quarta-feira, 28 de março de 2012

PRIMEIRA PARTE


AYUASCA

Um ano no vale dos mendigos felizes

Uma históia real sobre amor, vida e magia.





Clownspot – olhando núvens


Formas geoméricas móveis, luzes que surgem do nada, cores, sons e de volta ao grupo de pessoas estranhas, caladas, todas a espera de alguma coisa, talvez socorro.
É uma área de desastre, deve haver uma guerra lá fora ou inundação ou terremoto.
Mulheres descabeladas, vozes, gritos, gente passando mal.
Isto é o inferno?
Me aguento sentado no chão, fraco, talvez ferido. Há alguém ao meu lado, sei que também precisa de ajuda, mas não posso fazer nada.
Um fogo se agita mais adiante e há um som como o de trombetas.
Isto é o inferno, só pode ser, o lugar onde mereço estar, por isso me conformo e me aprumo ciente de que um suicida não é um covarde.
Entre as trombetas, o som de helicópteros e de crianças chorando, surge uma voz. A percepção de que é um canto vem em seguida. Alguém está vivo entre estas almas!
Amor, amor, amor... O que é? Súplica ou comemoração?
O lugar que parecia ser uma praça em ruinas volta a ser o círculo inicial ao redor de uma fogueira. As pessoas são estranhos momentaneamente irmanados sob efeito de ayuasca num ritual do Santo Daime.
Os que estavam fora do círculo retomam seus lugares lentamente, as mulheres ajeitam os cabelos, se recompõem enquanto segue a voz solitáia na triste e ao mesmo tempo festiva canção de uma palavra só.

Suicida.
Só a palavra já traz um certo desconforto. É um tabu,um assunto a ser evitado, ignorado ou esquecido, alguma coisa que mexe com a gente onde não deveria mexer.
Segundo a religião, um suicida não vai para o Céu ou não ia até relativamente pouco tempo atrás. Não merecia sequer ser enterrado em terreno consagrado, isso gerava um problema para os familiares, mas antes mesmo da religião, não é coisa que dá para defender como natural.
Baleias, orcas e golfinhos encalham sem motivo aparente e formigas se fogam no fogo, cada qual com uma explicação que tenta racinalmente contornar a terrível simplicidade da morte por opção.
Foi com base na razão que decidi abrir mão da vida. Nada que seja tão surpreendente. Sem dinheiro, família, amigos, amores, ao olhar para trás, o que via era uma família problemática, casamentos rompidos, fracasso profissional, humilhação, dor física crônica. O futuro estava longe de ser promissor porque minha base seria sempre a mesma.
Calculo que andei uns 30km até achar o lugar exato onde tomar duas pílulas, coisa caseira, mas feitas de forma a trazer uma dor de estomago que não duraria mais de cinco segundos.
De onde estava via montanhas, pasto, vacas, pássaros, nuvens vermelhas e amarelas.
Qual seria o melhor lugar para morrer? Certamente não o quarto que havia alugado e que não poderia pagar pelo segundo mês consecutivo.
A preocupação era não transtornar o velhinho simpático que me havia alugado com a remoção de um cadáver e toda a complicação legal que isso traria. Já que seria na rua, que fosse num lugar bonito.
Assim, sem pensar na volta, andei até encontrar a entrada para algum sítio afastado da estrada. Sentei depois de olhar onde meu corpo cairia, tirei meu “remédio” do bolso e fiquei olhando as nuvens.



Memórias mentirosas

De repente era véspera de ano novo e eu estava entre simpáticos desconhecidos, pronto para tomar a tal da ayuasca numa casa em construção perdida no meio de uma mata.
Foi absurda a série de coincidências que me conduziram até ali, havia uma inteligência por trás de todas elas e eu sabia quem era.
Tinha curiosidade com relação à substância e não perderia a oportunidade de experimentar, faria isso porque, desde aquele momento na beira da estrada, o que quer que acontecesse eu simplesmente aceitaria. Não era alguma coisa que eu tivesse pensado em fazer, talvez a causa disso fosse apenas a apatia que vem depois de um trauma.
Uma mesa enfeitada com fotos dos mestres e velas no centro, pessoas a volta, instrumentos musicais, uma longa reza e medidas de segurança, basicamente um pedido para que ninguém se afaste do grupo por muito tempo, antes da fila para tomar o vinho ou chá.
Tomei. O gosto não é dos melhores, como um licor de azeitonas. Então vem o canto e a dança, o mesmo passo para todos, alguns com livrinhos onde liam as letras dos hinos.
Uma ou duas múicas depois, veio a onda, nada que dois copos de cerveja não fizesse com uma diferença: o líquido fermenta do intestino e a vontade de defecar é violenta. Como na casa não havia banheiro, naquela tarde, orientado pelo responsável pelo lugar e como retribuição já que não tinha dinheiro para pagar pelo chá, fiz o buraco no chão que agora ansiava por usar.
A noite era escura fora da casa, mas não foi difícil encontrá-lo armado de uma lanterna e um rolo de papel higiênico.
Evacuar num buraco ao ar livre de noite eram novidades para mim que cresci em cidade grande, mas nada como o que veio a seguir.
Já havia feito o serviço que fui fazer, de repente, vi uma explosão de cores, luzes e sons estranhos, altos, como num palco de show de rock.
Notei que os tufos de mato a minha frente estavam ordenados em quadrados. A casa, a mata, as estrelas e a figura que acenava para mim pareciam feitos de Lego.
- Tudo bem aí?
A voz insistente parecia vir do infinito. Não foi fácil acenar com o papel higiênico e balbuciar:
- Está tudo bem. Só mais cinco minutos, por favor!
Perdi completamente a noção do tempo e, dentre o que via, não sabia o que poderia se mexer. Fiz o possível para acompanhar os outros na dança, mas não entendia o motivo daquilo.
Num determinado momento, sentei-me num banco e uma moça se sentou perto de mim. Ao meu lado havia um pano enrolado que ora me parecia um ninho de pássaro, ora um tronco de árvore cortado e ora uma cobra enrolada. Perguntei a ela o que era aquilo, uma canga, ela disse depois de se levantar e olhar. Ela desapareceu em seguida e logo eu já não sabia se havia falado com alguém, se aquilo ao meu lado estava realmente ali, se havia uma moça ou se eu mesmo existia.
Também não sabia se me havia limpado depois de evacuar o que acrescentava ainda mais desconforto na situação.
Me debatia com minha memória e todas as implicações de ter lembranças mentirosas.
Tomei ou não tomei o veneno? Aconteceu mesmo tudo o que me trouxe aqui? O que é isto, uma igreja de Daime ou algum tipo de hospital de um mundo além da vida?
Havia e não havia uma voz que falava comigo de dentro da minha cabeça. Revi o que havia pensado antes de fazer minha opção e essa voz disse claramente: “Esse raciocínio leva á morte”.
Tudo que pensei poderia resumir numa única pergunta: Porque viver se o passado só traz dor e o futuro não promete alívio?
A presença invisível me acompanhava enquanto eu revia cada fato e cada convicção. Alguns fatos não pareciam reais, não saltei da beira da estrada para aquele lugar. O que é real? O que realmente aconteceu? Quem são essas pessoas? Que lugar é esse?
Eram mais perguntas do que respostas por isso eu precisava ficar e tomar outra vez.
Dentre as coincidências que me levaram até esse lugar estava uma moça (ou talvez um anjo?) que, depois de uma conversa de poucas horas somando os poucos encontros, me convidou para morar com ela em Seabra, uma cidade próxima. Essa moça, Josi, tinha um namorado que, claro, não gostou muito dela chegar com um sujeito que, do nada, estava morando na casa dela. Ele era do grupo, um “fardado” da igreja e, rapidamente, conseguiu para mim um lugar ali mesmo, a casa em construção, onde poderia ficar pelo tempo que quisesse.
Nessa noite houve mais dois momentos a destacar: num de lucidês percebi que todos haviam tomado o chá, ou seja, se houvesse uma emergência qualquer não haveria ninguém para levar um ferido ao hospital. O segundo foi quando perguntei a um dos fardados quando o efeito daquilo terminaria, a resposta foi um trágico "nunca mais".





