se dividia, ora se apoiando em mim, ora nela.
Trocamos alguns beijos e apalpadelas com toda a discrição e percebi que conforme a morena ficava muito quieta, também ganhava um cafuné.
Na saída, quando a outra não estava olhando, ganhei um beijo mais atrevido e ouvi a promessa de, no dia seguinte, namorarmos como se deve, no meu apartamento.
Aquilo de namorar uma mulher que tinha uma namorada era curioso, os jogos maldosos, a doença e o ciúme da outra acrescentavam adrenalina na relação. Isso substituía o que senti inicialmente, aquele calor ingênuo no peito.
No dia seguinte, Marry se enfiou no meu apê comigo e ficamos lá, internados, por uma semana, só saindo à noite para comer um acarajé ou beijú quando a fome apertava. E resto era aquele sexo feito com as pontas dos dedos e o uso dos brinquedinhos dela, pintos de borracha, um de metal que vibrava e cremes comestíveis.
Foi divertido, mesmo que eu tenha falhado algumas vezes. Quando nos despedimos, ela parecia feliz, apaixonada e agradecida, mas senti um certo alivio ao vê-la pelas costas.
Eu tinha que terminar aquela peça e bolar outras para que Paola visse o resultado da nossa conversa quando voltasse e precisava dar um jeito de conseguir um passaporte nem que fosse frio.
- Ôh, artista! Como vai? Bem louca a sua obra, mas demorou pra caramba, heim?! O que anda fazendo? Tá morando onde?
Só o carcereiro que facilitou minha fuga poderia me ajudar, então comprei um monte de cartões e fui para um telefone público. Não foi difícil encontrá-lo, mas tinha de ter cuidado com o que dizer e não dizer.
- Gostou? Valeu a pena esperar?
- Eu mesmo achei uma coisa feia da porra! Parece um presunto podre. Só falta as moscas! Mas convenci os caras que isso valia uma grana.
- E vale. Para valer mais ainda, eu preciso sair do país. Foi por isso que te liguei.
- Sair do país? Mas você tá preso, cara, como é que… mas peraí.- Ele deve ter olhado uma folhinha.
- Acho que dá, heim?, mas vai te custar uma grana.
- É importante que eu vá, e a gente sempre pode negociar, né?
- Claro que pode, artista, claro que pode. Para começar, manda mais uma coisa feia dessa para o mesmo endereço. Eu vou te dar um número e um nome, é de um advogado amigo meu. Vou dar uma ligada para ele e informar sobre o seu caso agora mesmo. Quando você ligar, ele vai te pedir dinheiro vivo, negocia suas estatuas com ele.
- Mas o cara é ponta firme?
- Amigo meu, véio, o cara conhece todo mundo. Na mão dele, em um mês você tá na gringolândia. Para que país você quer ir?
- Itália.
- Em um mês você tá enchendo o rabo de macarrão lá. Vai por mim!
Em seguida me deu o telefone do Dr. Ricardo. Dei meia hora e liguei.
O cara, cheio de palavras em latim, fingiu que explicava o meu caso, minhas pendências com a justiça, do meu lado, quando cansei de fazer perguntas, passei a fingir que entendia. Então percebi que era um enrolão, mas eu tinha que conseguir esse passaporte.
- Peraí, cara, não sou vagabundo que vai preso todo dia e nem colega seu. Não tô entendendo porra nenhuma do que você tá falando. O negócio é o seguinte: oficialmente tô preso lá com o cara que te ligou e preciso de um passaporte. O que faço honestamente vale bastante, mas não tenho muito dinheiro, a grana mesmo fica com a mulher que tem vendido as coisas na Itália. Posso te dar umas peças e algum dinheiro. Você consegue o passaporte ou não?
O tal advogado que conhece todo mundo ficou calado um segundo, então retomou.
- Para quem eu vou vender qualquer coisa sua?
- Do jeito que a coisa tá indo, em pouco tempo é capaz de aparecer alguém na sua casa com euros querendo comprar.
- Acho que isso é historinha de artista, mas vou te dar essa forca.
Falou que sabia que eu era honesto e tinha cumprido com a palavra com o carcereiro. Depois me deu um endereço para que eu mandasse três peças, o numero de uma conta para eu mandar dinheiro e pediu o meu para me enviar o passaporte. Não precisava ser o endereço completo, era só mandar para a agência do correio em meu nome que eu pegaria.
Passei medo, principalmente quando fui buscar o pacote no mês seguinte. Não era o passaporte, mas um documento que dizia que eu tinha cumprido minha pena e saído por bom comportamento. Agora era só tirar as fotos, pagar a taxa e estaria livre para ir aonde quisesse.
Marry deu uma acalmada. Dava para mim e comia a morena em dias alternados sem qualquer drama de consciência. Quando soube que eu viajaria, esfriou comigo, foi o tempo que eu precisava para fazer as peças que mandei para o carcereiro e o advogado. Paola entrou com o dinheiro e ficou feliz que tudo estava se resolvendo.
Nenhuma delas queria conhecer a outra e nenhuma gostava de saber com quem eu estava. Não era exatamente ciúme, parecia mais posse. Para Paola eu era o artista, as mãos e a cabeça que justificava um investimento, para Marry eu era o cara que ficava logo atrás do pinto, coisa que sua namorada não tinha.
Em compensação, para mim, uma era um maço de dinheiro e a outra um buraco.
Paola colocou a passagem encima de um móvel que eu tinha no atelier, não disse nada a não ser guarde bem assim que peguei. Ela sabia o que aquilo representava para mim, toda uma mudança de vida, não só de lugar. Nem pensei nas minhas roupas sujando as dela, dei-lhe um abraço bem apertado.
Como sempre, ela tinha pressa, eu deveria usar o resto do material e não comprar mais.
Marry fingiu gostar, queria me apoiar, mas deixou uma lágrima rolar. Trepou como em todas as outras vezes, nem melhor nem pior, mas foi embora de um jeito mais seco, pronta para virar a página. Para a morena, minha partida era bom e mau ao mesmo tempo. Por causa da minha existência, elas tinham atingido um tipo de equilíbrio na relação, agora Marry teria de encontrar outro pinto.
A primeira vez ninguém esquece, isso não vale só para sutiã. Vendo a coisa de fora, é um absurdo que aquele monte de metal possa sair do chão. Entrar é respirar um ar diferente, seco, de plástico e carpete.
Esperando o avião decolar, revi tudo o que aconteceu, minha vida toda desde o orfanato até aquele momento em que sentia o perfume de Paola ao meu lado.
Era como um momento antes da morte, aquele em que, como dizem, a vida passa na frente dos nossos olhos.
Será que tinha chegado minha hora?
Quando aquele monstro de metal começou a correr na pista, agarrei a mão de Paola. Tinha certeza de que não sairia daquela merda vivo!



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