Iniciações X Ateísmo

O momento depois de olhar as nuvens desapareceu, não poderia dizer se tomei ou não o veneno por vários meses.
Lembro de caminhar de volta com a cabeça vazia e olhar as vacas no pasto. Foi quando vi, esgueirando-se entre elas, um homem com chifres e pernas peludas com joelhos virados para trás. Reconheci como alguém que já se divertiu me fazendo favores. Não apenas uma criatura mitológica, um fauno, mas o próprio deus Dioniso ou Pan.
Numa das casas de comércio da beira da estrada, um funcionário da companhia de eletricidade verificava alguma coisa num poste tendo sua caminhonete por perto. Foi fácil conseguir carona.
No dia seguinte, numa lan house, a filha da “mulher da árvore”, sobre quem falarei mais adiante, iluminou meu dia com um “vem morar comigo em Salvador!” ao saber das minhas dificuldades. Restava saber como conseguir dinheiro para a passagem, mas isso também não demorou.
Conheci os funcionários do sindicato dos professores ao entrevistar a líder em meu programa de rádio quando entraram em greve.
Parafuso era o nome do programa em que eu tocava rock clássico e entrevistava valores locais numa rádio comunitária.
Se isso parece pomposo ou lucrativo, é bom dizer que, onde se lê “comunitária, leia-se pirata e ali, só o que eu conseguia era defender o almoço fazendo o jabaculê” de um buteco.
O dono da rádio era um ganancioso ignorante que não imaginava que era preciso ter um programa decente antes de vender anúncio. Me ocupei em criar esse bom produto quando o que ele queria era um vendedor de rua.
Levei o pé-na-bunda durante essa entrevista e atrai a piedade de todos no sindicato. Por causa disso, um dos funcionários, através de uma ONG, não só conseguiu a passagem como me deu dinheiro. Até ofereci a ele uma das pinturas que tentava vender, mas só o que ele disse foi: Tô te dando, quando você estiver melhor de grana, se achar alguém nas mesmas condições, ajude do mesmo jeito.
O universo conspirava sem dúvida, mas por tras dessa generosidade toda havia um jogo bem humano.
De acordo com alguns boatos, a tal greve servia para desviar a atenção dos professores sobre a apropriação indébita de verbas sindicais.
Alguém que faz entrevistas, dificilmente é ingênuo e, se for, é como uma criança que faz perguntas embaraçosas.
Havia a possibilidade de eu ir para uma rádio maior e seria difícil explicar a ausência, caso os chamasse e certamente chamaria.
Passei por baixo da porta do velhinho parte do dinheiro do aluguel depois de deixar no quarto lençois e um colchão que, juntos, pagariam a dívida toda.
A espera na rodoviária foi um adeus à cidade onde uma lunática me abrigaria, uma doente que se julgava poderosa, amiga do político dono da rádio grande e do jornal que ela dirigia.
Talvez ela pudesse ter feito alguma coisa, me arranjado um trabalho decente, mas cobraria um preço que eu não estava disposto a pagar.
O ônibus para Salvador tinha TV e, assim que começou o filme, lá estava o fauno, num mundo dentro de um armário.
Dioniso nunca foi como a criatura mansa do filme, é um deus indiferente que, há mais de 15 anos, colocou nas minhas mãos um poder tão maravilhoso quanto devastador.
Nasci católico, mas isso era só um rótulo apesar de ter estudado na escola que ficava debaixo da igreja.
Aos seis anos, via a fé fingida dos outros garotos como uma brincadeira sem graça e ficou pior quando senti a pressão no momento de fazer a primeira comunhão.
Claro que não me lembro exatamente como aconteceu, mas a impressão era de terror.
Como não poderia deixar de ser, nessa época tive alguns pesadelos, coisas como descer os degraus de uma tumba subterrânea e, lá dentro acender velas num altar entre colunas. Uma delas se incendiou enquanto a outra congelava. O curioso é ter sido perseguido, nesse mesmo sonho, por um vulto que existia também durante a vigília.
Acabei não comendo a hóstia, o que me custou anos de uma curiosidade insatisfeita.
Ainda sobre o sonho, mais tarde descobriria que as colunas têm nomes e havia também sal, água e incenso sobre o altar, símbolos mágicos ou alquímicos que não deveriam fazer parte da imaginação de uma criança da minha idade.
Aos dezenove anos, por causa de um problema de coluna, fui treinar kung-fu. Atravéz de um colega de academia, conheci o cara que viria ser meu cunhado. Sua mãe, uma mãe-de-santo da Umbanda, não demorou muito a fuzilar:
- Você é médium, precisa trabalhar ou os espíritos vão atrapalhar sua vida.
A explicação sobre o que é ser médium foi simples e convincente:
- Ser médium é emprestar o corpo para que espíritos que erraram em vida possam ajudar as pessoas e assim se elevar.
Ajudar espíritos, pessoas e a minha própria vida ao mesmo tempo? Legal!, pensei.
Comecei a desenvolver, isto é, antes da sessão, ficava girando ao som dos atabaques com os outros novatos.
Nunca recebi o santo como chamam a encorporação, mas numa dessas noites de rodopios, era como se eu estivesse parado, não sentia o movimento do meu corpo e via aquele mesmo vulto do sonho andando meio agachado entre as pessoas.
Ele veio até mim e queimou pólvora ao lado da minha perna direita. Vi o clarão e senti o calor mesmo sabendo que não era real. No final fui comentar com os médiuns mais experientes e, sem pensar, para ilustrar o que dizia, ergui a calça. Para minha própria surpresa, os pêlos da perna estavam torcidos e com as pontas brancas, queimados.
Parei de desenvolver quando comecei a namorar a filha da mãe-de-santo.
De amigo do filho e cara legal que quer fazer o bem, passei a ser um mal elemento a ser combatido com as armas de uma macumbeira. Quem assumiu minha defesa foi a segunda em comando no terreiro.
Começava ali uma guerra mágica, uma mandando macumbas e a outra defendendo.
Os efeitos disso eram estranhas coincidências. Num momento eu era muito atraente, tinha de ignorar paqueras e contornar declarações emocionadas de meninas que eu mal conhecia e, noutro sentia dores como quem havia levado uma surra.
Quando a mãe de minha filha ficou grávida, nos casamos, na mesma igreja onde eu havia estudado, sem que ninguém da família dela presenciasse.
Nesse dia, quando nos vestíamos em minha casa, meu pai bateu num outro carro na frente da garagem e o outro carro ficou atravessado no portão, encaixado como uma rolha. Tivemos de pular o muro para sair para a igreja. Alguém deveria ter batido a foto de uma noiva pulando muro!
Tudo pareceu perdoado durante a gravidez, mas assim que a menina nasceu, a guerra surda recomeçou.
Claro que perdemos a fé na Umbanda e, eu e minha esposa, passamos a buscar outros caminhos a começar pelo kardecismo.
Não tendo quem me defendesse das bruxarias e acusações, começamos a discordar.
Não eram brigas de casal, tínhamos o acordo de expor calmamente qualquer assunto e assim, civilizadamente, decidimos nos separar quando nossa filha tinha quatro anos.
Apesar de criar e executar um sistema para me desvincular da menina de forma a minimizar o impacto, foi terrível me afastar de dois amores tão fortes.
Sofri por anos, precisei de psicoterapia em dois momentos sendo que, no segundo, fiz parte de um grupo onde conheci pessoas interessadas em esoterismo.
A princípio chamei de papagaiada.
Eu era um ateu, um pouco por revolta contra uma divindade que deveria ter me protegido e outro tanto por causa da hipocrisia de qualquer grupo cujos participantes se julgam mais protegidos que os outros.
Uma colega me deu um baralho de tarô e um livro que ensinava a ler. Questão de decorar os significados e criar frases para sequências de cartas. A fase de testes foi ler para qualquer um que quisesse e vendo que as coincidências iam além da estatística, decidi estudar com mais cuidado.
Hoje reconheço que a religiosidade é pré-programada e tem um lugar no cérebro, ou seja, é como a informação que um computador tem de ter para reconhecer um novo dispositivo. Por isso afirmo que não existem ateus, apenas pessoas que se desencantaram com as fantasias ou as instituições que as criaram com o objetivo velado de conseguir poder político.
Uma coisa puxou a outra e, dos arcanos do tarô passei para o que lhe serve de base, a Cabala. Daí para a magia foi um pulo e, para contrabalançar, fui ver o que dizem os parapsicólogos, aqueles que teoricamente tentam explicar os fenômenos de forma científica.
Cabala, que do hebraico significa “aceitar”, tenta enquadrar a vida num sistema previsível. As cartas do tarô são as passagens entre dez estações, as sefirotes, formando um tipo de diagrama que é a chamada “árvore da vida”.
Esta é uma simplificação brutal de alguma coisa que vem sendo estudada há perto de cinco mil anos. Já a objeção contra os parapsicólogos é que o mais importante deles é um padre, ou seja, alguém que não pode ter uma visão imparcial dos fenômenos que coleciona.
Tornou-se uma pesquisa quase obsessiva e, de posse de um livro de antropologia, passei a experimentar rituais de povos primitivos adaptando para uma pessoa o que faz toda uma tribo da África, Oceania ou América.
O sistema é simples e se repete em culturas diferentes: círculo, estado alterado de consciência, que chamarei de eac daqui para frente, chamamento ou homenagem à divindade, pedido e banimento do círculo.
Não tinha problemas para me concentrar e atingir o eac, o kung-fu me ensinou isso. Em seguida senti a necessidade de que a divindade para quem eu deveria rezar tivesse alguma relação com minha memória ancestral.
Se um cachorro de apartamento cava o jardim é para achar a comida que um seu ancestral enterrou, isso é memória ancestral.
Somos animais que, como o cachorro, nasce, busca prazer, se reproduz e morre. A diferença está no que o animal racional inventa ao executar esse mesmo programa, por exemplo, para que um macho humano possa copular, há necessidade de provar ser bem sucedido exibindo posses, ou seja, provar a capacidade de conseguir comida/prazer. Para os dois, o objetivo é o mesmo: eternizar a espécie. Por outro lado, se o cachorro cava é porque está ligado a seus ancestrais e o ato instintivo e aparentemente inútil de cavar onde não enterrou nada é sua forma de ligação. Nós humanos também honramos nossos ancestrais e justificamos o instinto cercando-os de mitos, assim eles se tornam divindades. Como somos animais racionais e sociais, criamos sistemas para organisar as crenças e elegemos líderes para manter os fiéis, essa é a gênse das religiões.
Mas alguma coisa estava acontecendo, o nível de acerto na leitura de tarô desafiava a estatística e eu queria saber como isso funcionava.
Eu mesmo criava e testava as teorias a partir do que sentia e via.
Perguntar para que deuses meus ancestrais rezaram, para começar, me levaria a reunir tudo o que sou e fui. Isso me daria poder mágico?
Sendo latino, o mais provável seria encontrá-los em meio aos mitos greco-romanos. Foi assim que encontrei Dioniso.








EAC - Dioniso

Eu precisava manter forte a musculatura das costas para evitar crises de ciático, terrivelmente dolorosas. Entre a natação indicada pelo ortopedista e a academia perto de casa, acabei tendo acesso à milenar tradição e sabedoria chinesa.
Era a primeira academia que meu professor abria e seria importante para ele encontrar quem tivesse jeito para a coisa e assim vencer o campeonato.
Sempre me tive por preguiçoso, minha mãe me convenceu disso e mesmo fazendo quinhentas abdominais por dia e aprendendo cinco estilos diferentes além de armas como nunchaku, tonfa e bastão, imaginava que um não-preguiçoso na metade do tempo fazia o dobro de tudo isso.
Quando chegou o momento da competição, por medo fugi e, com vergonha, abandonei a academia.
Meu objetivo podia ser apenas manter a musculatura das costas forte, mas foi uma traição cometida contra meu professor e me arrependo disso.
A necessidade de exercício constante continuou assim como o gosto pelas artes marciais, isso me fez perambular por outras academias e valorizar, cada vez mais o que havia aprendido.
Durante o ano e pouco que treinei ali, apreendi o raciocínio por tras dos movimentos. Um mínimo de curiosidade e logo descobriria que kung-fu não é só a luta. Antes disso, visa fazer com que o corpo possa refletir a perfeição da natureza e assim ascender espiritualmente.
O estilo que me facilitou a concentração e deu acesso aos estados alterados de consciência foi o Tai-chi-chuan. Durante meus rituais copiando tribos primitivas, usava o chi como veículo para minha intenção.
Chi é uma energia que vem da terra e se desloca pelos meridianos usados no do-in trazendo saúde e longevidade, mas que pode atingir um adversário numa luta multiplicando a força do golpe ou seu efeito.
O tai-chi tem movimentos feitos lentamente e leva o praticante a usar a imaginação ao acariciar a cauda de um pássaro que tem numa das mãos ou segurar bolas de luz, por exemplo. Esse é o caminho para um tipo de viagem em outras frequencias cerebrais, os eac.
Se posso imaginar um pássaro e interagir com ele num tipo de dança, mesmo que este passo pareça mais largo, posso também imaginar deuses e conversar com eles.
Com o tempo, ao inves de me mover, passei a me sentar confortavelmente tendo à minha frente uma vela acesa. Esta não tinha outra função além de atrair o olhar, então, um por um, eliminava penamentos buscando o nada. Chamo isso até hoje de “desligar o motor”.
No processo, os primeiros cinco minutos se arrastam, já os vinte ou trinta posteriores passam muito rápido.
Durante essa prática, o que percebia era como um rio com detalhes que ficavam cada vez mais nítidos. Tinha cores estranhas e um ruído marcante, como um pesado arrastar.
Depois veio um lugar onde cubos coloridos flutuavam no ar. Alí estava o conhecimento, literalmente tudo, mas esse tipo de arquivo, que alguém viria a chamar de Akasha, tinha uma guardiã. Com delicadeza, a dona da biblioteca”, aquela mulher de rosto claro, cabelos negros, lisos e vestido esvoaçante, me explicou que, se eu souber de tudo, prejudicaria meu desenvolvimento, saberia sem sentir. Isso me pareceu coerente, mesmo assim fiz um acordo: seria avisado antes de cada evento importante em minha vida ao que ela concordou.
Quando voltei desse transe, fiquei surpreso por ter conhecido alguém com personalidade e ideias próprias. O akasha não era um lugar que eu buscasse e nem ela era uma figura imaginada, era alguém real, que existe num universo diferente, “o lado de lá”.
Numa outra oportunidade, essa mesma mulher me indicou o caminho para uma sala onde se reuniam os deuses do Olimpo.
Nesse período vinha estudando os mitos gregos.
Não havia mesa nem cadeiras, entre as paredes brancas e colunas. As pessoas, talvez dez ou pouco mais, formavam grupos e permaneciam de pé ou sentavam-se em escadas e desníveis. A arquitetura era diferente da que seria previsível apesar das colunas do mesmo tipo das do Partenom. A sala parecia ser apenas um aposento a meio caminho entre o andar de baixo e o de cima.
Alí deixei de ver a dona da biblioteca, mas ainda recebia seu incentivo.
Afrodite estava ao lado de Ares e tinha no colo Eros. Sentado no chão com as pernas pendendo para o declive de um corredor em rampa estava Efésto, o ferreiro manco, que falava com um inesperado homem de pele azul.
Todos me olhavam passar sem me saudar, mas senti que ou era bem-vindo ou ignorado.
Segundo a dona da biblioteca, eu deveria descer pelo corredor que fazia uma curva à esqueuerda, o que é significativo, e dava num tipo de jardim. Antes de ver a figura que me aguardava, veio o aviso: Ou ele gosta de você ou não gosta, não há meio termo. Torça para que goste!
Essa segunda frase me deixou meio preocupado, mas era tarde para recuar.
Havia um muro baixo e um gramado, atras de um arbusto, pude ver pernas cabeludas que terminavam em cascos. Havia um cheiro muito marcante, de mato, vinho e fezes de animal. A criatura ergueu-se preguiçosamente, me olhou por cima das folhas e foi na direção contrária.
Apenas voltei a mim. Não houve solavanco ou qualquer coisa do tipo. De repente, eu estava disperto em frente à vela e eufórico. Sabia, de alguma forma, que ele havia gostado de mim.
Dioniso é filho de Zeus, o senhor do Olimpo, e uma mortal. Hera, a esposa tantas vezes traída, arrancou o feto da barriga da mãe e Zeus o costurou na própria coxa para que terminasse ali a gestação. Por isso, uma tradução para o nome Dioniso é nascido duas vezes.
Havia encontrado um mundo com várias pessoas, supostamente com poderes maravilhosos, que não dependem do que eu possa ou me permita imaginar.
As possibilidades eram infinitas, e tudo começa com um baralho de tarô que veio parar nas minhas mãos porque uma colega de terapia comprou errado. Seu professor havia pedido um que tivesse os arcanos menores e o dela era um baralho normal mais as lâminas com desenhos, a lua, o heremita, a morte, etc.
Eu percebia as coisas inexplicáveis, as coincidências que parecem ter um propósito, interferências de uma inteligência invisível.
Esse lado de lá é o mundo dos mortos? Existe alguma coisa a ser chamada de alma? Essas pessoas são almas, fantasmas, anjos? Qual a diferença?
Um crente aceita o que a autoridade diz, seja padre, pastor, rabino, pai-de-santo ou pai. Há ateus assim, gritam “coincidência” com a mesma cegueira que um crente grita “milagre”. A diferença está no investigar, no criar um método para obter respostas conclusivas.




Crime perfeito

Nessa época costumava beber e discutir mitos, filosofia, também mulher e futebol com um amigo que tinha inquietações parecidas com as minhas. Filho de alcoólatra e também ateu, esse amigo um dia definiu o Diabo como Deus bêbado, o que me fez pensar na estreita relação entre as divindades enquanto abstrações a serem lembradas, temidas e defendidas e nossas vivências emocionais primitivas.
Entre um copo e outro, criamos um tipo de jogo: o crime perfeito.
Começou com a dúvida sobre a existência da alma o que talvez seja visível ou perceptível de alguma forma no momento da morte.
Como realizar a experiência? Resposta: matando alguém.
Claro que não queríamos ser presos, então passamos a imaginar quem seria a vítima perfeita e de que maneira levar a cabo, no campo das idéias, essa pesquisa.
Voltando para casa numa noite em que bebi um pouco a mais, passando por uma avenida onde prostitutas oferecem seus serviços, decidí perguntar sobre os preços.
Assim que parei o carro, uma viatura da polícia parou ao meu lado e o policial avisou que havia algum problema ali. Seria melhor eu ir embora, mas a moça que já estava perto da janela, parecendo assustada, pediu que eu a levasse até a próxima esquina. Não vi motivo para não ajudá-la, mas quando parei novamente, com voz masculina, ela, ele no caso, começou a dizer que estava precisando de dinheiro e faria qualquer coisa para conseguir. Enquanto falava, tirou uma chave-de-fenda da bolsa.
Não existir motivo confunde qualquer investigação e um bom candidato a vítima do nosso crime perfeito é alguém sem família, que faça algo de que se envergonhe como uma prostituta. A melhor arma, até onde haviamos chegado, seria uma faca por ser silenciosa, mas ainda havia o problema do sangue.
Nada do que foi dito seria levado a sério, era apenas um jogo, não um plano a ser executado mas, de repente, a vítima perfeita estava numa esquina escura ameaçando com uma ridícula ferramenta alguém com anos de arte marcial, um lutador alcoolizado, com uma curiosidade mórbida e que tinha nas próprias mãos a melhor das armas.
Fui surpreendentemente rápido ao tomar a chave-de-fenda, imobilizar e agarrar o pescoço do meu objeto de pesquisa.
Gritar que o mataria da forma mais agressiva e convincente que consegui serviu para mantê-lo imóvel, mas teve em mim um efeito estranho. Foi como me dividir, em pouco tempo e sem que eu tivesse controle, havia um que gritava, outro que friamente oscilava entre impedir que o sangue subisse ao cérebro ou amaçar a traquéia e um terceiro eu que apenas observava tudo de fora como méro espectador.
Houve um momento em que o sujeito fingiu um desmaio para abrir a porta do carro e tentar fugir. Não deu três passos e estava novamente imobilizado.
A experiência terminou na calçada com o mesmo policial separando a briga e mandando os dois para casa apesar da acusação de tentativa de assassinato.
Levei alguns dias entre a surpresa e uma ponta de orgulho pelo destemor e agilidade, mesmo que meu grupo de terapia repudiasse a violência desde a intenção inicial.
Ficou claro que eu havia topado com um tabu, não para o grupo, mas para a despreparada monitora, não uma psicóloga formada, que impediu o aprofundamento da discussão.
Revendo a cena, percebi que havia alguma coisa a mais. Eu havia visto um fio, sutil como a fumaça que sobe de um cigarro, no momento em que ele desfaleceu ou fingiu o desmaio.
Fosse o que fosse, isso me ligava a ele e esse fio só foi visto por que estava muito concentrado, em transe, como fazia quando lutava, fazia tai-chi ou via salas com divindades. Isso explica meus movimentos tão rápidos.
Não éramos diferentes ou não haveria ligação, foi o que concluí com base na física comum. Talvez, naquele momento, fossemos um só. De que outra forma duas pessoas tão diferentes podem se ligar? 
Aquilo não era a alma subindo aos céus, mas um tipo de ponte entre dois pontos de aglutinação feita de alguma coisa mais tênue que a carne ou mesmo a fumaça.
E talvez não fosse só naquele momento, ou apenas entre eu e ele.
Se existe sempre, entre todos e leva esse nome, então a alma não é coisa individual, mas coletiva. Dentro de mim e de todo mundo pode haver mais desse mesmo fio, nesse caso, somos parte de um todo como nós numa rede de pescador.
Morrer é desfazer um nó, mesmo assim segue existindo a linha.
Essa linha ou fio pode ser oco e é possível caminhar dentro dele.
Fiz algumas tentativas nesse sentido, mas a meditação se torna tão profunda que a memória deixa de registrar.






Macumba X Barufa


Peça e receberá!”
Dioniso era assim, curto e grosso, rigorosamente econômico nas palavras.
Os rituais previam o momento do pedido, mas o que um incrédulo com vida mansa pede ao topar com a lâmpada de Aladim? Sexo e dinheiro.
Nesses tempos tive quatro namoradas, quatro mulheres que não tinham outro interesse além de exercitar a própria libido e não se importavam com exclusividade. Bastava fazer um ritual e, poucos minutos depois o telefona tocava com alguma coincidência absurda, alguém que oferecia um trabalho ou algum tipo de vantagem após discar um número ao acaso.
As tardes de ócio e meditação se tornaram dias e noites de homenagens, rituais e viagens imaginárias cada vez mais reais, poderosas e emocionantes com resultados cada vez mais precisos.
Isso rendeu um livro, Deus Encaixotado. Na verdade o que eu buscava era agrupar toda a pesquisa e, como forma de tornar inteligível, criei personagens e uma história fantástica com um grupo de paranormais, magos e arqueólolos sendo que o herói, decadente, é chamado a abrir o que imaginam ser a bíblica Arca da Aliança, a caixa onde foram depositadas as tábuas dos mandamentos.
A busca pela editora foi marcada por um ritual em que entreguei ao mar o original para que se espalhasse pelo mundo. Em poucos dias, uma das cinco maiores do país se propôs a editá-lo.
A sensação de poder era absoluta. Eu poderia criar e destruir universos, bastaria desejar e criar um ritual com esse fim.
Os objetivos até ali eram neutros, egoístas, mas inofensivos. Então veio a última discussão com a ex-esposa, esta nada civilizada.
A mãe queria pôr a menina numa escola cara, onde, do meu ponto de vista, ela não teria amigos e já era uma garota solitária. A mãe e a avó pensavam que quanto mais cara a escola, melhores seriam os amigos e a educação.
Minha opinião seria ouvida se eu concordasse, como isso não aconteceu, pela milésima vez, a menina mudava de ideia e se voltava contra mim uma semana depois.
Fiz duas coisas das quais me arrependo, uma foi dizer à mãe que não queria mais ver minha filha. Teria sido melhor ter usado um termo chulo qualquer. O que eu queria dizer era: enfia no cu! Mas ela foi dizer à minha filha que eu não queria mais vê-la, que não a considerava mais minha filha, a maneira desastrada que escolhi para comunicar sentimentos momentâneos.
A outra coisa foi quebrar um lápis, ritualisticamente representando aquela que estava por tras de tanto sofrimento, a avó. Em seguida me afastei, passei seis meses sem qualquer contato.
Quebrei um lápis...
É preciso entender que se trata de um mundo simbólico o que, a princípio, nada ou muito pouco teria haver com o real, mas que, de alguma forma, influencia, passa de um lado para o outro e cria coincidências.
Não acredito em pessoas perversas por nascimento, gente que simplesmente deseja ou faz o mal por prazer, a bondade não é propriedade exclusiva de quem acredita em divindades e faz parte de uma ou outra religião.
Houve oportunidade de realizar um ritual tirado da Bíblia, um trecho do velho testamento em que um animal é cortado ao meio e o operador deve passar imediatamente entre as partes separadas como quem passa por um portal. Essa seria a maneira de firmar um acordo com o terrível senhor dos exércitos.
Matar e esquartejar animais indefesos são violências das quais não sou capaz. Se a idéia do sacrifício é atravessar a energia de alguma coisa viva e una que, por ter sido separada se esforça para ser novamente íntegra é o que abre o portal, não faz diferença qual animal será sacrificado.
Há quem diga que vida é funcionamento, nesse caso um liquidificador ligado está vivo o que soa absurdo. Estar vivo é outra coisa, mas um fato aceitável é que não há alguma coisa mais viva que outra. Não havendo um animal mais nobre ou aceitável que outro, o animal que seria vítima de tal barbaridade poderia ser o que acabei escolhendo, uma formiga.
Sobre a economia de palavras de Dioniso, a vez que ele mais falou foi quando, ansioso por me mostrar grato, perguntei o que ele desajava.
- Sou uma divindade! O que você acha que um mortal pode oferecer que eu já não tenha? Não preciso sequer de orações ou homenagens, sou o que sou e se precisasse de qualquer coisa, simplesmente não seria. Apenas peça!
Esse foi seu maior discurso.
Quando a saudade da minha filha se tornou insuportável, engoli meu orgulho e fui visitá-la. Descobri que, naqueles seis meses, a velha tinha quebrado o fêmur, o marido havia perdido o emprego, o terreiro de Umbanda havia sido fechado e o filho, meu ex-cunhado, estava separado e com uma doença no sangue que o paralisou da cintura para baixo.
Quando fiz o ritual tive o cuidado de isolar minha filha, mas não lembrei dele. Por ser mãe-de-santo, a velha tinha proteção, um tipo de guarda-chuva que a protegia sem evitar que quem estivesse por perto fosse atingido.
Penalizado, me propus a ajudar com os exercícios que devolveriam seus movimentos, mas ele não parecia ter vontade de melhorar e isso era fundamental para a recuperação.
Por fim entendi que ter sido atingido era parte do destino dele, que minha macumba, se é que foi realmente assim, apenas detonou uma coisa que aconteceria de qualquer forma em algum momento. Seu casamento desabou da pior forma possível, com traição, e o filho dele ficou com a ex-esposa e a sogra apesar do desejo da mãe dele.
Aqueles seis meses da minha ausência marcaram uma sequência de desastres e derrotas, mas eu não me senti vitorioso.
Magia não é a arte de criar fenômenos estanhos à natureza, pelo contrário, é entender causas mais profundas e seus efeitos. Com a sutileza da meditação, tendo a vontade sob controle, um operador ou mago pode atuar num ponto ou noutro de forma que, quando diz eu quero, ele sabe que seu desejo está de acordo com o que acontecerá fatal e naturalmente.
Todo livro sagrado ou de magia traz alguma coisa do tipo: “aqui está a verdade e quem duvidar estará condenado”. Meter medo em curiosos despreparados e inconsequentes é uma maneira de dizer que o poder é real. Coisas estranhas acontecem por mais ridículos que pareçam os conceitos ou atos envolvidos, e isso pode trazer um sentimento de culpa por coincidências, coisas que aconteceriam com ou sem a manipulação do magista.
De qualquer forma, naquele momento ficou evidente que eu carecia de sabedoria na condução de tal poder.
Antes de invejar os ignorantes, fiz um último desejo e parei com tudo.
Amor verdadeiro, foi o que pedi. 



A mão da puta


Uma das quatro namoradas mostrou-se diferente das outras, ou talvêz eu é que a tenha visto dessa forma.
Conheci a segunda mulher que viria a amar, num bar e não havia como levar tão a sério, principalmente porque ela tinha uma amiga que se oferecia entre trejeitos e insinuações. Parecia que as duas dividiam eventuais parceiros ou tinham um tipo de competição que as divertia. Eu era só mais um e, sendo assim, em separado, fui dar assistência a uma e depois à outra.
Quando percebi que poderia ser alguma coisa além de sexo, diante da declaração de que ela só queria conhecer pessoas, dei um ultimatum: Ou você é minha namorada ou não é nada!
Com isso ela me assumiu, mas eu ainda teria uma útima noite com a amiga, o que renderia anos de dúvida e ciúmes.
Amiga, companheira, corajosa, honesta, sexy, tudo que alguém poderia querer de uma mulher. Tinha dois filhos de um casamento anterior, crianças com a natural carência da imagem masculina e fui preencher esse vazio.
Foram cinco anos de alegria, porém, como o pai das cranças era um alcoólatra, instintivamente ela se colocava entre eu e elas para protegê-las.
Por todo esse tempo deixei de lado meus experimentos mágicos, julguei ter perdido a habilidade, até que veio a decadência e a separação.
Não havia como nunca há um culpado. Num primeiro momento desejei uma motocicleta, um símbolo de liberdade. Comprei uma usada que, embora tenha me devolvido para as ruas, tinha defeitos de mais. Já no final da união, entrei num consórcio e fui sorteado no primeiro mês. A placa trazia as principais letras do meu nome e em ordem, ficou evidente que nunca perdi o poder, lia tarô para os amigos e quando desejava alguma coisa em pouco tempo conseguia, mas nunca um trabalho fixo e estável por mais que desejasse.
Ao poucos retomava meu contato com os “amigos lá de cima” e alguma coisa pareceu irritar muito Dioniso.
- Você vai acabar na mão da puta!
Essa frase foi dita quando o céu escureceu e meus joelhos simplesmente dobraram.
Era ano bissexto e eu recolhia água de chuva para futuras macumbas. Foi quando um raio atingiu o telhado da casa de tras, uns seis metros acima da minha cabeça.
Meu então amigo deus grego não se deu ao trabalho de explicar quem ou o que era a puta. Poderia ser uma pessoa, mas também uma divindade ou símbolo. De qualquer forma estava no meu futuro e eu não poderia fazer nada além de seguir adiante.
Voltei a morar com meu pai, com uma moto grande novinha, em seguida, em meio a uma crise depressiva, ele mudou-se para o Rio de Janeiro deixando para mim o encargo de controlar seus ganhos como militar reformado da aeronáutica.
Sozinho num bom apartamento com moto e dinheiro, foi fácil arranjar uma namorada pouco mais velha que a minha filha, 21 anos quando eu tinha 38.
Foram meses de paixão e luxúria. Fogo de palha que logo se extingue.
A próxima seria uma aventura mais complicada.
O poder mágico existia, mas era difuso. Não me sentia culpado pelo destino do meu ex-cunhado, mas tendia a ser mais cuidadoso com meus desejos. Imaginei que se me unisse a um grupo de estudos qualquer, uma dessas seitas secretas, poderia recuperar a disciplina e ter resultados mais precisos. Então encontrei a Ordo Templi Orientis ou simplesmente OTO.
As igrejas, os locais de reunião da OTO são chamados "acampamentos" porque são isso mesmo. Alguém aluga uma casa, reúne um grupo, apresenta as pessoas para os mais graduados e, de repente, devolve a casa encerrando as atividades. Nada é feito para durar.
O grupo era cordial, as pessoas tinham vivências diferentes, mas com pontos em comum o que rendia boas discussões. A graduada, a soror, ensinava detalhes sobre a cabala, o taro do Crowley, o Liber Legis, o 777 e tinha planos para rituais de magia sexual.
Tudo era muito exitante e, aos poucos, o recém inalgurado acampamento recebia espíritas, wiccanos, rosacruzes, satanistas e, por fim, a tal sacerdotisa que chegou falando de um amigo índio que, pelo menos inicialmente, parecia um xamã sério.
A mulher, Cléo, era bonita e trabalhava como massagista. Pela maneira como falava, cheia de brincadeiras e incinuações picantes, ficou no ar a pergunta: que tipo de massagista?
Era começo de inverno e, como era comum nessa época quando deixava de fazer meus exercícios, tive uma dolorosa crise de ciático.
Pedi socorro e lá veio ela, já com um rapaz do grupo vizivelmente interessado nela.
Para ser massageado com óleo eu precisaria ficar nu, por isso ela fechou a porta do quarto depois de uma rápida explicação deixando o rapaz na sala. Só o que pude fazer foi ligar a TV e dizer que tinha cerveja na geladeira. Parecia saber o que fazia ao iniciar, mas afastou com a mão meu pênis com a desculpa de olhar a musculatura do quadril. Nesse momento, além de estar realmente com dor, senti pena do rapaz.
Depois de algumas torções e até uma insuficiente melhora apesar do incômodo rapaz na sala, deixei que ela prometesse voltar no dia seguinte para continuar o que havia começado. Ela voltou e começamos assim uma relação.
Nessa época meu irmão estava se separando e precisava de um lugar para morar. Receber um irmão, para mim era automático, assim eu achava que deveriam ser a relação entre irmãos.
O papel dela no acampamento seria levar cada bruxo ao êxtase de forma que ele veja o que há do outro lado e, na volta, traga informações valiosas. Esse é o raciocínio por tras da magia sexual. É preciso alguma preparação anterior e é coisa séria, mas o que interessava ali, mais do que ter uma namorada que falava alto durante a noite sem se importar com quem acordaria cedo, é que ela realmente era uma prostituta.
Era bonita e inteligente, mas uma vez envolvido, percebi que ela não tinha uma ideia exata do que faria pelo grupo, seu índio era um embusteiro e sua amiga, a soror, não era tão amiga assim.
Era uma bruxa e a diferença entre bruxas e magos é que eles são racionais tendo a sensibilidade como ferramenta e elas são basicamente sensíveis usando a razão como apoio.
A decisão de proteje-la veio naturalmente. As crescentes exigências do meu irmão por silêncio e sua ostilidade hipócrita me obrigou a deixar o apartamento para viver com a mesma vagabunda que, pouco tempo depois, o aconselharia a ir atras da mulher que ele diz amar até hoje.
Mudei-me com ela para uma casa velha de esquina pintada de roxo e com janelas que rangiam e batiam durante a noite. Se já vi algum lugar que merece ser chamada de mal assombrado, é essa casa!
Ali na rua Betel (nome bíblico importante) viveu e falesceu uma senhora portuguesa, a mãe do dono. Soube disso ao perguntar a ele, um professor e pai de um padre (outro fato importante), sobre antigas fotos pintadas a mão e com molduras ovais que ele havia deixado na garagem.
Nada do que pudesse vir de Cleo me surpreenderia, tinha realmente um lado vagabunda que algumas vezes me envergonhou diante dos amigos motociclistas e que, a custo de muita conversa, juntos contornamos.
Claro que a fiz deixar o lugar onde havia trabalhado e assumi, até para convencê-la, que o que ela fazia era semelhante à atitude de um veterinário que, diante de uma madame com uma gata que não pára de miar, primeiro combina um preço, o mais alto possível, e depois que a dona sai, usa um cotonete para masturbar o animal e assim resolver o problema.
Também deixamos o acampamento. Houve a tentativa de acordo para que ela fizesse o que estava planejado e uma “barufa”, uma macumbinha, diante da minha negativa. Como minhas defesas estavam de pé, foi uma saída intempestiva, mas sem conseqüências.
Estávamos bem a não ser pela necessidade que ela tinha de um antidepressivo (Lexotan) que tomava como se fosse pipoca. De resto, tudo era paixão, esperança e rápidas viagens de moto.
Na casa havia um fantasma e não eram as imagens que Cleo trazia na memória as quais exorcisava queimando vestidos. A senhora portuguesa conversava comigo em sonhos e me mostrava como havia sido bonita quando jovem.
Cléo, como não poderia deixar de ser, tinha problemas para relaxar e se deixar levar até o orgasmo. O sexo era divertido como a convivência, mas ela precisava de mais atenção e paciência para redescobrir nela mesma o que havia deixado de lado a ponto de esquecer.
Numa noite, era ela e também outra pessoa, a mulher da foto que achava ser melhor do que a palhaça frígida, como se refera à outra. Não contei de imediato e, quando o fiz, a viva não gostou nem um pouco.
Independente disso, tentamos alguns abracadabras, ela conhecia rituais diferentes e executamos alguns sem qualquer resultado.
Como presente de aniversário, ela me mandou a um endereço onde encontraria a encomenda. Era uma vidente, uma mulher madura e bonita que vivia num bom apartamento e tinha como clientes, artistas e polticos importantes.
Da previsão, fato por fato, eu só não quis saber o dia da minha morte, todo o resto estaria perto de mim numa fita cassete que ela gravava enquanto conversávamos.
Do que viria, boas notícias iniciais que resultariam numa longa má fase, a mulher que me faz mudar de cidade, a mulher da árvore, o fim da má fase com estabilidade financeira, o reconhecimento das pessoas e uma última mulher que me acompanharia até o fim da vida.
No final da leitura do meu destino, gravado nas letras do meu nome transformado em números, a vidente me chamou de curandeiro. Isso, para mim que me arrependia de ter direcionado contra uma pessoa energias tão devastadoras quanto difíceis de compreender, soou como absurdo, mas entendi que era assim naquele momento e poderia mudar. Sobre a atual, terminaria no momento em que ela mentisse.
Foi um bom presente e Cléo não quis ouvir o que eu não quisesse contar.
Em momento algum pensamos em continuar sozinhos o que a soror havia idealizado para o grupo, nada de magia sexual, ou porque não era o momento ou porque suas dificuldades como ex-prostituta eram mais urgentes.
Terminou quando ela se sentiu no direto de exigir privacidade.
Para levantar algum dinheiro seu, ela passou a oferecer massagem através de anúncios em jornais. Os primeiros clientes eram homens e ficou evidente que queriam bem mais do que apenas relaxar ou eliminar alguma dor.
Massagistas de atletas não se importam em exercer seu ofício em bancos de vestiários. Para que ela queria privacidade?
- Massagem em homem dentro da minha casa de porta fechada, nem a pau!
Havia um precedente, um sujeito que chegou a dizer que eu não tratava minha mulher como ela merecia. Deixei que os dois se sentassem juntos no sofá como se ela fosse uma filha trazendo pela primeira vez o novo namorado. Alguma coisa quebrou dentro de mim naquela noite.
Eu havia me apaixonado e a recíproca era verdadeira, mas havia o tal remédio controlado a conseguir corrompendo funcionários de farmácias, os trejeitos sedutores fora de hora, os clientes a atender de porta fechada. Desencantar era mesmo questão de tempo.
Passados oito meses, ela saiu pela mesma porta por onde entramos, desta vez sozinha.
Poucas semanas depois do adeus ela ligaria para dizer que não sabia como transar sem ser comigo, mas eu já estava com outra.
Foram meses em estado de alerta, por isso queria mesmo garantir que ela não voltasse. Acabei sendo mais direto do que pretendia, fui realmente frio e impiedoso com alguém que só tinha um coração arrependido a oferecer. Fui tão duro que fiz minha visita e próxima namorada derramar algumas lágrimas ao se imaginar do outro lado da linha.
Com certeza, isso gerou alguma raiva.





Por um sorriso.


Sobrevoar uma floresta de pirâmides caleidoscópicas coloridas não era nada comparado a perder-me na mata de noite.
Nada poderia me acontecer. Todo o Capão, lugar que talvez nem exista nos mapas do mundo dos vivos, era um hostipal para espíritos recém desencarnados. Talvez apenas eu soubesse, em conversas sobre pequenos acidentes, que todos haviam sido fatais.
cobras, aranhas, lagartos enormes, fala-se de onças e sabe-se lá que outros bichos poderiam oferecer algum perigo.
Não para mim e não ali.
Um vale estreito, uma mistura de útero e cova pelas montanhas que o cercam e sua ligação simbólica com o elemento terra, ao mesmo tempo, um buraco que recebe os corpos sem vida. Enfim, na melhor das hipóteses, é um lugar de renascimento onde as conversas são inteligentes como em nenhum outro lugar.
Existe a constante preocupação com o que se come, por isso todos os restaurantes da vila são vegetarianos. Sobre o que fazer com o corpo, há aulas de circo, danças de vários tipos, capoeira, massagens, terapias com base no yoga. Também adivinhos e bruxas do bem”, se é que isso pode existir e, talvez mais importante que o resto, a preservação consiente da natureza com a seleção e reciclagem do lixo.
Só eu era o bruxo do mal, um dart Vader que veste preto onde todos vão de branco, consumidor de carne, fumante, e que, sobre tudo, não queria curar ninguém e nem ensinar nada.
A saúde deixou de ser importante já que eu estava nesse lugar além da vida.
Não foi fácil dizer sou um suicida” ao falar das minhas desventuras ao responsável pela igreja do daime, mas eu não estava pedindo socorro ao contar. Leo queria saber o que eu fazia ali, como havia chegado e o que faria depois. Eram perguntas sem resposta.
Eu tinha uma utilidade, fazia companhia ao garoto que zelava pela igreja e fazia alguns trabalhos como tirar o mato, lavar coisas, cozinhar. Nada que exigisse responsabilidade. Era só um cara que dormia lá. De qualquer forma, logo comecei a lavar os pratos num restaurante na vila e, pelo menos a minha comida eu defendia sozinho. Não era um peso para ninguém.
A primeira vez que tomei foi terrível, mas ao deixar de lutar contra o efeito psicodélico da ayuasca, passei a sentir um grande prazer. O mundo pode ser esse lugar medonho, mas ali eu me via dentro de uma bolha de vidro, podendo subir e descer, sei lá de onde, a hora que eu quisesse.
Parece, mas não é uma droga qualquer.
O vinho foi inventado no início da agricultura e logo passou a ser servido às divindades gregas em sacrifício, coisa parecida aconteceu também com a cerveja no Egito.
Tudo o que dá prazer é divino ou consagrado a divindades, mesmo o orgasmo para os babilônios. Mas há, pelo menos no caso da ayuasca, o que chamo de função relíquia.
Temos no cérebro, uma área destinada à religiosidade que se acende quando alguém reza dentro de um aparelho de tomografia computadorizada.
Toneladas de lascas da cruz onde Jesus foi sacrificado foram vendidas desde a Idade Média e, hoje temos a água benta, relíquias, coisas que acreditamos tocadas por uma divindade e que, por isso, adquirem poderes sobrenaturais.
A ayuasca não passa da junção de duas plantas, um cipó e um arbusto, jagube e rainha, que tomados depois de cozidos, dão acesso a um universo diferente, um estado alterado de consciência artificialmente induzido.
Claro que depende da sensibilidade de cada um, mas é possível perceber uma coisa que só existe de um lado, o astral, ir para o outro, o físico. Função relíquia é possibilitar esse movimento.
Assim, num ritual de sábado, recebi o aviso de que conheceria meu guia espiritual.
Os rituais eram feitos duas vezes por semana, mas como eu precisava pensar entre um e outro, tomava só aos sábados.
Numa terça-feira a tarde, tomava banho num rio próximo com os participantes antes do ritual quando surgiu um cachorro grande, preto, mistura de rottwailer e labrador, que nadava e arranhava as pessoas ao tentar se apoiar nelas dentro da água.
Como tive um cachorro desses, não só sabia como evitar os arranhões como pude fazer-lhe algum carinho dentro e fora d'água.
Ao se aproximar a hora de subir para a igreja, sai da água com os outros. Foi quando o cachorro conseguiu me arranhar, tentando continuar a diversão. Também se mostrou disposto a me seguir.
O animal atrapalharia o ritual se subisse, então os meninos já imaginavam formas de despistá-lo quando simplesmente olhei para o bicho e falei vá embora . Imediatamente ele deu meia-volta e sumiu na mata.
Era dia de ir para a vila sem tomar o daime, mas o cachorro e sua atitude me fez decidir ficar e participar.
A parte psicodélica não foi no início, o que senti foi o prazer de estar ali com um animal preto e grande que apoiava a pata nas minhas costas. Não era real, apenas fruto da minha imaginação, um fantasma.
Tá bom, você é o tal guia espiritual. Para que você serve?
O bicho deu a volta e sentou-se na minha frente, exatamente como faria um cachorro de verdade. Eu estava sob efeito, mas sabia que aquilo não era apenas uma alucinação, era uma entidade qualquer que usava aquela imagem.
Em seguida, para mostrar sua utilidade, me levou por corredores, agora sim psicodélicos, que levavam aos pontos cardeais. Ao norte encontrei um urso, a leste um tipo de alce com chifres retos em parafuso, ao sul um cavalo e a oeste, alguma coisa entre um porco, um gato e um coelho, não deu para saber ao certo.
Claro que as perguntas explodiram na minha cabeça, todas trazendo uma boa carga de ansiedade. Tudo a seu tempo, ele dizia ao mesmo tempo em que me mostrava as pessoas sentadas ao redor da fogueira, cada uma com um detalhe engraçado.
Contei ao Leo, o único que reconhecia como capaz de explicar o que eu via. Ele fuzilou:
- É o coiote, se mostra como um tipo de cachorro e brinca porque é sua parte criança.
- Sim, mas e os animais dos pontos cardeais?
- São os seus animais totêmicos. O que significa você vai ter de descobrir sozinho. Veja com que você assossia cada um. Só você tem as respostas.
Desse dia em diante, o cachorro passou a me acompanhar e, diferente do Dioniso, falava o tempo todo.
Me mostrou a vida em perspectiva, a minha e a de qualquer um, uma sequência de erros e acertos que terminavam em nada, na morte e no esquecimento.
A pergunta que eu fazia quase sistematicamente era respondida com a mesma insistência.
- Pra quê?
- Por um sorriso. Não uma gargalhada que vem da surpresa e esta do medo, mas por um simples sorriso.
Via as pessoas tentando salvar o mundo da poluição, da estupidez que leva à guerra, das doenças, isso de um lado, do outro, e estes não podem ser ignorados, gente tentando enriquecer, seus motivos, suas programações. Pra quê?
Mesma resposta: por um sorriso.
Se o mundo e a vida não têm qualquer sentido, então dou eu um sentido para a minha vida!
- Cachorro, se você existe e tem algum poder, quero ficar rico. Mostre a que vêio!
Gargalhadas. As mais desconcertantes que já ouvi.
O que me veio à cabeça como resposta foi que “cachorro que não devolve a bolinha, estraga a brincadeira”.





Buda sem “n” – Buddha or Butt-ha?


O dono do restaurante tinha a mesma visão espiritualista da maioria e tinha também uma amiga com uma orientação um pouco diferente, mas que me soou familiar. Ela era responsável por um santuário taoísta, ou melhor, do tao”, seja qual for a diferença.
Simpatizou comigo e passou a me oferecer vantagens se eu quisesse ir com ela para Lençóis, a cidade próxima onde morava.
A divindade que ela professava era o Buda, Maitreya, um gordinho de orelhas inchadas que ri. Daí surgiu uma série de conversas sobre o que significa para cada um, dentre as pessoas com quem tinha contato, iluminar-se, ser ou tornar-se um buda.
Uma pessoa feliz, alguém que superou as necessidades e vive mais do lado espiritual do que do material. Essa foi a melhor explicação que ouvi, mas a impressão que tive foi que ninguém sabia ao certo.
Já havia passado por uma fase budista, uma versão japonesa e bem conhecida de budismo original e com toda aquela organisação e rigidez orientais. No caso, esse Tao desconhecido que não é o taoísmo que serve de base para o kung-fu, não usava o chi em lutas ou magia e nem ostentava o símbolo tradicional do yin yang, mas alguma coisa parecida com o sol da astrologia.




Arraial D’Ajuda


 Aline era a vizita quando Cléo ligou para dizer que não sabia transar sem ser comigo. Foi alguém para quem cozinhar quando eu estava aprendendo e a moça que não quis transar na primeira viagem. Passei a vê-la apenas como uma garupa eventual sem a conotação de escrava sexual que motociclistas atribuem às mulheres que sentam atras. Um exemplo do machismo medieval que se espera de ogros motorizados reunidos em moto clubes.
A primeira moto foi furtada num conhecido local de reunião onde ela insistiu em ir, tres meses depois, outra moto foi roubada na porta da casa da mãe dela e, novamente porque ela quis ver a mãe apesar de ser mais longe mesmo quando voltávamos de uma viagem cansativa.
Pé frio?
Haviamos ido a Porto Seguro e, lá surgiu a oportunidade de um negócio que dependia de vender essa segunda moto. Com o roubo, desta vez um assalto à mão armada, decidi sair de São Paulo de qualquer maneira.
 Não vi motivos para dizer ao meu pai que estava mudando. Ficaria ao lado de outra agência do mesmo banco e faria de lá o que fosse necessário. Ainda deprimido no azilo, ele ficaria desnecessariamente preocupado caso soubesse dos roubos, mas uma ex-cunhada não tinha nada melhor a fazer a não ser expressar sua inveja. A reação dele foi transferir o controle da conta para esse irmão que não gosta de putas.
Porto Seguro foi o destino, morei com ela no Arraial d'Ajuda por cinco anos.
Aline não era uma bruxa e nem tinha qualquer interesse nesse tipo de coisas, por isso, mais uma vez deixei de lado a existência do mundo espiritual a não ser em poucas, porém importantes ocasiões.
Trabalhando como garçom para o mais tirano dos donos de restaurante e ajudado pelo gaúcho dono do imóvel, consegui abrir uma sorveteria, devidamente avisado conforme combinado com a dona da biblioteca.
A sorveteria durou três anos, alguns meses depois disso, em meio a luta para conseguir trocados vendendo cartão de visita com foto, surge meu irmão com a tal boa notícia prevista.
Ali e nessa época, revi uma ex-colega da OTO que escrevia a coluna com previsões no mesmo jornal local onde eu mesmo já havia colocado crônicas. Ela abriu o tarô e me chamou a atenção para a grana que estava por vir.
Era uma má fase, estava me separando e sem dinheiro. Segundo a previsão, o que viria depois era estabilidade financeira, reconhecimento e uma mulher que me acompanharia até o fim da vida. Mas eu estava enganado.
- Você sempre foi artista e tenho aqui 40 mil para garantir que você passe a ser reconhecido. Não precisa se preocupar com nada, basta trabalhar. Eu controlo o dinheiro e vou soltando na medida da sua necessidade, o que você tem de fazer é vender uma única tela por mês.
- Isso pode parecer fãcil e é tudo que qualquer artista deseja, mas tentei viver de arte pela minha vida inteira e não consegui. Você quer mesmo arriscar?
Meu irmão, na única visita que me fez, acenou com um dinheiro que já esteve sob meu controle e preferiu dizer que era um tipo de vaquinha feita por todos os irmãos.
Um artista é um sonhador que, mesmo imerso na realidade mais crua, a qualquer momento abandona tudo por seu sonho. É um dom e uma maldição ao mesmo tempo.
Encontrei um bom lugar onde montar um atelier em Trancoso. A ideia era ser o único artista de lá, mas não deu certo. Precisei de um ano para assumir que, como sempre, simplesmente não vendia.
Havia optado por Trancoso porque não teria concorrência como foi com a sorveteria.
Aprendi com um consultor especializado que negócios como o meu precisavam ser vendidos quando atingiam o pico, caso contrário o dono seria vítima da síndrome do sapo cozido.
Explico: se você pega um sapo e joga na água quente, ele pula para fora, mas se põe numa panela em fogo baixo, ele espera a coisa melhorar até morrer cozido. O comerciante precisa ser ágil ao comprar ou vender seu negócio no momento oportuno. Não há mais sapateiros, gente que passa a vida num único negócio.
Errei ao esperar a coisa melhorar com a sorveteria, no caso do atelier seria o contrário, eu deveria esperar e insistir na divulgação até ser reconhecido. Errei de novo.
Pode ter sido a Aline a mulher que me faz mudar de cidade ou esta seja Lídia, alguém que conheci pela internet e me apaixonei.
Tendo essa nova namorada como base e ciente da boa qualidade do meu trabalho, decidí que poderia ir a Salvador e lá fazer frente a artistas reconhecidos.
Morei e tentei vender no Pelourinho, depois no Porto da Barra, depois em Itapuã sem qualquer resultado, mesmo que, ao sair de um lugar e ir para outro, deixasse telas nas galerias mais tradicionais.
Fiásco.
Então veio o corte, seco, sem chance para apelação. De quanto eu precisasse a zero num único telefonema. E mesmo a namorada, de repente desistiu.
Me vi perdido numa cidade estranha tendo que vender o que tivesse para comer.
Quem me salvou foi a mulher da árvore. Mas isso ainda teria de esperar para acontecer.
Em São Paulo fui vítima de um seqüestro relâmpago, a primeira moto foi furtada, voltei ao local onde estava e simplesmente não estava mais, já a segunda foi um assalto a mão armada.
Por quê dar motivo de preocupação a um velho que, deprimido, acabava de ir para o asilo? Mas a cunhada não tinha nada a dizer a não ser que meu destino seria o paraíso dos desocupados.
O dinheiro do meu pai era uma tentativa de compensação pela dependência emocional dele que resultou no meu problema de coluna. Ele sabia que havia colocado muito peso nos ombros de uma criança. Passar esse dinheiro para as mãos do filho mais bem sucedido não foi uma atitude justa mas, segundo ele mesmo, justiça é para poderosos e iguais, não para filhos ou subalternos.
Quase sem dinheiro, a primeira coisa que aconteceu ao chegar no Arraial foi pegar dengue. Foram cinco dias de solidão absoluta trancado numa casa estranha alugada pelo sujeito com quem negociaria um espaço onde montar qualquer coisa, a espera de uma moça que achava que alí seria feliz dançando e rindo.
Assim que melhorei, graças ao remédio dado pela dona da casa, busquei o trabalho mais lucrativo naquela temporada: garçom no tal restaurante. Ao mesmo tempo, num dos poucos momentos de iluminação, falei com o dono do prédio onde havia funcionado uma sorveteria caseira e, quando surgiu outro interessado, ele me procurou para me dar preferência. Juntos planejamos como eu pagaria a ele, ao longo do ano, o valor que ele pretendia.
Calculei o quanto andava por dia trabalhando como garçom: 60 km indo e vindo no salão.
Em um mês tinha mil reais para dar de entrada na minha sorveteria e mais algum para fazer uma pequena reforma.
Gastei a cabeça planejando cada movimento de alguém que entrasse lá de forma a ser o mais rápido possível. Tinha que dar conta de dois ônibus por dia que paravam alí perto cheios de turistas acalorados. A solução foi organizar de forma que em dois minutos, qualquer um se serviria e sairia já tendo pago.
Mais tarde um consultor do sebrae diria que eu havia inventado uma coisa que ele tinha num livro grosso: Organisação e Método.
O primeiro dia de funcionamento foi marcado por um blackout, justamente horas depois de ter enchido dois freezers de sovete. Até as quatro da manhã, roi as unhas imaginando como faria se o sorvete derretesse. Nos dois dias seguintes juntei o dinheiro para pagar o que devia.
Mas veio a baixa temporada e a falta de dinheiro, então aconteceu uma das poucas experiências místicas vividas ali.
Para me livrar da tensão pelas dívidas, durante a tarde ia até a igreja desligar o pensador”, para meditar. Quando entrei na igrejinha que tantas vezes retratei em tela, senti uma presença. Ali havia uma senhora invizível, irritada porque eu havia sentado em seu lugar.
Comecei a conversar em pensamento e vi toda a vida lamentável de uma velha carola morta.
Cale-se! Você nem existe! Na melhor das hipóteses é só um fantasma chato!
Na medida em que discutia, esse era o clima do contato, percebi outras três presenças, essas conhecidas e amistosas, que apenas se insinuavam. Para que ela provasse que estava ali, propus um acordo: eu a ajudaria se ela me ajudasse, disse que precisava de dinheiro e ela tinha até as oito da noite para conseguir 50 reais.
Voltei para a sorveteria e esperei. Passou da hora, fechei e assumi que tudo aquilo não havia passado de imaginação.
No dia seguinte, Aline teve de ir até Porto pagar alguma coisa. Chegou toda alegre e me mostrou a nota de 50 que havia encontrado no chão.
Voltei à igreja e, em meditação, pedi às três entidades amigas que a levassem para algum lugar melhor. Assim fizeram.

Além disso, muita coisa boa aconteceu. Conheci muita gente bacana e era difícil sair para uma cerveja sem encontrar companhia. Aline ganhou o Rone, o rotwailler que me tirou da água quando fingi um afogamento, promovemos uma festa com uma banda de foró famosa, tive minha coluna no jornal local e conheci o então cacique dos Pataxós.
Aline não quis transar na primeira viagem e com isso bloqueou minha emotividade. Foi uma relação de amizade, respeito, confiança e sexo morno. Juntos chegamos a ver um disco voador, havia quem invejasse a maneira como nos dávamos, brincávamos e nos preocupávamos um com o outro, mas ela nunca ouviu de mim um eu te amo, simplesmente porque não seria verdade.






Alguém que ri de tudo e de nada


Pra que isso tudo?
O existir é como um rio sem margens que dá na cachoeira da não existência. Só o que se pode fazer é jogar sementes de nós mesmos, nossos filhos e obras, na direção contrária. Esta é a solução da natureza e é o máximo que se pode chegar dentro da racionalidade.
Pela razão pura, uma coisa que eu vinha buscando acho que pela vida toda, da mesma forma que não se gasta dinheiro com alguma coisa que não vai durar, a vida é perfeitamente dispensável a menos que seja prazeirosa.
Isto me foi dito já na primeira vez que tomei ayuasca e veio com um aviso: pensar assim leva à morte.
Pra que, gente que vai acabar despencando, irreversívelmente na cachoeira, gasta energia com se cercar de bens, controlar, comandar, lutar? Por um sorriso? Desta vez não.
Quem ou o quê a gente é? É a imagem que o espelho reflete ou alguma coisa além?
Aqueles que se dizem espiritualizados imaginam o corpo como a sede temporária do espírito, mas isso é informação que vem de fora, o resumo simplificado de um raciocínio que demorou séculos para ser desenvolvido. Mesmo aceitando essa ideia, ela precisa ser vivenciada e, para tal, é preciso primeiro partir do princípio que sou mesmo esse corpo que o espelho reflete, são meus os olhos que enxergam a forma do rosto que é meu e as marcas do que vivi.
Todo o resto é questionável. Posso distorcer a realidade que me cerca de acordo com as necessidades ou desejos desse corpo e, claro, me esforço para dar a ele o que ele mais quer: prazer.
É curioso imaginar o que se passou na cabeça do primeiro índio que recebeu um méro espelho em troca de quilos de ouro, escravidão e morte. Talvez ele estivesse recebendo o próprio ego. Deste momento em diante, deixaria de ser parte do céu, da terra, da mata e da tribo e passaria a ser um indivíduo separado. Poderia enfeitar a si mesmo para as festas rituais, os torás, faria como quisesse sem perceber que, ao invés de ser admirado ou mesmo que isso acontecesse, perdia o reconhecimento como componente da tribo e, mais do que isso, perdia o carinho, a sensação do toque.
O ego é um fator limitante, mas para me mostrar isso, ao invés de realisar meus pedidos como o gênio da lâmpada, o cachorro me levou numa alucinante viagem para longe de tudo o que existe.
Como se tivesse um foguete amarrado nas costas, vi o chão se distanciar, a vila desaparecer sob as nuvens, a Terra toda, a Lua passou por mim e os dois astros foram engolidos pelo Sol. Milhares de estrelas formaram um disco, a nossa galáxia e muitas galáxias passaram por mim em velocidade cada vez maior. Então veio o vazio, a escuridão sem pontos de referência. Imaginei que não veria mais nada quando surgiu uma explosão silenciosa de luz que também ficou para tras, como um globo fracamente luminoso.
Sozinho seria uma experiência terrível, mas havia o cachorro a mostrar aquele globo que crescia e ganhava luminosidade como uma onda ameaçadora.
Pra que tudo isso?
Tudo a seu tempo.
É difícil conceber o nada absoluto e me parecia essa a melhor demonstração possível. O que há entre o núcleo de um átomo e o primeiro elétron, entre o sol e um planeta, entre as galáxias? Nada, nenhum átomo, o simples nada.
A questão era o motivo pelo qual o cachorro me levaria ali.
Ele não falava mais como nos primeiros dias, mas dessa vez o silêncio parecia especialmente proposital.
Normalmente minha atenção estaria na escuridão à frente, foi ele quem girou minha cabeça para tras onde notei que aquele globo que crescia continuamente continha tudo.
O que existia, a matéria com tudo que é seu, estava concentrada num único ponto assim como as pessoas e seus tempos. O tempo era a novidade. Exatamente no mesmo ponto, estavam as existências de todos, não apenas lado a lado, mas superpostos, fundidos. Momentos, vidas, eu, o outro, toda a evolução de todas as espécies, terrestres e extra-terrestres, de todas as partes. Tudo junto, da pedra mais pesada à onda mais sutil.
O nada é eterno e infinito, penetra o “alguma-coisa” tornando-o aerado, esparço e ainda sim periódico, ou seja, ora existe, ora não existe.
O ego é o grande fator limitante, tanto no espaço, eu sou um e você é outro, como no tempo, estou aqui apenas neste exato momento.
Encarnações, o ir e vir de e para um mundo invisível, perde o sentido, tudo o que temos é o agora. Na visão do todo á distância, tudo não só é possível como efetivamente acontece/aconteceu/acontecerá num só momento, já.
A maior besteira que se pode fazer ou o maior acerto, ser pobre ou rico, bom ou mal, feliz ou infeliz, nada disso faz qualquer diferença, sendo assim, não faz sentido ver apenas a si mesmo e buscar vantagens, querer ser mais do que um companheiro de caminhada que, no fundo, mais do que um irmão ou um igual, é você mesmo. Aí estava o entendimento, a esperiência de ser o nó da rede de pescador de tantos anos atrás.
Houve um último daime, este numa outra igreja. O diferente foi subir a montanha para fazer isso.
Costumava dizer que o Capão é uma mistura de útero e cova e estar o tempo todo cercado de paredes, para mim que morei tanto tempo na praia, começava a incomodar.
Havia a mulher na cidade visinha, Lençóis, que tinha em casa um santuário do Tao. Com a perna quebrada, ela precisava de alguém que conhecesse a rotina de um restaurante. Era minha chance de sair do vale.
Eu não havia homenageado o cachorro adequadamente e sentia essa necessidade a despeito do que o próprio Dioniso me havia dito.
Lá, ao ver as reproduções de pinturas chinesas, vi naquele buda gordo que ri a mesma energia ou carga simbólica do cachorro/ Dioniso.
Mas o restaurante em si era uma bagunça. A cozinha fica há 50 metros do salão e é preciso tomar cuidado ao andar pelo terreno acidentado e se protejer como for possível caso chova. Fora isso, a tal mulher é boa como amiga e tirana como patroa. Por isso não tive dúvidas ao sair de lá quando ela mesma disse que a quase santa que ministrava o Tao estaria a minha espera em Salvador.
O vale não me expulsou, mas perdi o lugar na primeira igreja ao sair. Eu desagradava os outros daimistas ao dizer que os hinos só serviam para confundir os gringos e fomentar a vaidade dos compositores quando deveriam ser um fator de união entre os frequentadores a exemplo dos índios. Heis, hous e lalalá são melhores do que letras cheias de significados quando o que vale é abraçar quem está ao lado venha de onde vier.
Havia distribuído currículos nas agências de Salvador e achava possível voltar a trabalhar com publicidade e isso poderia se decidir se estivesse por lá.
Na verdade arrisquei. Sai do restaurante e fui receber o tal do Tao numa serimônia cheia de regras enquanto a estátua gorducha no altar ria gostosamente.
Era evidente que havia alguma coisa errada ali, a começar por uma contribuição voluntária que tinha valor mínimo e eu só teria direito de participar caso tivesse esse desprendimento.
Não era por fé no maravilhoso buda Maitreya que eu estava ali, mas por um cachorro fantasma e um deus com chifres.
Paguei a entrada para esse show depois de garantir um lugar para dormir.
Recebi uma frase mágica a ser usada em ultíssimo caso, um gesto a fazer quando rezar e um novo ponto do meu corpo onde me concentrar para usar o enorme poder que acabava de ganhar ali.
Que maravilha!
Li alguns textos distribuídos por essa inesperada religião, coisa que a mulher de Lençois guardava com todo carinho. Falavam de abrir mão de bens e vivenciar a miséria, a fealdade e a loucura como forma de se iluminar, coisas que ela defendia sem praticar.
Na verdade, os seguidores eram apenas mais uma organização religioza tentando ser um Sacro Império, dando numa serimônia cheia de ordem e pompa, o que as pessoas já têm.

Com ou sem as palavras mágicas, a cidade grande se mostrou bastante hostil. As pessoas estavam amedrontadas com uma onda de assaltos e a presença ostensiva da polícia.
O dinheiro que já era pouco acabou. Pedi socorro a minha filha, mas a ajuda não veio antes que eu dormisse no chão da rodoviária.
Percebi que minha vida há tempos era a de um mendigo e eu havia adiquirido a resistência desse povo com uma diferença: eu não era um animal que morre de fome e se submete indefinidamente, eu poderia usar a inteligência e decidir continuar ou não vivo.
Na rodoviária eu tinha tudo o que era meu numa mochila pequena e vagabunda que começava a rasgar, mas o pior foi não saber para onde ir mesmo quando o dinheiro chegou.
Ao menos, quando todos na cidade se apressavam vizívelmente amedrontados, eu estava tranqüilo, justamente por não ter nada.
Eu bem que pensei chamar este relato como: “Um suicida no vale dos mendigos felizes” porque, naquele momento, o vale era o único lugar que me receberia sem me esmagar, onde eu me sentiria protegido e, de um jeito ou de outro, feliz.






A mulher que faz mudar de cidade.


Do Arraial decidi ir para Trancoso para ser o artista do lugar e também fugir da Aline, de tempos de alegria encerrados por causa de um beijo sem sentido numa turista seguido pela vingança da esposa traída.
Lá, cerveja e internet eram as formas de fugir da solidão num lugar onde só aos poucos conheceria as pessoas. Seria preciso tempo e exposição para isso ou não haveria como vender e sem vender seria melhor ir embora.
Me tornei amigo do traficante local, transei com uma mulher que tentou me amedrontar ao se dizer casada com alguém importante e fiz algum sucesso entre as da minha idade.

Lídia veio através da internet, uma “palhacenta” de sorriso bonito que morava em Salvador e se prontificou a me receber. Quando cheguei já estava apaixonado e, na porta do hotel, não achei que tinha ouvido direito quando ela disse sou soropositiva.
- Sou soropositiva. Tenho aids!
Um ariano apaixonado não pára por causa de detalhes mesmo que um como esse possa custar a vida.
Depois de um ano de profunda solidão, meu coração batia novamente. Por ter avisado, ela era honesta e, sendo assim, certamente me protejeria.
Essa relação durou seis meses. Foi ela quem possibilitou o atelier no Pelourinho e, quando rompemos, fez questão de ver o resultado do exame que me obrigou a fazer.
A relação foi intensa e rápida, acabou por causa de uma bobagem: bitucas de cigarro no jardim. Entre um momento e outro houve um importante aprendisado.
Portadores do HIV não podem se deprimir sob risco de serem surpreendidos por doenças oportunistas. Numa relação não se arriscam nos rotineiros e quase imperceptíveis jogos de poder e ciume.
Desviar-se de problemas emocionais e sorrir ao máximo é um dever e isso é incompatível com a montanha russa que é apaixonar-se.
A regra, e isso deveria valer para todos, é evitar problemas sempre que possível, quando houverem, saber que acabam e não levar nada tão a sério.
Muito carinho, sexo com cuidado, e riso. Assim é possível morrer de velhice.
O tal coquetel que tomam tem alguns efeitos colaterais e, numa mulher, um dos grandes fantasmas é a lipodistrofia. A gordura vai para baixo descobrindo os ossos, nada que não se veja em pessoas mais idosas, mas não seria agradável numa mulher relativamente nova.
Foi engraçado baixar minhas calças e colocar a mão dela na base da minha coluna para mostrar que o que ela achava ser coisa que a impediria de usar um biquini eu também tinha e até mais do que ela.
Tanto medo e tanto cuidado! Tanta estima pela vida de qualquer um, por tudo o que é vivo! O prazer mais intenço como se fosse roubado, feito como quem furta.
O que você vai pensar no seu último dia de vida? Que poderia ter mais dias. E o que eu vou pensar? Não seria o mesmo?
Filhos saudáveis e independentes, obras realizadas, bons amigos. Essa é Lídia agora. Sorriso contagiante e inabalável bom humor. Vai chegar o dia dela. Vai chegar o meu também. Nesse momento, quem poderá dizer qual vida foi melhor?





A moça do atelier


Lídia tinha um amigo com um restaurante no Pelourinho. Ele ia viajar e deixaria seu negócio com a cozinheira. Eu poderia ficar com o quarto atrás do salão por um preço simbólico, só para ajudar a moça. Como o restaurante só funcionava de noite, eu poderia usar o salão para expor e vender durante o dia.
Havia um bar ao lado com som ao vivo e, de manhã senhoras ensaiavam para a quadrilha das festas juninas no andar de cima. Tinha das 3 às 7 para tentar um sono leve, um ponto qualquer entre o sono e a vigília.
Nesse estado surgiu uma moça.
Por muito tempo, o Pelourinho foi um grande bordel e a moça havia sido uma das prostitutas. Estava presa ali, não por outros fantasmas, mas por pequenas nuvens escuras que eram os pensamentos e intenções, os estados de ânimo dos fregueses.
Ela tinha uma imagem, era negra, magra, jovem, talvez uns 25 anos ou menos e razoavelmente bonita. Aproximava-se da minha cama e conversava basicamente sobre como poderia sair dali.
um tipo de interação entre os cristais da areia das paredes e essas sombras, um fortalesce o outro.
Juntos chegamos a uma conclusão nada animadora: ela só sairia se derrubasse as paredes.
Um colega artista trabalhava na casa da frente e, durante o dia, pintávamos na tranquila rua de pedras irregulares do tempo da colonização.
Eu evitava sair de noite, o Pelourinho não é um lugar onde um branco com cara de gringo circula sozinho sem ser abordado. Quando decidi que já era um morador e merecia uma cerveja, conheci um vendedor de colares, um sacizeiro, como se diz ali. Bêbado, não percebi que ele havia roubado minha camera, importante instrumento de divulgação do meu trabalho via internet.
Mas o problema não era esse. Depois de ter duas motos roubadas, prometi a mim mesmo que mataria o próximo ladrão.
Ele era uma figura fácil, um cara que andava por ali vendendo colares e roubando quem confiasse. Não seria impossível levá-lo novamente para o atelier onde poderia esfaqueá-lo ou estrangulá-lo como foi com o travesti.
Aos poucos isso se tornou uma obsessão. O cara precisava ser morto e eu sabia como fazer. O cadáver seria um problema. Pensei em fatiar e dar aos cachorros. Alguém sobreviveria dentro do espaço de um lutador determinado? Bastaria o mesmo fingimento, me mostrar amigo, passar por idiota, leva-lo para o atelier e fazer o serviço entre três e sete. Ninguém perguntaria, ninguém ouviria.
Mas como eu podia ter Lídia de um lado e esse pré-cadáver de outro? Eu faria exatamente o oposto do que havia aprendido?
Preferí sair do Pelourinho a fazer uma besteira. Deixei lá minha amiga fantasma.
Do Pelourinho fui para o Porto da Barra onde armei com um dono de galeria pintar na calçada, chamar a atenção das pessoas, vender meus quadros e participar das vendas que promovesse.
Era uma coisa que nunca havia feito e achei que seria um bom desafio.
Esse sujeito tinha um princípio, um conceito que via como verdade indiscutível: arte é lixo produzido por idiotas a ser vendido muito caro para otários ricos.
Apenas aqueles que não têm nada são roubados e os ladrões são os arrogantes antes de começarem a perder o que julgam possuir.
Não tinha como dar certo.





A árvore da mulher


A mulher da árvore disse:
- Você baseia sua vida nessa bobagem de previsão. E se isso estiver errado?
Concepção me escolheu justo quando meu irmão declarou que a fonte havia secado. De quanto eu precisasse, dos 40 mil a zero de uma hora para outra.
Me senti perdido, mas foi o combinado.
Conversando e bebendo, eu e ela fechamos vários bares do Porto a Itapuã onde eu morava depois do Porto da Barra.